Uma noite no Main Room com Marcel Dettmann

No último dia 11 de junho, véspera do dia dos namorados, os apaixonados por techno tinham um compromisso inadiável: a noite com Marcel Dettmann e Carl Craig no Warung Beach Club. Já fazia quase um ano que eu não pisava no templo, um tanto pela atual curadoria, que tem selecionado nomes que não me atraem, mas principalmente pela dificuldade em ter uma noite confortável no ambiente cada vez mais apertado e tomado por pessoas que deixam a educação em casa para sair. Pessimismos à parte, a esperança de viver uma noite no Warung como antigamente sempre existe, não pensei duas vezes para decidir apostar e, graças ao deus do techno, não me arrependi!

Como de costume, chegamos ao club por volta de meia-noite, a tempo de comprar fichas, bebidas, ir ao banheiro e dar um giro. Desde minha última visita, em julho de 2015, poucas mudanças – um bar novo e pequenas reformas estruturais, coisas boas mas já citadas por outros detroiters em reviews passados. Indo ao que interessa, começamos a jornada musical com o final do set de Gromma, que nem preciso de muito esforço para imergir: após meio ano vendo ele fazer excelentes warm ups no Club Vibe consigo sentir com clareza cada mixagem e intenção dele, o que torna a experiência ainda melhor, pois apesar disso ele continua surpreendente sem perder a identidade.

Logo em seguida Wilian Kraupp começou e o ambiente começou a ficar apertado – descemos para o Garden, para esperar Carl Craig. Como o som de Mandi estava longe de ser o que buscávamos, especialmente numa noite com tantos mestres do techno, demos um tempo fora da pista. Quando Carlão subiu no palco, nós (e uma boa quantidade de gente) decidimos buscar nosso lugar à caixa, para ver da primeira fila mais uma apresentação do DJ de Detroit que mais veio ao país nos últimos anos. E talvez esse fato tenha sido a sina de Craig: seu set foi obviamente muito bem construído, mas para quem estava o assistindo pela quarta vez, era apenas mais do mesmo. Até momentos que haviam sido emocionantes em outras apresentações, como o sample de Also Sprach Zarathustra, tema de 2001: A Space Odyssey, soaram como um “de novo essa?”. É uma tarefa difícil escrever negativamente sobre um cara que é referência e que sei que tem muito talento, mas contra fatos não há argumentos: seu repertório é composto principalmente por clássicos e clássicos não se renovam a cada seis meses. Se não houver tempo para renovação, Craig será mais um nome saturado pelo sedento mercado brasileiro.

Como a decepção foi maior que o conforto, optamos por migrar para o Inside novamente, ver o final de Kraupp e aguardar pela atração principal. Neste momento a pista já estava bem mais habitável, pudemos ver com tranquilidade o catarinense tocando uma linha mais aberta que a sua costumeira, passando o bastão de bandeja para o gigante alemão, que já impunha respeito apenas com sua presença. As horas que se seguiram posso dizer que foram as melhores do ano, em termos de experiência musical. Como eu sabia que o término do Craig e o frio descomunal logo iriam lotar o Main Room, rapidamente fiz meu caminho até o acrílico, aonde fiquei até 7 da manhã sem arredar o pé.

Sim, você leu certo: Main Room. Tomo a liberdade de me referir ao Inside pelo seu antigo nome pois foi exatamente a sensação que tive naquele dia, a de estar vivendo uma noite “das antigas” no templo. Marcel Dettmann fez um set de 3h30 sem um hit sequer, apenas um ou outro clássico que somente os ouvidos mais apurados reconheciam, de maneira a construir uma hipnose na qual cada música era uma nova viagem introspectiva. O som era constante, pesado, breaks eram quase inexistentes e sempre curtos, mas momentos de respiro existiam com belas levadas melódicas que eventualmente surgiam e arrancavam suspiros do público. Pela primeira vez em muitos anos pude presenciar uma pista em quase completo silêncio, não havia espaço para falar, tanto pela música como pela vontade de imersão, infinitamente superior à de participar de qualquer diálogo.

Não há muito o que detalhar sobre o que Marcel fez, seu som é do tipo que se sente e não se explica, que se lembra e se recomenda. O dia já estava amanhecendo e as energias se esvaindo quando ele concluiu sua lenda com categoria, soltando um Kraftwerk enquanto o Sol indicava que era hora de voltar à realidade. De alma lavada e esperanças renovadas, saímos rumo ao after, sonhando com mais noites memoráveis como essa. Seria pedir muito, Warung?