Autor: Jonas

  • Uma noite marcada pela dualidade de gerações no Warung

    O primeiro semestre de 2017 vem sendo marcado pela retomada do reconhecimento musical no estilo que possivelmente melhor representa a identidade do Templo. Artistas como John Digweed, Guy J, Hernan Cattaneo (Warung Day Festival) e Guy Gerber se destacam nesses primeiros meses do ano com respaldo total do público, que por sua vez, tem sido solícito em relação a nomes com capacidade de retratar sonoridades com maior profundidade, emoção e sinergia na praia Brava. No último dia 21 foi a vez de Guy Mantzur fazer sua aguardada estreia. Ele era um dos djs que mais obteve pedidos nos rankings de comunidades em rede sociais independentes que  circundam a marca Warung. Sua notoriedade pela América do Sul ganhou expressão ao nível de colocá-lo como headliner em longsets nos melhores clubes argentinos, como The Bow. Aproveitando mais uma tour do produtor, o templo tratou de finalmente apresentá-lo no pistão.

    Mantzur faz parte de uma maravilhosa geração de produtores israelenses ­­­- principalmente advindos de Tel Aviv – que foram alavancados por expoentes como Hernan Cattaneo e Nick Warren no primeiro momento e depois atráves da gravadora Lost&Found, sendo hoje talvez a label que detém o maior domínio e representatividade sob o que é chamado de ‘’novo house progresssivo’’. Aproveitando outra tour importante por nosso continente, o club renovou laços com o consagrado DJ Nic Fanciulli, outro nome que conseguiu se reinventar nos últimos anos, voltando a frente da cena global. Seus back to backs com Carl Cox e Joris Voorn, além de seu próprio festival – The Social – tem chamado muita atenção, principalmente por aqui. Após oito anos o inglês estava de volta, e por uma lógica hierárquica, recebeu a honra de fechar o Inside.

    A pista do Garden estava recebendo ainda outro DJ de referência. O nova-iorquino Dennis Ferrer era um dos poucos lendários que ainda faltava debutar no clube, por isso merecidamente lhe foi concedido o enceramento. Mantzur recebeu iniciais duas horas e meia de set no inside e mesmo sob manisfetações de insatisfação por boa parte dos seus fãs, a curadoria permaneceu fiel aos princípios de respeito à história de cada um dos seus convidados. Minha visão e entendimento de como funciona a escolha de onde cada artista deve se apresentar é alinhada com a ideia de respeitar o tamanho de cada artista, porém, como no caso de Guy J no carnaval, que mesmo tocando antes de Sharam, recebeu quatro horas e meia de set, entendia-se que Mantzur merecia um pouco mais de tempo para exibir sua música, mesmo em uma estreia. Entendimentos ou não a parte, não hesitei em ir conferir dois artistas que estavam há bastante tempo em minha lista de interesses musicais.

    Perto da meia noite eu já estava conferindo o set de Edu Schwartz no Garden. O catarinense tem um bom e refinado gosto, entende bem o que é preciso para fazer uma pista ganhar tamanho. Sua linha de house mostrava por que ele tem sido uma constante nos line-ups do clube, ele é capaz de moldar-se a diferentes estilos que podem vir a seguir. Curtimos seu set até o limite do horário onde Guy Mantzur começaria. A 1h00 quando chegamos no inside, ele estava quase assumindo o comando. Minha primeira observação era sobre qual setup usaria e logo percebi o laptop sendo aberto. Assim como Guy J, Mantzur prefere abrir mão do CDJ para explorar as possibilidades do software Tracktor em quatro canais. Sua entrada foi carregada de efeitos, e as primeiras músicas proporcionaram aquela sensação de que finalmente estávamos ouvindo algo com conteúdo elevado.

    Desde os primeiros minutos Guy não escondia sua emoção de estar finalmente comandando o famoso Inside do Templo. O clube não estava lotado, em ambas as pistas era possível aproveitar sem muitas preocupações. Após a primeira meia hora, Mantzur eleva o ritmo e começa a mostrar qual seria sua proposta para a noite, a vontade de tocar músicas que sempre imaginou ali era tamanha, que ele corajosamente largou a construção do set e começou a jogar diversas faixas muito conhecidas do público que acompanha esse estilo.

    O final da primeira hora foi marcado por “Children With No Name”, em parceia com Khen, e o remix de “Push Too Hard”. Em seguida as sempre intrigantes “Skywalker” e “Drops Classic” de Guy J. Um verdadeiro show de clássicos do estilo mixados de maneira inteligente e sem perder conexão com todos.

    Próximo das 3h00, na metade do set, surpreendentemente entra em cena uma das minhas músicas favoritas nos últimos anos, uma obra sem precedentes que é capaz de emocionar a qualquer momento: “Trigonometry” de Sasha foi a escolhida para ser a quebra regras da noite. Logo depois uma de suas produções de maior sucesso – “Systematika” – faixa que todos já ouviram diversas vezes, mas que sempre tem um gosto diferente pelas mãos do criador.

    Eu nunca fui admirador de djs que não se preocupam com a sequência linear do set, porém, devo destacar que Mantzur conseguiu fazer isso sem deixar ficar chato e cansativo, mesclou faixas super populares com outras instrospectivas. Correndo para hora final, ele apresentou alguns sons que mostraram até aonde abrange sua ideia musical, a exemplo da sempre impactante “Interestelar” de Victor Ruiz, minha produção favorita do brasileiro.

    Às 3h30, nem sinal de Nic, o israelense então começa a desacelerar bem lentamente até buscar sua mensagem final na magia de “Epika”, música em parceria com seu conterrâneo Roy Rosenfeld. Mesmo ganhando mais meia hora de música, o sentimento era de que ele ainda teria mais a mostrar. A boa notícia é de que já houve promessa por parte de diretoria do clube que na próxima será proporcionado mais tempo a ele.

    Nic Fanciulli tinha à sua frente uma pista pronta, quente e sedenta por mais. Durante a semana da festa, comentei com amigos que minha expectativa por seu set seria a de ver ele jogando músicas em um mesmo sentido de quando fez b2b com Sasha, uma sonoridade limpa, porém com elementos capazes de manter a pista conectada.

    Nic iniciou com muita personalidade, sua maneira de tocar e mixar são admiráveis, porém acredito que ele perdeu uma grande oportunidade em não ao menos tentar procurar músicas que tivessem um pouco mais de elementos, podendo buscar referências em produções de caras como Nick Curly e Gorge, que estão dentro de seu estilo, podendo assim reconquistar um público que deixou para trás há mais de oito anos. Sua linha de techouse com momentos disfarçados de techno tinha ritmo, era rápida, dançante, mas era perceptível a carência de mais conteúdo que o público sentia, ainda eufóricos pela apresentação anterior. Com mais espaços para curtir, tentei esquecer um pouco o lado analítico e me despreocupar com as questões do que o artista pode ou não apresentar.

    Assim, em alguns momentos tivemos boas experiências em seu set, destaco a incrível faixa “Uncompromising” de Adana Twins, uma das mais tocadas no mundo hoje, e que proporcionou o poder esperado na pista do Warung, meu desejo na hora era de que ele pudesse manter o mesmo estilo. Depois das 6h00, poderia destacar “Domino” de Oxia, com recente reinterpretação de Frankey e Sandrino, mesmo sendo um clichê, aquela altura, ouvir algo atmoférico e conectivo, foi um alívio, de fato caiu bem.

    O amanhecer foi cinzento, saímos debaixo de chuva, um daqueles Warungs fora de temporada que você vai recordar ocasionalmente e se dar conta no mesmo instante o quanto gosta de determinado estilo de música, seja ele da primeira ou segunda parte, aos presentes: façam sua escolha.

  • Guy J e um carnaval imersivo no Garden do templo

     

    É inegável: o carnaval do Warung Beach Club tem uma atmosféra própria e reconhecível. Algumas das noites mais marcantes da história do clube ocorreram durante as tradicionais três noites, com as portas da Praia Brava se abrindo para reunir a diversidade cultural de pessoas advindas dos mais variados lados desse país continental. 

    Com o objetivo de agradar o maior número de pessoas possível, a formação do clássico sábado (25) de carnaval trazia uma mescla interessante de artistas, desde nomes que estão buscando seu espaço, como Hito, até outros que já foram sinônimo de casa lotada com apenas o peso do seu nome, a exemplo do lendário parte duo do projeto Deep Dish, Sharam. 

    A parte principal dessa noite de abertura foi composta por dois destaques que vivem seus auges na carreira e tinham a missão de fazer a noite de todos compensar, ainda que em níveis diferentes. Me refiro ao francês Agoria, que teve o privilégio de encerrar o Inside, e do israelense Guy J, que é a figura central deste review por ser um artista que vem construindo uma carreira sólida e de personalidade musical extremamente alinhada com o que acredito ser o que meus ouvidos mais apreciam, além de estar no seu momento mais estelar. A cada lugar que passa deixa mais e mais novos admiradores. Jogar no carnaval brasileiro era uma grande oportunidade para ele desprender novas mentes, quanto à isso, adianto que não há dúvidas. 

