O dia 28 de dezembro, uma das datas mais icônicas do ano no Warung Beach Club, por um momento pareceu que ia se perder em 2015, pois a curadoria da casa resolveu, de maneira inédita, trazer Hernan Cattaneo no feriadão de independência. O acerto foi comprovado com noite de ingressos esgotados e uma repercussão incrível, que ajudou a ascender novamente os olhares do jovem novo publico do club para essa linha de som. Se isso foi pensado ou não, não importa, o importante é que funcionou. Visto a proximidade do final de ano, praticamente todos que acompanham mais de perto a carreira do Maestro concluirão que desta vez ele não viria no final de ano, tudo bem, o fantástico set de setembro ainda ecoava na mente de todos e gerava debates nas rede sociais. Até um amigo enviar-me a recém atualizada agenda de Hernan em seu website… estava lá, a tradição falou mais alto e todos correram pra mudar os planos de férias.
Já fazem mais de 5 anos que tenho seguido esse roteiro e o melhor de tudo é entrar na casa e sentir aquele clima diferente, algumas pessoas você só vai ver ali nesta data, frequentadores mais antigos e amigos de outros estados que deixam de serem virtuais e vivem a realidade do único longset que ainda respira na Praia Brava. Como falei no review de setembro, em 2015 Hernan completou dez anos de Warung, e eu, 10 shows que somados geram mais de 60 horas de música! Refletindo, as vezes parece-me que já ouvi bastante, mas logo depois sinto que ainda tenho muito a aprender sobre como funciona a mentalidade desse artista único, que no meu entendimento alcançou um nível que vai muito além do cenário da musica eletrônica.
Depois de alguns anos, o residente mais antigo da casa e um expoente da nossa cena voltou a ser convocado para o warm-up. Leozinho sempre deixou claro que o argentino é uma das suas principais referências de como se deve conduzir uma pista. Ao adentrar na casa e encontrar os amigos, por volta da meia noite subi para começar a entrar no clima, Leo tocando em sua antiga e melhor versão: house com bastante groove, leves breaks e finas melodias, como é a pedida pro horário. Seguindo o roteiro, perto do horário Hernan aparece no palco e é interessante como tudo é tão tradicional: ainda assim a emoção bate como na primeira vez, sendo ovacionado, ele espeta seus pen-drives e abre seu Technics preto, a camiseta escura também está ali, só faltando mesmo o cabelo comprido sendo levantado pelos dois ventiladores acima da cabine, é compreensível, chegar aos 50 anos de idade fazendo mais de 100 shows por ano ao redor do mundo, deve pedir um pouco mais de conforto.
À uma da manhã hora em ponto Hernan não precisa parar a música, o bom esquenta já pede a primeira mixagem, como verdadeiro gentleman, chama Leozinho de volta pro centro da cabine e pede os aplausos do publico, ele realmente aprecia e reconhece a importância de se deixar a pista no ponto, de fato isso reflete lá na frente. As 6 horas do seu set são muito especificas, a primeira coisa que ele sempre faz é dizer: ”ok, vamos dançar” as duas primeiras horas de ritmo ainda devagar são para ir colocando todos no mesmo balanço, equalizando a pista com alguns vocais e muita percussão, como na música de Brian Cid – Oasis. Não tinha virado a segunda musica e os hermanos, sem pedir licença, abrem uma bandeira da argentina de mais de 2 metros com a mensagem ‘’No Hay Limite Para Tu Musica’’. Pronto, se alguém tinha duvidas sobre o que aconteceria no restante da noite, acabou por ali. Com certa frequência, Catta virava-se para seus amigos conterrâneos na cabine, e com sorriso no rosto tentava mostrar um pouco do club, realmente ali ele se sente tão em casa quanto em seu próprio país, os hermanos além de reconhecer isso, fazem de tudo para vir aqui poder ver seu famoso extended set. Entre seus convidados, um dos maiores produtores da nova geração argentina, Marcelo Vasami.
