Primeira noite de carnaval no Warung tem novamente grande destaque de artistas nacionais

A primeira das três noites de carnaval no Warung trouxe um line-up composto praticamente por brasileiros. Gromma, L_cio, Junior C, Elekfantz, Shadow Movement e Gui Boratto vestindo a camisa verde e amarela, enquanto o alemão Dixon completava o line-up da festa do lado estrangeiro, em um verdadeiro 7×1 invertido. Já completavam-se seis meses desde a minha última visita ao Club e eu, na companhia da minha namorada e um amigo, não poderia estar mais ansioso para esse início de carnaval no templo. 

Chegamos lá por volta das 23h00, depois de um caminho tranquilo e sem filas. Como de costume, nossa primeira parada foi no bar e em seguida nos banheiros. Logo notamos a primeira mudança relevante no clube: aumentaram a estrutura dos banheiros principais e melhoraram a acessibilidade para os deficientes.

Bola em jogo – Foi dado o apito inicial da festa para nós. Adentramos ao antigo Main Room já sapateando ao som de nosso amigo Gromma. Meu gosto musical é bem similar ao dele, o que me torna suspeito pra avaliar seu set. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a melhoria significativa em sua técnica e pesquisa após sua tour pela Europa, no último ano. Em fase esplêndida o curitibano já começava a desenhar o clima da noite, mantendo linhas paralelas de minimal e microhouse – vertentes ricas e muito apropriadas à ocasião. O fato de ser um set no vinil elevou ainda mais o encanto do warm up. Com meia hora para o fim do set Gromma aumentou o ritmo, mesclando tracks de dubtechno e tech house, por mais uma vez o papel de acender a fogueira da noite foi muito bem executado. Ainda no final do set, o soundsystem apresentou falhas de equalização, fazendo com que os graves abafassem os sons mais agudos, trazendo um pouco de desconforto e uma leve dor no ouvido. 

Gromma Warung

L_cio já estava no palco acompanhando a preparação da pista há bastante tempo, causando uma grande ansiedade no público, já que muitas pessoas de outras regiões e estados se deslocaram até o clube especialmente para conferir sua apresentação.  Antes mesmo de Gromma passar a bola já haviam fãs formando corações com os dedos e um leve coro na pista passava a ser entoado. Recentemente contratado pela consagrada gravadora alemã Kompakt Records, o paulistano é o segundo brasileiro a fazer parte do time, depois de Gui Boratto, tornando-se um dos os artistas brasileiros com maior ascensão internacional no momento. Dono de uma técnica admirável e um repertório de muita qualidade, se apresenta apenas em formatos live, seja solo, seja com os projetos paralelos Gaturamo, Lacozta e Teto Preto.

Próximo da meia-noite o play foi acionado. Kicks bem marcados com harmonias e melodias bem características de suas obras, o produtor revelação do ano explodiu a pista já na primeira track. Não era por menos, L_cio é um artista muito sólido e inovador, um live set acompanhado por uma flauta que encantou aos desavisados e hipnotizou aos fãs. Tínhamos um dos melhores sets que eu já ouvi sendo executado diante de nós e logo quando pude perceber a pista já começava a encher.  

L_cio Warung

Como prometido, às 01h10 o remix de Construção – clássica música da MPB – produção original de Chico Buarque, em uma releitura perfeita e bem complementada pelas baterias e a flauta de L_cio foi tocada. Neste momento, percebermos nitidamente o médio abafado interferindo no vocal, mas apesar disso, os fãs soltaram a voz tornando o momento um dos melhores da festa. O relógio já marcava 01h30 quando o alemão Dixon deu as caras. O público demonstrou bastante carinho e expectativa pelo headliner. L_cio finalizou com maestria seus trabalhos e saiu ovacionado do palco nos dando uma aula sobre a construção de um set. São artistas como L_cio que nos motivam a levantar a bandeira raver. São esses os verdadeiros artistas que colocam a música como foco da apresentação. Sem firulas ou confetes, seu trabalho em Construção é um exemplo de que sim, é possível mixar músicas nacionais de qualidade com finalidade musical e não de marketing. 