    Após algumas alterações de horários atendendo o pedido de muitas pessoas, Guy J foi realocado para o meio da noite, não teria a atmosfera do amanhecer, mas ganhou quatro horas e meia de set. Alguns artistas precisam de tempo para mostrar seu trabalho, esse estilo é conhecido por noites longas e instrospectivas e Guy J é um deles. Para o warm-up foi escalado a sempre interessante dupla da casa, Conti & Mandi. Ao adentrar o club e me digirir a pista, pude notar que a música estava fechada e carregada de elementos, é importante quando os DJs tem a missão de receber o público fazem uma pesquisa musical focada para melhor se conectar com o artista principal, deixando todos no clima ideal. Com mixagens tranquilas e bom andamento, o set deles foi exemplar, quando o israelense chegou para montar suas coisas, todos estavam ansiosos.

    Pontualmente à 00:30 Guy J começou seu set chamando todas as atenções para si, foram três minutos de toques de piano e leads viajantes, com um loop de hi-hat de fundo colocando todos em sintonia à esperar com ambição as primeiras batidas. Em seguida, puxando a memória dos mais atentos de suas produções, entra em ação Story of Us, sob seu alter ego Cornucópia o recado estava dado, ele não entraria em muitas delongas. Pode-se dizer hoje que Guy J é o produtor líder da retomada mundial das sonoridades com profundidade e melodia, muito por conseguir personificar de forma unica uma textura macia e intensa, extremamente concentrada em sua própria personalidade. 

    O preço de se ter um estilo tão bem definido é o de ter que ser mais direto, perdendo um pouco da construção do set, já que seu som não é tão amplo. Ao mesmo tempo e em compensação, sua música exibe excelência e um dinamismo pouco comparável no cenário comteporâneo, como mencionei no review de sua vinda em 2016, é house progressivo da mais pura classe, ainda que a elaboração durante o tempo não incorpore o mesmo tradicionalismo. Apesar de acreditar que ele não toque em blocos, igual artistas como Dixon e Mano Le Tough fazem, ele assim como os dois nomes citados pensa a pista de dança dentro de uma visão de produtor musical. Não existe demasiada preocupação em construir um set de baixo para cima, e isso não é uma crítica, longe, conseguir fazer todos se manterem conectados subindo até o limite do seu estilo e descendo a intensidade sem deixar de ser dançante é algo admirável. Acredito ser uma maneira mais sofisticada de trabalhar, como se estivesse em um arranjo levemente tribal pelo meio, com variações entre melodias e timbres sombrios por cima, acelerando e cadenciando as linhas de baixo. Guy J exibe isso de uma forma tão natural que não imaginava ser possível dentro deste estilo de som, porém, vale reforçar, sua música sempre tem balanço, groove e movimento que faz todos respirarem conforme sua vontade, e é ai que está o segredo. Suas ondas pelo Garden eram profundas e suas quebradas à beira da praia eram avassaladoras, éramos capazes de nos distanciarmos e logo em seguida estarmos com os pés na areia. 

     

    Antes das 02:00 ele já tinha subido o ritmo ao extremo, mixando com sua controladora quatro canais em sequência com enorme destreza e sacando aplausos ainda nas viradas, algo que os fãs de Hernan Cattaneo estão bem acostumados, e assim como o maestro argentino, não temia expor sua transição, ao contrário, fez dela uma de suas maiores virtudes ao deixar que o expectador aguardasse cada momento com entusiasmo. Outra novidade em relação à sua evolução comparando com 2016 é a aceleração do bpm. É fato que uma pista aberta, mesmo não sendo grande, exige maior fluidez, mas seu aumento de velocidade se daria de qualquer forma, se trata de ganho de experiência.

    Às 03:00 um de seus últimos lançamentos ganha destaque, “MDQ” era um aviso do que estava por vir. Um dos maiores benefícios de se tocar com o software Traktor é a possibilidade de usar loops, seja com presets ou entre as músicas, abrindo assim um leque de oportunidades quando se tem uma mente criativa, foi assim que magistralmente Guy J conseguiu colocar no auge da noite a música que além de ser uma das minhas favoritas dele, era algo que ainda sonhava poder ouvir novamente no Warung. “Lost & Found” às 03:30 sem perder o ritmo foi subliminar, aí em diante era só seguir, a pista estava vencida. 

    Abrindo a última hora ele começou a apresentar músicas mais sentimentais, baixos com notas longas e a incômoda sensação de que logo precisaria parar. Seu lado emotivo, que tanto lhe fez seguidores no início da carreira, estava ali, exposto em pleno carnaval, abrangendo novas mentes que talvez só o tinham ouvido de nome. Para celebrar tudo isso, reviveu um daqueles seus lançamentos que não são tão conhecidos, mas você sempre reconhece que é de sua autoria, “Pathos”, lançada pela sudbeat em 2012, colocando todos em imersão. Neste ritmo de despedida, mesmo com a energia recíproca para mais horas de música, ele gentilmente cede passagem. 

    Por mais que o tempo passe e as coisas mudem, alguns nomes sempre terão uma vaga no Warung, fizeram coisas demais para a nossa cena e devem ser lembrados, e o iraniano Sharam é um dos poucos que tem esse poder. Inicia sua volta ao templo de forma bem consistente, era evidente que ele iria flertar com o techno, porém, mesmo podendo ser interessante, parecia que todos já estavam sentindo falta do balanço encaixado que Guy J tinha imposto nas últimas horas, então era hora de mudar. A curiosidade em ver Agoria era boa o suficiente para me dirigir à parte da frente do inside. Observando ao redor, notei que todos estavam contagiados com sua música. Mais uma vez, o choque de conceitos musicais falou mais alto, já eram quase seis horas quando comecei a conseguir entrar no ritmo do francês. Ao ver o início do amanhecer, outra oportunidade surgiu. 

    Em todos esses anos frequentando o clube nunca consegui abandonar as primeiras fileiras da pista, sempre senti a necessidade de ter aos meus olhos distância suficiente para observar os movimentos do artista, e naquela hora me dirigi a um dos pontos mais emblemáticos do templo, a sacada foi a melhor escolha possível. Receber o surgimento do sol acompanhado de pessoas que estavam ali pelos mesmos motivos que eu, ouvindo Agoria jogar um de seus hinos, “Scala”, chegou até nós contrastando com um ensaio fotográfico no horizonte repleto de cores e formas. Mesmo sabendo que a música iria se estender até as oito horas, decidimos tomar o caminho de volta com o pensamento repleto de satisfação, mas desejando o retorno do pequeno gênio no lado de cima. 

    Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana
    Videos por: Fernando Hauenstein

  • John Digweed explora as relações humanas em retorno ao Warung

    A primeira semana de fevereiro de 2017, apenas outra data entre várias do calendário de verão no Warung Beach Club, carregava consigo a marca do retorno de um de seus maiores expoentes, parte de um seleto grupo de DJs com mais de 10 anos de casa e uma espera angustiante de quatro anos por seus admiradores: “Ele voltaria como o mesmo de outros tempos?” John Digweed teria que agradar não um, mas dois pontos de vista dominados por incertezas, pois também era uma figura a ser redescoberta pelo atual público do clube:  “vamos ver quem é esse cara”, missão difícil…. Infelizmente, ser um dos maiores nomes da história da dance music não é o bastante em um país onde poucos pesquisam sobre de onde veio tudo, porém, bastou sua entrada misteriosa e as primeiras batidas, para algumas dúvidas serem quebradas. 

    Antes que você se pergunte se cheguei ao templo apenas na entrada do headliner da noite, devo merecidamente destacar os dois artistas que consegui assistir antes. Gaby Endo, um nome até então desconhecido para mim, jogou no Garden perfeitamente alinhada com a sonoridade All Day I Dream, tão aguardada pela figura de Lee Burridge. À uma hora subi para conhecer outro artista, o argentino Herr fora escalado por saber muito bem quem viria por seguinte, seu set carregado de baixos submersos e largos esteve como um contraponto ideal para o warm-up. A noite ainda trazia outras constantes que faziam todos se sentirem à vontade, público na medida, calor moderado, sound system beirando a perfeição e pessoas certas ao lado. 

    Sempre tive John Digweed entre meus artistas favoritos por admirar sua forma universal de lidar com a música, ideias e conceitos muito peculiares que deixam transparecer um cuidado – carreira, lançamentos e gravadora – de alguém que está em constante busca da perfeição, e nesse review além de relembrarmos suas cinco horas de set, que de certa forma retratam tudo isso, vamos também procurar entender o que é um artista em sua totalidade. 

