A primeira semana de fevereiro de 2017, apenas outra data entre várias do calendário de verão no Warung Beach Club, carregava consigo a marca do retorno de um de seus maiores expoentes, parte de um seleto grupo de DJs com mais de 10 anos de casa e uma espera angustiante de quatro anos por seus admiradores: “Ele voltaria como o mesmo de outros tempos?” John Digweed teria que agradar não um, mas dois pontos de vista dominados por incertezas, pois também era uma figura a ser redescoberta pelo atual público do clube: “vamos ver quem é esse cara”, missão difícil…. Infelizmente, ser um dos maiores nomes da história da dance music não é o bastante em um país onde poucos pesquisam sobre de onde veio tudo, porém, bastou sua entrada misteriosa e as primeiras batidas, para algumas dúvidas serem quebradas.
Antes que você se pergunte se cheguei ao templo apenas na entrada do headliner da noite, devo merecidamente destacar os dois artistas que consegui assistir antes. Gaby Endo, um nome até então desconhecido para mim, jogou no Garden perfeitamente alinhada com a sonoridade All Day I Dream, tão aguardada pela figura de Lee Burridge. À uma hora subi para conhecer outro artista, o argentino Herr fora escalado por saber muito bem quem viria por seguinte, seu set carregado de baixos submersos e largos esteve como um contraponto ideal para o warm-up. A noite ainda trazia outras constantes que faziam todos se sentirem à vontade, público na medida, calor moderado, sound system beirando a perfeição e pessoas certas ao lado.
Sempre tive John Digweed entre meus artistas favoritos por admirar sua forma universal de lidar com a música, ideias e conceitos muito peculiares que deixam transparecer um cuidado – carreira, lançamentos e gravadora – de alguém que está em constante busca da perfeição, e nesse review além de relembrarmos suas cinco horas de set, que de certa forma retratam tudo isso, vamos também procurar entender o que é um artista em sua totalidade.
Embora cada pessoa seja uma em sua individualidade, algo irrepetível e, até certo ponto, insondável, ela precisa se relacionar com outras para se desenvolver como “ser humano”. Para compreendermos como John alcançou sua totalidade, devemos primeiro entender como ele se relaciona com as pessoas que se dispõem a ouvi-lo. A pista de dança não é uma mera justaposição de corpos com uma entidade acima das pessoas, ela é formada por um todo na medida em que se inter-relacionam, formando uma teia de laços interiores, dinamizando-se mutuamente e respeitando cada individualidade. Digweed entende como poucos esse contexto, absorve sutilmente a todos e devolve construção musical da mais pura classe. Após o reconhecimento do público em sua aparição, ele começa seu set ao ritmo do artista anterior, e aos poucos vai desconstruído tudo na primeira meia hora até um ritmo um tanto fragmentado, onde a ideia era estabilizar a pista, deixar quem realmente estava ali para isso, e assim, começar a alvejar intensidade até as bordas do infinito.
Você já deve ter percebido, observando a si próprio e aos outros com que convive, que somos seres complexos, multidimensionais e porque não, multifacetados, como um diamante. Para entender melhor este “diamante”, é preciso compreender que cada uma destas facetas produz ações e assim tornam-se objeto de estudo do expectador, que busca saber dele o quanto está determinado a agir. Quando se trata de John, observando sua personalidade mais insondável do que o comum, uma mistura de serenidade e frieza, fica difícil saber em que nível está sua determinação em agir. Tentei entrar em sua mente de diversas maneiras, mas ele se mantinha inacessível, estrutural e metódico, como um verdadeiro diamante que brilha por todos os lados sem nenhum esforço. As quatro horas minha consciência estava de acordo que era um dos sets mais bem elaborados que já pude ouvir, conduzido através de movimentos tão precisos que acabavam derrubando qualquer tentativa de acompanhamento, mixagens milimétricamente pensadas deixavam suas transições escondidas.
