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  • Primeira noite de carnaval no Warung tem novamente grande destaque de artistas nacionais

    A primeira das três noites de carnaval no Warung trouxe um line-up composto praticamente por brasileiros. Gromma, L_cio, Junior C, Elekfantz, Shadow Movement e Gui Boratto vestindo a camisa verde e amarela, enquanto o alemão Dixon completava o line-up da festa do lado estrangeiro, em um verdadeiro 7×1 invertido. Já completavam-se seis meses desde a minha última visita ao Club e eu, na companhia da minha namorada e um amigo, não poderia estar mais ansioso para esse início de carnaval no templo. 

    Chegamos lá por volta das 23h00, depois de um caminho tranquilo e sem filas. Como de costume, nossa primeira parada foi no bar e em seguida nos banheiros. Logo notamos a primeira mudança relevante no clube: aumentaram a estrutura dos banheiros principais e melhoraram a acessibilidade para os deficientes.

    Bola em jogo – Foi dado o apito inicial da festa para nós. Adentramos ao antigo Main Room já sapateando ao som de nosso amigo Gromma. Meu gosto musical é bem similar ao dele, o que me torna suspeito pra avaliar seu set. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a melhoria significativa em sua técnica e pesquisa após sua tour pela Europa, no último ano. Em fase esplêndida o curitibano já começava a desenhar o clima da noite, mantendo linhas paralelas de minimal e microhouse – vertentes ricas e muito apropriadas à ocasião. O fato de ser um set no vinil elevou ainda mais o encanto do warm up. Com meia hora para o fim do set Gromma aumentou o ritmo, mesclando tracks de dubtechno e tech house, por mais uma vez o papel de acender a fogueira da noite foi muito bem executado. Ainda no final do set, o soundsystem apresentou falhas de equalização, fazendo com que os graves abafassem os sons mais agudos, trazendo um pouco de desconforto e uma leve dor no ouvido. 

    Gromma Warung

    L_cio já estava no palco acompanhando a preparação da pista há bastante tempo, causando uma grande ansiedade no público, já que muitas pessoas de outras regiões e estados se deslocaram até o clube especialmente para conferir sua apresentação.  Antes mesmo de Gromma passar a bola já haviam fãs formando corações com os dedos e um leve coro na pista passava a ser entoado. Recentemente contratado pela consagrada gravadora alemã Kompakt Records, o paulistano é o segundo brasileiro a fazer parte do time, depois de Gui Boratto, tornando-se um dos os artistas brasileiros com maior ascensão internacional no momento. Dono de uma técnica admirável e um repertório de muita qualidade, se apresenta apenas em formatos live, seja solo, seja com os projetos paralelos Gaturamo, Lacozta e Teto Preto.

    Próximo da meia-noite o play foi acionado. Kicks bem marcados com harmonias e melodias bem características de suas obras, o produtor revelação do ano explodiu a pista já na primeira track. Não era por menos, L_cio é um artista muito sólido e inovador, um live set acompanhado por uma flauta que encantou aos desavisados e hipnotizou aos fãs. Tínhamos um dos melhores sets que eu já ouvi sendo executado diante de nós e logo quando pude perceber a pista já começava a encher.  

    L_cio Warung

    Como prometido, às 01h10 o remix de Construção – clássica música da MPB – produção original de Chico Buarque, em uma releitura perfeita e bem complementada pelas baterias e a flauta de L_cio foi tocada. Neste momento, percebermos nitidamente o médio abafado interferindo no vocal, mas apesar disso, os fãs soltaram a voz tornando o momento um dos melhores da festa. O relógio já marcava 01h30 quando o alemão Dixon deu as caras. O público demonstrou bastante carinho e expectativa pelo headliner. L_cio finalizou com maestria seus trabalhos e saiu ovacionado do palco nos dando uma aula sobre a construção de um set. São artistas como L_cio que nos motivam a levantar a bandeira raver. São esses os verdadeiros artistas que colocam a música como foco da apresentação. Sem firulas ou confetes, seu trabalho em Construção é um exemplo de que sim, é possível mixar músicas nacionais de qualidade com finalidade musical e não de marketing. 

    Dixon assume a pista principal pouco depois das 01h40 e até dado momento, eu ainda não havia passado uma vez se quer pelo Garden. Como esperado, a introdução do set do alemão foi bem trabalhada com teclados e longas notas de grave, criando uma tensão harmoniosa e bem agradável. As três primeiras tracks do set, foram bem explosivas e animaram bastante o público, porém, antes de completar quinze minutos de set, o alemão começou a mostrar a sua cara: melodias romantizadas e defendendo bastante a proposta da sua label Innervisions. A festa o presenteou com a oportunidade de um long set e como já era de se esperar, o headliner da noite elaborou algo envolvente, explorando as suas sonoridades características para uma boa evolução do set estendido. 

    Com 30 minutos de apresentação, o soundsystem apresentou mais um problema: o grave morreu completamente – coisa que nunca vi acontecer antes no Club.  A pista que antes estava apresentando sinais de lotação começara a esvaziar. Como sabia que Elekfants comandava a pista Garden, decidi manter o foco no inside e ver o que aconteceria. O set continuou sendo bem trabalhado, porém, com uma resposta quase nula da pista. Passaram-se 35 minutos até que o grave voltasse e no exato momento do retorno, a explosão foi geral. Para compensar a falha técnica e recuperar a pista, a apresentação ficou mais pesada e as tracks traziam características de techno, mas sem perder a cara da Innervisions. Pouco tempo depois, a linha mais hipnotizante foi retomada e a exibição do alemão voltava a ter a identidade da sua tradicional proposta. Resolvi então dar uma volta no club.

    Dixon Warung

     Ao encontrarmos alguns amigos, resolvemos ficar pelo Garden – que recebia o showcase da D.O.C Records. O duo Shadow Movement se apresentava no momento e fiquei contente em ter pesquisado bastante sobre a dupla antes da festa. Confesso que me animei pelo que eu poderia ver na exibição deles. A dupla brasileira atingiu bastante destaque internacional por conta de seus bons releases e receberam a difícil tarefa de preparar a pista para um dos nomes de mais peso da cena nacional, Gui Boratto. A carga de responsabilidade era ainda maior, analisando que a apresentação da dupla que antecedia seu set, a brasileira Elekfantz, se apresentam com uma proposta bem diferente. Eles sabiam que teriam de levar a sério a preparação de pista. Teriam que iniciar do zero e mudar da água para o vinho a cara de um garden romântico.

    Ao iniciarem, logo notei que o bpm foi pra baixo e o set iniciou bem quebrado, com bastante dubtechno. O que me impressionou é que já passavam das 3h00 e eles estavam recriando toda a atmosfera da pista para seu sucessor. O Garden mudou sua cara completamente, depois de muita alegria, as características sombrias da dupla ganharam a plateia. O ritmo da pista era outro, tracks mais quadradas e breaks cada vez menores fizeram os presentes adentrar a fundo no clima que estava por vir. Posso dizer que Shadow Movement ganhou mais um fã nessa noite e  por mais que não tocaram como headliners, apresentaram um trabalho de leitura de pista incrível. 

    Shadow Movement Warung

    A última vez que vi Gui Boratto foi na TribalTech 2014 e na ocasião, ele apresentou um set razoável comparado ao seu potencial. Eu estava apreensivo para ver em que fase o brasileiro encontrava-se. Não demorou 5 minutos para minhas dúvidas serem sanadas. O set seria bem acima do que tinha visto na última vez, talvez por ser o headliner do palco e por receber a pista devidamente preparada. Techno – com a cara de Gui Boratto – um trabalho maravilho de synths e baterias que deixaram a pista completamente envolvida na apresentação. O paulistano executou Azurra em um mix diferente, muito mais adequada à noite. Acompanhei quase todo o set do Dj que manteve a classe da exibição até o fim. 

    Gui Boratto Warung

    Decidi subir para ver o fim do set no inside e conferir o que o alemão estava aprontando. Dixon havia retomado uma postura mais dancefloor, linhas de grave mais fortes e continuas perduraram até o fim do set embalando todos os entusiastas por mais uma hora de festa. Inevitavelmente e de forma pontual, às 07h00 o som foi desligado e aquela vontade de “quero mais” acendeu na alma de todos que estavam ali.