    Embora cada pessoa seja uma em sua individualidade, algo irrepetível e, até certo ponto, insondável, ela precisa se relacionar com outras para se desenvolver como “ser humano”. Para compreendermos como John alcançou sua totalidade, devemos primeiro entender como ele se relaciona com as pessoas que se dispõem a ouvi-lo. A pista de dança não é uma mera justaposição de corpos com uma entidade acima das pessoas, ela é formada por um todo na medida em que se inter-relacionam, formando uma teia de laços interiores, dinamizando-se mutuamente e respeitando cada individualidade. Digweed entende como poucos esse contexto, absorve sutilmente a todos e devolve construção musical da mais pura classe. Após o reconhecimento do público em sua aparição, ele começa seu set ao ritmo do artista anterior, e aos poucos vai desconstruído tudo na primeira meia hora até um ritmo um tanto fragmentado, onde a ideia era estabilizar a pista, deixar quem realmente estava ali para isso, e assim, começar a alvejar intensidade até as bordas do infinito. 

     Você já deve ter percebido, observando a si próprio e aos outros com que convive, que somos seres complexos, multidimensionais e porque não, multifacetados, como um diamante. Para entender melhor este “diamante”, é preciso compreender que cada uma destas facetas produz ações e assim tornam-se objeto de estudo do expectador, que busca saber dele o quanto está determinado a agir. Quando se trata de John, observando sua personalidade mais insondável do que o comum, uma mistura de serenidade e frieza, fica difícil saber em que nível está sua determinação em agir. Tentei entrar em sua mente de diversas maneiras, mas ele se mantinha inacessível, estrutural e metódico, como um verdadeiro diamante que brilha por todos os lados sem nenhum esforço. As quatro horas minha consciência estava de acordo que era um dos sets mais bem elaborados que já pude ouvir, conduzido através de movimentos tão precisos que acabavam derrubando qualquer tentativa de acompanhamento, mixagens milimétricamente pensadas deixavam suas transições escondidas. 

    Acredito que um dos seus segredos está justamente nisso, sua fortaleza acima da cabine era uma forma de colocar a todos em uma única posição, a de apreciar e sentir música a todo momento, e o que ele devolvia em troca? Algo totalmente o oposto de si, os poucos breaks eram carregados de tensão, sem respiro, ritmo frenético e infernal que fazia-nos correr sem sair lugar. Essa forma de se relacionar, que deixa sua figura em segundo plano e concentra todas as atenções na música é uma de suas maiores características, e o mais interessante é que por ser inacessível aos olhos da pista, sempre cabisbaixo e concentrado na manipulação sonora, ele não te faz querer buscá-lo na cabine, porém você a todo momento sabe quem é que está no comando. 

    As cinco horas a música continuava aquecida, cheia de elementos progressivos e delirantes, ainda assim, nota-se a diferença dos grandes DJs para os demais quando eles podem surpreender dentro daquilo que supõe-se beirar a perfeição. Isso é algo que o artista precisa sentir, por meio de um exame das consequências práticas a que cada aspecto da sua música pode levar, e assim descobrir o ponto de convergência da noite em seu sentido mais amplo. John segurou os elementos carregados até o limite, e antecipando a vontade de inovação que todos iriam precisar após tantas horas, começa a soltar sua linha mais agressiva e que tanto é comentada mundo afora. Seu techno fica mais limpo, linear e mixado rapidamente, fazendo todos se olharem deslumbrados, o ritmo ainda poderia ser jogado a mais um degrau? Sim! A essa altura já se passavam das seis da manhã, e todos tinham a mesma energia do começo da noite. 

    Nessa pulsação ele poderia levar a pista por mais quantas horas quisesse, era dançante, com poucos cortes e rápido, muito rápido, quando essa difícil mistura entra em ação, onde a energia das pessoas está no seu máximo, fica fácil de criar momentos de euforia, sem precisar recorrer aos efeitos ou breaks longos, a alta energia concentrada faz todo o trabalho, é só preciso mantê-la. Obviamente, essa é uma tarefa e um estado de domínio das relações humanas que só um verdadeiro mestre da arte consegue alcançar, um ser dotado de aspectos e capacidades quer sejam naturais ou adquiridas, que podem ser desenvolvidas ao longo da noite, aumentando suas potencialidades e por fim, um todo. 

    Perto das sete horas o ritmo desacelera e se cadencia, era hora de mais uma mostra de como deixar todos se entregar. Quando um arranjo de piano entra em cena, a primeira música emotiva de toda a noite, percebi que era algo especial, logo depois uma voz familiar começa a cantar com autoridade sob um leve delay: “Say hello to the greater men.
Tell them your secrets they’re like the grave. Oh what you have done, oh what you have done.
Love is lost, lost is love….”

    Simplesmente David Bowie em um dos seus últimos sucessos ecoando pela pista abraçada por um dos mais lindos amanheceres dos últimos anos. Mais tarde descobri que o edit de “Love is Lost” era de Chris Fortier.

    Nessa levada descontraída onde “Diggers” não conseguia segurar o sorriso, mantém-se por mais alguns minutos até começar a deixar todo aquele turbilhão sonoro desvanecer-se, ao mesmo tempo que se abaixa atrás da mesa, e quando tudo para, apenas o sopro de um splash bate por alguns segundos criando a última expectativa do seu set, ao aparecer novamente e ser reverenciado por todos, solta os acordes inconfundíveis de “Strings Of life” em um edit ainda desconhecido, ditando a mensagem final! 

    Era isso mesmo, estava ouvindo um dos maiores clássicos da música eletrônica, composta pela genialidade do cara de Detroit, Derrick May, através das mãos de uma das mentes mais inquietas e inovadoras que a cena já produziu, uma soma que me trouxe entendimento necessário antes de deixar aquele lugar. Algumas pessoas você consegue ver, sentir e até compreender sua totalidade, mas jamais terá as chaves que abrem as portas até ela. 

    Crédito Fotos: Gustavo Remor

    Crédito Videos: Michelle Schneider Luchtemberg e Fernando Hauenstein

     

  • Sasha renovado retorna ao Warung em long set

    Uma relação que transcende a própria música. Se me perguntassem como eu encaro ter a chance de ver Sasha no Warung Beach Club, diria essa frase. Muitos artistas marcam as pessoas, educam, inovam, mas pouquíssimos tem o poder de mudar a essência delas, e Sasha é um deles. Seria estranho se em 2016 ele não viesse ao templo, sua última aparição no aniversário do clube em 2014 deixou novos admiradores somente em duas horas de set, e desde janeiro do mesmo ano, ele não mais tinha sido oportunizado a um long set em seu lugar favorito.

    O ano era especial, por completar 10 de sua marcante estreia no carnaval de 2006 e por acontecimentos importantes na continuação e direcionamento de sua carreira. Me refiro ao impressionante álbum em plano de fundo, Scene Delete, onde Alexander deu, digamos, um cartão de visitas para o novo mundo cinematográfico que pretende ingressar  – e sobre isso, encontrei um paralelo que será apresentado adiante –  além do aguardado retorno de back to back com John Digweed após 6 anos de hiato. Para os fãs brasileiros, lhe foi concedido 5 horas de trabalho, os mais calejados da noite sabiam que seria o suficiente para vislumbrar-se, ainda assim, quem acompanhou seus dois últimos anos poderia levantar a seguinte questão: O que ele iria trazer para o Templo? Desde seu anúncio eu comecei a perguntar-me. Sasha mostraria sua fórmula de sucesso emotiva e viajante de tantos anos no clube, ou deslocaria para sua linha reestilizada de techno e tech house progressivo inerentemente estampada pelos artistas de sua gravadora?

    Entrei no clube um pouco mais tarde do que de costume com essa indagação que já se arrastava por semanas. Após rever os amigos no inside rapidamente, me dirigi ao garden onde Edu Schwartz pacientemente começava a deixar os ouvintes afim de jogo. Em seguida, o DJ e produtor inglês Cristoph foi recebido por uma pista sedenta por novidades, e foi isso que ele retratou.

     É sempre ótimo poder ver ao vivo um produtor que acompanha e notar que ele também sabe conduzir uma pista. Timidamente começou levando em variações limpas e levemente viajantes de house e tech house. Com muita segurança soube desviar de alguns momentos de quebra de ritmo, que imediatamente eram supridos por uma nova faixa. Após meia hora, tinha todos na pista envolvidos e os picos de explosão surgiram, quando vimos já passara das 2h00 e infelizmente não pude ver o restante de seu set. Certamente é um nome que espero poder apreciar com um horário mais avançado em breve.

    A sorte foi que Sasha teve um pequeno atraso, e por volta das 2h15 quando adentrei ao febril inside, ele ainda estava em cima da primeira track. Se existe algo que aprendi na música eletrônica é que você não reconhece um artista pelo tipo de som que toca, e sim pelo seu estilo, pois isso, ele nunca mudará. Os inicios de long set de Sasha são sempre arrastados, e dessa vez ele foi além, resetou a pista nos primeiros minutos colocando faixas quase sem ritmo, apenas texturização. Na primeira batida, eu obtive a resposta que tanto buscava, ela era seca! Então é isso, vamos em uma nova experiência.