Se pudéssemos transportar a maneira de construir seu set para um exemplo lúdico, poderíamos imaginar uma roda gigante, London Eye se encaixa perfeitamente, pois além do entretenimento, ela serve como ponto de observação. Hernan gira sua roda nas duas primeiras horas para que todos consigam subir, ainda que em movimento, quando se está dentro de algo tão grande é fácil de perder a noção de tempo e velocidade, a roda pode começar a girar mais rápido lentamente e você nem se dar conta, só quer apenas que ela gire sem parar, e é justamente isso que acontece na pista. A sutiliza em que ele vai aumentando o ritmo no decorrer da noite faz com que nossa percepção mude, alguém que entre naquele triângulo de madeira no meio da noite não vai conseguir entender com plenitude o que está acontecendo, é por isso que eu só consigo sair da pista depois que a musica para. Como já esperado, pouquíssimas musicas reconhecíveis e se em setembro o som foi mais frio com pontos emotivos, dessa vez ele tocou muito psicodélico a partir das 3 horas, subindo as batidas por minuto como não se via a anos! Hernan não gosta de jogar muito alto mesmo com sua linha de baixo agressiva, então quando ele resolve acelerar, o rastro de euforia na pista é impressionante, o coro de ole ole, ole ole, HC HC! apareceu mais vezes do que de costume, é aquele momento em que a pista já não sabe mais o que fazer e reverenciar é o que sobra.
São 4 da manhã, o auge, a sequencia arrebatadora deixa todos estasiados, Hernan flutua sobre a cabine e suas mixagens se encaixam como um quebra-cabeças, não há espaço para respirar, as linhas de baixo em alta frequência se propagam por toda pista e se ligam praticamente formando um outro ritmo, as batidas do que poderia chamar tranquilamente de techno ficam em outro plano, indo e vindo conforme sua vontade, e os contratempos de hats e bateria são uma das suas principais características, isso é algo difícil de explicar, pois não é em qualquer lugar que funciona, até mesmo porque não é qualquer lugar que tem a acústica do Warung, realmente isso sempre foi um dos maiores segredos do sucesso do club. Entre os diversos momentos de maior introspecção, vale destacar ”Delta Corvi”, música do produtor Gaucho Fernando Goraieb, ”Candyland” de Guy J com remix de Luca Bacchetti, Kiasmos – Swept ( Tale Of Us remix) e a indescritível musica de Roman Fluegel – Wilkie com remix do argentino Ditian Lonely. Segue abaixo video do momento:
Passando das 5 horas é que consegui chegar mais próximo dos amigos e interagir, em uma rápida olhada pelo corredor da saída principal, vejo que a intensa chuva que caia durante boa parte da noite já tinha dado uma segurada. Hernan fez a mesma coisa, é hora de mais melodias, ‘’Crosses and Angels’’ de Lopezhouse cai como uma luva. Por volta das seis o vocal inconfundível de ‘’I Wish You Were Here’’ surge no repaginado remix de Kevin Di Serna, esta musica ele já havia tocado alguns anos atras na versão clássica de Lexicon Avenue, que momento!
Perto do final outro clássico daqueles, ‘’Right Off’’ de Danny Howells (Precisa voltar) com remix de Faze Action é daquelas que nunca saem da case, tem um poder tribal capaz de renovar as energias para mais algumas horas, infelizmente as manhãs adentro de boa musica do Templo são coisas da memoria, ainda assim já se passava de 7:15 quando Hernan virou a ultima musica com o vocal sereno e romantico de Arnór Dan, produção de ‘’Ólafur Arnolds– So Far ( Guy Mantzur Remix )’’os gritos e aplausos do publico soavam tão alto quanto o volume do sistema de som, e visivelmente emocionado ele agradece a todos da mesma forma. O prazer e a honra de ouvir e tocar são mútuos, e a mensagem mais tarde em sua Fanpag em portugues: ‘‘Nunca deixa de me surpreender’’ fez com um espelho a sua frente, pois o sentimento de todos diz o mesmo.