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  • Uma noite no Main Room com Marcel Dettmann

    No último dia 11 de junho, véspera do dia dos namorados, os apaixonados por techno tinham um compromisso inadiável: a noite com Marcel Dettmann e Carl Craig no Warung Beach Club. Já fazia quase um ano que eu não pisava no templo, um tanto pela atual curadoria, que tem selecionado nomes que não me atraem, mas principalmente pela dificuldade em ter uma noite confortável no ambiente cada vez mais apertado e tomado por pessoas que deixam a educação em casa para sair. Pessimismos à parte, a esperança de viver uma noite no Warung como antigamente sempre existe, não pensei duas vezes para decidir apostar e, graças ao deus do techno, não me arrependi!

    Como de costume, chegamos ao club por volta de meia-noite, a tempo de comprar fichas, bebidas, ir ao banheiro e dar um giro. Desde minha última visita, em julho de 2015, poucas mudanças – um bar novo e pequenas reformas estruturais, coisas boas mas já citadas por outros detroiters em reviews passados. Indo ao que interessa, começamos a jornada musical com o final do set de Gromma, que nem preciso de muito esforço para imergir: após meio ano vendo ele fazer excelentes warm ups no Club Vibe consigo sentir com clareza cada mixagem e intenção dele, o que torna a experiência ainda melhor, pois apesar disso ele continua surpreendente sem perder a identidade.

    Logo em seguida Wilian Kraupp começou e o ambiente começou a ficar apertado – descemos para o Garden, para esperar Carl Craig. Como o som de Mandi estava longe de ser o que buscávamos, especialmente numa noite com tantos mestres do techno, demos um tempo fora da pista. Quando Carlão subiu no palco, nós (e uma boa quantidade de gente) decidimos buscar nosso lugar à caixa, para ver da primeira fila mais uma apresentação do DJ de Detroit que mais veio ao país nos últimos anos. E talvez esse fato tenha sido a sina de Craig: seu set foi obviamente muito bem construído, mas para quem estava o assistindo pela quarta vez, era apenas mais do mesmo. Até momentos que haviam sido emocionantes em outras apresentações, como o sample de Also Sprach Zarathustra, tema de 2001: A Space Odyssey, soaram como um “de novo essa?”. É uma tarefa difícil escrever negativamente sobre um cara que é referência e que sei que tem muito talento, mas contra fatos não há argumentos: seu repertório é composto principalmente por clássicos e clássicos não se renovam a cada seis meses. Se não houver tempo para renovação, Craig será mais um nome saturado pelo sedento mercado brasileiro.

    Como a decepção foi maior que o conforto, optamos por migrar para o Inside novamente, ver o final de Kraupp e aguardar pela atração principal. Neste momento a pista já estava bem mais habitável, pudemos ver com tranquilidade o catarinense tocando uma linha mais aberta que a sua costumeira, passando o bastão de bandeja para o gigante alemão, que já impunha respeito apenas com sua presença. As horas que se seguiram posso dizer que foram as melhores do ano, em termos de experiência musical. Como eu sabia que o término do Craig e o frio descomunal logo iriam lotar o Main Room, rapidamente fiz meu caminho até o acrílico, aonde fiquei até 7 da manhã sem arredar o pé.

    Sim, você leu certo: Main Room. Tomo a liberdade de me referir ao Inside pelo seu antigo nome pois foi exatamente a sensação que tive naquele dia, a de estar vivendo uma noite “das antigas” no templo. Marcel Dettmann fez um set de 3h30 sem um hit sequer, apenas um ou outro clássico que somente os ouvidos mais apurados reconheciam, de maneira a construir uma hipnose na qual cada música era uma nova viagem introspectiva. O som era constante, pesado, breaks eram quase inexistentes e sempre curtos, mas momentos de respiro existiam com belas levadas melódicas que eventualmente surgiam e arrancavam suspiros do público. Pela primeira vez em muitos anos pude presenciar uma pista em quase completo silêncio, não havia espaço para falar, tanto pela música como pela vontade de imersão, infinitamente superior à de participar de qualquer diálogo.

    Não há muito o que detalhar sobre o que Marcel fez, seu som é do tipo que se sente e não se explica, que se lembra e se recomenda. O dia já estava amanhecendo e as energias se esvaindo quando ele concluiu sua lenda com categoria, soltando um Kraftwerk enquanto o Sol indicava que era hora de voltar à realidade. De alma lavada e esperanças renovadas, saímos rumo ao after, sonhando com mais noites memoráveis como essa. Seria pedir muito, Warung?

  • A trupe de Carlos Capslock invade o Terraza BC!

