Autor: Rodrigo Ribeiro

  • Noite que encerrou a temporada no Warung sai como uma das festas mais elogiadas do verão

    Depois de uma ótima programação de verão com uma grande diversidade de artistas – algumas importantes estreias e outros já bem conhecidos pelo público local – o Warung veio para sua última noite de verão com um line-up bastante interessante que trouxe como atrações principais da noite Mind Against e Nicole Moudaber.

    A dupla de italianos do Mind Against arrancou elogios já na sua primeira passagem pelo clube e dessa vez a expectativa pela apresentação deles era visivelmente maior. O projeto que nasceu em 2011 tem ganhado espaço rapidamente e lançado faixas de sucesso por importantes selos como Cocoon, Kompakt e Life & Death.

    Com a missão de fechar o Inside, Nicole veio como a grande novidade da noite. Nascida na Nigéria, teve o seu primeiro contato com a música já na cultura local, conhecida pelos ritmos tribais hipnóticos. Sua carreira na música eletrônica iniciou de forma mais contundente após se mudar para Londes, onde trabalhou como promoter. Após lançar sua festa chamada “Soundworx”, seu interesse em sair dos bastidores e fazer parte das pick-ups foi aumentando. Através de sua dedicação, suas habilidades e o seu conhecimento musical foram se expandindo, mas foi com a ajuda de seu amigo Carl Cox que seu nome ganhou notoriedade. Nicole carrega consigo uma grande experiência, já fez apresentações em festivais como Time Warp, Awakenings e ADE. Como fundadora da gravadora Mood, ainda promove eventos ao redor do mundo, como por exemplo, a In the Mood que já aterrissou em festivais como o BPM Festival.

    Voltando a narrativa para a noite de encerramento da temporada, alguns pequenos contratempos marcaram o início da nossa jornada. Acabamos passamos algum tempo presos no congestionamento na via de acesso ao clube e chegamos próximo a uma hora da madrugada. Esse Warung também foi marcado pelo início da proibição do estacionamento na extensão da rua em frente à casa durante o período das 22h às 6h. A medida culminou na melhora significativa do trânsito e também propiciou a eliminação natural de boa parte das pessoas mal intencionadas que acabavam trazendo transtornos aos frequentadores da casa no trajeto até o templo. Uma mudança simples, porém, eficiente.

    Já no Inside, Mind Against estava recém iniciando sua apresentação. Nos primeiros minutos a predominância de elementos bastante melódicos, que é uma das características do duo, já surtia efeito na pista. À medida em que o set era construído, o bassline das músicas ficavam mais intensos.

    Suas transições mesclavam entre o house e techno, passando por algumas faixas como “Audion – Mouth to Mouth”, que causou euforia no público naquele momento. O ponto mais alto da apresentação, foi quando tocaram North Star de Tale Of Us, dupla essa, que possui bastante semelhança na forma de expressão musical. Enquanto os minutos finais se aproximavam, Nicole já estava se preparando para assumir os trabalhos. Com uma boa apresentação e bastante aplaudidos, os irmãos entregaram a pista à ela.

    Naquele momento, a ansiedade e expectativa em torno da apresentação dela, para mim, era enorme. Na cabine estava presente um dos nomes de notável destaque na atualidade quando o assunto é Techno, no momento mais alto da sua carreira até então. Vê-la pessoalmente com seu super estilo ajudou a deixar aquele momento mais empolgante.  Eu já havia apreciado em casa algumas apresentações dela em outras festas e sabia que se tratava de uma artista versátil e que podia se adaptar a qualquer festa e ambiente, portanto o que ela tinha reservado para essa noite ainda era uma incógnita.

    Nos primeiros instantes da primeira música, uma nova atmosfera tinha se espalhado pelo Inside e sem muita delonga, já causou a primeira explosão na pista. Nicole foi construindo sua história passando predominantemente por texturas obscuras, com um bassline pesado e batidas marcantes. Conforme suas músicas iam se encaixando, era possível perceber que a sintonia entre ela e a pista ia aumentando enquanto ela ficava cada vez mais à vontade. Durante as duas primeiras horas prevaleceu um techno com uma característica séria e com intensas respostas da pista com gritos. 

    Na sua última hora, trouxe um pouco de traços melódicos para sua construção e quando o sol já estava aparecendo tocou “Recondite – Cleric”. Com um sorriso no rosto e uma expressão de quem estava gostando de estar ali, ela finalizou seu set tocando “Old Soul ‘Young But Not New’” de sua autoria, que por sinal, se encaixou perfeitamente para esse momento. 