Dixon assume a pista principal pouco depois das 01h40 e até dado momento, eu ainda não havia passado uma vez se quer pelo Garden. Como esperado, a introdução do set do alemão foi bem trabalhada com teclados e longas notas de grave, criando uma tensão harmoniosa e bem agradável. As três primeiras tracks do set, foram bem explosivas e animaram bastante o público, porém, antes de completar quinze minutos de set, o alemão começou a mostrar a sua cara: melodias romantizadas e defendendo bastante a proposta da sua label Innervisions. A festa o presenteou com a oportunidade de um long set e como já era de se esperar, o headliner da noite elaborou algo envolvente, explorando as suas sonoridades características para uma boa evolução do set estendido. 

Com 30 minutos de apresentação, o soundsystem apresentou mais um problema: o grave morreu completamente – coisa que nunca vi acontecer antes no Club.  A pista que antes estava apresentando sinais de lotação começara a esvaziar. Como sabia que Elekfants comandava a pista Garden, decidi manter o foco no inside e ver o que aconteceria. O set continuou sendo bem trabalhado, porém, com uma resposta quase nula da pista. Passaram-se 35 minutos até que o grave voltasse e no exato momento do retorno, a explosão foi geral. Para compensar a falha técnica e recuperar a pista, a apresentação ficou mais pesada e as tracks traziam características de techno, mas sem perder a cara da Innervisions. Pouco tempo depois, a linha mais hipnotizante foi retomada e a exibição do alemão voltava a ter a identidade da sua tradicional proposta. Resolvi então dar uma volta no club.

Dixon Warung

 Ao encontrarmos alguns amigos, resolvemos ficar pelo Garden – que recebia o showcase da D.O.C Records. O duo Shadow Movement se apresentava no momento e fiquei contente em ter pesquisado bastante sobre a dupla antes da festa. Confesso que me animei pelo que eu poderia ver na exibição deles. A dupla brasileira atingiu bastante destaque internacional por conta de seus bons releases e receberam a difícil tarefa de preparar a pista para um dos nomes de mais peso da cena nacional, Gui Boratto. A carga de responsabilidade era ainda maior, analisando que a apresentação da dupla que antecedia seu set, a brasileira Elekfantz, se apresentam com uma proposta bem diferente. Eles sabiam que teriam de levar a sério a preparação de pista. Teriam que iniciar do zero e mudar da água para o vinho a cara de um garden romântico.

Ao iniciarem, logo notei que o bpm foi pra baixo e o set iniciou bem quebrado, com bastante dubtechno. O que me impressionou é que já passavam das 3h00 e eles estavam recriando toda a atmosfera da pista para seu sucessor. O Garden mudou sua cara completamente, depois de muita alegria, as características sombrias da dupla ganharam a plateia. O ritmo da pista era outro, tracks mais quadradas e breaks cada vez menores fizeram os presentes adentrar a fundo no clima que estava por vir. Posso dizer que Shadow Movement ganhou mais um fã nessa noite e  por mais que não tocaram como headliners, apresentaram um trabalho de leitura de pista incrível. 

Shadow Movement Warung

A última vez que vi Gui Boratto foi na TribalTech 2014 e na ocasião, ele apresentou um set razoável comparado ao seu potencial. Eu estava apreensivo para ver em que fase o brasileiro encontrava-se. Não demorou 5 minutos para minhas dúvidas serem sanadas. O set seria bem acima do que tinha visto na última vez, talvez por ser o headliner do palco e por receber a pista devidamente preparada. Techno – com a cara de Gui Boratto – um trabalho maravilho de synths e baterias que deixaram a pista completamente envolvida na apresentação. O paulistano executou Azurra em um mix diferente, muito mais adequada à noite. Acompanhei quase todo o set do Dj que manteve a classe da exibição até o fim. 

Gui Boratto Warung

Decidi subir para ver o fim do set no inside e conferir o que o alemão estava aprontando. Dixon havia retomado uma postura mais dancefloor, linhas de grave mais fortes e continuas perduraram até o fim do set embalando todos os entusiastas por mais uma hora de festa. Inevitavelmente e de forma pontual, às 07h00 o som foi desligado e aquela vontade de “quero mais” acendeu na alma de todos que estavam ali.

De alma lavada.  Foi assim que encerrei a noite. Uma festa confortável e musicalmente falando surpreendente. Meus agradecimentos a todos os artistas que nos presentearam com essa noite incrível e ao Detroitbr pelo convite.

Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)