Acredito que um dos seus segredos está justamente nisso, sua fortaleza acima da cabine era uma forma de colocar a todos em uma única posição, a de apreciar e sentir música a todo momento, e o que ele devolvia em troca? Algo totalmente o oposto de si, os poucos breaks eram carregados de tensão, sem respiro, ritmo frenético e infernal que fazia-nos correr sem sair lugar. Essa forma de se relacionar, que deixa sua figura em segundo plano e concentra todas as atenções na música é uma de suas maiores características, e o mais interessante é que por ser inacessível aos olhos da pista, sempre cabisbaixo e concentrado na manipulação sonora, ele não te faz querer buscá-lo na cabine, porém você a todo momento sabe quem é que está no comando.
As cinco horas a música continuava aquecida, cheia de elementos progressivos e delirantes, ainda assim, nota-se a diferença dos grandes DJs para os demais quando eles podem surpreender dentro daquilo que supõe-se beirar a perfeição. Isso é algo que o artista precisa sentir, por meio de um exame das consequências práticas a que cada aspecto da sua música pode levar, e assim descobrir o ponto de convergência da noite em seu sentido mais amplo. John segurou os elementos carregados até o limite, e antecipando a vontade de inovação que todos iriam precisar após tantas horas, começa a soltar sua linha mais agressiva e que tanto é comentada mundo afora. Seu techno fica mais limpo, linear e mixado rapidamente, fazendo todos se olharem deslumbrados, o ritmo ainda poderia ser jogado a mais um degrau? Sim! A essa altura já se passavam das seis da manhã, e todos tinham a mesma energia do começo da noite.
Nessa pulsação ele poderia levar a pista por mais quantas horas quisesse, era dançante, com poucos cortes e rápido, muito rápido, quando essa difícil mistura entra em ação, onde a energia das pessoas está no seu máximo, fica fácil de criar momentos de euforia, sem precisar recorrer aos efeitos ou breaks longos, a alta energia concentrada faz todo o trabalho, é só preciso mantê-la. Obviamente, essa é uma tarefa e um estado de domínio das relações humanas que só um verdadeiro mestre da arte consegue alcançar, um ser dotado de aspectos e capacidades quer sejam naturais ou adquiridas, que podem ser desenvolvidas ao longo da noite, aumentando suas potencialidades e por fim, um todo.
Perto das sete horas o ritmo desacelera e se cadencia, era hora de mais uma mostra de como deixar todos se entregar. Quando um arranjo de piano entra em cena, a primeira música emotiva de toda a noite, percebi que era algo especial, logo depois uma voz familiar começa a cantar com autoridade sob um leve delay: “Say hello to the greater men. Tell them your secrets they’re like the grave. Oh what you have done, oh what you have done. Love is lost, lost is love….”
Simplesmente David Bowie em um dos seus últimos sucessos ecoando pela pista abraçada por um dos mais lindos amanheceres dos últimos anos. Mais tarde descobri que o edit de “Love is Lost” era de Chris Fortier.
Nessa levada descontraída onde “Diggers” não conseguia segurar o sorriso, mantém-se por mais alguns minutos até começar a deixar todo aquele turbilhão sonoro desvanecer-se, ao mesmo tempo que se abaixa atrás da mesa, e quando tudo para, apenas o sopro de um splash bate por alguns segundos criando a última expectativa do seu set, ao aparecer novamente e ser reverenciado por todos, solta os acordes inconfundíveis de “Strings Of life” em um edit ainda desconhecido, ditando a mensagem final!
Era isso mesmo, estava ouvindo um dos maiores clássicos da música eletrônica, composta pela genialidade do cara de Detroit, Derrick May, através das mãos de uma das mentes mais inquietas e inovadoras que a cena já produziu, uma soma que me trouxe entendimento necessário antes de deixar aquele lugar. Algumas pessoas você consegue ver, sentir e até compreender sua totalidade, mas jamais terá as chaves que abrem as portas até ela.
Crédito Fotos: Gustavo Remor
Crédito Videos: Michelle Schneider Luchtemberg e Fernando Hauenstein