    De alma lavada.  Foi assim que encerrei a noite. Uma festa confortável e musicalmente falando surpreendente. Meus agradecimentos a todos os artistas que nos presentearam com essa noite incrível e ao Detroitbr pelo convite.

    Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)

  • Zip e Soul Capsule protagonizam noite histórica da Perlon no D-Edge

    O ano mal começou e já tivemos uma grande surpresa no Brasil, em termos de música eletrônica. Depois de alguns anos o D-Edge anunciou a volta do Quinto Sol (festival da Perlon que acontece na América Latina), apostando no minimal techno para uma noite histórica em São Paulo. O line-up foi anunciado e para a nossa alegria a escalação da pista 1 tinha o duo brasileiro Stekke, Soul Capsule e o mestre Zip, enquanto a pista 2 receberia Ney Faustini, seguido pelo long set do trio Apollonia e no final, até as 17h do dia seguinte, b2b entre Eli Iwasa e Renato Ratier. A emoção foi grande pois Zip está entre meus artistas favoritos e eu não o via tocar desde sua última vinda ao Brasil, quando a Green Valley recebeu edição do Festival Quinto Sol com ele, Margaret Dygas e Ricardo Villalobos. Alguns não sabem, mas ele que é o dono da Perlon, uma das gravadores mais conceituais de Berlim, que lança exclusivamente em vinil. 

    Como não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo, escolhi a Pista 1 para ficar do começo ao fim, acompanhando esse line-up inédito e absorvendo cada virada como parte de uma história de uma noite surreal. Ao entrar no club, ainda um pouco vazio, mas com uma fila grande lá fora, fui sentindo um clima diferente. Talvez por estar feliz demais por tudo aquilo estar acontecendo, ou talvez porque realmente o público estava diferente naquela noite, só sei que poucas vezes vi uma pista como aquela. Com o set do Stekke já pela metade fui reconhecendo os amigos, de perto e de longe, uns que vejo sempre e outros que não via há um tempo. É incrível ver como a música une as pessoas, noites como essa são sempre muito especiais. Fazendo o warm up do jeito que só eles sabem, o duo virava de uma música para outra com a classe e a técnica apurada que são suas características, tudo com uma alegria estampada em seus olhos, a felicidade de abrir para esses artistas que admiramos tanto. Constante, sem apelos de pista, com uma inteligência e suavidade nas batidas e mixagens. Muito orgulhosa por eles, pude curtir o final desse set, que estava perfeito para o começo dessa noite.

    Assim que Baby Ford e Thomas Melchior entraram na cabine o pessoal aplaudiu, passando a mensagem que estavam felizes e sabiam muito bem o por que estavam ali. Stekke ainda teve tempo de finalizar com uma música absurda, que por sinal é produção deles e será lançada em breve apenas em vinil. Em seguida, Soul Capsule vira a primeira música, dando continuidade a noite. Com um set puxado para o house, com melodias incríveis, clássicos, discos raros, foram construindo uma história marcante para todos que estavam ali dançando. A pista estava cada vez mais feliz, aplausos e gritos estavam se tornando constantes. Cada vez mais à vontade, o duo foi mostrando seu groove com batidas marcantes.

    Nesse momento eu já estava extremamente realizada, sentindo algo naquela pista que nunca havia sentido. Já estive em muitas noites marcantes no D-Edge, mas não peguei o club em uma época que gostaria de ter frequentado também, até o ano de 2009. Me senti vivendo algo novo ali, ouvidos maduros e preparados para aquela sonoridade. Via amigos dançando com sorrisos estampados no rosto, uma energia leve e arrepios constantes. 

    Enfim chegou o momento que foi um dos mais especias que já vivi na pista. Arrepiei até a espinha quando eles colocaram, digo isso pois não foi nem uma mixagem e sim um corte para que ela fosse tocada desde a primeira nota: Lady Science, uma das minhas músicas favoritas, que escolheria até como um tema da vida. Assim que a melodia entrou, gritos e comemorações mostraram que muitos ali sabiam bem o que estava sendo tocado, enquanto uma energia única tomava conta daquela pista. Difícil transmitir em palavras o momento mágico que aconteceu. Já havia ouvido ela ser tocada por outros artistas, até eu mesma já toquei algumas vezes e é sempre uma vibe linda quando é usada na pista e hora certa, mas desta vez, ela sendo tocada pelos próprios produtores, por quem sentiu a inspiração e conseguiu traduzir sentimentos em música, foi muito diferente, foi único. Esse momento foi o ápice do set deles e fico emociada até agora de lembrar disso. Dali para o final da apresentação, continuou sendo só alegria. Comecei a ficar meio inquieta e percebi que era ansiedade para ouvir o nome da noite, Zip

    Às 6 da manhã o mestre virou a primeira música e nela mesma já pude ouvir os barulhos esquisitos muito bem distribuídos que dão característica ao bom minimal e, ali mesmo, já podia sentir que esse seria outro set histórico. Técnica de mixagem perfeita, construção muito bem pensada (ou sentida), case com clássicos, unreleases, atualidades, músicas únicas, de dar inveja a qualquer DJ. Zip realmente se superou e levou a noite. Engraçado que durante o set reconheci várias músicas, algumas que sabia os nomes, outras que reconheci sem saber onde havia ouvido, talvez até do próprio set dele de 3 anos atrás, vai saber… As músicas são muito marcantes, carregam sentimentos especiais e melodias lindas. 

    Durante aproximadamente 5h30 de set, Zip nos presenteou com uma construção que não irei esquecer. Não é a toa que ele é tão respeitado e sempre mostra consistência nas suas apresentações, sabendo muito bem montar uma história, conduzir uma pista e deixar essa experiência marcada nos nossos corações. Foi muito especial reparar como ele tocou um som extremamente avançado, incomum por aqui, e como as pessoas ali reagiram a isso. Vi muitos comentários positivos durante a noite, saudações e aplausos, foi incrível poder viver isso “no quintal de casa”. Mais pro final do set aconteceu um dos ápices da festa, quando ele tocou o clássico Kenny Larkin – Cirque de Sol. Nessa hora ouvi vários gritos reagindo ao bassline e à melodia dessa música. Nunca tinha ouvido ela na pista e foi uma surpresa ouvir naquele momento.

    Fui começando a notar que o club estava esvaziando e que meus pés estavam começando a doer e olhei para o relógio. Quase meio-dia e a Pista 1 ainda aberta, o que me fez lembrar o quanto essa noite havia sido especial. Normalmente ela fecha entre 8h e 9h, deixando apenas a Pista 2 para dar continuidade ao dia, com o Superafter. Zip, cansado mas satisfeito, entregou a pista para o Stekke fechar a festa com um pouco mais de maestria. Levei dessa noite a melhor experiência já vivida naquele club, a sensação de alma lavada, com mais uma aula na memória. Fico muito feliz em ver cada vez mais o D-Edge apostando em DJs e lives underground, em música avançada, fazendo line-ups coerentes e com sets longos. Espero que em 2016 nos reserve mais momentos assim e que a música continue juntando amigos e nos proporcionando noites mágicas, como essa. Fui embora com o coração transbordando alegria, pernas moídas e feliz da vida.

  • Apollonia supera sua estreia com long set memorável no Inside

    Depois de meses sem escrever reviews para o detroitbr, eis que surge um novo desáfio. Ter a honra de relatar o que de melhor aconteceu no Inside no dia 23 de janeiro, quando Dan, Dyed e Shonky retornaram ao club após de uma excelente estreia no aniversário de 12 anos. Em sua primeira passagem por aqui eles já haviam expressado sua arte por cinco horas, transitando entre belas linhas percursivas com bastante groove, aplicadas com sutileza e sincronia. Esses momentos me fazem lembrar o Warung em sua melhor época, quando os longs sets tinham tanta frequência quanto os line-ups compostos por diversos artistas. Quem viveu esse período sabe do que estou falando, e ver apresentações nesse perfil resgata o sentimento do passado.

