Warung Beach Club: 13 anos de história

Voltemos no tempo até o ano de 2002, época em que a seleção brasileira conquistava o invejável título de pentacampeão mundial de futebol, a cédula de 20 reais começava a circular pelo país e o dólar chegava pela primeira vez a R$ 4,00. Naquele mesmo período a Praia Brava havia sido escolhida como lar de um dos beach clubs mais charmosos do mundo. O “templo da música eletrônica”, como hoje é conhecido, se tornaria o principal cenário de noites inesquecíveis. Durante muito tempo diversos artistas tiveram a oportunidade de contar um pouco de sua história na cobiçada cabine do Warung, que teve logo na inauguração duas atrações de peso: Timo Mass e Loco Dice.

Um ano se passou desde a inauguração e nomes como DJ Marky, Lee Burridge e até mesmo Rica Amaral foram destaques nesta fase. Para celebrar o primeiro aniversário uma pista nova foi implementada: nascia o “Warung Garden”, com uma proposta diferente e complementar à do Main Room. O line-up da festa foi composto por Danny Howells e Anderson Noise no primeiro dia e Chris Liberator, Dave The Drummer e Perplex no segundo dia. Com o passar dos anos tanto a estrutura como o direcionamento artístico foram sendo moldados, construído a imagem que o club tem hoje.

Em seu terceiro ano de vida veio o reconhecimento internacional! O templo foi condecorado como um dos 3 melhores clubes do mundo pela revista britânica Mixmag. Neste mesmo ano, ainda em janeiro, Hernan Cattaneo e Marco Carola fizeram suas estreias. Vale ressaltar que durante seus anos iniciais o Warung não possuía camarotes, os espaços hoje disponíveis para reserva eram lounges de relaxamento e descanso. No ano subsequente o clube mudaria todos os paradigmas durante o carnaval com duas apresentações históricas. Deep Dish e Sasha escreveriam juntos um dos capítulos mais extraordinários do templo. Para o aniversário de quatro anos o escolhido para comandar as celebrações foi o canadense Luke Fair, até então revelação da gravadora Bedrock.

Mais um ano havia se encerrado e o verão de 2007 já estava em alta, logo em janeiro a festa Circo Loco (Ibiza) aterrissou no templo, sendo comandada por Luciano e Tania Vulcano. O carnaval reservaria grandes noites recheadas de estreias e retornos, sendo a noite exclusiva de Pedro e Raresh que, junto a Rhadoo formam o saudoso trio romeno [a.rpia.r], uma das mais memoráveis. Neste ano também foi feita uma festa fora do clube, com Fatboy Slim e Layo&Bushwacka! Deep Dish retornava para mais uma épica apresentação e Hernan Cattaneo encerraria com chave ouro o período das festividades carnavalescas.

Encantando noites com diversos artistas, o Warung já havia moldado sua própria identidade e já se consagrava como grande o grande expoente da noite catarinense. Seu quinto aniversário foi marcado pela presença de Dubfire, que fez um dos sets mais longos da história da casa. Para encerrar aquele ano, 16 Bit Lolitas foi quem conduziu mais uma noite de virada. Partindo para 2008 com novas energias, uma dobradinha seria fundamental para marcar o início daquele ano: Deep Dish faria uma apresentação dupla durante o carnaval deixando toda a cena eletrônica do sul do país extasiada! Até hoje as lembranças daquelas duas noites ecoam pelas memórias de quem as viveu. Em setembro Richie Hawtin era quem começava a escrever sua história no universo do Warung: aclamado por muitos como o criador do minimal techno, ele apresentou naquela noite sonoridades que moldariam novos pensamentos a respeito de música eletrônica. Outro DJ que foi um divisor de águas naquele ano é Laurent Garnier, convidado principal para uma das noites de comemoração do aniversário de 6 anos.

No fim de dezembro, o duo alemão D-Nox & Beckers fazia sua estreia e dividia a pista com o uruguaiano Gustavo Bravetti. Paralelo a isso o clube fez campanha para angariar suprimentos para às vítimas das chuvas que assolaram a cidade de Itajaí no mês de novembro. Finalizando o ciclo de festas daquele ano, o argentino Hernan Cattaneo foi responsável pelo ótimo set de réveillon. A programação de verão para o ano de 2009 foi agitada, Richie Hawtin, Mark Knight, Sebastian Ingrosso, Chris Lake e até mesmo Miss Mine foram alguns dos DJs que se apresentaram nos dois primeiros meses. Para o carnaval não foram economizados esforços, John Digweed, Dubfire, Sven Väth e Life Is a Loop eram os headliners. O inverno ficou marcado pelo retorno de Sasha com seu álbum Invol2ver, até hoje tido como uma de suas melhores compilações.

