No dia 14 de novembro aconteceu em Buenos Aires a edição de 15º aniversário do Creamfields na cidade, sendo um dos mais tradicionais da América do Sul. Adotando a mesma lógica de palcos principais das últimas edições, esse ano a festa foi composta por cinco palcos, entre eles os mais interessantes para amantes de techno: Cocoon e Enter. A maior parte das atrações já era conhecida do público argentino, sendo Marcel Dettmann a grande novidade da noite. Esse ano o local escolhido para a realização do evento foi a Reserva Ecológica Costanera Sur, um belo lugar com uma linda paisagem próximo ao centro da metrópole, assim como o antigo lugar, que apesar de maior foi substituído por conta de algumas críticas foram feitas em relação à segurança, por estar localizado numa região bastante perigosa da cidade.
Chegamos ao local da festa por volta das 16:30, meia hora depois do que deveria ser o início da festa, porém, os portões ainda estavam fechados. O fato ocasionou uma grande fila e uma longa espera, pois apenas às 18:00 liberaram a entrada do público. Apesar do acúmulo de pessoas devido ao atraso, o sistema de entrada deles estava muito bem organizado e em poucos minutos já estávamos dentro da festa. Assim que conseguimos entrar, já havia um bar logo à frente com a tabela de preços, que na primeira vista já nos deixou assustados. A água e o refrigerante estavam custando 40 pesos, a cerveja 100 pesos e o combo de dose de vodka com energético 80 pesos, valores esses que se convertidos em real, seriam de aproximadamente 15 reais a água, 38 reais a cerveja e 30 reais o combo, inviabilizando assim o alto consumo de bebidas no geral.
Nossa primeira passagem foi pela pista Enter, chegamos a tempo de acompanhar uma parte do set de Brian Gros, jovem argentino que teve alguns EP’s lançados pela Minus nos últimos dois anos e que é uma das promessas nesse estilo. Estava fazendo um bom warm-up enquanto Jonny White já se preparava para entrar. A primeira grande atração que viria a tocar era Art Department. Eu não havia visto nenhuma apresentação após a separação de Kenny Glasgow e como não acompanhava o projeto há muito tempo, a ideia apresentada seria, provavelmente, diferente das outra vezes que presenciei, principalmente pelo fato de não haver mais a influência de seu ex-companheiro. Após alguns minutos de set fiquei positivamente surpreso, pois estava puxando para uma linha de techno mais séria e um pouco desacelerada, além de estar mixando algumas músicas com tocadiscos. Foi nesse momento que a pista começou a ficar mais cheia e ganhar ânimo.
Chegando próximo as 20:45 nos dirigimos para o palco principal para a apresentação de Barem. Esse ano, para a surpresa de alguns, ele anunciou seu desligamento da Minus, para abrir seu próprio selo em parceria com seu amigo Alexis Cabrera, que se chama Fun Records. Por isso e por todo seu recente destaque no cenário internacional ele recebeu a missão de se apresentar no palco principal do evento, após três edições seguidas tocando no palco da Enter. Com muita experiência, uma conexão única com o público de seu país e uma proposta de construção musical partindo principalmente do tech house, obteve uma ótima resposta da pista. Durante uma hora e meia conseguiu fazer um excelente set, sendo um dos destaques da noite. Falando sobre a estrutura do main stage, importante observar que foi montado uma espécie de deck consideravelmente grande na pista, evitando assim que a lama tomasse conta do terreno conforme as pessoas fossem pisando e dançando, já que dias antes havia chovido muito na cidade e o chão não estava nas melhores condições. Por outro lado o sistema de som deixou a desejar, estava baixo e sofrendo fortes interferências dos outros palcos nos breaks das músicas, o que acredito que tenha prejudicado muito a experiência das pessoas que passaram a festa nessa pista.