    Uma das festas alternativas de maior expressão no Brasil chega a Santa Catarina para seu primeiro showcase no estado. Neste sábado (04) o Terraza BC apresenta Carlos Capslock Showcase! Toda a transgressão e efervescência cultural de Paulo Tessuto se catabolizam na festa itinerante Carlos Capslock. O nome veio de uma brincadeira entre amigos e o personagem, deformador de opiniões e designer de teclados, é parte integrante de toda a identidade visual do projeto.

    Toda a comunicação é feita com bom humor e de forma viral. São telenovelas, fanzines, montagens e uma série de artifícios que adicionam um toque de humor e acidez ao evento. Críticas políticas e sociais são constantemente abordados como temática dos eventos. A música passeia de forma hipnótica entre sons minimalistas, techno, nudisco, downtempo, micro house e o que mais possa levar os frequentadores a uma experiência inovadora e destoante do cenário local. O núcleo, que já tem mais de meia década de existência, foi o estaleiro de grandes talentos que estão começando a despontar na grande cena, como L_cio e Fractal Mood, grande atração sendo apresentada ao público do litoral catarinense. Além dele, o line-up conta com o idealizador Paulo Tessuto e o residente do Terraza BC e do detroitbr, Bernardo Ziembik.

     

  • Warung aposta no techno com Marcel Dettmann e Carl Craig

    No próximo dia 11 de junho teremos a oportunidade de aproveitar uma noite no Warung como há algum tempo não temos: dois grandes nomes do techno, um encabeçando cada pista. No Inside, antigo Main Room, o clima europeu fica por conta do DJ alemão Marcel Dettmann, uma das grandes figuras da Ostgut Ton, selo do Berghain. Marcel é sempre um dos principais headliners dos maiores festivais de techno do mundo, como Time Warp, Awakenings e Movement. Igualmente relevante mas vindo da escola americana, mais especificamente de Detroit, é a grande atração do Garden: Carl Craig. O DJ estreou no templo no começo do ano e caiu no gosto do público, garantindo nova escalação em um contexto diferente do de sua estreia.

    Completando os line-ups, grandes talentos nacionais: Mandi e HNQO no Garden e Gromma e Wilian Kraupp no Inside. Os ingressos estão à venda pelo site www.warung.com.br.

  • Sven Vath arrastou o público de todo Brasil para os Trilhos da Mooca em única apresentação da tour

    Na noite do dia 15 de Abril de 2016, sexta-feira, aconteceria um dos eventos mais esperado do ano até então para nós, e muitos outros techneiros apaixonados, Sven Vath, o “Papa” do Techno viria para o Brasil para uma apresentação única e exclusiva, e nos presentearia com um long set. Inclusive, semana cheia de eventos bons espalhados pelo Brasil, na quinta, teria Rodhad na ODD, sábado Detroit Swindle e domingo Raww Room com diversos artistas, todos em São Paulo, e também o Warung Day Festival na capital paranaense, porém, optamos por ir em uma única festa e aproveitá-la ao máximo: a volta do Papa. Malas prontas, saímos de Santa Catarina por volta das 10h00, rumo ao Bairro da Mooca, em São Paulo. Viagem tranquila e ansiedade a mil.

    Já em São Paulo, tirando as quase duas horas para percorrer 15 km por causa do trânsito caótico somadas as mais de oito horas de viagem, tudo foi muito fácil. Estávamos hospedados uma rua ao lado de onde aconteceria festa, então não precisamos utilizar nenhum tipo de transporte para chegar ao local. Durante a semana havíamos entrado em contato com a Entourage através da Fan Page no Facebook perguntando sobre o estacionamento e a indicação deles foi que utilizássemos Metrô ou Taxi, pois a festa não teria estacionamento próprio. Por algumas informações que obtivemos havia um estacionamento privado funcionando próximo ao local, provavelmente em parceria com a produtora do evento.

    O local: Nossa entrada aconteceu com facilidade e sem filas ou tumulto. A festa havia começado as 22h00, e nós chegamos por volta da meia-noite. “Nos Trilhos” é um espaço encantador de São Paulo. Em meio a vagões de trens centenários desativados, ao lado de uma ferrovia ainda em funcionamento e em baixo de um viaduto, o local não poderia ser outro para que esse evento acontecesse. Tudo isso, somado a decoração fez com que nossa experiência fosse ainda mais marcante. O lugar que inspira cultura e história, fez com que nos sentíssemos realmente envolvidos com a noite que viria pela frente. Depois da volta de reconhecimento, era hora de comprar as fichas do bar, e achar um local para começar a curtir a festa e aguardar o início da apresentação da estrela da noite. O acesso as fichas era muito fácil, havia vários ambulantes pela festa, uniformizados e com placas de indicação para fazer a venda das fichas, o que tornava o atendimento mais rápido, sem muitas filas ou tumulto para fazer a compra.