Se passaram 7 anos, o Warung Beach Club precisava mais uma vez celebrar a arte, a boa música e comemorar mais um ano de vida, para isso escalaram ninguém menos que Booka Shade. Infelizmente somente Arno Kammermeier tocaria naquela ocasião, pois Walter Merziger estava doente. Sendo assim, um curto set de apenas 3 horas foi executado, o que de certa forma não agradou a todos, tendo em vista que DJs como Dubfire e Sasha nunca haviam tocado menos de 6 horas até então. Fabricio Peçanha foi quem assumiu as pick-ups e continuou a festa até 10:30 da manhã.

Dando início ao cronograma de 2010, Gui Boratto e Michael Mayer se apresentaram e incendiaram o primeiro dia de janeiro. O carnaval seria regido pelas pratas da casa Life Is a Loop, Sharam e Luciano que retornava ao clube após um longo hiato. A baixa temporada ficaria marcada pela presença de Danny Howells que infelizmente nunca mais retornaria ao clube. Seguindo para a semana da música eletrônica, Gui Boratto, Rick Ryan e Richie Hawtin formavam o time da independência. Dessa vez quem teria a honra de cultuar uma noite única de aniversário seria de Alexander Coe, mais conhecido como Sasha. Depois de seu lendário set de mais de 10 horas em 2006, o inglês fez uma passagem não muito prazerosa e acabou na “geladeira” por um tempo. Hernan Cattaneo comandaria no dia 29 de dezembro o pré réveillon e se firmaria como uma das estrelas máximas do templo.

Finalmente chegamos ao tão falado ano de 2011. O primeiro mês do ano sempre é um bom momento para se visitar o Warung e ter novas experiências, não seria diferente naquela temporada. A começar por Michael Mayer e Gui Boratto que se apresentaram na primeira terça-feira do ano. Logo em seguida no dia 7 Barem e Richie Hawtin protagonizaram a tão falada “noite do chinelo”, mas não se pode deixar de mencionar o final épico com Yeke-Yeke. Sete dias depois quem retornava era Laurent Garnier que infelizmente também fazia sua última aparição por aqui.

No fim daquele mês Ricardo Villalobos e Robert Babicz enfeitiçaram a festa que duraria apenas 17 horas! Diversas histórias rondam está noite até os dias atuais, perda de voo e jato fretado são apenas algumas, o fato principal é que a estreia de Ricardo aconteceu às 6 da manhã quando todo mundo já estava desacreditado de que sua presença seria de fato consumada. Ele nos presenteou com uma festa que começou no main e terminou no Garden. Chilenos, argentinos e brasileiros partilhavam de uma única realidade: a realidade de Ricardo, música. O carnaval daquele ano também reservaria outro momento ímpar, Dubfire e Carlo Lio juntos no garden em um b2b de tirar o fôlego.

A programação de páscoa foi regida por Guy Gerber e Sharam. Gerber fez sua magnifica estreia e contagiou a todos com toda a sua genialidade.

Em agosto daquele ano, a gravadora Dynamic escolheu o templo para celebrar os 5 anos de sua existência, trazendo Solomun, H.O.S.H e Stimming. Em setembro, a tão aguardada semana da música eletrônica ficou marcada pelo long set de Dubfire, que se iniciou no main e terminou no garden às tantas horas da tarde. Passando para outubro mais uma estreia, que deixou saudades: Trentemoller.

O aniversário de 9 anos trouxe John Digweed, Loco Dice, Jamie Jones e Damian Lazarus. Mas foi em dezembro que todas as atenções se voltaram para a Praia Brava, ninguém menos que Carl Cox pisaria no clube mostrando todo o seu arsenal house e techno! Neste fim de ano a primeira edição da revista Warung foi publicada. O templo se dirigia para o seu décimo aniversário, ao longo do caminho muito autos e baixos aconteceram. O público mudou, a música e o foco do clube também mudaram. As comemorações de 10 anos de vida começaram em janeiro com Ricardo Villalobos e Marco Carola. Seguiram em diante para o carnaval com Dubfire, Guy Gerber, Solomun e Soul Clap & Wolf + Lamb.

A programação de baixa temporada foi contemplada pela presença do papa Sven Väth que fez um ‘simplório’ set de pouco mais de 3 horas. Importante ressaltar que neste período já não era mais permitido festas até altas horas do dia. Seth Troxler tocava pela primeira vez em maio e seria um dos principais convidados para o aniversário de 10 anos. Celebrar uma década de vida não é para qualquer casa, o time escolhido confirmou que uma nova era estava começando e os tempo de ouro haviam realmente chegado ao fim.

O ano de 2013 foi marcado pela bolha do deep house, gênero que aos poucos se tornaria uma epidemia para alguns e um amor de primavera para outros. Aquele carnaval seria um “escape” com Richie Hawtin, Seth Troxler e Dubfire, que fez um dos sets mais pesados para a época.

Em outubro, o showcase da gravadora Items e Things abalou todas as estruturas do templo trazendo Troy Pierce, Marc Houle e Magda. Danee foi responsável por um dos melhores warm-ups daquele ano. Pulando para o aniversário, Dubfire novamente, com a companhia de Nastia, Guy Gerber, Seth Troxler e Pan-Pot.

