Richie Hawtin retorna ao Templo após longo período de ausência

A semana da pátria sempre marca o calendário de festas no sul do país, tradicionalmente o templo aproveita esta data para contemplar seus convidados com pratas da casa, geralmente utilizando duas noites para a celebração da independência. Este ano a mente por trás da M_NUS, um dos selos mais icônicos de Berlin foi o escolhido para encabeçar a primeira noite. Conhecido por embalar festas inesquecíveis, Richie Hawtin retorna à casa após um hiato de quase 2 anos. Sua última visita à cabine do Main Room foi durante o aniversário de 12 anos do templo e trouxe Gaiser como principal estreia.

Era sábado de chuva e a expectativa era de casa cheia, diante de um sold out nem mesmo o mau tempo poderia desencorajar os assíduos frequentadores do Club. O relógio marcava 22h20 e a Av. José Medeiros já apresentava indícios de uma noite atípica, filas dos dois lados, taxistas imprudentes e a insistência por parte de alguns em descumprir a norma de não estacionar na Praia Brava combinaram para que eu perdesse a apresentação do nosso querido tiozinho Ale Reis. 

 Após superar o caos no trânsito outro obstáculo surgiu, o nome não estava presente na lista de convidados. A pouco tempo a política de listas foi reformulada, até então nunca havia enfrentado algum inconveniente quanto a isso e, após uma longa e cansativa espera de quase 2 horas finalmente consegui firmar meus pés dentro do Warung. Nessa hora o desânimo já tomava conta, além de ter perdido o warm up já não tinha condições de enfrentar o empurra-empurra para ver Hito, optei por fazer reconhecimento do terreno, localizar alguns amigos e aguardar o retorno do “mago”.

Durante uma das idas ao Inside, meus ouvidos foram presenteados com o remix de Dubfire para EXposed, música que abre o álbum EX de Plastikman lançado em 2014 pela gravadora Mute Recordes. Depeche Mode, New Order e Kraftwerk são apenas alguns dos nomes que já lançaram por ela, essa música com toda a certeza fez eu recuperar uma parte do ânimo que havia perdido.

 Como nunca se deve julgar antes de conhecer, dei uma chance para que Hito mudasse minha opinião sobre ela, já havia ouvido diversos sets dela e em 2014 acompanhei todas as suas apresentações na ENTER, festa que este ano não figurou pelas praias de Ibiza. Com mixagens que as vezes transpareciam um pouco de nervosismo, a japonesa que sempre toca acompanhada de um belo kimono conseguiu manter a pista energizada e em outro momento enfeitiçou a todos com uma das músicas mais famosas de Nina Kraviz, Ghetto Kraviz.

Após isso me dirigi ao hall de entrada do camarim e acompanhei de perto a chegada do lendário homem de plástico e por felicidade do destino consegui trocar rápidas palavras com o mesmo. Ele estava com o olhar um tanto quanto cansado afinal estava vindo de uma jornada de duas noites intensas no D-Edge, quinta para o Moving em São Paulo e sexta para a abertura do D-Edge RJ com a festa Underconstruction. Pontualmente às 3h da manhã Richie Hawtin começou a construção do seu set acompanhando de seu mixer MODEL 1. Projetado e criado de DJ para DJ, o mixer oferece um leque imenso de opções para mixagens e filtros, abaixo é possível conferir mais detalhes do que o novo aparelho é capaz de fazer. 

Hawtin é o tipo de pessoa que apenas a sua presença já impacta na atmosfera do local. De origem britânica, criado no Canadá e influenciado pelo pai, engenheiro de robótica, sua vida sempre foi voltada para música, arte e tecnologia. Ao longo de toda a sua carreira sempre foi apontado como líder e pioneiro, seja pelos enigmáticos álbuns pela alcunha de Plastikman ou por todas as diversas contribuições para aproximar a relação das pessoas com a música. Um dos maiores exemplos disso é a plataforma de música on-line Beatport fundada em 2004 junto com Jhon Aquaviva. 

Para aquela madrugada o set foi alternando entre momentos de euforia e êxtase, em quatro horas de música toda a sua genialidade era notada nos pequenos detalhes, o fato de ele estar ali na cabine que sempre o coroa como “mago” apresentando mais uma de suas criações abrilhantou ainda mais a sua performance. Uma câmera foi alocada em cima do mixer para que todos pudessem ver com mais profundidade o que estava sendo produzido a cada segundo. No decorrer da noite poucas músicas conhecidas, o headliner contou uma história recheada de mistérios, daquelas que você pode e vai ser surpreendido a qualquer momento, a famosa batida 4 por 4 funcionava como fundo para os meticulosos efeitos do abtleton, a cada mudança no aspecto da música um efeito instantâneo era notado na vasta legião de pessoas aglomeradas no pistão.


Durante alguns instantes era como se um ser de outro planeta estivesse presente, forjado nas entrelinhas minimalistas do lado sombrio de Hawtin, sugando a todos para uma extraordinária dimensão repleta de criatividade e inovação. Inevitavelmente tudo que tem um início tem um fim, e de repente, os primeiros raios de luz começaram a tomar conta, era o primeiro sinal de que a abdução estava chegando ao fim, mas antes disso mais uma pequena amostra de engenhosidade, para os minutos finais a escolhida foi Tale Of Us – Lies,perfeita para finalizar toda a jornada vivida durante aquela noite chuvosa.