    Quando você corre por uma estrada sinuosa por algum tempo, seu senso de direção é melhorado, e quando finalmente chega em linha reta, vai apreciar cada instante de consistência. Essas duas horas iniciais de Sasha sempre foram polêmicas, ele precisa de tempo, isso é fato, seu semblante distante faz alguns acreditar que seja uma dificuldade até conseguir ganhar ritmo, já outros – onde me incluo – observam como uma necessidade criada pelo artista em seus expectadores, só para depois entregar-lhes a solução, e ela será abraçada com toda energia, por isso você apenas precisa confia-lo sua mente. Sasha embaralhou as cartas e foi soltando pouco a pouco cada uma delas, ora deixando uma música por 2 minutos, ora mixando no último tempo, era difícil de distinguir onde tudo estava, isso é um break ou uma virada? Meio, fim? Todas essas questões me provocavam, e na faixa ‘’X – Secret Weapons’’ de  Eagles & Butterflies percebi que a conexão havia começado, e não teria mais volta. 

    Imprimindo pulsação e viradas sorrateiras, as 4h00 Coe estava finalmente em linha reta, e como esperado, começou a abrir seus famosos processadores de efeito, nesse quesito, ele os usa como ninguém. Todos sabem com qual finalidade um artista implementa efeitos durante o set, mas Sasha consegue ir além, suas camadas foram se conectando até formarem um novo elemento na pista de dança. Gosto de comparar os clássicos processadores de efeito de Sasha com as cenas de quebra da quarta parede no cinema ou tv, exemplos recentes de sucesso em séries como House of Cards com Kevin Spacey, ou Mr. Robot, com Rami Malek podem servir de paralelo. Nos momentos que se dirigem à câmera e interagem com o expectador, dão um novo sentido a cena e era isso que sentia quando os efeitos surgiam desde o breakdown e ganhavam expressão tomando conta do restante da música e assim, sucessivamente, ele mudou o cenário dos que estavam presentes. O resultado? Não poderia ser outro: delírio coletivo!

    Quanto mais próximo da manhã chegava, melhor o set ia ficando e isso me dava medo, pois sabia que iria faltar tempo.  As 6h00 Sasha começou a colocar mais profundidade em sua música para um lado misterioso e até sombrio, foi uma dose de house progressivo que tantos esperavam. Quem assistiu a transmissão ao vivo que aconteceu em sua fanpag as 6:30 hrs certamente imaginou que ele tinha passado a noite em um groove imersivo, a faixa ‘’Carthage’’ de Fairmont representa perfeitamente, e é a minha favorita na noite.

     Eu já comentei sobre isso outras vezes, mas vale destacar novamente. Esse horário de transição para o dia tem um dos climas mais comoventes que se pode ter ali dentro, o contraste da pista ainda escura com o painel branco do lado de fora é como se a realidade estivesse nos chamando, mas ainda podemos ficar. Passando das 7 horas finalmente algo totalmente emotivo, uma entrega final perfeita, ‘’Trigonometry’’ fez todos suspirarem em sua obra mais aguardada. Ouvir uma música com uma identidade tão singular como essa, naquele momento, nada mais serviu para que ele nos colocasse em uma encruzilhada. No que Sasha foi ou é mais genial, tocando ou produzindo?

    No encerramento, algo bem parecido com 2011, Sasha fecha os médios no final da música em um loop por alguns segundos, um chamado de olhares para si, era isso que buscava, e então o vocal de ‘’track 10’’ entra para colocar todos em êxtase e reverência de seu nome, ele poderia tocar um DJ set inteiro só com seus remixes de bandas em que se pode cantar junto, porém, deixou esta como unanimidade para todos lembrarem. É por momentos assim que continua a deixar uma legião de seguidores por onde passa.

    Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana

    Videos por: Thais Olluk e Marlon Mendes

  • A relatividade explica 8 horas de set do Hernan Cattaneo no Warung

    O ano de 2016 tem sido especial para os frequentadores do Warung Beach Club, a possível alta do dólar tem feito a casa voltar as origens estabelecendo line-ups mais enxutos no qual os artistas tem a oportunidade de mostrar melhor suas potencialidades. A ordem da vez é o ‘‘longset”, onde headliners assumem por 4 ou 5 horas em média. Claro, se compararmos com a primeira década de vida do Club – onde a vontade do DJ é quem determinava a hora de terminar – torna-se um paralelo injusto, porém, é o que a lei nos permite hoje. 

    Ainda assim, existem duas noites no ano que tem resistido ao longo do tempo com o DJ se apresentando por mais tempo que a média e fazendo nos lembrar cada vez qual é a verdadeira essência do Templo. Assistir ao clássico extended set de Hernan Cattaneo no Warung se tornou uma obrigação para qualquer apreciador de música eletrônica conceitual. É um consenso até entre os que não aderem a sonoridades mais introspectivas de que todos devem ter essa experiência ao menos uma vez na vida. Assim como em 2015, a semana da pátria foi o período escolhido para esse encontro, onde brasileiros e argentinos se somam para dividir sentimentos no pistão do Club. Se todos os anos temos esse show ”all night” de Hernan, por que o de 2016 se tornou especial? Bem, na semana da festa foi atendido a um velho pedido dos que acompanham a mais tempo a carreira do argentino. ”From Midnight untill the end”, foi com esse anuncio que o Club já prevendo algo histórico deu a notícia ao público. Histórico antes de acontecer porque jamais um artista principal – pelo menos não que eu lembre – deu start nesse horário e tocou até o fim, e mais, se tratando do símbolo cultural que HC se tornou para o Club, não seria prepotência declarar que guardaríamos para sempre na memória. 

    Se sete horas de set já seriam de lavar a alma, imaginem oito!! Como Hernan conseguiu mais uma hora, a forma que comandou a noite e como ela tem sido apontada como a data do ano, é o que vou tentar contar neste review, 10 de setembro de 2016.

    Às 22h30 estava no Garden começando a encontrar amigos para quebrar o gelo da expectativa pra noite, aproveitando, matei a curiosidade em ver as jovens apostas da DOC Records.  Liderados por Gui Boratto, o duo Shadow Movement entregava uma sonoridade de muita personalidade, ritmo certo pra hora e sem perder suas características obscuras, é um projeto pra se observar com cuidado. Faltando 30 minutos para meia-noite nos dirigimos ao Inside onde Leozinho jogava um house de primeira linha, o esperado para um DJ do seu nível. A pista estava cheia e a parte da frente tomada de argentinos como todos os anos. O roteiro quase que sagrado do aparecimento de Hernan na cabine até o inicio de seu set eu já mencionei outras vezes em reviews, todos sabem como funciona, antes mesmo do horário o Maestro já estava mixando e a pista pronta para se entregar. Pensei bastante em como descrever a construção de set de Hernan neste ano e cheguei a conclusão que colocar de forma separada em 3 fases seria o ideal para melhor compreendermos, ou ao menos chegar próximo a isso.

    Warm-up para si mesmo. 

    Primeiro, existem DJs e DJs e existe Hernan Cattaneo. Aceitar o desafio de assumir a pista enquanto o som ainda nem está trabalhando no seu melhor é algo que poucos se sujeitariam. Ele adora jogar devagar, encara a possibilidade de preparar a pista como uma grande oportunidade, é como se você se preocupasse tanto com a partida de futebol que viesse cortar e molhar a grama antes de entrar em campo, pra depois poder ganhar de goleada, é claro. Ele manteve suas duas primeiras horas em uma consistência impressionante, quem já se aventurou atrás de um mixer sabe o quanto é difícil se manter em um ritmo, escolhendo músicas com o mínimo de breaks longos possíveis, fez isso de forma brilhante até culminar na música que acredito ter sido o primeiro pico emocional da noite, ‘’Secret Encounters’’ nova obra-prima de Guy Gerber. Ela sinalizava que o ritmo estava subindo. Hernan parte do pressuposto de que se deve segurar a onda o tanto quanto for possível na primeira parte, pois a partir do momento que coloca uma música de maior intensidade, jamais poderá voltar atrás, então ela deve acontecer no momento certo. 

    Buraco negro e riffs de uma só nota

    Até as quatro horas Cattaneo balançou a pista de um lado ao outro alternando entre momentos emotivos pontuais como ‘’The Bar Tender’’ de Seth Schwarz & Be Svendsen (Dark Soul Project Edit), levadas progressivas tribais como ‘’Amazonia’’ Oniris e de baixos sintetizados longos como em ”Dodge’‘ de Monkey Safari, remix do Victor Ruiz que fez todos vibrarem. 