Chegando em 2014, foi possível notar que não haviam tantas apostas quanto nos anos anteriores, a exceção foi a vinda de tINI, que conduziu a noite no estilo Desolat. O carnaval também reservava um grande nome: Ben Klock, figura constante em noites insanas no Berghain/Panorama Bar. Tida como a noite que fez o templo voltar as suas origens, o encerramento deste carnaval contou com Nina Kraviz tocando até às 9 horas da manhã e Innvervisions no outro stage

O inverno foi marcado por boas festas, como a noite em que Barem e Stimming supriram com louvor a falta de Solomun, o choque de realidade de Bonobo no Garden e o fabuloso retorno de Tale of Us, em um set de 4 horas no Main Room, que passou a se chamar Inside.

Para celebrar 12 anos de vida a festa de dois dias contou com 30 nomes, dentre eles Gaiser, que fez sua estreia junto de Hawtin, e Apollonia, que comandou o Garden durante a maior parte da noite. Na outra semana, o combo Maceo Plex, Sasha e Tale of Us levou o público à loucura, apesar dos sets curtos que cada um teve que apresentar. Mais um janeiro chegou, com uma mescla de artistas conhecidos e outros em ascensão. O carnaval foi de grande destaque para Loco Dice, que retornava ao clube depois de passar quase 3 anos ausente. Bella Sarris fez sua charmosa estreia e Marco Carola mais uma vez comandou com seu estilo italiano de ser.

Finalmente chegamos às comemorações de 13 anos, com a aguardadíssima a da estreia de Joseph Capriati. A expectativa para ver o baixinho era grande e tendo isso em vista, a curadoria lhe concedeu 3 horas de set. Renato Ratier foi quem fez as honras preparando a pista para o primeiro italiano da noite.

Joseph parecia um pouco tímido no início o que é totalmente compreensível, diante de um público como o do Warung. Em poucos minutos sua timidez foi embora, deixando toda a sua versatilidade aflorar. Usando e abusando de baixos, baterias e vocais construiu seu set de maneira sucinta, deixando espaço para seu conterrâneo Carola. Apostando em clássicos como Crazy Frog e até mesmo a música tema de Top Gear (antigo jogo de carros da Nintendo) mostrou porque seu nome sempre figura em grandes festivais como Awakenings e Time Warp. Se mostrando feliz com o resultado alcançado, finalizou seu set pontualmente às 3 da madrugada. Neste momento aproveitei para dar uma espiada no Garden.

HNQO era quem estava tocando, o curitibano passou por uma grande evolução musical desde a sua explosão com o selo Hot Creations em 2012, é notável que agora ele transita por novas sonoridades e fez um bom set. Paulo Bogoshian foi quem conduziu os trabalhos até a chegada do carismático Seth Troxler, destaque para a música, Howling – ‘Signs’ (Rødhåd Remix), usada no início de sua apresentação. É difícil mensurar algo sobre Troxler, ele simplesmente se reinventa a cada minuto, um verdadeiro camaleão dos palcos. Iniciou sua performance com uma versão acapela de Underground Resistance – Transition e, aos poucos, foi mostrando tudo o que sua case de vinis tinha para revelar. Transitando por house, dance e techno o fanfarrão, como é conhecido, se saiu bem até nas vezes em que a energia do Garden falhou.

Apostando sempre na veracidade dos clássicos a primeira bomba veio às 5 da madrugada, com Johnny Corporate – Sunday Shoutin (B Boys Shoutin Dub), que logo em seguida deu espaço para Kings of Tomorrow featuring Julie McKnight – Finally (Tom De Neef Club Mix). Perto do amanhecer outro momento ímpar, uma versão única de Dee Mac’s House of Funk Featuring Oliver Night Singing You Got To. Após isso me dirigi ao Inside para encontrar os amigos que lá estavam. Marco Carola já tinha hipnotizado a todos com seu estilo de música sem fim, era notável que todos dançavam conforme sua vontade e desejo. A pista já não se mostrava tão fervilhante quanto estava com Capriati, e ele parecia gostar disso. Como tem feito regularmente no fim de suas apresentações, finalizou a noite com Freak Like Me (Lee Walker Garage Edit) – DJ Deeon.

O Garden, como sempre, funcionou por alguns minutos a mais. Em um lindo gesto de solidariedade aos franceses, Troxler tocou Daft Punk – Revolution 909 e postou um vídeo com a música em sua página no Facebook. Imediatamente o vídeo se tornou um viral e, em menos de 24 horas, já tinha alcançado 100 mil visualizações. Infelizmente o vídeo foi removido pois muitas pessoas ainda estavam sensibilizadas com os ataques.

De 2002 a 2015 o Warung Beach Club se tornou um dos maiores diamantes do povo catarinense. Sempre pleno, nunca deixou de levantar a bandeira da música eletrônica durante estes treze anos. Feliz aniversário templo! Que venham mais anos de arte, vida, sabedoria, música e euforia!