Uma relação que transcende a própria música. Se me perguntassem como eu encaro ter a chance de ver Sasha no Warung Beach Club, diria essa frase. Muitos artistas marcam as pessoas, educam, inovam, mas pouquíssimos tem o poder de mudar a essência delas, e Sasha é um deles. Seria estranho se em 2016 ele não viesse ao templo, sua última aparição no aniversário do clube em 2014 deixou novos admiradores somente em duas horas de set, e desde janeiro do mesmo ano, ele não mais tinha sido oportunizado a um long set em seu lugar favorito.
O ano era especial, por completar 10 de sua marcante estreia no carnaval de 2006 e por acontecimentos importantes na continuação e direcionamento de sua carreira. Me refiro ao impressionante álbum em plano de fundo, Scene Delete, onde Alexander deu, digamos, um cartão de visitas para o novo mundo cinematográfico que pretende ingressar – e sobre isso, encontrei um paralelo que será apresentado adiante – além do aguardado retorno de back to back com John Digweed após 6 anos de hiato. Para os fãs brasileiros, lhe foi concedido 5 horas de trabalho, os mais calejados da noite sabiam que seria o suficiente para vislumbrar-se, ainda assim, quem acompanhou seus dois últimos anos poderia levantar a seguinte questão: O que ele iria trazer para o Templo? Desde seu anúncio eu comecei a perguntar-me. Sasha mostraria sua fórmula de sucesso emotiva e viajante de tantos anos no clube, ou deslocaria para sua linha reestilizada de techno e tech house progressivo inerentemente estampada pelos artistas de sua gravadora?
Entrei no clube um pouco mais tarde do que de costume com essa indagação que já se arrastava por semanas. Após rever os amigos no inside rapidamente, me dirigi ao garden onde Edu Schwartz pacientemente começava a deixar os ouvintes afim de jogo. Em seguida, o DJ e produtor inglês Cristoph foi recebido por uma pista sedenta por novidades, e foi isso que ele retratou.
É sempre ótimo poder ver ao vivo um produtor que acompanha e notar que ele também sabe conduzir uma pista. Timidamente começou levando em variações limpas e levemente viajantes de house e tech house. Com muita segurança soube desviar de alguns momentos de quebra de ritmo, que imediatamente eram supridos por uma nova faixa. Após meia hora, tinha todos na pista envolvidos e os picos de explosão surgiram, quando vimos já passara das 2h00 e infelizmente não pude ver o restante de seu set. Certamente é um nome que espero poder apreciar com um horário mais avançado em breve.
A sorte foi que Sasha teve um pequeno atraso, e por volta das 2h15 quando adentrei ao febril inside, ele ainda estava em cima da primeira track. Se existe algo que aprendi na música eletrônica é que você não reconhece um artista pelo tipo de som que toca, e sim pelo seu estilo, pois isso, ele nunca mudará. Os inicios de long set de Sasha são sempre arrastados, e dessa vez ele foi além, resetou a pista nos primeiros minutos colocando faixas quase sem ritmo, apenas texturização. Na primeira batida, eu obtive a resposta que tanto buscava, ela era seca! Então é isso, vamos em uma nova experiência.
Quando você corre por uma estrada sinuosa por algum tempo, seu senso de direção é melhorado, e quando finalmente chega em linha reta, vai apreciar cada instante de consistência. Essas duas horas iniciais de Sasha sempre foram polêmicas, ele precisa de tempo, isso é fato, seu semblante distante faz alguns acreditar que seja uma dificuldade até conseguir ganhar ritmo, já outros – onde me incluo – observam como uma necessidade criada pelo artista em seus expectadores, só para depois entregar-lhes a solução, e ela será abraçada com toda energia, por isso você apenas precisa confia-lo sua mente. Sasha embaralhou as cartas e foi soltando pouco a pouco cada uma delas, ora deixando uma música por 2 minutos, ora mixando no último tempo, era difícil de distinguir onde tudo estava, isso é um break ou uma virada? Meio, fim? Todas essas questões me provocavam, e na faixa ‘’X – Secret Weapons’’ de Eagles & Butterflies percebi que a conexão havia começado, e não teria mais volta.
Imprimindo pulsação e viradas sorrateiras, as 4h00 Coe estava finalmente em linha reta, e como esperado, começou a abrir seus famosos processadores de efeito, nesse quesito, ele os usa como ninguém. Todos sabem com qual finalidade um artista implementa efeitos durante o set, mas Sasha consegue ir além, suas camadas foram se conectando até formarem um novo elemento na pista de dança. Gosto de comparar os clássicos processadores de efeito de Sasha com as cenas de quebra da quarta parede no cinema ou tv, exemplos recentes de sucesso em séries como House of Cards com Kevin Spacey, ou Mr. Robot, com Rami Malek podem servir de paralelo. Nos momentos que se dirigem à câmera e interagem com o expectador, dão um novo sentido a cena e era isso que sentia quando os efeitos surgiam desde o breakdown e ganhavam expressão tomando conta do restante da música e assim, sucessivamente, ele mudou o cenário dos que estavam presentes. O resultado? Não poderia ser outro: delírio coletivo!
Quanto mais próximo da manhã chegava, melhor o set ia ficando e isso me dava medo, pois sabia que iria faltar tempo. As 6h00 Sasha começou a colocar mais profundidade em sua música para um lado misterioso e até sombrio, foi uma dose de house progressivo que tantos esperavam. Quem assistiu a transmissão ao vivo que aconteceu em sua fanpag as 6:30 hrs certamente imaginou que ele tinha passado a noite em um groove imersivo, a faixa ‘’Carthage’’ de Fairmont representa perfeitamente, e é a minha favorita na noite.
Eu já comentei sobre isso outras vezes, mas vale destacar novamente. Esse horário de transição para o dia tem um dos climas mais comoventes que se pode ter ali dentro, o contraste da pista ainda escura com o painel branco do lado de fora é como se a realidade estivesse nos chamando, mas ainda podemos ficar. Passando das 7 horas finalmente algo totalmente emotivo, uma entrega final perfeita, ‘’Trigonometry’’ fez todos suspirarem em sua obra mais aguardada. Ouvir uma música com uma identidade tão singular como essa, naquele momento, nada mais serviu para que ele nos colocasse em uma encruzilhada. No que Sasha foi ou é mais genial, tocando ou produzindo?
No encerramento, algo bem parecido com 2011, Sasha fecha os médios no final da música em um loop por alguns segundos, um chamado de olhares para si, era isso que buscava, e então o vocal de ‘’track 10’’ entra para colocar todos em êxtase e reverência de seu nome, ele poderia tocar um DJ set inteiro só com seus remixes de bandas em que se pode cantar junto, porém, deixou esta como unanimidade para todos lembrarem. É por momentos assim que continua a deixar uma legião de seguidores por onde passa.
Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana
Videos por: Thais Olluk e Marlon Mendes