Pouco após as 22:00 nos dirigimos ao palco Cream Arena, para acompanhar a apresentação de Hernan Cattaneo, que é um dos artistas mais requisitados e elogiados pelos seus conterrâneos. Infelizmente não conseguimos nem entrar de baixo da tenda devido a superlotação, foi o momento que mais reuniu pessoas em uma pista, ficamos alguns minutos do lado de fora e acabamos optando por Mano Le Tough, que estava tocando na Enter. Apesar de o público ter gostado, não é exatamente o tipo de som que me agrada. Foi um set com boas mixagens, mas muitas oscilações na seleção de músicas.
Próximo às 23:15 Marcel Dettmann já estava assumindo o controle da festa, alguns minutos antes do que era previsto, nos presenteando assim com alguns minutos a mais de apresentação. Ele é um dos nomes de maior destaques atualmente quando o assunto é techno, tem feito parte dos line-ups dos melhores festivais focados no estilo, além de manter residência no Berghain, um dos clubes mais respeitados do mundo. Nos primeiros minutos de set o clima berlinês já se espalhava pela pista, já no começo fomos agraciados com “Pastaboys feat. Osunlade – Deep Musique (Trus’me Spritz Mix)“, em meio a uma sequência de músicas que variavam de um techno pesado para momentos de melodias marcantes, como em “Scuba – Black On Black (Len Faki Goes Black Remix)” até alguns picos mais agressivos, como no recente lançamento “Vladimir Dubyshkin – Hair Like String, Like A Harp“, que saiu pela gravadora TRIP de Nina Kraviz. Marcel Dettmann foi construindo um set com uma conexão de diferentes ideias, mas que não deixava de lado a característica da sua linha musical. Nos momentos finais, ainda foi possível ouvir “Lewis Fautzi, Nuklear Default – Anti-Cake“, concluindo assim a sua apresentação e tornando-se o maior destaque da noite.
Enquanto Matador iniciava sua apresentação, a deslocação de pessoas de outras pistas para a Enter aumentou bastante, fato esse que acabou dificultando a movimentação dentro da pista. Apesar de não ter um live muito dinâmico, é um artista bastante admirado pelos argentinos e animou bastante a pista, misturando alguns de seus lançamentos com algumas faixas já bastante conhecidas como “Svinx“.
Chegando à pista Cocoon vimos Sven Vath iniciando o seu trabalho. Mesmo estando pelo quinto ano consecutivo na line-up do festival, papa Sven é um artista muito versátil e com um amplo repertório, que acaba normalmente surpreendendo em suas apresentações. Abrindo com “Inner City – Till We Meet Again (Carl Craig Remix)“, Vath começou a construir a sua história, que mesclava bons lançamentos da Cocoon, como “Daniel Stefanik – Twilight Zone“, até músicas que causaram grandes explosões na pista, como “Gary Beck – Leo“. Uma de suas características fundamentais e que acrescentam muito no desenvolvimento de seu set é o fato de trazer um pouco das história do house, tocando boas músicas old schools, como fez dessa vez com “Lil Louis – French Kiss“. Assim como esperado, fez uma das melhores atuações do evento, com excelentes mixagens e um conteúdo musical rico.
Quando chegamos à Enter para a última apresentação da noite ela já havia começado. Richie Hawtin seguiu a linha de techno característica dos seus últimos tempos, o que manteve a pista animada pelas suas duas horas de set. Vimos bons momentos como quando “James Hopkins – Trending (Fhaken Remix)” e “Peppelino – Emirates (Poty Remix)” foram tocadas, porém, ficou aquela sensação de que alguém com a bagagem e talento de Richie tem potencial para apresentar muito mais – vide suas apresentações em um passado não muito distante.
Apesar de ter uma line-up sem muitas variações fazendo um comparativo com os últimos anos e também pecar em alguns pontos, o festival manteve sua força, trazendo ao público uma sequência de artistas de grande expressão internacional e fez assim, mais uma vez, uma ótima festa. Uma boa opção para nós brasileiros curtir um evento que carrega o nome de um dos maiores festivais do mundo, em um país vizinho aonde o amor à música eletrônica está disseminado.