Timo Maas e o resgate dos símbolos da história do templo

 

Marcado na memória como o primeiro headliner da inauguração do Warung Beach Club em novembro de 2002, Timo Maas teve seu nome esquecido nos últimos anos pelo club e consequentemente pelo público. Permeando renovações em cada 3 a 4 anos de frequentadores na noite, estar fora do ciclo durante esse pequeno período é suficiente para uma determinada região não saber mais quem é você. Mesmo tendo feito tours pela Argentina, de alguma forma Timo não se apresentava mais desde a celebração de aniversário de 6 anos em 2008. Em parte por sua própria baixa como artista – o que é normal – em parte pela maior abertura de estilos que a casa passou a abordar, seguindo a lógica, foi fatídico que só esteve voltando quem se manteve em um certo nível de consistência, seja com lançamentos ou grandes apresentações em festivais de renome. Outras lendas como Danny Howells, Dave Seaman e Satoshi Tomiie também marcaram época na primeira década de vida do clube da Praia Brava e por intensão própria deixaram de se preocupar em serem totalmente globais, quem já gastou solas na pista de madeira lamenta, porém, esse ano a curadoria tem apostado no resgate de símbolos que ajudaram a construir a identidade única do templo, como com Luciano que não aparecia desde 2010 e Guy J desde 2012. 

Agora que clareamos o contexto histórico do retorno do Dj Alemão, podemos analisar quais pontos positivos a noite de 6 de agosto agregou para cena, para quem aguardava assim como eu e que não teve oportunidade de ver em 2008 e para quem estava na casa por ter se interessado na promoção do escolhido como “primeiro headliner” do templo.

Independente das expectativas que cada grupo poderia ter, todos eles receberam uma noite com sonoridades atípicas em três momentos diferentes, e que na minha concepção fizeram valer a presença. Posso começar falando que antes mesmo da uma hora da manhã já tinha ganhado a noite. Como? Bem, após acompanhar um pouco do bom set que o catarinense Edu Schwartz vinha desempenhando no inside, desci para buscar uma bebida no bar e de repente senti minha mente ser invadida por elementos de uma familiaridade de se ver no sofá de casa, olhei para trás buscando quem estava no comando do garden e me dei conta que não poderia ser outra pessoa a não ser Gustavo Conti, será que ninguém mais está ouvindo? O cara está tocando Involver!

Pra quem é fã do icônico primeiro álbum da trilogia de Sasha, ter a chance de ouvir qualquer uma das faixas na pista é algo surreal. Fui para a frente do som, precisava ouvir com plenitude! O mais legal era ver a pista inteiramente envolvida pelo toque balearic em breakbeats de ‘’Dorset Perception’’, segunda música do disco lançado pela Global Underground em 2004 que brigou no top 100 dos mais vendidos do Reino Unido daquele ano, a frente de muitas bandas de rock famosas inclusive. Não é preciso dizer que me obriguei a acompanhar o restante do set de Conti & Mandi, eles mantiveram a pista balançando em uma sintonia aconchegante, ainda tocaram diversas outras músicas que se percebia serem antigas, podendo ser o warm-up ideal para Timo.

Ainda assim, minha eterna curiosidade em ver novos artistas me fez subir para acompanhar a última hora do set de Jimmy Edgar. O produtor de Detroit estava jogando intensamente e pegar seu set pela metade me fez ter que esperar uns 20 minutos até começar a entrar no ritmo minimalista e com linhas de baixo agressivas que fazia a pista crescer. Jimmy toca um estilo de música que você não vai ouvir todo dia, é preciso mente aberta pra conseguir aceitar sua proposta e a pista acompanhou muito bem, mixagens rápidas e sem deixar espaços pra baixas ajudaram a prender atenção. Linhas de bateria cortantes e timbres por vezes obscuros são o que me vem a mente para tentar descrever. É o tipo de som pra duas horas de experiência no máximo, e então seu corpo começa a pedir por balanço novamente.

Foi quando vi surgir a figura de Timo Maas à frente do dragão. Como programado, às 3h30 ele deu início ao set com enorme tranquilidade, começar a pista do zero é algo que um cara com quase 3 décadas de carreira já fez incontáveis vezes, sem problemas. Em 15 minutos já era possível observar a pista em ritmo contínuo, como esperado começou jogando como a escola progressiva sugere: mixagens longas, elementos se encaixando e consistência. Era isso mesmo, estava diante de uma noite old school que começou no garden e agora estava nas mãos de Timo. Desde a primeira música notei que seria um set daqueles que você não vai achar as músicas para comprar, a não ser que vasculhe o que foi lançado há alguns anos atrás e ninguém mais lembra, e isso me deixou animado. Esquecendo do tempo, um clima um pouco surpreendente foi se mostrando, sem ser muito viajante e quase nada melódico, mesmo assim você entendia que era house progressivo. Depois das 5 horas os baixos mais pesados foram dando lugar a um ritmo um pouco mais rápido, estava tudo certo, era só se manter assim até perto do fim que seria uma noite pra pedir bis, porém, Timo resolveu cadenciar novamente e isso me frustrou um pouco. É uma escolha que o DJ faz no momento, ele consegue manter tudo sob controle, mas pode perder um pouco a energia na pista.

De qualquer forma, estava ali, disposto a se surpreender novamente, e na última hora, ao ouvir o vocal de Paul McCartney ecoando pelo club me despertei novamente. uns dias antes tinha escrito uma matéria para revista Phouse sobre o incrível remix de Kerri Chandler para ‘’Nineteen Hundred and Eighty-Five’’ da banda Wings, mais conhecida como Paul MacCartney & Wings. Mesmo não sendo a última, foi o fechamento ideal para mim, ter sentimentos nostálgicos evocados é sempre algo diferente e especial, pude finalmente riscar da lista um artista que sempre quis ver. Foi ao ar pelo Warung Waves uma grande parte do set de Timo Maas, ouvir certamente sempre será mais compreensível do que ler, por isso deixei pro final.