Noite de Barem conta com consagração de talentos nacionais

Não é de agora que o Warung tem uma relação especial com os DJs argentinos, é bem verdade que o club sempre soube explorar muito bem, principalmente no final do ano, a vinda dos turistas hermanos em nossas praias de Santa Catarina, tanto é que tivemos duas das três ultimas datas do calendario reservadas para headliners do país vizinho. Em determinada época essa relação ficou tão estreita que o club teve entre seus residentes um dos expoentes da terra de Di Stéfano e Lionel Messi… Ricky Ryan figurou entre os nomes internacionais que mais se apresentaram na casa até hoje e marcou época com longsets além do amanhecer. Outros nomes importantes que já passaram por ali como Martin Garcia, Deep Mariano e Spitfire ainda hoje são lembrandos, recentemente novos ascendentes à cena global como Guti e Shall Ocin fizeram ótimas apresentações, porém depois de Hernan Cattaneo, o grande preferido da casa tem sido Mauricio Barembuem, ou simplesmente Barem.

Descorberto por Richie Hawtin, ele teve sua carreira acelerada na Minus com lançamentos e tours ao redor do mundo, foi assim que teve sua inesquecivel estréia no templo em janeiro de 2011, impressionando a todos e deixando a pista perfeita para um dos sets mais marcantes de Richie que já se viu por aqui. Eu sou suspeito em falar pois tenho uma tremenda admiração pela maneira de absorver música dos argentinos e a meticulosidade dos seus sets, cresci na cena ouvindo que eles estavam sempre a ”um passo à frente” da gente, até mesmo como reflexo de sua cena mais consolidada. Por algum tempo, me parece que esse passo até virou dois, mas os ultimos anos por aqui tem novamente diminuido essa distancia com surgimentos de novos DJs e produtores realmente muito talentosos, e três deles fizeram parte do line-up do dia 26 de dezembro. Danee, Gromma e Wilian Kraupp, são destaques dessa nova safra de artistas e da noite.

Me aprecei em chegar o mais cedo possivel no club para conseguir ver o que Danee tinha preparado para o warm-up. Acompanho sua carreira a bastante tempo e sei que é um exímio pesquisador, sua maneira de mixar e a forma como constroi seus sets são bem proximas do meu gosto pessoal, além de sempre me fazer lembrar do John Digweed! Danee manteve por quase todo tempo seu techno obscuro e cadenciado intercalando com linhas de house que mantiveram a pista dançando já com muita descontração. Antes de Aninha assumir os decks, desci para o Garden atrás da cabine onde encontrei alguns amigos, entre eles Wilian, no meio do bate papo sobre a expectativa da noite, mantive um ouvido na conversa e outro no que Gromma estava mostrando. Ele é um artista que sempre ouço falar muito bem, porém foi a primeira vez que o vi tocar. Os elogios a sua tecnica e bom gosto se mostraram verdades pra min também, a pista já estava interessante e Gromma jogava com um linha que tinha pitadas de Nu-disco e arranjos de bateria e baixo de house e techouse muito bem trabalhadas, já tirando os primeiros aplausos da pista. 

Subi ao Inside novamente para ver a ultima hora do set da residente Aninha, apesar de eu achar que o ideial sempre são no maximo 3 artistas por pista, ela se encaixou muito bem na proposta da noite. Seu carisma e excelente tecnica logo já fizeram a pista vibrar, ela sempre toca aquele tipo de musica que lhe parece familiar, mas que você nunca vai descobrir o que é. Bem à vontade com o horario, ela pode tocar com ritmo muito bom sem precisar se preocupar com o depois. Às duas horas em ponto, o grande destaque nacional de 2015 pra mim, assume o comando do templo. Tocar em horario nobre na pista principal é algo pra poucos e Wilian Kraupp teve pela segunda vez no ano a oportunidade. Esse pedaço de noite, das 2 as 4, é possivelmente o mais dificil de se fazer, você pode tocar pesado, a pista exige, mas sabe que tem mais alguem ainda pra mostrar sua música.

Kraupp demonstrou tremenda confiança, já na primeira musica fez a pista exaltar-se. Ele realmente vem pulando etapas e já com pouco tempo de estrada se mostra pronto pra assumir qualquer pista do mundo. Cumprindo a cartilha do artista moderno, ele se dedica ao estudio e o DJing com muita personalidade, sem duvidas é umas das grandes promessas brasileiras da cena techno para o mundo. Seu set começou muito dançante e explosivo, e depois dos 40 minutos foi ganhando mais peso e ritmo até desencadear no que ele realmente queria mostrar, com a pista na mão, soprou uma linha bem linear e até mesmo obscura, surpreendendo-me de forma muito positiva, eu que acompanhei sua evolução como DJ e produtor desde o começo, nunca o tinha visto tocar assim.

Com sutileza, Wilian foi trazendo seu som para o ‘’Barem Style’’ nas ultimas musicas, arrancando aplausos do Hermano que estava se aprontando e já poderia sentir que a pista estaria pronta pra ele. Infelizmente até esse momento o sistema de som da casa não estava 100%, faltando um pouco de médio, que só se equalizou na entrada de Barem, isso tem ocorrido com certa frequencia no club, decorrente da falta de atenção da equipe dos bastidores, desta vez não foi tão grave, mas ainda assim incomoda quem gosta de qualidade.

Com o publico sedento por música, Barem começou com sua habitual escola, continuou no ritmo um pouco mais suave que Wilian tinha deixado e aos poucos foi encorpando seu som. Muito inspirado, fez o seu melhor set que eu já vi, superando até mesmo aquele de 2011. Usando alguns processadores de efeito muito interessantes e que já são sua marca registrada, ele tocou tudo que tinha de melhor na case, muita bateria, contra-tempos e baixos emborrachados formando um groove sólido, fizeram as 3 horas passarem em um click. A pista estava na medida, sem estár lotada, era possivel se divertir bem à vontade. Barem não é o tipo de artista que vai buscar sons classicos pro final do set, ele trabalha racionalmente e não tanto o emocional, ainda assim, para delírio da pista jogou o único vocal da noite, ‘’Far From The Tree’’ de Bob Moses, no ótimo remix do inglês Third Son. De alma lavada, pude encarar as quase 2 horas de fila pra sair Brava, tudo bem, a noite sempre vence os sacrificios.

Fotos: Juliano Viana e Gustavo Remor