    É intrigante a maneira que ele consegue explorar o sistema de som do Warung, a música parece fluir através de seu corpo como uma extensão de si mesmo. Cada vez mais os graves iam se comprimindo até um momento em que a pista toda se encontrava dentro de um colisor de partículas, os elementos sonoros dançavam entre si somados a feixes luminosos que por momentos te davam a sensação de câmera lenta. ‘’Systematika’’ de Guy Mantzur & Roy Rosenfeld marca um ponto explosivo e um golpe fatal. Em meio a tanta euforia, e como de costume, me via buscando referências para tentar entender o que estava ouvindo e diante das bandeiras da argentina sendo levantadas pelas pessoas em completo estado de plenitude, lembrei de outro gênio, só que das guitarras. Diz a lenda que Jimi Hendrix tecia uniformemente acordes com trechos de uma só nota e usava sequências que não aparecem em nenhum livro de música. Seus riffs eram uma viagem elétrica sem fim até as encruzilhadas, onde ele humilhava a si próprio. No auge, Hernan solta riffs de um grave demolidor e mostra porque é um DJ único, adianta as linhas de onde normalmente as músicas são feitas para mixar tecendo uniformemente viradas de um techno gravitacional obscuro e tão denso que me fez entrar em um colapso estelar. 

    A física moderna de Einstein diz que espaço e tempo não são absolutos e sim relativos entre si, dentro dele estrelas nascem e morrem através de um colapso onde tudo se concentra e acaba em um único ponto, que por sua vez se transforma em buracos negros. Esses, tão densos que engolem tudo ao seu redor e nem mesmo a luz é capaz de escapar. Às 5h senti minhas pernas serem puxadas como se estivessem caindo dentro de um desses buracos, foi como se a força de maré estivesse me carregando e dividindo-me ao meio, eu definitivamente amo essa parte da noite.

    Renascendo no futuro

    Não preciso dizer o quanto especial é o amanhecer na Brava, vencemos o clima soturno da noite para entrar em uma nova fase à espera do sol, ele simboliza a identidade do templo ao mesmo que estampa a bandeira da argentina, essa dualidade quase mitológica estava presente trazendo energia e acredito que não só comigo, mas todos ali também receberam um novo folego para mais algumas horas de música. 

    Essa transição de volta a sonoridades sentimentais acontece no vocal de Moderat em ‘’Running’’ para ‘’Trigonometry’’ de Sasha, uma das músicas mais aguardadas do momento. Olhando para a última hora temos uma sequência que renderia uma compilação, ouvir a voz única de Dave Gahan ecoando pela pista em ‘’Only When I Lose Myself’’ era um momento esperado por muitos a anos. Às 7h horas Hernan não sinaliza querer parar, seu ritmo intenso em cada mixagem e plácido na escolha das músicas é o mesmo desde o primeiro minuto. Olhei ao redor me perguntando, como ele pode se manter por tanto tempo com a mesma dedicação infinita à pista de dança? De pronto alguém me respondeu o que eu já sabia, mas precisava ouvir de outra pessoa: ‘’É apaixonado pelo que faz’’.

    Já passavam de 7h20 quando o toque celestial de ‘‘Forme” começou a surgir, essa música de Gill Norris com remix de Guy J marcou a manhã de 2011, que coincidentemente ou não tinha sido a última vez que o sol tinha subido com força frente a frente com o maestro, essa escolha nostálgica novamente foi ideal para o fechamento do set. Entre aplausos sinceros ”Snooze For Love” entra como a música de despedida, esse lindo retoque de Dixon venceu-me, ainda assim mais dois suspiros entram no jogo, a essa altura ninguém iria mais pedir pra parar, ‘‘Oracle” de Sebastien Leger seguida de uma música que já nasceu clássica, ‘’Nana’’ de Acid Pauli finalmente trouxe o tom dramático do fim. Depois de ‘’Eight hours of magic’’ como sugeriu Hernan em sua página do instagram mais tarde, o sentimento ao sair do templo era de que tinham se passado décadas do lado de fora, como se tivéssemos atravessado o universo até um outro momento no futuro.

    Alguns pensadores como Ray Kurzweil apontam que à nossa próxima revolução tecnológica acontecera na virada do século, onde o conhecimento humano estará tão avançado que homem e máquina literalmente irão se fundir e então poderemos se conectar com tudo a nossa volta, criando assim o que chamam de singularidade. Ao que me parece, tem um argentino que já alcançou.

    Imagens: Gustavo Remor

  • Timo Maas e o resgate dos símbolos da história do templo

     

    Marcado na memória como o primeiro headliner da inauguração do Warung Beach Club em novembro de 2002, Timo Maas teve seu nome esquecido nos últimos anos pelo club e consequentemente pelo público. Permeando renovações em cada 3 a 4 anos de frequentadores na noite, estar fora do ciclo durante esse pequeno período é suficiente para uma determinada região não saber mais quem é você. Mesmo tendo feito tours pela Argentina, de alguma forma Timo não se apresentava mais desde a celebração de aniversário de 6 anos em 2008. Em parte por sua própria baixa como artista – o que é normal – em parte pela maior abertura de estilos que a casa passou a abordar, seguindo a lógica, foi fatídico que só esteve voltando quem se manteve em um certo nível de consistência, seja com lançamentos ou grandes apresentações em festivais de renome. Outras lendas como Danny Howells, Dave Seaman e Satoshi Tomiie também marcaram época na primeira década de vida do clube da Praia Brava e por intensão própria deixaram de se preocupar em serem totalmente globais, quem já gastou solas na pista de madeira lamenta, porém, esse ano a curadoria tem apostado no resgate de símbolos que ajudaram a construir a identidade única do templo, como com Luciano que não aparecia desde 2010 e Guy J desde 2012. 

    Agora que clareamos o contexto histórico do retorno do Dj Alemão, podemos analisar quais pontos positivos a noite de 6 de agosto agregou para cena, para quem aguardava assim como eu e que não teve oportunidade de ver em 2008 e para quem estava na casa por ter se interessado na promoção do escolhido como “primeiro headliner” do templo.

    Independente das expectativas que cada grupo poderia ter, todos eles receberam uma noite com sonoridades atípicas em três momentos diferentes, e que na minha concepção fizeram valer a presença. Posso começar falando que antes mesmo da uma hora da manhã já tinha ganhado a noite. Como? Bem, após acompanhar um pouco do bom set que o catarinense Edu Schwartz vinha desempenhando no inside, desci para buscar uma bebida no bar e de repente senti minha mente ser invadida por elementos de uma familiaridade de se ver no sofá de casa, olhei para trás buscando quem estava no comando do garden e me dei conta que não poderia ser outra pessoa a não ser Gustavo Conti, será que ninguém mais está ouvindo? O cara está tocando Involver!

    Pra quem é fã do icônico primeiro álbum da trilogia de Sasha, ter a chance de ouvir qualquer uma das faixas na pista é algo surreal. Fui para a frente do som, precisava ouvir com plenitude! O mais legal era ver a pista inteiramente envolvida pelo toque balearic em breakbeats de ‘’Dorset Perception’’, segunda música do disco lançado pela Global Underground em 2004 que brigou no top 100 dos mais vendidos do Reino Unido daquele ano, a frente de muitas bandas de rock famosas inclusive. Não é preciso dizer que me obriguei a acompanhar o restante do set de Conti & Mandi, eles mantiveram a pista balançando em uma sintonia aconchegante, ainda tocaram diversas outras músicas que se percebia serem antigas, podendo ser o warm-up ideal para Timo.

    Ainda assim, minha eterna curiosidade em ver novos artistas me fez subir para acompanhar a última hora do set de Jimmy Edgar. O produtor de Detroit estava jogando intensamente e pegar seu set pela metade me fez ter que esperar uns 20 minutos até começar a entrar no ritmo minimalista e com linhas de baixo agressivas que fazia a pista crescer. Jimmy toca um estilo de música que você não vai ouvir todo dia, é preciso mente aberta pra conseguir aceitar sua proposta e a pista acompanhou muito bem, mixagens rápidas e sem deixar espaços pra baixas ajudaram a prender atenção. Linhas de bateria cortantes e timbres por vezes obscuros são o que me vem a mente para tentar descrever. É o tipo de som pra duas horas de experiência no máximo, e então seu corpo começa a pedir por balanço novamente.

    Foi quando vi surgir a figura de Timo Maas à frente do dragão. Como programado, às 3h30 ele deu início ao set com enorme tranquilidade, começar a pista do zero é algo que um cara com quase 3 décadas de carreira já fez incontáveis vezes, sem problemas. Em 15 minutos já era possível observar a pista em ritmo contínuo, como esperado começou jogando como a escola progressiva sugere: mixagens longas, elementos se encaixando e consistência. Era isso mesmo, estava diante de uma noite old school que começou no garden e agora estava nas mãos de Timo. Desde a primeira música notei que seria um set daqueles que você não vai achar as músicas para comprar, a não ser que vasculhe o que foi lançado há alguns anos atrás e ninguém mais lembra, e isso me deixou animado. Esquecendo do tempo, um clima um pouco surpreendente foi se mostrando, sem ser muito viajante e quase nada melódico, mesmo assim você entendia que era house progressivo. Depois das 5 horas os baixos mais pesados foram dando lugar a um ritmo um pouco mais rápido, estava tudo certo, era só se manter assim até perto do fim que seria uma noite pra pedir bis, porém, Timo resolveu cadenciar novamente e isso me frustrou um pouco. É uma escolha que o DJ faz no momento, ele consegue manter tudo sob controle, mas pode perder um pouco a energia na pista.

