Dia 25 de Junho o Warung Beach Club abriu suas portas para apresentar o produtor israelense Guy J, depois de 4 anos de espera ele estava de volta e disposto a fazer uma noite repleta de magia e emoção. O crescente número de admiradores de sua música no Brasil estava contando os minutos para sua apresentação, alguns deles resguardavam nas memórias de 2012 quando ele abriu a noite para seu até então “boss label”, John Digweed. De lá pra cá, Guy tornou-se um dos artistas internacionais mais aguardados do templo visto o crescimento que obteve em sua carreira, seja com lançamentos ou liderando a própria gravadora repleta de talentosos produtores. Novamente a convite do núcleo detroitbr e com muita satisfação fiquei responsável de abordar este reencontro, porém, antes de falarmos sobre a noite é preciso expor o impacto existencial que tive logo após final de semana da festa.
Começando o review, me pego sentado à frente do computador em meu quarto ouvindo pássaros assobiarem pela janela de uma acinzentada sexta-feira à tarde. Desde que me propus a escrever sobre música eletrônica, foram poucas as vezes que me vi em tamanha dificuldade para relatar algo. O choque da volta à realidade forçou-me a refletir mais que o de costume e durante a semana busquei em alguns pensadores inspirações para expressar da forma mais verdadeira as impressões sonoras que tive com esse artista.
Bem, ao entorno de um set existem diversos fatos que são necessários para algo especial acontecer, e nós vamos tentar encontrá-los. De alguma forma, pessoas dos mais diversos lugares tiveram seus caminhos colocados no mesmo instante sendo possivelmente preparadas para ouvir alguém que veio do outro lado do oceano a fim de manipular ondas sonoras. Então, de repente me peguei observando que estava diante de uma das questões mais intrigantes que se pode ter enquanto indivíduo humano e pensante. Qual o sentido de ter apenas uma fração da sua existência junto de seus novos eternos amigos ou alguém que você gosta? Por que tão pouco tempo? Segui adiante, só a noite poderia me dizer.
Enquanto aguardávamos a chegada do pequeno gênio, o sentimento na parte à frente da cabine era de festa na sala, por todos os lados me via cercado por conhecidos, amigos e isso só fazia aumentar a expectativa. Guy J tem cada vez mais sintetizado o tipo de música que melhor desperta meu interesse, arranjos de bateria e percussão tribais somados a timbres obscuros carregados de melancolia na dosagem certa, sem exageros. Tendo que começar a noite praticamente do zero, ele deu mostras já nos primeiros minutos de que tem se tornado um DJ de primeira linha, de forma sutil recolocou a pista onde deveria estar e começou a moldar seu set.
As pessoas estavam dançando e elas queriam ver do que Guy J era capaz, porém, junto de alguns amigos, constatei que o sistema de som estava bem abaixo da sua normalidade. Possivelmente devido a troca de equipamentos e assim como no carnaval com Luciano, falta de atenção por parte dos técnicos da casa. Somente depois de quase uma hora que conseguimos chamar a atenção do manager de Guy J, que fez o pedido do ganho no sound system. Infelizmente a essa altura, ele já tinha tocado Melt – uma das minhas favoritas – mas que infelizmente não surtiu efeito na pista, paciência. Dai em diante foi outra festa, era possível sentir as batidas no peito e os médios entorpecendo a mente. Guy J foi subindo o set até determinado ritmo e ali se manteve alternando entre breaks delirantes e transições sequenciadas, emotivas e obscuras. Era como se estivéssemos uma hora caminhando nas nuvens e logo depois éramos jogados no limbo, sem dó. Ficou nítido que ele queria tocar tudo que sempre imaginou ali, todos estavam vibrantes e a cada virada em camadas eu recebia estalos cognitivos no cérebro, circuitos iam se ligando e lapsos de memória começaram a surgir, assisti momentos da minha infância, coisas que já vivi e de onde já estive, uma imersão ao subconsciente como poucas vezes já tive. É como se Guy J tivesse pego como referência os efeitos anestesiantes do Sasha e as mixagens desconcertantes do Hernan Cattaneo e colocado em sua forma de tocar, não com a mesma excelência – é verdade – mas formando um conjunto que não deixa a pista se dispersar da música um segundo.
É difícil colocar em uma linha do tempo todas músicas próprias que ele tocou, foram diversas, acredito que mais de 1/3 da noite tenha sido só de faixas autorais, ainda assim é impossível não destacar o clima explosivos que o público teve em Dizzy Moments e Nirvana. Ele tentava se manter concentrado mas suas expressões entregavam a emoção de comandar aquela pista, em nenhum momento precisou acelerar o bpm ou jogar mais techno, a noite não era pra isso, era um momento de reverência ao mais puro house progressivo, ao estilo que marcou a vida de muitos dos que estavam ali esperando por isso, e que de forma sublime foram recompensados.
O canto de Miriam Vaga em Tomorrow pela manhã, música que tocou em 2012 também, foi uma forma de dizer: “Como eu queria estar de volta” e me fez encontrar as respostas que tanto me incitaram no início da festa. As mãos no rosto do Guy J ao final junto com o coro de seu nome pelo público provaram tanto pra ele quanto pros presentes que se há recompensa – se é que ela existe – de termos nos tornados autoconscientes sobre nossa existência é de ter pequenos momentos como este, tudo vale a pena!