Em janeiro de 2007 o Warung desembarcou pela segunda vez na praia brava umas das marcas mais conceituais e originais de Ibiza, a “Circo Loco Party“, comandada pela lenda uruguaia Tânia Vulcano, que por sua vez trouxe junto outro Sul-Americano que estava dando o que falar na tradicional festa do DC10. Luciano fez sua estreia no templo e ajudou a marcar uma nova fase do club educando uma geração de frequentadores que estava muito bem-acostumada a progressão e melodias dominantes da época, porém eram novos tempos, a casa sempre buscou apresentar novidades e provou estar certa visto a ascensão que Luciano e outro seu conterrâneo, Ricardo Villalobos, apresentaram nos anos seguintes. Ambos tornaram-se aclamados na Europa e criaram impérios com suas concorridas festas e labels. É evidente que a residência na festa Circo Loco formou as bases do que Luciano mais tarde criaria como seu maior projeto de vida, a marca “Vagabundos Cadenza”, lançando vários artistas de extrema qualidade como Dani Casarano, Felipe Valenzuela e Mendo. Eles se consagraram na Space Ibiza e encantaram plateias de todo mundo trajados como artistas de uma companhia circense do século XVIII.
Já no carnaval de 2010, Luciano volta ao templo como headliner máximo e faz um dos longsets mais marcantes daquele ano. Consolidado, ele tinha tudo para se tornar um artista anual do club. Sua conexão com a pista e o clima sul-americano reavivado em sua personalidade o encantaram, fazendo rasgar elogios ao templo mundo afora. Nos dois anos seguintes a história mudou seu curso e ele desembarcou com sua trupe em frente da “lagoa” e não do “mar”, possivelmente um dos motivos de não ser mais uma prioridade do club e assim, os anos se passaram.
Não consegui visitar a casa naquele memorável carnaval de 2010, mas sempre ouvi boas histórias sobre aquela noite. Já tinha perdido as esperanças de vê-lo novamente na brava, mas o que seria da vida sem as surpresas? Foi essa minha reação ao ver o nome do chileno na programação e ainda melhor, no mesmo carnaval que ele deixou há 6 anos. Mesmo tendo meu gosto pessoal muito mais centrado na segunda-feira com Guy Gerber ou até mesmo no sábado com Dixon, não pensei duas vezes que a noite escolhida seria com Luciano.
Como do costume me aprontei mais cedo e acessei a casa com enorme tranquilidade, fiz o roteiro habitual de banheiro, bar e Garden, onde pude ver o set do Fran Bortolossi, o artista hoje referencia do renascimento da cena Gaúcha. Tocando adequadamente ao horário ele mostrou uma linha de house e deephouse séria na primeira hora e observando o crescimento da pista, trouxe levadas bem dançantes em um segundo momento. Sem dúvidas o ponto mais marcante em seu ótimo set foi o edit de Redondo para um artista que admiro muito, Fatima Yamaha na já clássica “What’s A Girl To Do”. A pista inevitavelmente transbordou.
Muito curioso, subi ao Inside para conhecer aqueles que para mim eram até então desconhecidos, falo dos londrinos Koko Bayern e Daylomar. Ambos se apresentavam sob a proposta do showcase de lançamento da label Unleash, que passara pela D-edge um dia antes. Bayern já havia se apresentando e quem estava virando os discos era Daylomar. Eu poderia ter pesquisado sobre seus trabalhos dias antes, mas dessa vez pensei em fazer diferente, fui sem expectativa nenhuma e de peito aberto para descobrir quem eles eram. Em 10 minutos de música já estava totalmente tomado pela linear sutileza em que Daylomar construira seu set. Entre vinil e CDJ, ele jogava com uma pegada de house e tech house de muita classe, tentando buscar referências sobre o que tocava, me veio a mente o estilo de Audiofly, se é que podem me servir de exemplo.
Jackmaster era outro artista que seria quase totalmente novidade para meus ouvidos, embora tenha acompanhado de longe seu sucesso e sabendo que ele tem despontado entre grandes djs na Europa, eu nunca tinha sequer ouvido alguma de suas produções ou sets. Suas primeiras músicas foram bem quebradas e intensas, me deixando em um primeiro momento confuso sobre a qualidade de Jack, porém, conforme ele foi construindo seu som, pude perceber que a ideia inicial de desconstruir todo o ritmo criado antes por Daylomar era para poder fazer a pista entender melhor sua segunda hora de música. É preciso coragem para isso e sua ótima técnica aliada a rápidas viradas fizeram-me apreciar com interesse seu trabalho. Não é todo dia que se ouve um estilo de música como esse.
Depois de uma pequena demora na montagem dos equipamentos por seu manager, Luciano inicia seu set sendo muito aplaudido, porém, já nos primeiros minutos notei que o sound system estava bem abaixo da sua normalidade e até mesmo mais do que quando Jack estava tocando. Seus equipamentos foram montados em cima de outro mixer e a pista não estava recebendo o ideal. Essa é a situação em que o público não se dá conta, o pessoal da casa menos ainda e no final ficaria a impressão que o set não foi tão legal. Assisti à mesma situação no carnaval de 2013, quando Matador fez seu live e em seguida Richie Hawtin entrou com o som bem abaixo e tudo acabou ficando por isso.
Mesmo sendo um grande set, ninguém acaba se recordando da apresentação ou até mesmo chegam ao ponto de criticar o DJ por algo que estava além da sua percepção, uma vez que o artista na cabine recebe os retornos sempre iguais. Incomodado lembrando de tudo isso, não me contive e escrevi no celular a mensagem ”the sound sytem need’s a gain”, simples e direto, me dirigi até o manager e mostrei a mensagem, ele por sua vez me fez um sinal de positivo, voltou-se para o mixer e deu um ganho no master. Lamentavelmente o problema não era ali, mas para minha felicidade, uma segunda pessoa no palco olhava intrigada para as caixas na pista. Depois de alguns minutos, o sujeito foi atrás na mesa de som e alertou os desatentos técnicos da casa, que trataram logo de somar cerca de 30 a 40% de volume. Dali em diante foi outra festa. A virada da música seguinte já fez a pista explodir com as mãos para cima, com sorriso no rosto e tradicionais palmas virado de lado, Luciano mostrou a que veio.
Ele é um artista que respira energia e isso contagia qualquer pista, seu set sempre é carregado com muitas referencias sul-americanas e no Warung não foi diferente: vocais latinos, linhas de baixo dançantes com breaks longos e percussivos que não deixavam a pista parar por um minuto. A noite perfeita para um carnaval quente brasileiro estava construída, mas acima de tudo, o que faz dele um dos Djs mais respeitados dos últimos 10 anos é sua qualidade técnica, sua mixagem muito bem trabalhada com a soma de seus mashup ao vivo. Trabalhando quase sempre com dois canais ou mais, ele abusa de seu extremo bom gosto.
As rápidas 3 horas e meia se traduziram em consistência na primeira parte e pegadas mais explosivas na segunda. Por volta das 6 da manhã, o momento da noite chega com o inconfundível vocal de “Enfants” de Ricardo Villalobos, jogado junto em outra música mais limpa com extrema maestria. Próximo das 7 horas, o escuro triangulo no final da pista deu lugar a uma página amarela mesmo sem o sol aparecer. Já com saudades desta vista, pude observar no mesmo momento Luciano extremamente realizado curvando-se diante do público em agradecimento e talvez sabendo que agora ele poderá ser frequente na casa. Quem agradecerá desse vez será o público.
Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)