    De qualquer forma, estava ali, disposto a se surpreender novamente, e na última hora, ao ouvir o vocal de Paul McCartney ecoando pelo club me despertei novamente. uns dias antes tinha escrito uma matéria para revista Phouse sobre o incrível remix de Kerri Chandler para ‘’Nineteen Hundred and Eighty-Five’’ da banda Wings, mais conhecida como Paul MacCartney & Wings. Mesmo não sendo a última, foi o fechamento ideal para mim, ter sentimentos nostálgicos evocados é sempre algo diferente e especial, pude finalmente riscar da lista um artista que sempre quis ver. Foi ao ar pelo Warung Waves uma grande parte do set de Timo Maas, ouvir certamente sempre será mais compreensível do que ler, por isso deixei pro final.

     

  • Guy J retorna ao templo em noite de reverência ao mais puro house progressivo

    Dia 25 de Junho o Warung Beach Club abriu suas portas para apresentar o produtor israelense Guy J, depois de 4 anos de espera ele estava de volta e disposto a fazer uma noite repleta de magia e emoção. O crescente número de admiradores de sua música no Brasil estava contando os minutos para sua apresentação, alguns deles resguardavam nas memórias de 2012 quando ele abriu a noite para seu até então “boss label”, John Digweed. De lá pra cá, Guy tornou-se um dos artistas internacionais mais aguardados do templo visto o crescimento que obteve em sua carreira, seja com lançamentos ou liderando a própria gravadora repleta de talentosos produtores. Novamente a convite do núcleo detroitbr e com muita satisfação fiquei responsável de abordar este reencontro, porém, antes de falarmos sobre a noite é preciso expor o impacto existencial que tive logo após final de semana da festa.

    Começando o review, me pego sentado à frente do computador em meu quarto ouvindo pássaros assobiarem pela janela de uma acinzentada sexta-feira à tarde. Desde que me propus a escrever sobre música eletrônica, foram poucas as vezes que me vi em tamanha dificuldade para relatar algo. O choque da volta à realidade forçou-me a refletir mais que o de costume e durante a semana busquei em alguns pensadores inspirações para expressar da forma mais verdadeira as impressões sonoras que tive com esse artista.

    Bem, ao entorno de um set existem diversos fatos que são necessários para algo especial acontecer, e nós vamos tentar encontrá-los. De alguma forma, pessoas dos mais diversos lugares tiveram seus caminhos colocados no mesmo instante sendo possivelmente preparadas para ouvir alguém que veio do outro lado do oceano a fim de manipular ondas sonoras. Então, de repente me peguei observando que estava diante de uma das questões mais intrigantes que se pode ter enquanto indivíduo humano e pensante. Qual o sentido de ter apenas uma fração da sua existência junto de seus novos eternos amigos ou alguém que você gosta? Por que tão pouco tempo? Segui adiante, só a noite poderia me dizer. 

    Enquanto aguardávamos a chegada do pequeno gênio, o sentimento na parte à frente da cabine era de festa na sala, por todos os lados me via cercado por conhecidos, amigos e isso só fazia aumentar a expectativa. Guy J tem cada vez mais sintetizado o tipo de música que melhor desperta meu interesse, arranjos de bateria e percussão tribais somados a timbres obscuros carregados de melancolia na dosagem certa, sem exageros. Tendo que começar a noite praticamente do zero, ele deu mostras já nos primeiros minutos de que tem se tornado um DJ de primeira linha, de forma sutil recolocou a pista onde deveria estar e começou a moldar seu set.

    As pessoas estavam dançando e elas queriam ver do que Guy J era capaz, porém, junto de alguns amigos, constatei que o sistema de som estava bem abaixo da sua normalidade. Possivelmente devido a troca de equipamentos e assim como no carnaval com Luciano, falta de atenção por parte dos técnicos da casa. Somente depois de quase uma hora que conseguimos chamar a atenção do manager de Guy J, que fez o pedido do ganho no sound system. Infelizmente a essa altura, ele já tinha tocado Melt – uma das minhas favoritas – mas que infelizmente não surtiu efeito na pista, paciência. Dai em diante foi outra festa, era possível sentir as batidas no peito e os médios entorpecendo a mente. Guy J foi subindo o set até determinado ritmo e ali se manteve alternando entre breaks delirantes e transições sequenciadas, emotivas e obscuras. Era como se estivéssemos uma hora caminhando nas nuvens e logo depois éramos jogados no limbo, sem dó. Ficou nítido que ele queria tocar tudo que sempre imaginou ali, todos estavam vibrantes e a cada virada em camadas eu recebia estalos cognitivos no cérebro, circuitos iam se ligando e lapsos de memória começaram a surgir, assisti momentos da minha infância, coisas que já vivi e de onde já estive, uma imersão ao subconsciente como poucas vezes já tive. É como se Guy J tivesse pego como referência os efeitos anestesiantes do Sasha e as mixagens desconcertantes do Hernan Cattaneo e colocado em sua forma de tocar, não com a mesma excelência – é verdade – mas formando um conjunto que não deixa a pista se dispersar da música um segundo.

    É difícil colocar em uma linha do tempo todas músicas próprias que ele tocou, foram diversas, acredito que mais de 1/3 da noite tenha sido só de faixas autorais, ainda assim é impossível não destacar o clima explosivos que o público teve em Dizzy Moments e Nirvana. Ele tentava se manter concentrado mas suas expressões entregavam a emoção de comandar aquela pista, em nenhum momento precisou acelerar o bpm ou jogar mais techno, a noite não era pra isso, era um momento de reverência ao mais puro house progressivo, ao estilo que marcou a vida de muitos dos que estavam ali esperando por isso, e que de forma sublime foram recompensados. 

    O canto de Miriam Vaga em Tomorrow pela manhã, música que tocou em 2012 também, foi uma forma de dizer: “Como eu queria estar de volta” e me fez encontrar as respostas que tanto me incitaram no início da festa. As mãos no rosto do Guy J ao final junto com o coro de seu nome pelo público provaram tanto pra ele quanto pros presentes que se há recompensa – se é que ela existe – de termos nos tornados autoconscientes sobre nossa existência é de ter pequenos momentos como este, tudo vale a pena!

  • Pete Tong retorna ao Warung e relembra a escola inglesa dos anos 90

    É fato, quando estamos diante de um remanescente da escola inglesa de DJing, as chances de receber uma aula de como se deve tratar com música são altas. Não só neste país, mas em todo Reino Unido, existe um desvio cultural para tudo que envolve melodias, profundidade e progressão. Nem preciso aqui citar as bandas até por que faltaria espaço, no entanto, de uma forma ou de outra tudo sempre acaba se afunilando em Londres, a capital onde todos criaram suas bases. Desde o final dos anos 80, vários Djs advindos deste pedaço de mapa milenar tem ditado o ritmo do que se toca no resto do mundo e um deles, que sem pensar seria colocado em um Top 10 de todos os tempos, é Pete Tong.  Um radialista que virou Dj ou um Dj que virou radialista? Difícil dizer, a história é paralela e ele criou marcas únicas dos dois lados. Ser o mentor do Essential Mix como o maior programa de música eletrônica de todos os tempos ou ser referência de uma linha – o house progressivo – que dominou os clubes do mundo todo por pelo menos 15 anos? O que é maior? Novamente, estamos em paralelo.

    Depois de bater na trave em 2015 o seu retorno finalmente teve confirmação, então não pensei em deixar a chance passar. Era sabido porém, que o artista esteve caminhando nos últimos anos em ondas rasas, principalmente depois de assumir também o comando do Evolution Show, programa norte-americano de rádio devidamente focado no mundo EDM. Ainda assim, fui de peito aberto com a ideia de que era um nome que precisava riscar da lista e se ele ainda tivesse personalidade, sentia que ia ser bom. 

    Com um público aquém do que se espera de um feriadão no litoral catarinense, presenciei no Garden o Curitibano Gui Tomé.  Em um primeiro momento ele me parecia um pouco descontrolado na aceleração do BPM, porém, com devida cautela ele conquistou o ritmo ideal para o difícil horário que se estenderia até a 1h. Técnica e escolha de músicas admiráveis, Gui mostrou o que sempre se deve esperar dos Djs de sua cidade. Continuando, logo em seguida pude conferir uma ótima surpresa no excelente set de Diogo Accioly. Não sentindo-se intimidado pelo importante horário lhe conferido, conduziu a pista com enorme personalidade em um ritmo por vezes viajante de house e outrora dançante de techno, intercalando essas duas referências em um set consistente e tendo seu ponto máximo o remix de Guy Gerber para “Walls” de Monkei Safari. 