    Um fato interessante a respeito da vida dela é que antes de iniciar sua carreira diretamente ligada à música, ela estudou ciências sociais e sempre foi uma militante na luta contra as desigualdades, inclusive, participa ativamente nos dias de hoje de um projeto chamado Lower East Side Girls Club. O projeto tem como objetivo transformar jovens garotas de baixa renda em líderes éticos, empresariais e ambientais. Um dos programas do LESGC é a música, no qual a Nicole é responsável por, utilizando as palavras dela, “Ensinar e inspirar as crianças que querem estar na magia do mundo da música. Sim, apenas na magia…”. Hoje na sua carreira como DJ, ela consegue fazer exatamente o que sempre lutou: promover, nos mais diferentes cantos do mundo, a união entre as pessoas através da música.

    Fotos – Warung 05/03: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung)

  • Creamfields comemora 15 anos em Buenos Aires

    No dia 14 de novembro aconteceu em Buenos Aires a edição de 15º aniversário do Creamfields na cidade, sendo um dos mais tradicionais da América do Sul. Adotando a mesma lógica de palcos principais das últimas edições, esse ano a festa foi composta por cinco palcos, entre eles os mais interessantes para amantes de techno: Cocoon e Enter. A maior parte das atrações já era conhecida do público argentino, sendo Marcel Dettmann a grande novidade da noite. Esse ano o local escolhido para a realização do evento foi a Reserva Ecológica Costanera Sur, um belo lugar com uma linda paisagem próximo ao centro da metrópole, assim como o antigo lugar, que apesar de maior foi substituído por conta de algumas críticas foram feitas em relação à segurança, por estar localizado numa região bastante perigosa da cidade. 

    Chegamos ao local da festa por volta das 16:30, meia hora depois do que deveria ser o início da festa, porém, os portões ainda estavam fechados. O fato ocasionou uma grande fila e uma longa espera, pois apenas às 18:00 liberaram a entrada do público. Apesar do acúmulo de pessoas devido ao atraso, o sistema de entrada deles estava muito bem organizado e em poucos minutos já estávamos dentro da festa. Assim que conseguimos entrar, já havia um bar logo à frente com a tabela de preços, que na primeira vista já nos deixou assustados. A água e o refrigerante estavam custando 40 pesos, a cerveja 100 pesos e o combo de dose de vodka com energético 80 pesos, valores esses que se convertidos em real, seriam de aproximadamente 15 reais a água, 38 reais a cerveja e 30 reais o combo, inviabilizando assim o alto consumo de bebidas no geral.

    Nossa primeira passagem foi pela pista Enter, chegamos a tempo de acompanhar uma parte do set de Brian Gros, jovem argentino que teve alguns EP’s lançados pela Minus nos últimos dois anos e que é uma das promessas nesse estilo. Estava fazendo um bom warm-up enquanto Jonny White já se preparava para entrar. A primeira grande atração que viria a tocar era Art Department. Eu não havia visto nenhuma apresentação após a separação de Kenny Glasgow e como não acompanhava o projeto há muito tempo, a ideia apresentada seria, provavelmente, diferente das outra vezes que presenciei, principalmente pelo fato de não haver mais a influência de seu ex-companheiro. Após alguns minutos de set fiquei positivamente surpreso, pois estava puxando para uma linha de techno mais séria e um pouco desacelerada, além de estar mixando algumas músicas com tocadiscos. Foi nesse momento que a pista começou a ficar mais cheia e ganhar ânimo.

    Chegando próximo as 20:45 nos dirigimos para o palco principal para a apresentação de Barem. Esse ano, para a surpresa de alguns, ele anunciou seu desligamento da Minus, para abrir seu próprio selo em parceria com seu amigo Alexis Cabrera, que se chama Fun Records. Por isso e por todo seu recente destaque no cenário internacional ele recebeu a missão de se apresentar no palco principal do evento, após três edições seguidas tocando no palco da Enter. Com muita experiência, uma conexão única com o público de seu país e uma proposta de construção musical partindo principalmente do tech house, obteve uma ótima resposta da pista. Durante uma hora e meia conseguiu fazer um excelente set, sendo um dos destaques da noite. Falando sobre a estrutura do main stage, importante observar que foi montado uma espécie de deck consideravelmente grande na pista, evitando assim que a lama tomasse conta do terreno conforme as pessoas fossem pisando e dançando, já que dias antes havia chovido muito na cidade e o chão não estava nas melhores condições. Por outro lado o sistema de som deixou a desejar, estava baixo e sofrendo fortes interferências dos outros palcos nos breaks das músicas, o que acredito que tenha prejudicado muito a experiência das pessoas que passaram a festa nessa pista.