    Na divulgação dos horários, uma boa surpresa: de que apenas dois nomes foram escalados para o Inside: Alex Justino e Apollonia. Primeiro plus para o público e para eles, que teriam uma hora a mais de apresentação, iniciando a jornada à 01:00, assim como no recente long set de Hernan Cattaneo. Entrei no clube por volta de 00:30 e me desloquei para o meu tradicional tour, reencontrando amigos e batendo um papo com eles enquanto não me fixava frente ao palco. Durante esse momento pude notar uma grande movimentação de estrangeiros, inclusive um gentil grupo de italianos que me parou para que eu registrasse uma foto, pois era sua primeira vez em terras tupiniquins e o clube fazia parte de seus roteiros. Com o Real sob forte desvalorização, aparentemente o Brasil foi o destino de um número maior de turistas em comparações a anos anteriores, o que beneficia empresas como o Warung, que possuem prestigio internacional, possibilitando um novo perfil de noite no verão catarinense.  

    Já com a presença de Apollonia no palco, eu e um amigo conversavamos sobre como a vida noturna pode ser prazerosa e ao mesmo tempo solitária. A exemplo, vimos muitas personalidades que diante de sua rotina de trabalho ficam grandes períodos distante de suas famílias e amigos. Esse fato deve acontecer com os franceses, mas por eles estarem grande parte do tempo juntos, faz com que sejam grandes companheiros durante todas essas viagens. Esse companheirismo é tão benéfico que facilmente pode ser notado no palco, diante da leveza que eles transmitem, do jeito que se comunicam, como se conhecem, já tendo em vista a apresentação anterior.

     

    Após um pequeno atraso de 30 minutos eles assumiram a cabine e rapidamente foram ovacionados pelo público que ali esperavam. O primeiro a se posicionar foi Dan Ghenacia, seguido por Shonky e Dyed Soundorom. Um fato interessante notado ainda no começo é que na primeira vez que os vi tocar foi em uma formato pouco convencional de b2b, no qual cada integrante tinha liberdade de criação sem uma limitação de músicas. Dessa vez na maior parte do tempo o headphone era passado diante de cada transição feita.

    Para ganhar a pista, as duas primeiras horas de apresentação foram em um ritmo bem quente, com um som bastante acessível. Enquanto Dan e Dyed ousavam em baterias e fortes grooves, Shonky quebrava o rítmo acrescentando timbragens que enriqueciam a apresentação, os deixando em um patamar acima de muitos artista que vi tocando house/tech house por aqui. Durante toda construção a apresentação dos clássicos no set eram bem planejada, tanto que próximo das 3:30, Fly Life (Extra) cai como uma luva em meio ao euforico público que o assistia.


    Crédito: Pedro Henrique Chaves

    Com a entrada de Bob Moses no Garden, parte do público presente foi mudando de pista, gerando um conforto ainda maior a quem os assistia. Naquele momento você olhava ao redor e reconhecia velhos rostos que já não frequentavam o clube com tanta frequência. Tudo aquilo que estava acontecendo contribuía para essa memorável experiência. Essas noites com longs sets podem ser uma faca com dois gumes: corre-se o risco de o DJ não conectar com a pista e a noite ser ruim, é verdade, mas quando o artista sabe o que ele esta fazendo, a noite se torna extremamente rica em diversidade e ali era possível extrair ao maximo o que eles tinham a oferecer.  

    Após quase duas horas intensas, a apresentação começou a ficar mais cadenciada. Naquele momento a pista já estava sobre hipnose, o que deu oportunidade para explorar melhor as linhas melódicas, com uma leve pitada de techno, em meio ao belo house que ali acontecia. Os clássicos continuavam sendo introduzidos, como DJ Pierre, que diante da atmosfera presente, ecoáva a sua tradicional fala “What’s is house music? A unique form… of music”.

    No decorrer da noite a imprevisibilidade do trio era incrível, me sentia como se estivesse no cinema assistindo um filme com um grande roteiro, esperando ansiosamente para saber o que aconteceria. Durante toda minha vida eu fui grande fã de hip-hop e jamais esperaria escutar uma música na qual fosse sampleado um clássico do genero. Os relógios passavam das 05:30, quando uma versão de Matthias Meyer dava vida a 93 ‘Til Infinity de Souls of Mischief. Naquele momento confesso que fiquei meio que sem entender o que estava acontecendo, e pensava comigo: Será? Sim, era inconfundível. Eu realmente estava escutando. 

    Amanheceu e eu estava frente ao inside em um belo dia de Sol, despedindo-se de uma excelênte noite, com a sensação de dever cumprido perante a entrega realizada. Sua última hora de apresentação foi como um educado “obrigado” declamado em forma música, e naquele momento presenciávamos uma verdadeira aula, que depois de quase seis horas de construção anunciava que chegaria ao fim. Próximo às 07:00, ainda houve tempo para Where Do I Go de Gemini, o que deixou tudo mais especial.  

    A sensação que levo dessa noite, é que o clube vem acertando nesse resgate de longs sets, seja com Apollonia, Hernan Cattaneo ou Dixon, recém divulgado. Que esse perfil de evento faça parte dessa temporada. Nós adoramos isso!

    Créditos: Juliano Viana / IMAGECARE

  • Dubfire fecha o ciclo de festas pré-reveillon do Warung

    Há alguns anos o Warung Beach Club se tornou uma referência de entretenimento para muitos turistas, especialmente nas datas próximas ao fim do ano. Isso fica nítido quando vemos que das três noites do final de 2015, duas foram encabeçadas por argentinos, nacionalidade mais comum no Vale do Itajaí nesta época. Na terceira noite, porém, a intenção de alcance era global: Ali Dubfire, liderava o line-up do Inside, acompanhado por Ricardo Albuquerque e Renato Ratier, enquanto o Garden ficou nas mãos de Lou Lou Players, Tone of Arc e Fran Bortolossi.

    Nesta ocasião o clube teve sua abertura antecipada para as 21h, e como já havia acontecido o sold-out preferimos nos previnir, chegando à festa por volta das 21h30min. Imediatamente nos dirigimos para o Inside, onde Albuquerque se apresentava. O curitibano apresentou um warm up diferente, com BPM mais elevadas e uma seleção musical que variava do tech house ao techno, apresentando boas tracks, porém com uma construção pouco efetiva.

    Com a entrada de Renato Ratier houve uma mudança de humor, pois o clima ficou claramente mais sombrio. Seu set foi consistente e usou de músicas consagradas em alguns momentos, como o hit Woods, de &ME. Gostaria de ter visto o líder dos Savages abusar um pouco mais das novidades, mas como ele preparava a pista para a estrela da noite, compreendo que havia necessidade de misturar seu estilo a características do DJ que viria a seguir.

     

    Finalmente Dubfire iniciou sua apresentação, com uma entrada introspectiva, começando bem minimalista e encorpando conforme a música evoluía. Sua apresentação foi pesada e com bastante groove, porém sem a emoção de tempos passados. As novidades da SCI+TEC eram recorrentes na construção, que usou de menos clássicos que outros sets de Ali no templo. Em uma analise mais ampla, Ali fez todo mundo dançar por horas e proporcionou bastante diversão, conseguindo segurar a pista até o minuto final, sendo aplaudido pelos presentes. Pontualmente a festa teve seu término às 7h, finalizando assim mais uma temporada de grandes eventos do Warung.

    Fotos: Gustavo Remor.

  • Tradição se mantém e Hernan Cattaneo celebra mais um fim de ano no Warung

    O dia 28 de dezembro, uma das datas mais icônicas do ano no Warung Beach Club, por um momento pareceu que ia se perder em 2015, pois a curadoria da casa resolveu, de maneira inédita, trazer Hernan Cattaneo no feriadão de independência. O acerto foi comprovado com noite de ingressos esgotados e uma repercussão incrível, que ajudou a ascender novamente os olhares do jovem novo publico do club para essa linha de som. Se isso foi pensado ou não, não importa, o importante é que funcionou. Visto a proximidade do final de ano, praticamente todos que acompanham mais de perto a carreira do Maestro concluirão que desta vez ele não viria no final de ano, tudo bem, o fantástico set de setembro ainda ecoava na mente de todos e gerava debates nas rede sociais. Até um amigo enviar-me a recém atualizada agenda de Hernan em seu website… estava lá, a tradição falou mais alto e todos correram pra mudar os planos de férias.