    Após dar um tempo na sacada do Inside, finalmente pude ver pelas telas da pista que Pete Tong estava se aprontando. Juntamente de novos amigos que fiz alguns momentos antes no garden, me dirigi ao centro da pista para já se impressionar com as primeiras músicas do ícone. As linhas de baixo longas e introspectivas deram as caras e pude refletir que sim, hoje iria ver um daqueles Djs de uma seleta lista de mestres e influenciadores de toda uma geração. Como necessário, ele logo começou a introduzir ritmo e balanço com viradas daquele jeito que só esse estilo proporciona, penso que quem esteve lá e conhece essa linha, saberá do que eu estou falando, a pista simplesmente não cai da sua mão. Atentei-me a performance e assisti Pete frequentemente cortando uma linha horizontal de um CDJ a outro, andando e voltando na escolha das músicas como um tique. Todo artista carrega certas singularidades, gestos e posturas corporais que repetidas em determinadas situações denunciam o que o público ira levar para casa como lembrança além da música, e esse era o dele. 

    Com a pista em mãos, arrancou aplausos e gritos eufóricos de seu groove com pontas melódicas, linhas tribais e vocais com sentimento. Certa vez um Argentino me ensinou que:

    “O set deve ser coerente, assim como o seu estilo, sua carreira e você mesmo. Se pensarmos nos grandes DJs, todos eles têm seu estilo característico; eles podem mudar o tipo de música que tocam, mas o estilo? Nunca. É legal, por que mesmo que demore anos para que você o assista tocando de novo, sabe o que esperar do seu set.” – Hernan Cattaneo

     

    Foi desse ensinamento que lembrei quando os momentos finais do set de Pete Tong foram se aproximando, no momento certo ele coloca ‘’No Distance’’ de Dixon & GG, sendo a música perfeita para aquele momento em que a pista ainda está escura, porém, você já observa que ao final do triângulo o mundo já está claro. Com a atmosfera simbiótica que os raios de sol carregam para dentro da pista, lentamente é preciso acordar e “Acamar” de Frankey & Sandrino cai com perfeição. Essa é o tipo de música que literalmente puxa a pista novamente pro jogo e se possível, a levará ainda por um bom tempo. Mesmo demorando 10 anos pra voltar, foi interessante ver como Pete escolheu algo semelhante a sua estreia no templo para os momentos finais, ”What’s A Girl To Do” de Fatima Yamaha no re-edit de Capulet foi marcante tanto quanto “It’s Too Late” de Dirty South & Evermore, ambas são clássicos de seus respectivos anos.

    Saí dessa experiência realizado por ter assistido um DJ alinhado com o que acredito ser a sonoridade total e principalmente, uma figura-chave no crescimento da música eletrônica como um todo. 

    Fotos: Gustavo Remor

  • Depois de 6 anos Luciano retorna ao carnaval do Warung Beach Club

    Em janeiro de 2007 o Warung desembarcou pela segunda vez na praia brava umas das marcas mais conceituais e originais de Ibiza, a “Circo Loco Party“, comandada pela lenda uruguaia Tânia Vulcano, que por sua vez trouxe junto outro Sul-Americano que estava dando o que falar na tradicional festa do DC10. Luciano fez sua estreia no templo e ajudou a marcar uma nova fase do club educando uma geração de frequentadores que estava muito bem-acostumada a progressão e melodias dominantes da época, porém eram novos tempos, a casa sempre buscou apresentar novidades e provou estar certa visto a ascensão que Luciano e outro seu conterrâneo, Ricardo Villalobos, apresentaram nos anos seguintes. Ambos tornaram-se aclamados na Europa e criaram impérios com suas concorridas festas e labels. É evidente que a residência na festa Circo Loco formou as bases do que Luciano mais tarde criaria como seu maior projeto de vida, a marca “Vagabundos Cadenza”, lançando vários artistas de extrema qualidade como Dani Casarano, Felipe Valenzuela e Mendo. Eles se consagraram na Space Ibiza e encantaram plateias de todo mundo trajados como artistas de uma companhia circense do século XVIII.

    Já no carnaval de 2010, Luciano volta ao templo como headliner máximo e faz um dos longsets mais marcantes daquele ano. Consolidado, ele tinha tudo para se tornar um artista anual do club. Sua conexão com a pista e o clima sul-americano reavivado em sua personalidade o encantaram, fazendo rasgar elogios ao templo mundo afora. Nos dois anos seguintes a história mudou seu curso e ele desembarcou com sua trupe em frente da “lagoa” e não do “mar”, possivelmente um dos motivos de não ser mais uma prioridade do club e assim, os anos se passaram.

    Não consegui visitar a casa naquele memorável carnaval de 2010, mas sempre ouvi boas histórias sobre aquela noite. Já tinha perdido as esperanças de vê-lo novamente na brava, mas o que seria da vida sem as surpresas? Foi essa minha reação ao ver o nome do chileno na programação e ainda melhor, no mesmo carnaval que ele deixou há 6 anos. Mesmo tendo meu gosto pessoal muito mais centrado na segunda-feira com Guy Gerber ou até mesmo no sábado com Dixon, não pensei duas vezes que a noite escolhida seria com Luciano.

    Como do costume me aprontei mais cedo e acessei a casa com enorme tranquilidade,  fiz o roteiro habitual de banheiro, bar e Garden, onde pude ver o set do Fran Bortolossi, o artista hoje referencia do renascimento da cena Gaúcha. Tocando adequadamente ao horário ele mostrou uma linha de house e deephouse séria na primeira hora e observando o crescimento da pista, trouxe levadas bem dançantes em um segundo momento. Sem dúvidas o ponto mais marcante em seu ótimo set foi o edit de Redondo para um artista que admiro muito, Fatima Yamaha na já clássica “What’s A Girl To Do”. A pista inevitavelmente transbordou.

     

    Muito curioso, subi ao Inside para conhecer aqueles que para mim eram até então desconhecidos, falo dos londrinos Koko Bayern e Daylomar. Ambos se apresentavam sob a proposta do showcase de lançamento da label Unleash, que passara pela D-edge um dia antes. Bayern já havia se apresentando e quem estava virando os discos era Daylomar. Eu poderia ter pesquisado sobre seus trabalhos dias antes, mas dessa vez pensei em fazer diferente, fui sem expectativa nenhuma e de peito aberto para descobrir quem eles eram. Em 10 minutos de música já estava totalmente tomado pela linear sutileza em que Daylomar  construira seu set. Entre vinil e CDJ, ele jogava com uma pegada de house e tech house de muita classe, tentando buscar referências sobre o que tocava, me veio a mente o estilo de Audiofly, se é que podem me servir de exemplo.

     

    Jackmaster era outro artista que seria quase totalmente novidade para meus ouvidos, embora tenha acompanhado de longe seu sucesso e sabendo que ele tem despontado entre grandes djs na Europa, eu nunca tinha sequer ouvido alguma de suas produções ou sets. Suas primeiras músicas foram bem quebradas e intensas, me deixando em um primeiro momento confuso sobre a qualidade de Jack, porém, conforme ele foi construindo seu som, pude perceber que a ideia inicial de desconstruir todo o ritmo criado antes por Daylomar era para poder fazer a pista entender melhor sua segunda hora de música. É preciso coragem para isso e sua ótima técnica aliada a rápidas viradas fizeram-me apreciar com interesse seu trabalho. Não é todo dia que se ouve um estilo de música como esse.

    Depois de uma pequena demora na montagem dos equipamentos por seu manager, Luciano inicia seu set sendo muito aplaudido, porém, já nos primeiros minutos notei que o sound system estava bem abaixo da sua normalidade e até mesmo mais do que quando Jack estava tocando. Seus equipamentos foram montados em cima de outro mixer e a pista não estava recebendo o ideal. Essa é a situação em que o público não se dá conta, o pessoal da casa menos ainda e no final ficaria a impressão que o set não foi tão legal. Assisti à mesma situação no carnaval de 2013, quando Matador fez seu live e em seguida Richie Hawtin entrou com o som bem abaixo e tudo acabou ficando por isso.

    Mesmo sendo um grande set, ninguém acaba se recordando da apresentação ou até mesmo chegam ao ponto de criticar o DJ por algo que estava além da sua percepção, uma vez que o artista na cabine recebe os retornos sempre iguais. Incomodado lembrando de tudo isso, não me contive e escrevi no celular a mensagem ”the sound sytem need’s a gain”, simples e direto, me dirigi até o manager e mostrei a mensagem, ele por sua vez me fez um sinal de positivo, voltou-se para o mixer e deu um ganho no master. Lamentavelmente o problema não era ali, mas para minha felicidade, uma segunda pessoa no palco olhava intrigada para as caixas na pista. Depois de alguns minutos, o sujeito foi atrás na mesa de som e alertou os desatentos técnicos da casa, que trataram logo de somar cerca de 30 a 40% de volume. Dali em diante foi outra festa. A virada da música seguinte já fez a pista explodir com as mãos para cima, com sorriso no rosto e tradicionais palmas virado de lado, Luciano mostrou a que veio.