    Pouco após as 22:00 nos dirigimos ao palco Cream Arena, para acompanhar a apresentação de Hernan Cattaneo, que é um dos artistas mais requisitados e elogiados pelos seus conterrâneos. Infelizmente não conseguimos nem entrar de baixo da tenda devido a superlotação, foi o momento que mais reuniu pessoas em uma pista, ficamos alguns minutos do lado de fora e acabamos optando por Mano Le Tough, que estava tocando na Enter. Apesar de o público ter gostado, não é exatamente o tipo de som que me agrada. Foi um set com boas mixagens, mas muitas oscilações na seleção de músicas.

     

    Próximo às 23:15 Marcel Dettmann já estava assumindo o controle da festa, alguns minutos antes do que era previsto, nos presenteando assim com alguns minutos a mais de apresentação. Ele é um dos nomes de maior destaques atualmente quando o assunto é techno, tem feito parte dos line-ups dos melhores festivais focados no estilo, além de manter residência no Berghain, um dos clubes mais respeitados do mundo. Nos primeiros minutos de set o clima berlinês já se espalhava pela pista, já no começo fomos agraciados com “Pastaboys feat. Osunlade – Deep Musique (Trus’me Spritz Mix)“, em meio a uma sequência de músicas que variavam de um techno pesado para momentos de melodias marcantes, como em “Scuba – Black On Black (Len Faki Goes Black Remix)” até alguns picos mais agressivos, como no recente lançamento “Vladimir Dubyshkin – Hair Like String, Like A Harp“, que saiu pela gravadora TRIP de Nina Kraviz. Marcel Dettmann foi construindo um set com uma conexão de diferentes ideias, mas que não deixava de lado a característica da sua linha musical. Nos momentos finais, ainda foi possível ouvir “Lewis Fautzi, Nuklear Default – Anti-Cake“, concluindo assim a sua apresentação e tornando-se o maior destaque da noite.

    Enquanto Matador iniciava sua apresentação, a deslocação de pessoas de outras pistas para a Enter aumentou bastante, fato esse que acabou dificultando a movimentação dentro da pista. Apesar de não ter um live muito dinâmico, é um artista bastante admirado pelos argentinos e animou bastante a pista, misturando alguns de seus lançamentos com algumas faixas já bastante conhecidas como “Svinx“.

    Chegando à pista Cocoon vimos Sven Vath iniciando o seu trabalho. Mesmo estando pelo quinto ano consecutivo na line-up do festival, papa Sven é um artista muito versátil e com um amplo repertório, que acaba normalmente surpreendendo em suas apresentações. Abrindo com “Inner City – Till We Meet Again (Carl Craig Remix)“, Vath começou a construir a sua história, que mesclava bons lançamentos da Cocoon, como “Daniel Stefanik – Twilight Zone“, até músicas que causaram grandes explosões na pista, como “Gary Beck – Leo“. Uma de suas características fundamentais e que acrescentam muito no desenvolvimento de seu set é o fato de trazer um pouco das história do house, tocando boas músicas old schools, como fez dessa vez com “Lil Louis – French Kiss“. Assim como esperado, fez uma das melhores atuações do evento, com excelentes mixagens e um conteúdo musical rico.

     

    Quando chegamos à Enter para a última apresentação da noite ela já havia começado. Richie Hawtin seguiu a linha de techno característica dos seus últimos tempos, o que manteve a pista animada pelas suas duas horas de set. Vimos bons momentos como quando “James Hopkins – Trending (Fhaken Remix)” e “Peppelino – Emirates (Poty Remix)” foram tocadas, porém, ficou aquela sensação de que alguém com a bagagem e talento de Richie tem potencial para apresentar muito mais – vide suas apresentações em um passado não muito distante. 

    Apesar de ter uma line-up sem muitas variações fazendo um comparativo com os últimos anos e também pecar em alguns pontos, o festival manteve sua força, trazendo ao público uma sequência de artistas de grande expressão internacional e fez assim, mais uma vez, uma ótima festa. Uma boa opção para nós brasileiros curtir um evento que carrega o nome de um dos maiores festivais do mundo, em um país vizinho aonde o amor à música eletrônica está disseminado.