     Já fazem mais de 5 anos que tenho seguido esse roteiro e o melhor de tudo é entrar na casa e sentir aquele clima diferente, algumas pessoas você só vai ver ali nesta data, frequentadores mais antigos e amigos de outros estados que deixam de serem virtuais e vivem a realidade do único longset que ainda respira na Praia Brava. Como falei no review de setembro, em 2015 Hernan completou dez anos de Warung, e eu, 10 shows que somados geram mais de 60 horas de música! Refletindo, as vezes parece-me que já ouvi bastante, mas logo depois sinto que ainda tenho muito a aprender sobre como funciona a mentalidade desse artista único, que no meu entendimento alcançou um nível que vai muito além do cenário da musica eletrônica.

    Depois de alguns anos, o residente mais antigo da casa e um expoente da nossa cena voltou a ser convocado para o warm-up. Leozinho sempre deixou claro que o argentino é uma das suas principais referências de como se deve conduzir uma pista. Ao adentrar na casa e encontrar os amigos, por volta da meia noite subi para começar a entrar no clima, Leo tocando em sua antiga e melhor versão: house com bastante groove, leves breaks e finas melodias, como é a pedida pro horário. Seguindo o roteiro, perto do horário Hernan aparece no palco e é interessante como tudo é tão tradicional: ainda assim a emoção bate como na primeira vez, sendo ovacionado, ele espeta seus pen-drives e abre seu Technics preto, a camiseta escura também está ali, só faltando mesmo o cabelo comprido sendo levantado pelos dois ventiladores acima da cabine, é compreensível, chegar aos 50 anos de idade fazendo mais de 100 shows por ano ao redor do mundo, deve pedir um pouco mais de conforto.

    À uma da manhã hora em ponto Hernan não precisa parar a música, o bom esquenta já pede a primeira mixagem, como verdadeiro gentleman, chama Leozinho de volta pro centro da cabine e pede os aplausos do publico, ele realmente aprecia e reconhece a importância de se deixar a pista no ponto, de fato isso reflete lá na frente. As 6 horas do seu set são muito especificas, a primeira coisa que ele sempre faz é dizer: ”ok, vamos dançar” as duas primeiras horas de ritmo ainda devagar são para ir colocando todos no mesmo balanço, equalizando a pista com alguns vocais e muita percussão, como na música de Brian Cid – Oasis. Não tinha virado a segunda musica e os hermanos, sem pedir licença, abrem uma bandeira da argentina de mais de 2 metros com a mensagem ‘’No Hay Limite Para Tu Musica’’. Pronto, se alguém tinha duvidas sobre o que aconteceria no restante da noite, acabou por ali. Com certa frequência, Catta virava-se para seus amigos conterrâneos na cabine, e com sorriso no rosto tentava mostrar um pouco do club, realmente ali ele se sente tão em casa quanto em seu próprio país, os hermanos além de reconhecer isso, fazem de tudo para vir aqui poder ver seu famoso extended set. Entre seus convidados, um dos maiores produtores da nova geração argentina, Marcelo Vasami.

     Se pudéssemos transportar a maneira de construir seu set para um exemplo lúdico, poderíamos imaginar uma roda gigante, London Eye se encaixa perfeitamente, pois além do entretenimento, ela serve como ponto de observação. Hernan gira sua roda nas duas primeiras horas para que todos consigam subir, ainda que em movimento, quando se está dentro de algo tão grande é fácil de perder a noção de tempo e velocidade, a roda pode começar a girar mais rápido lentamente e você nem se dar conta, só quer apenas que ela gire sem parar, e é justamente isso que acontece na pista. A sutiliza em que ele vai aumentando o ritmo no decorrer da noite faz com que nossa percepção mude, alguém que entre naquele triângulo de madeira no meio da noite não vai conseguir entender com plenitude o que está acontecendo, é por isso que eu só consigo sair da pista depois que a musica para. Como já esperado, pouquíssimas musicas reconhecíveis e se em setembro o som foi mais frio com pontos emotivos, dessa vez ele tocou muito psicodélico a partir das 3 horas, subindo as batidas por minuto como não se via a anos! Hernan não gosta de jogar muito alto mesmo com sua linha de baixo agressiva, então quando ele resolve acelerar, o rastro de euforia na pista é impressionante, o coro de ole ole, ole ole, HC HC! apareceu mais vezes do que de costume, é aquele momento em que a pista já não sabe mais o que fazer e reverenciar é o que sobra.

    São 4 da manhã, o auge, a sequencia arrebatadora deixa todos estasiados, Hernan flutua sobre a cabine e suas mixagens se encaixam como um quebra-cabeças, não há espaço para respirar, as linhas de baixo em alta frequência se propagam por toda pista e se ligam praticamente formando um outro ritmo, as batidas do que poderia chamar tranquilamente de techno ficam em outro plano, indo e vindo conforme sua vontade, e os contratempos de hats e bateria são uma das suas principais características, isso é algo difícil de explicar, pois não é em qualquer lugar que funciona, até mesmo porque não é qualquer lugar que tem a acústica do Warung, realmente isso sempre foi um dos maiores segredos do sucesso do club. Entre os diversos momentos de maior introspecção, vale destacar ”Delta Corvi”, música do produtor Gaucho Fernando Goraieb, ”Candyland” de Guy J com remix de Luca Bacchetti, Kiasmos – Swept ( Tale Of Us remix) e a indescritível musica de Roman Fluegel – Wilkie com remix do argentino Ditian Lonely. Segue abaixo video do momento:

    Passando das 5 horas é que consegui chegar mais próximo dos amigos e interagir, em uma rápida olhada pelo corredor da saída principal, vejo que a intensa chuva que caia durante boa parte da noite já tinha dado uma segurada. Hernan fez a mesma coisa, é hora de mais melodias, ‘’Crosses and Angels’’ de Lopezhouse cai como uma luva. Por volta das seis o vocal inconfundível de ‘’I Wish You Were Here’’ surge no repaginado remix de Kevin Di Serna, esta musica ele já havia tocado alguns anos atras na versão clássica de Lexicon Avenue, que momento!

    Perto do final outro clássico daqueles, ‘’Right Off’’ de Danny Howells (Precisa voltar) com remix de Faze Action é daquelas que nunca saem da case, tem um poder tribal capaz de renovar as energias para mais algumas horas, infelizmente as manhãs adentro de boa musica do Templo são coisas da memoria, ainda assim já se passava de 7:15 quando Hernan virou a ultima musica com o vocal sereno e romantico de Arnór Dan, produção de ‘’Ólafur Arnolds– So Far ( Guy Mantzur Remix )’’os gritos e aplausos do publico soavam tão alto quanto o volume do sistema de som, e visivelmente emocionado ele agradece a todos da mesma forma. O prazer e a honra de ouvir e tocar são mútuos, e a mensagem mais tarde em sua Fanpag em portugues: ‘‘Nunca deixa de me surpreender’’ fez com um espelho a sua frente, pois o sentimento de todos diz o mesmo.

  • SFX revela que pode declarar falência a qualquer momento

    Em um novo relatório a SFX Entertainment revelou que pode declarar falência em breve. A empresa ficou famosa após seu CEO Robert Sillerman declarar que iria conquistar a dance music mundial com um investimento de 1 bilhão de dólares. As intenções megalomaníacas se confirmaram com as aquisições feitas em seguida: a produtora ID&T (de Tomorrowland e Sensation), o Rock In Rio, o Beatport, o app Shazam, a agência brasileira Plus Talent são só alguns exemplos de empresas que passaram a fazer parte do império de Sillerman.

    O passar do tempo, porém, mostrou que só dinheiro não é suficiente para tal feito: depois de ser avaliada em um bilhão de dólares no final de 2013, viu o começo do declínio quando anunciou que seria vendida ao seu fundador, deixando de ter capital aberto. Neste meio tempo o Beatport congelou os pagamentos às gravadoras e tentativa de Sillerman de reaver a empresa falhou, desvalorizando-a ainda mais. Em setembro de 2015 sua ação valia apenas 45 centavos de dólar, uma queda de mais de 95% se comparado ao seu pico de US$ 11,59, atingido em 2013.