    Ele é um artista que respira energia e isso contagia qualquer pista, seu set sempre é carregado com muitas referencias sul-americanas e no Warung não foi diferente: vocais latinos, linhas de baixo dançantes com breaks longos e percussivos que não deixavam a pista parar por um minuto. A noite perfeita para um carnaval quente brasileiro estava construída, mas acima de tudo, o que faz dele um dos Djs mais respeitados dos últimos 10 anos é sua qualidade técnica, sua mixagem muito bem trabalhada com a soma de seus mashup ao vivo. Trabalhando quase sempre com dois canais ou mais, ele abusa de seu extremo bom gosto.

    As rápidas 3 horas e meia se traduziram em consistência na primeira parte e pegadas mais explosivas na segunda. Por volta das 6 da manhã, o momento da noite chega com o inconfundível vocal de “Enfants” de Ricardo Villalobos, jogado junto em outra música mais limpa com extrema maestria. Próximo das 7 horas, o escuro triangulo no final da pista deu lugar a uma página amarela mesmo sem o sol aparecer. Já com saudades desta vista, pude observar no mesmo momento Luciano extremamente realizado curvando-se diante do público em agradecimento e talvez sabendo que agora ele poderá ser frequente na casa. Quem agradecerá desse vez será o público.

    Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)

  • Tradição se mantém e Hernan Cattaneo celebra mais um fim de ano no Warung

    O dia 28 de dezembro, uma das datas mais icônicas do ano no Warung Beach Club, por um momento pareceu que ia se perder em 2015, pois a curadoria da casa resolveu, de maneira inédita, trazer Hernan Cattaneo no feriadão de independência. O acerto foi comprovado com noite de ingressos esgotados e uma repercussão incrível, que ajudou a ascender novamente os olhares do jovem novo publico do club para essa linha de som. Se isso foi pensado ou não, não importa, o importante é que funcionou. Visto a proximidade do final de ano, praticamente todos que acompanham mais de perto a carreira do Maestro concluirão que desta vez ele não viria no final de ano, tudo bem, o fantástico set de setembro ainda ecoava na mente de todos e gerava debates nas rede sociais. Até um amigo enviar-me a recém atualizada agenda de Hernan em seu website… estava lá, a tradição falou mais alto e todos correram pra mudar os planos de férias.

     Já fazem mais de 5 anos que tenho seguido esse roteiro e o melhor de tudo é entrar na casa e sentir aquele clima diferente, algumas pessoas você só vai ver ali nesta data, frequentadores mais antigos e amigos de outros estados que deixam de serem virtuais e vivem a realidade do único longset que ainda respira na Praia Brava. Como falei no review de setembro, em 2015 Hernan completou dez anos de Warung, e eu, 10 shows que somados geram mais de 60 horas de música! Refletindo, as vezes parece-me que já ouvi bastante, mas logo depois sinto que ainda tenho muito a aprender sobre como funciona a mentalidade desse artista único, que no meu entendimento alcançou um nível que vai muito além do cenário da musica eletrônica.

    Depois de alguns anos, o residente mais antigo da casa e um expoente da nossa cena voltou a ser convocado para o warm-up. Leozinho sempre deixou claro que o argentino é uma das suas principais referências de como se deve conduzir uma pista. Ao adentrar na casa e encontrar os amigos, por volta da meia noite subi para começar a entrar no clima, Leo tocando em sua antiga e melhor versão: house com bastante groove, leves breaks e finas melodias, como é a pedida pro horário. Seguindo o roteiro, perto do horário Hernan aparece no palco e é interessante como tudo é tão tradicional: ainda assim a emoção bate como na primeira vez, sendo ovacionado, ele espeta seus pen-drives e abre seu Technics preto, a camiseta escura também está ali, só faltando mesmo o cabelo comprido sendo levantado pelos dois ventiladores acima da cabine, é compreensível, chegar aos 50 anos de idade fazendo mais de 100 shows por ano ao redor do mundo, deve pedir um pouco mais de conforto.

    À uma da manhã hora em ponto Hernan não precisa parar a música, o bom esquenta já pede a primeira mixagem, como verdadeiro gentleman, chama Leozinho de volta pro centro da cabine e pede os aplausos do publico, ele realmente aprecia e reconhece a importância de se deixar a pista no ponto, de fato isso reflete lá na frente. As 6 horas do seu set são muito especificas, a primeira coisa que ele sempre faz é dizer: ”ok, vamos dançar” as duas primeiras horas de ritmo ainda devagar são para ir colocando todos no mesmo balanço, equalizando a pista com alguns vocais e muita percussão, como na música de Brian Cid – Oasis. Não tinha virado a segunda musica e os hermanos, sem pedir licença, abrem uma bandeira da argentina de mais de 2 metros com a mensagem ‘’No Hay Limite Para Tu Musica’’. Pronto, se alguém tinha duvidas sobre o que aconteceria no restante da noite, acabou por ali. Com certa frequência, Catta virava-se para seus amigos conterrâneos na cabine, e com sorriso no rosto tentava mostrar um pouco do club, realmente ali ele se sente tão em casa quanto em seu próprio país, os hermanos além de reconhecer isso, fazem de tudo para vir aqui poder ver seu famoso extended set. Entre seus convidados, um dos maiores produtores da nova geração argentina, Marcelo Vasami.

     Se pudéssemos transportar a maneira de construir seu set para um exemplo lúdico, poderíamos imaginar uma roda gigante, London Eye se encaixa perfeitamente, pois além do entretenimento, ela serve como ponto de observação. Hernan gira sua roda nas duas primeiras horas para que todos consigam subir, ainda que em movimento, quando se está dentro de algo tão grande é fácil de perder a noção de tempo e velocidade, a roda pode começar a girar mais rápido lentamente e você nem se dar conta, só quer apenas que ela gire sem parar, e é justamente isso que acontece na pista. A sutiliza em que ele vai aumentando o ritmo no decorrer da noite faz com que nossa percepção mude, alguém que entre naquele triângulo de madeira no meio da noite não vai conseguir entender com plenitude o que está acontecendo, é por isso que eu só consigo sair da pista depois que a musica para. Como já esperado, pouquíssimas musicas reconhecíveis e se em setembro o som foi mais frio com pontos emotivos, dessa vez ele tocou muito psicodélico a partir das 3 horas, subindo as batidas por minuto como não se via a anos! Hernan não gosta de jogar muito alto mesmo com sua linha de baixo agressiva, então quando ele resolve acelerar, o rastro de euforia na pista é impressionante, o coro de ole ole, ole ole, HC HC! apareceu mais vezes do que de costume, é aquele momento em que a pista já não sabe mais o que fazer e reverenciar é o que sobra.

    São 4 da manhã, o auge, a sequencia arrebatadora deixa todos estasiados, Hernan flutua sobre a cabine e suas mixagens se encaixam como um quebra-cabeças, não há espaço para respirar, as linhas de baixo em alta frequência se propagam por toda pista e se ligam praticamente formando um outro ritmo, as batidas do que poderia chamar tranquilamente de techno ficam em outro plano, indo e vindo conforme sua vontade, e os contratempos de hats e bateria são uma das suas principais características, isso é algo difícil de explicar, pois não é em qualquer lugar que funciona, até mesmo porque não é qualquer lugar que tem a acústica do Warung, realmente isso sempre foi um dos maiores segredos do sucesso do club. Entre os diversos momentos de maior introspecção, vale destacar ”Delta Corvi”, música do produtor Gaucho Fernando Goraieb, ”Candyland” de Guy J com remix de Luca Bacchetti, Kiasmos – Swept ( Tale Of Us remix) e a indescritível musica de Roman Fluegel – Wilkie com remix do argentino Ditian Lonely. Segue abaixo video do momento:

    Passando das 5 horas é que consegui chegar mais próximo dos amigos e interagir, em uma rápida olhada pelo corredor da saída principal, vejo que a intensa chuva que caia durante boa parte da noite já tinha dado uma segurada. Hernan fez a mesma coisa, é hora de mais melodias, ‘’Crosses and Angels’’ de Lopezhouse cai como uma luva. Por volta das seis o vocal inconfundível de ‘’I Wish You Were Here’’ surge no repaginado remix de Kevin Di Serna, esta musica ele já havia tocado alguns anos atras na versão clássica de Lexicon Avenue, que momento!

    Perto do final outro clássico daqueles, ‘’Right Off’’ de Danny Howells (Precisa voltar) com remix de Faze Action é daquelas que nunca saem da case, tem um poder tribal capaz de renovar as energias para mais algumas horas, infelizmente as manhãs adentro de boa musica do Templo são coisas da memoria, ainda assim já se passava de 7:15 quando Hernan virou a ultima musica com o vocal sereno e romantico de Arnór Dan, produção de ‘’Ólafur Arnolds– So Far ( Guy Mantzur Remix )’’os gritos e aplausos do publico soavam tão alto quanto o volume do sistema de som, e visivelmente emocionado ele agradece a todos da mesma forma. O prazer e a honra de ouvir e tocar são mútuos, e a mensagem mais tarde em sua Fanpag em portugues: ‘‘Nunca deixa de me surpreender’’ fez com um espelho a sua frente, pois o sentimento de todos diz o mesmo.