     

    O palco era localizado na parte mais fechada, o que fez com que a pista ficasse muito quente. Bombas de CO² existentes em cada pilar espalhavam de tempo em tempo uma fumaça geladinha que tinha a intenção de ajudar temporariamente a galera que optou por ficar no meio da pista. O bar não ficava longe da pista, mas ficava em uma área mais fresca, assim, cada vez que saíamos para ir ao bar / banheiros aproveitávamos para aliviar um pouco o calor. O preço das bebidas também não estava fora da realidade das festas que frequentamos. Cerveja long neck (355ml) a R$ 10,00, água também R$ 10,00 e pra quem preferia comprar doses, elas eram bem caprichadas. Havia alguns carrinhos de Food Truck na festa também, na parte do fundo da pista, próximo aos vagões desativados. Isso possibilitava a quem quisesse fazer aquele pit stop para se alimentar, não perdesse nenhum minuto da festa para isso.

    A música: Davis Genuino foi o escolhido para preparar a pista para o Papa. Tivemos oportunidade de ouvir o seu set que pensamos estar no final, já que Sven Vath deveria ter começado a tocar à 1h00, como dizia o post fixado no evento oficial. Davis já era conhecido pelos integrantes da nossa trip, já havíamos visto apresentações dele no Warung. O que ouvimos não fugiu do que esperávamos, ele é eclético e fez um set com bastante variedade, tracks que hora agradavam a alguns, hora a outros. Ou seja, ele colocava a pista pra cima em alguns momentos, e em outros fazia o papel de Warm Up tranquilo, com alguns vocais e batidas animadas. Quando o relógio marcou 1h, a agonia de esperar a aparição da figura inconfundível do DJ Alemão começou a tomar conta de nós. Davis continuou tocando, e o Papa não tinha nem aparecido no palco ainda. Não sabemos o motivo do atraso, mas Davis levou a pista até depois de 2:30h, quando todos os equipamentos necessários para a apresentação de Sven Vath já estavam a postos. Toca discos prontos, era hora daquela noite finalmente acontecer. Confesso que já havia uma certa irritação no ar com o atraso, afinal, o prometido eram no mínimo 7 horas de set, e ali já tínhamos perdido mais de uma hora e meia, e não sabíamos ainda se a festa acabaria pontualmente as 8h, ou não.

    Sven Vath superou toda e qualquer expectativa. Sua musicalidade, carisma, amor pelo que faz e carinho com o público fazem parte desse personagem mítico que ele é. Tínhamos ouvido alguns sets recentes dele durante o mês que antecedeu a festa, e durante a viagem também. E o início do seu set lembrou muito sua apresentação na Time Warp da Alemanha, que aconteceu no dia 03/04/2016.

     

     

    Tracks marcantes como “I Know Change” de Jaap Ligthart Feat Alice Rose (Show B remix), e “Accident Paradise” de 1994, remixada por Kink com lançamento acontecendo exatamente neste dia 15, sendo tocadas logo no início, nos deram motivação para enfrentar o grande público e permanecer na frente do palco para conseguir assistir de perto a história que seria contada por ele. 

     

     

    O sistema de som Pure Groove usado para a ocasião, fez o set ficar ainda mais lindo, em qualquer lugar da pista ouvia-se com excelência cada detalhe das tracks, cada detalhe contado por ele em cada vinil que ele trocava. Sem distorções ou qualquer falha, o som podia ser ouvido em qualquer canto da festa exatamente da mesma maneira que se ouvia na frente: Limpo. O palco era baixo, por isso, enquanto estávamos na frente tínhamos contato visual direto com ele, que interagia com o publico enquanto cantava as músicas e brincava com seus discos, um verdadeiro “showman”, completo. 

    Infelizmente, contratempos aconteceram. Pudemos notar que parte do público da festa “não estava muito aí” para a apresentação do DJ em si. Houve comentários de alguns roubos de celular, e haviam muitas garrafas espalhadas pelo chão. Nós vimos alguns lixeiros na festa, mas nem todos colaboram com a limpeza. Aqui no Brasil (e acredito que fora também) sempre vai haver o tipo de público que vai “para a festa” e o tipo de público que vai “para a música”. Algumas pessoas batiam e esbarravam na mesa e nos fios, isso afetava os toca discos, fazendo com que os vinis “pulassem” ou que o som tivesse algumas falhas em alguns momentos. Outras insistiam em bater fotos e gravar vídeos com o flash atrapalhando o DJ. Em em outras ocasiões que eu não poderia dizer o porque tecnicamente, se foi por conta alguma poeira no disco ou a trepidação do grave na mesa, que fez com que o vinil desse alguns pequenos deslizes. Mas Vath, com seus mais de 30 anos de experiência em discotecagem se saia muito bem e com classe de todos os embaraços. Os seguranças foram instruídos a formar um “cordão de isolamento” na frente do palco, impedindo que as pessoas continuassem atrapalhando o show. Um laser verde apontava para os inconvenientes, e o segurança fazia sua parte pedindo que as pessoas se afastassem do palco ou colocando a mão na frente do flash, para que nada mais incomodasse.