    Com os débitos crescendo cada vez mais a companhia começou a atrasar alguns compromissos, o que a levou a contratar uma consultoria para ajudar a administrar o caos financeiro. Os últimos relatórios divulgados revelaram que a empresa, que possui cerca de 60 milhões de dólares em caixa e 310 milhões de dólares em dúvidas (info via NASDAQ), não sobreviverá a 2016 e declare sua falência.

    via Resident Advisor

  • Noite de Barem conta com consagração de talentos nacionais

    Não é de agora que o Warung tem uma relação especial com os DJs argentinos, é bem verdade que o club sempre soube explorar muito bem, principalmente no final do ano, a vinda dos turistas hermanos em nossas praias de Santa Catarina, tanto é que tivemos duas das três ultimas datas do calendario reservadas para headliners do país vizinho. Em determinada época essa relação ficou tão estreita que o club teve entre seus residentes um dos expoentes da terra de Di Stéfano e Lionel Messi… Ricky Ryan figurou entre os nomes internacionais que mais se apresentaram na casa até hoje e marcou época com longsets além do amanhecer. Outros nomes importantes que já passaram por ali como Martin Garcia, Deep Mariano e Spitfire ainda hoje são lembrandos, recentemente novos ascendentes à cena global como Guti e Shall Ocin fizeram ótimas apresentações, porém depois de Hernan Cattaneo, o grande preferido da casa tem sido Mauricio Barembuem, ou simplesmente Barem.

    Descorberto por Richie Hawtin, ele teve sua carreira acelerada na Minus com lançamentos e tours ao redor do mundo, foi assim que teve sua inesquecivel estréia no templo em janeiro de 2011, impressionando a todos e deixando a pista perfeita para um dos sets mais marcantes de Richie que já se viu por aqui. Eu sou suspeito em falar pois tenho uma tremenda admiração pela maneira de absorver música dos argentinos e a meticulosidade dos seus sets, cresci na cena ouvindo que eles estavam sempre a ”um passo à frente” da gente, até mesmo como reflexo de sua cena mais consolidada. Por algum tempo, me parece que esse passo até virou dois, mas os ultimos anos por aqui tem novamente diminuido essa distancia com surgimentos de novos DJs e produtores realmente muito talentosos, e três deles fizeram parte do line-up do dia 26 de dezembro. Danee, Gromma e Wilian Kraupp, são destaques dessa nova safra de artistas e da noite.

    Me aprecei em chegar o mais cedo possivel no club para conseguir ver o que Danee tinha preparado para o warm-up. Acompanho sua carreira a bastante tempo e sei que é um exímio pesquisador, sua maneira de mixar e a forma como constroi seus sets são bem proximas do meu gosto pessoal, além de sempre me fazer lembrar do John Digweed! Danee manteve por quase todo tempo seu techno obscuro e cadenciado intercalando com linhas de house que mantiveram a pista dançando já com muita descontração. Antes de Aninha assumir os decks, desci para o Garden atrás da cabine onde encontrei alguns amigos, entre eles Wilian, no meio do bate papo sobre a expectativa da noite, mantive um ouvido na conversa e outro no que Gromma estava mostrando. Ele é um artista que sempre ouço falar muito bem, porém foi a primeira vez que o vi tocar. Os elogios a sua tecnica e bom gosto se mostraram verdades pra min também, a pista já estava interessante e Gromma jogava com um linha que tinha pitadas de Nu-disco e arranjos de bateria e baixo de house e techouse muito bem trabalhadas, já tirando os primeiros aplausos da pista. 

    Subi ao Inside novamente para ver a ultima hora do set da residente Aninha, apesar de eu achar que o ideial sempre são no maximo 3 artistas por pista, ela se encaixou muito bem na proposta da noite. Seu carisma e excelente tecnica logo já fizeram a pista vibrar, ela sempre toca aquele tipo de musica que lhe parece familiar, mas que você nunca vai descobrir o que é. Bem à vontade com o horario, ela pode tocar com ritmo muito bom sem precisar se preocupar com o depois. Às duas horas em ponto, o grande destaque nacional de 2015 pra mim, assume o comando do templo. Tocar em horario nobre na pista principal é algo pra poucos e Wilian Kraupp teve pela segunda vez no ano a oportunidade. Esse pedaço de noite, das 2 as 4, é possivelmente o mais dificil de se fazer, você pode tocar pesado, a pista exige, mas sabe que tem mais alguem ainda pra mostrar sua música.

    Kraupp demonstrou tremenda confiança, já na primeira musica fez a pista exaltar-se. Ele realmente vem pulando etapas e já com pouco tempo de estrada se mostra pronto pra assumir qualquer pista do mundo. Cumprindo a cartilha do artista moderno, ele se dedica ao estudio e o DJing com muita personalidade, sem duvidas é umas das grandes promessas brasileiras da cena techno para o mundo. Seu set começou muito dançante e explosivo, e depois dos 40 minutos foi ganhando mais peso e ritmo até desencadear no que ele realmente queria mostrar, com a pista na mão, soprou uma linha bem linear e até mesmo obscura, surpreendendo-me de forma muito positiva, eu que acompanhei sua evolução como DJ e produtor desde o começo, nunca o tinha visto tocar assim.

    Com sutileza, Wilian foi trazendo seu som para o ‘’Barem Style’’ nas ultimas musicas, arrancando aplausos do Hermano que estava se aprontando e já poderia sentir que a pista estaria pronta pra ele. Infelizmente até esse momento o sistema de som da casa não estava 100%, faltando um pouco de médio, que só se equalizou na entrada de Barem, isso tem ocorrido com certa frequencia no club, decorrente da falta de atenção da equipe dos bastidores, desta vez não foi tão grave, mas ainda assim incomoda quem gosta de qualidade.

    Com o publico sedento por música, Barem começou com sua habitual escola, continuou no ritmo um pouco mais suave que Wilian tinha deixado e aos poucos foi encorpando seu som. Muito inspirado, fez o seu melhor set que eu já vi, superando até mesmo aquele de 2011. Usando alguns processadores de efeito muito interessantes e que já são sua marca registrada, ele tocou tudo que tinha de melhor na case, muita bateria, contra-tempos e baixos emborrachados formando um groove sólido, fizeram as 3 horas passarem em um click. A pista estava na medida, sem estár lotada, era possivel se divertir bem à vontade. Barem não é o tipo de artista que vai buscar sons classicos pro final do set, ele trabalha racionalmente e não tanto o emocional, ainda assim, para delírio da pista jogou o único vocal da noite, ‘’Far From The Tree’’ de Bob Moses, no ótimo remix do inglês Third Son. De alma lavada, pude encarar as quase 2 horas de fila pra sair Brava, tudo bem, a noite sempre vence os sacrificios.

    Fotos: Juliano Viana e Gustavo Remor

  • Warung Beach Club: 13 anos de história

    Voltemos no tempo até o ano de 2002, época em que a seleção brasileira conquistava o invejável título de pentacampeão mundial de futebol, a cédula de 20 reais começava a circular pelo país e o dólar chegava pela primeira vez a R$ 4,00. Naquele mesmo período a Praia Brava havia sido escolhida como lar de um dos beach clubs mais charmosos do mundo. O “templo da música eletrônica”, como hoje é conhecido, se tornaria o principal cenário de noites inesquecíveis. Durante muito tempo diversos artistas tiveram a oportunidade de contar um pouco de sua história na cobiçada cabine do Warung, que teve logo na inauguração duas atrações de peso: Timo Mass e Loco Dice.

    Um ano se passou desde a inauguração e nomes como DJ Marky, Lee Burridge e até mesmo Rica Amaral foram destaques nesta fase. Para celebrar o primeiro aniversário uma pista nova foi implementada: nascia o “Warung Garden”, com uma proposta diferente e complementar à do Main Room. O line-up da festa foi composto por Danny Howells e Anderson Noise no primeiro dia e Chris Liberator, Dave The Drummer e Perplex no segundo dia. Com o passar dos anos tanto a estrutura como o direcionamento artístico foram sendo moldados, construído a imagem que o club tem hoje.

    Em seu terceiro ano de vida veio o reconhecimento internacional! O templo foi condecorado como um dos 3 melhores clubes do mundo pela revista britânica Mixmag. Neste mesmo ano, ainda em janeiro, Hernan Cattaneo e Marco Carola fizeram suas estreias. Vale ressaltar que durante seus anos iniciais o Warung não possuía camarotes, os espaços hoje disponíveis para reserva eram lounges de relaxamento e descanso. No ano subsequente o clube mudaria todos os paradigmas durante o carnaval com duas apresentações históricas. Deep Dish e Sasha escreveriam juntos um dos capítulos mais extraordinários do templo. Para o aniversário de quatro anos o escolhido para comandar as celebrações foi o canadense Luke Fair, até então revelação da gravadora Bedrock.

    Mais um ano havia se encerrado e o verão de 2007 já estava em alta, logo em janeiro a festa Circo Loco (Ibiza) aterrissou no templo, sendo comandada por Luciano e Tania Vulcano. O carnaval reservaria grandes noites recheadas de estreias e retornos, sendo a noite exclusiva de Pedro e Raresh que, junto a Rhadoo formam o saudoso trio romeno [a.rpia.r], uma das mais memoráveis. Neste ano também foi feita uma festa fora do clube, com Fatboy Slim e Layo&Bushwacka! Deep Dish retornava para mais uma épica apresentação e Hernan Cattaneo encerraria com chave ouro o período das festividades carnavalescas.

    Encantando noites com diversos artistas, o Warung já havia moldado sua própria identidade e já se consagrava como grande o grande expoente da noite catarinense. Seu quinto aniversário foi marcado pela presença de Dubfire, que fez um dos sets mais longos da história da casa. Para encerrar aquele ano, 16 Bit Lolitas foi quem conduziu mais uma noite de virada. Partindo para 2008 com novas energias, uma dobradinha seria fundamental para marcar o início daquele ano: Deep Dish faria uma apresentação dupla durante o carnaval deixando toda a cena eletrônica do sul do país extasiada! Até hoje as lembranças daquelas duas noites ecoam pelas memórias de quem as viveu. Em setembro Richie Hawtin era quem começava a escrever sua história no universo do Warung: aclamado por muitos como o criador do minimal techno, ele apresentou naquela noite sonoridades que moldariam novos pensamentos a respeito de música eletrônica. Outro DJ que foi um divisor de águas naquele ano é Laurent Garnier, convidado principal para uma das noites de comemoração do aniversário de 6 anos.

    No fim de dezembro, o duo alemão D-Nox & Beckers fazia sua estreia e dividia a pista com o uruguaiano Gustavo Bravetti. Paralelo a isso o clube fez campanha para angariar suprimentos para às vítimas das chuvas que assolaram a cidade de Itajaí no mês de novembro. Finalizando o ciclo de festas daquele ano, o argentino Hernan Cattaneo foi responsável pelo ótimo set de réveillon. A programação de verão para o ano de 2009 foi agitada, Richie Hawtin, Mark Knight, Sebastian Ingrosso, Chris Lake e até mesmo Miss Mine foram alguns dos DJs que se apresentaram nos dois primeiros meses. Para o carnaval não foram economizados esforços, John Digweed, Dubfire, Sven Väth e Life Is a Loop eram os headliners. O inverno ficou marcado pelo retorno de Sasha com seu álbum Invol2ver, até hoje tido como uma de suas melhores compilações.

    Se passaram 7 anos, o Warung Beach Club precisava mais uma vez celebrar a arte, a boa música e comemorar mais um ano de vida, para isso escalaram ninguém menos que Booka Shade. Infelizmente somente Arno Kammermeier tocaria naquela ocasião, pois Walter Merziger estava doente. Sendo assim, um curto set de apenas 3 horas foi executado, o que de certa forma não agradou a todos, tendo em vista que DJs como Dubfire e Sasha nunca haviam tocado menos de 6 horas até então. Fabricio Peçanha foi quem assumiu as pick-ups e continuou a festa até 10:30 da manhã.

    Dando início ao cronograma de 2010, Gui Boratto e Michael Mayer se apresentaram e incendiaram o primeiro dia de janeiro. O carnaval seria regido pelas pratas da casa Life Is a Loop, Sharam e Luciano que retornava ao clube após um longo hiato. A baixa temporada ficaria marcada pela presença de Danny Howells que infelizmente nunca mais retornaria ao clube. Seguindo para a semana da música eletrônica, Gui Boratto, Rick Ryan e Richie Hawtin formavam o time da independência. Dessa vez quem teria a honra de cultuar uma noite única de aniversário seria de Alexander Coe, mais conhecido como Sasha. Depois de seu lendário set de mais de 10 horas em 2006, o inglês fez uma passagem não muito prazerosa e acabou na “geladeira” por um tempo. Hernan Cattaneo comandaria no dia 29 de dezembro o pré réveillon e se firmaria como uma das estrelas máximas do templo.

    Finalmente chegamos ao tão falado ano de 2011. O primeiro mês do ano sempre é um bom momento para se visitar o Warung e ter novas experiências, não seria diferente naquela temporada. A começar por Michael Mayer e Gui Boratto que se apresentaram na primeira terça-feira do ano. Logo em seguida no dia 7 Barem e Richie Hawtin protagonizaram a tão falada “noite do chinelo”, mas não se pode deixar de mencionar o final épico com Yeke-Yeke. Sete dias depois quem retornava era Laurent Garnier que infelizmente também fazia sua última aparição por aqui.

    No fim daquele mês Ricardo Villalobos e Robert Babicz enfeitiçaram a festa que duraria apenas 17 horas! Diversas histórias rondam está noite até os dias atuais, perda de voo e jato fretado são apenas algumas, o fato principal é que a estreia de Ricardo aconteceu às 6 da manhã quando todo mundo já estava desacreditado de que sua presença seria de fato consumada. Ele nos presenteou com uma festa que começou no main e terminou no Garden. Chilenos, argentinos e brasileiros partilhavam de uma única realidade: a realidade de Ricardo, música. O carnaval daquele ano também reservaria outro momento ímpar, Dubfire e Carlo Lio juntos no garden em um b2b de tirar o fôlego.

    A programação de páscoa foi regida por Guy Gerber e Sharam. Gerber fez sua magnifica estreia e contagiou a todos com toda a sua genialidade.

    Em agosto daquele ano, a gravadora Dynamic escolheu o templo para celebrar os 5 anos de sua existência, trazendo Solomun, H.O.S.H e Stimming. Em setembro, a tão aguardada semana da música eletrônica ficou marcada pelo long set de Dubfire, que se iniciou no main e terminou no garden às tantas horas da tarde. Passando para outubro mais uma estreia, que deixou saudades: Trentemoller.

    O aniversário de 9 anos trouxe John Digweed, Loco Dice, Jamie Jones e Damian Lazarus. Mas foi em dezembro que todas as atenções se voltaram para a Praia Brava, ninguém menos que Carl Cox pisaria no clube mostrando todo o seu arsenal house e techno! Neste fim de ano a primeira edição da revista Warung foi publicada. O templo se dirigia para o seu décimo aniversário, ao longo do caminho muito autos e baixos aconteceram. O público mudou, a música e o foco do clube também mudaram. As comemorações de 10 anos de vida começaram em janeiro com Ricardo Villalobos e Marco Carola. Seguiram em diante para o carnaval com Dubfire, Guy Gerber, Solomun e Soul Clap & Wolf + Lamb.

    A programação de baixa temporada foi contemplada pela presença do papa Sven Väth que fez um ‘simplório’ set de pouco mais de 3 horas. Importante ressaltar que neste período já não era mais permitido festas até altas horas do dia. Seth Troxler tocava pela primeira vez em maio e seria um dos principais convidados para o aniversário de 10 anos. Celebrar uma década de vida não é para qualquer casa, o time escolhido confirmou que uma nova era estava começando e os tempo de ouro haviam realmente chegado ao fim.

    O ano de 2013 foi marcado pela bolha do deep house, gênero que aos poucos se tornaria uma epidemia para alguns e um amor de primavera para outros. Aquele carnaval seria um “escape” com Richie Hawtin, Seth Troxler e Dubfire, que fez um dos sets mais pesados para a época.

    Em outubro, o showcase da gravadora Items e Things abalou todas as estruturas do templo trazendo Troy Pierce, Marc Houle e Magda. Danee foi responsável por um dos melhores warm-ups daquele ano. Pulando para o aniversário, Dubfire novamente, com a companhia de Nastia, Guy Gerber, Seth Troxler e Pan-Pot.

    Chegando em 2014, foi possível notar que não haviam tantas apostas quanto nos anos anteriores, a exceção foi a vinda de tINI, que conduziu a noite no estilo Desolat. O carnaval também reservava um grande nome: Ben Klock, figura constante em noites insanas no Berghain/Panorama Bar. Tida como a noite que fez o templo voltar as suas origens, o encerramento deste carnaval contou com Nina Kraviz tocando até às 9 horas da manhã e Innvervisions no outro stage

    O inverno foi marcado por boas festas, como a noite em que Barem e Stimming supriram com louvor a falta de Solomun, o choque de realidade de Bonobo no Garden e o fabuloso retorno de Tale of Us, em um set de 4 horas no Main Room, que passou a se chamar Inside.

    Para celebrar 12 anos de vida a festa de dois dias contou com 30 nomes, dentre eles Gaiser, que fez sua estreia junto de Hawtin, e Apollonia, que comandou o Garden durante a maior parte da noite. Na outra semana, o combo Maceo Plex, Sasha e Tale of Us levou o público à loucura, apesar dos sets curtos que cada um teve que apresentar. Mais um janeiro chegou, com uma mescla de artistas conhecidos e outros em ascensão. O carnaval foi de grande destaque para Loco Dice, que retornava ao clube depois de passar quase 3 anos ausente. Bella Sarris fez sua charmosa estreia e Marco Carola mais uma vez comandou com seu estilo italiano de ser.

    Finalmente chegamos às comemorações de 13 anos, com a aguardadíssima a da estreia de Joseph Capriati. A expectativa para ver o baixinho era grande e tendo isso em vista, a curadoria lhe concedeu 3 horas de set. Renato Ratier foi quem fez as honras preparando a pista para o primeiro italiano da noite.

    Joseph parecia um pouco tímido no início o que é totalmente compreensível, diante de um público como o do Warung. Em poucos minutos sua timidez foi embora, deixando toda a sua versatilidade aflorar. Usando e abusando de baixos, baterias e vocais construiu seu set de maneira sucinta, deixando espaço para seu conterrâneo Carola. Apostando em clássicos como Crazy Frog e até mesmo a música tema de Top Gear (antigo jogo de carros da Nintendo) mostrou porque seu nome sempre figura em grandes festivais como Awakenings e Time Warp. Se mostrando feliz com o resultado alcançado, finalizou seu set pontualmente às 3 da madrugada. Neste momento aproveitei para dar uma espiada no Garden.

    HNQO era quem estava tocando, o curitibano passou por uma grande evolução musical desde a sua explosão com o selo Hot Creations em 2012, é notável que agora ele transita por novas sonoridades e fez um bom set. Paulo Bogoshian foi quem conduziu os trabalhos até a chegada do carismático Seth Troxler, destaque para a música, Howling – ‘Signs’ (Rødhåd Remix), usada no início de sua apresentação. É difícil mensurar algo sobre Troxler, ele simplesmente se reinventa a cada minuto, um verdadeiro camaleão dos palcos. Iniciou sua performance com uma versão acapela de Underground Resistance – Transition e, aos poucos, foi mostrando tudo o que sua case de vinis tinha para revelar. Transitando por house, dance e techno o fanfarrão, como é conhecido, se saiu bem até nas vezes em que a energia do Garden falhou.

    Apostando sempre na veracidade dos clássicos a primeira bomba veio às 5 da madrugada, com Johnny Corporate – Sunday Shoutin (B Boys Shoutin Dub), que logo em seguida deu espaço para Kings of Tomorrow featuring Julie McKnight – Finally (Tom De Neef Club Mix). Perto do amanhecer outro momento ímpar, uma versão única de Dee Mac’s House of Funk Featuring Oliver Night Singing You Got To. Após isso me dirigi ao Inside para encontrar os amigos que lá estavam. Marco Carola já tinha hipnotizado a todos com seu estilo de música sem fim, era notável que todos dançavam conforme sua vontade e desejo. A pista já não se mostrava tão fervilhante quanto estava com Capriati, e ele parecia gostar disso. Como tem feito regularmente no fim de suas apresentações, finalizou a noite com Freak Like Me (Lee Walker Garage Edit) – DJ Deeon.

    O Garden, como sempre, funcionou por alguns minutos a mais. Em um lindo gesto de solidariedade aos franceses, Troxler tocou Daft Punk – Revolution 909 e postou um vídeo com a música em sua página no Facebook. Imediatamente o vídeo se tornou um viral e, em menos de 24 horas, já tinha alcançado 100 mil visualizações. Infelizmente o vídeo foi removido pois muitas pessoas ainda estavam sensibilizadas com os ataques.

    De 2002 a 2015 o Warung Beach Club se tornou um dos maiores diamantes do povo catarinense. Sempre pleno, nunca deixou de levantar a bandeira da música eletrônica durante estes treze anos. Feliz aniversário templo! Que venham mais anos de arte, vida, sabedoria, música e euforia!

  • Creamfields comemora 15 anos em Buenos Aires

    No dia 14 de novembro aconteceu em Buenos Aires a edição de 15º aniversário do Creamfields na cidade, sendo um dos mais tradicionais da América do Sul. Adotando a mesma lógica de palcos principais das últimas edições, esse ano a festa foi composta por cinco palcos, entre eles os mais interessantes para amantes de techno: Cocoon e Enter. A maior parte das atrações já era conhecida do público argentino, sendo Marcel Dettmann a grande novidade da noite. Esse ano o local escolhido para a realização do evento foi a Reserva Ecológica Costanera Sur, um belo lugar com uma linda paisagem próximo ao centro da metrópole, assim como o antigo lugar, que apesar de maior foi substituído por conta de algumas críticas foram feitas em relação à segurança, por estar localizado numa região bastante perigosa da cidade. 

    Chegamos ao local da festa por volta das 16:30, meia hora depois do que deveria ser o início da festa, porém, os portões ainda estavam fechados. O fato ocasionou uma grande fila e uma longa espera, pois apenas às 18:00 liberaram a entrada do público. Apesar do acúmulo de pessoas devido ao atraso, o sistema de entrada deles estava muito bem organizado e em poucos minutos já estávamos dentro da festa. Assim que conseguimos entrar, já havia um bar logo à frente com a tabela de preços, que na primeira vista já nos deixou assustados. A água e o refrigerante estavam custando 40 pesos, a cerveja 100 pesos e o combo de dose de vodka com energético 80 pesos, valores esses que se convertidos em real, seriam de aproximadamente 15 reais a água, 38 reais a cerveja e 30 reais o combo, inviabilizando assim o alto consumo de bebidas no geral.

    Nossa primeira passagem foi pela pista Enter, chegamos a tempo de acompanhar uma parte do set de Brian Gros, jovem argentino que teve alguns EP’s lançados pela Minus nos últimos dois anos e que é uma das promessas nesse estilo. Estava fazendo um bom warm-up enquanto Jonny White já se preparava para entrar. A primeira grande atração que viria a tocar era Art Department. Eu não havia visto nenhuma apresentação após a separação de Kenny Glasgow e como não acompanhava o projeto há muito tempo, a ideia apresentada seria, provavelmente, diferente das outra vezes que presenciei, principalmente pelo fato de não haver mais a influência de seu ex-companheiro. Após alguns minutos de set fiquei positivamente surpreso, pois estava puxando para uma linha de techno mais séria e um pouco desacelerada, além de estar mixando algumas músicas com tocadiscos. Foi nesse momento que a pista começou a ficar mais cheia e ganhar ânimo.

    Chegando próximo as 20:45 nos dirigimos para o palco principal para a apresentação de Barem. Esse ano, para a surpresa de alguns, ele anunciou seu desligamento da Minus, para abrir seu próprio selo em parceria com seu amigo Alexis Cabrera, que se chama Fun Records. Por isso e por todo seu recente destaque no cenário internacional ele recebeu a missão de se apresentar no palco principal do evento, após três edições seguidas tocando no palco da Enter. Com muita experiência, uma conexão única com o público de seu país e uma proposta de construção musical partindo principalmente do tech house, obteve uma ótima resposta da pista. Durante uma hora e meia conseguiu fazer um excelente set, sendo um dos destaques da noite. Falando sobre a estrutura do main stage, importante observar que foi montado uma espécie de deck consideravelmente grande na pista, evitando assim que a lama tomasse conta do terreno conforme as pessoas fossem pisando e dançando, já que dias antes havia chovido muito na cidade e o chão não estava nas melhores condições. Por outro lado o sistema de som deixou a desejar, estava baixo e sofrendo fortes interferências dos outros palcos nos breaks das músicas, o que acredito que tenha prejudicado muito a experiência das pessoas que passaram a festa nessa pista.

    Pouco após as 22:00 nos dirigimos ao palco Cream Arena, para acompanhar a apresentação de Hernan Cattaneo, que é um dos artistas mais requisitados e elogiados pelos seus conterrâneos. Infelizmente não conseguimos nem entrar de baixo da tenda devido a superlotação, foi o momento que mais reuniu pessoas em uma pista, ficamos alguns minutos do lado de fora e acabamos optando por Mano Le Tough, que estava tocando na Enter. Apesar de o público ter gostado, não é exatamente o tipo de som que me agrada. Foi um set com boas mixagens, mas muitas oscilações na seleção de músicas.

     

    Próximo às 23:15 Marcel Dettmann já estava assumindo o controle da festa, alguns minutos antes do que era previsto, nos presenteando assim com alguns minutos a mais de apresentação. Ele é um dos nomes de maior destaques atualmente quando o assunto é techno, tem feito parte dos line-ups dos melhores festivais focados no estilo, além de manter residência no Berghain, um dos clubes mais respeitados do mundo. Nos primeiros minutos de set o clima berlinês já se espalhava pela pista, já no começo fomos agraciados com “Pastaboys feat. Osunlade – Deep Musique (Trus’me Spritz Mix)“, em meio a uma sequência de músicas que variavam de um techno pesado para momentos de melodias marcantes, como em “Scuba – Black On Black (Len Faki Goes Black Remix)” até alguns picos mais agressivos, como no recente lançamento “Vladimir Dubyshkin – Hair Like String, Like A Harp“, que saiu pela gravadora TRIP de Nina Kraviz. Marcel Dettmann foi construindo um set com uma conexão de diferentes ideias, mas que não deixava de lado a característica da sua linha musical. Nos momentos finais, ainda foi possível ouvir “Lewis Fautzi, Nuklear Default – Anti-Cake“, concluindo assim a sua apresentação e tornando-se o maior destaque da noite.

    Enquanto Matador iniciava sua apresentação, a deslocação de pessoas de outras pistas para a Enter aumentou bastante, fato esse que acabou dificultando a movimentação dentro da pista. Apesar de não ter um live muito dinâmico, é um artista bastante admirado pelos argentinos e animou bastante a pista, misturando alguns de seus lançamentos com algumas faixas já bastante conhecidas como “Svinx“.

    Chegando à pista Cocoon vimos Sven Vath iniciando o seu trabalho. Mesmo estando pelo quinto ano consecutivo na line-up do festival, papa Sven é um artista muito versátil e com um amplo repertório, que acaba normalmente surpreendendo em suas apresentações. Abrindo com “Inner City – Till We Meet Again (Carl Craig Remix)“, Vath começou a construir a sua história, que mesclava bons lançamentos da Cocoon, como “Daniel Stefanik – Twilight Zone“, até músicas que causaram grandes explosões na pista, como “Gary Beck – Leo“. Uma de suas características fundamentais e que acrescentam muito no desenvolvimento de seu set é o fato de trazer um pouco das história do house, tocando boas músicas old schools, como fez dessa vez com “Lil Louis – French Kiss“. Assim como esperado, fez uma das melhores atuações do evento, com excelentes mixagens e um conteúdo musical rico.

     

    Quando chegamos à Enter para a última apresentação da noite ela já havia começado. Richie Hawtin seguiu a linha de techno característica dos seus últimos tempos, o que manteve a pista animada pelas suas duas horas de set. Vimos bons momentos como quando “James Hopkins – Trending (Fhaken Remix)” e “Peppelino – Emirates (Poty Remix)” foram tocadas, porém, ficou aquela sensação de que alguém com a bagagem e talento de Richie tem potencial para apresentar muito mais – vide suas apresentações em um passado não muito distante. 

    Apesar de ter uma line-up sem muitas variações fazendo um comparativo com os últimos anos e também pecar em alguns pontos, o festival manteve sua força, trazendo ao público uma sequência de artistas de grande expressão internacional e fez assim, mais uma vez, uma ótima festa. Uma boa opção para nós brasileiros curtir um evento que carrega o nome de um dos maiores festivais do mundo, em um país vizinho aonde o amor à música eletrônica está disseminado.

  • Yellow fomenta a cena independente da Grande Curitiba com Encontro neste sábado

    Neste ano o formato de Encontro realizado pela Yellow completou 10 anos e teve, de fato, um de seus mais brilhantes anos. Nascido dentro da Fnac em 2005, seu propósito sempre foi reunir pessoas envolvidas com os bastidores da cena eletrônica para que estas troquem experiências e ideias, visando um melhor resultado na busca de objetivos em comum. Em 2015 o Encontro fez sua maior tour, sendo realizado em três filiais da Fnac (Curitiba, São Paulo e Brasília), além de duas edições independentes: uma em Ponta Grossa e outra em Almirante Tamandaré, que acontece no próximo sábado.

    O Encontro de Almirante Tamandaré pode ser entendido como uma edição complementar ao Encontro Fnac Curitiba, pois como a edição da capital acaba assumindo o perfil de “edição nacional”, por sua tradição e grande exposição, a cena independente local acaba ficando sem os benefícios sentidos nas praças aonde ele assumiu o perfil mais regional. Pensando nisso, a curadoria escolheu uma cidade da região metropolitana para sediar este Encontro, que se dividirá em três painéis:

    15h00 – Como a cultura eletrônica pode obter representatividade fora das capitais?

    Nas capitais a cultura eletrônica já possui certa aceitação por parte da sociedade, o que permitiu que as empresas e coletivos ligados à ela se proliferassem na última década. Nas cidades menores, no entanto, o desafio ainda é grande, por isso convidamos os heróis que assumiram praticamente sozinhos a responsabilidade de levantar a bandeira desta cena alternativa em suas respectivas praças. Na mesa redonda teremos G.Felix, Guilherme Cujary e Fábio Jurevitz representando a Grande Curitiba, Edson Richard vindo do litoral, Sam Pierry dos Campos Gerais e Alex Sevela e Michael Caliman do norte de Santa Catarina. A mediação fica por minha conta, que além de estar à frente de um coletivo sediado em Itajaí, comecei minha carreira na pequena Palmeira.

    16h20 – A importância e a missão das festas, selos e artistas independentes.

    Curitiba viu em 2015 um grande avanço em sua cena independente. Vimos o nascimento da festa Reddoma, realização do coletivo Gold Dome em parceria com outro grupo, que está introduzindo na cidade uma nova forma de viver a arte, enquanto a tradicional Hot Legs alcançou grandes voos fora do estado e o “semi-forasteiro” detroitbr lançou seu braço paranaense. Paralelo a isso, a Laguna Music cresceu e os selos ToneMind e Music Nerds revelaram diversos produtores locais. Neste painel, que ainda está com a mediação pendente, todos discutirão formas de se posicionar no mercado de maneira equilibrada e eficaz, para que haja ainda mais interação entre os realizadores da cidade.

    17h40 – Vida de Artista.

    O terceiro painel sai dos bastidores da realização de eventos e se volta aos artistas, que são quem de fato cria a história da cultura eletrônica. Nele o público e o mediador Christ irão tentar extrair de três nomes já consagrados as suas experiências, entendendo um pouco da cabeça do DJ e do produtor em meio ao cenário musical. Na mesa redonda, Roma Dias representando a cena trance, Renan Mendes a house/nu-disco e Malik Mustache o g-house.

    Programação musical

    Os dois vencedores do Circuito Techno & House 2015 se apresentarão no evento. O campeão Royce Laroca toca às 14h, durante o credenciamento, enquanto o vice-campeão Soney assume o fechamento, às 19h.

    Serviço

    Data: sábado, 5 de dezembro de 2015
    Hora: 14:00 (início do credenciamento)
    Local: Centro da Juventude de Almirante Tamandaré – R. Dep. Max Rosenmann, 100
    Evento oficial: https://www.facebook.com/events/1677199135825892/