    Seguindo o baile, uma apresentação dançante, muito techno, mixagens incríveis. Ali pudemos ter a certeza do motivo de Sven Vath ser conhecido como “Papa” ou então como “Godfather of Techno”. Amanheceu, muitas pessoas passavam pelo viaduto, indo e vindo de seus afazeres, a maioria delas parava pra dar uma olhada na festa que rolava lá em baixo. Foi uma sensação estranha e engraçada, um choque de realidades. Algumas pessoas haviam dito que a festa acabaria as 7h00, então permanecemos na pista para aproveitar o máximo que podíamos. Sven tocou pontualmente até 8h00, e com um incrível sol na cidade (quase) sempre cinza de São Paulo, um vocal que dizia: “No one gets left behind, not this summer time…” ecoou sobre aquele lugar criando uma atmosfera absurda. Era o final do set, e com certeza, nós saímos dali com gostinho de quero mais. Tínhamos a esperança que a festa fosse até mais tarde, afinal o prometido seriam no mínimo 7 horas de set. Ele tocou apenas 5 horas e alguns minutos. Felizmente essas 5 horas de muita música boa fizeram valer cada esforço para estar naquele lugar. A com a música do DJ Yellow, Flowers And Sea Creatures – No One Gets Left Behind (Konstantin Sibold Remix) foi sua penúltima musica.

     

     Depois da última música, o corpo estava cansado, porém a alma estava lavada e os ouvidos limpos. Era hora de voltar pra casa, a missão havia sido cumprida.

     

  • A preparação e a expectativa de Eduardo M para sua gig com Murphy no Terraza

     

     

    Sabemos que musicalmente você é muito eclético e podemos inclusive notar isso em alguns dos seus sets. Como funciona sua pesquisa musical e como ela colide com a versatilidade do seu gosto musical? 

    A minha forma de pesquisa é bastante orgânica. Além das paradas programadas que eu faço para pra ouvir algumas coisas específicas, eu ouço música o dia inteiro – a maioria fora do gênero techno. Quando estou no carro, tenho um pendrive em modo “shuffle” que roda de tudo, desde rock, nu jazz, funk, eletrônica experimental, dubstep, hip hop, drum and bass e etc. Como eu estou há muito tempo nisso, eu preciso deixar meus ouvidos e minha cabeça respirar com sonoridades diferentes das que eu estou acostumado a tocar. É exatamente aí que eu sinto toda a diferença. Em casa, desde a hora que eu acordo eu dou play numa rádio online e também em listas de pesquisa. A partir daí, fico conectado até a hora que eu preciso sair. Essa dinâmica forma automaticamente a minha referência eclética. 

    Na sexta-feira (06/05) você, Murphy, Guilherme Konin e Petrius D estão escalados para tocar no Terraza de Balneário Camboriú. Falando especificamente dessa noite, como é a preparação e a pesquisa? Algo de diferente acontece no processo?

    É claro que quando eu me preparo para uma noite como a de sexta eu tento buscar algumas coisas instintivamente. Isso ocorre garimpando meus discos pra ver o que eu posso resgatar para aquela ocasião específica, repassando as músicas digitais que eu já tenho e também checando meus artistas, selos e lojas preferidas. 

    É sabido que dentre todas as suas atividades na música, você também costuma produzir. Conte pra gente um pouco sobre essa dinâmica e como isso se entrelaça com teu trabalho já conhecido no comando dos discos.

    Tenho dedicado bastante tempo na produção. Diferentemente do objetivo mais comum que é fazer para lançar, eu trabalho em muita coisa específica para eu mesmo tocar. Algumas coisas funcionam como ferramentas e muitas vezes nem chegam a ser faixas totalmente finalizadas. Pode ser por exemplo algo que eu pensei pra algum momento ou para que sirva de apoio ou complemento pra alguma manobra que eu queira fazer.

    Fiquei sabendo que você e o Murphy já se conheciam de tempos atrás. É verdade que ele já te chamou pra tocar numa festa dele em São Paulo? Narra pra gente como isso tudo começou.

    Sobre o Murphy, eu lembro que tive a primeira notícia dele numa revista que se chamava DJ Sound. Isso deveria ser por volta de 1999 ou 2000. A matéria falava de um campeonato promovido por uma rave antiga, chamada HIPNOTIC. Nisso o Murphy era o destaque por ter sido o campeão, e por ter chamado atenção pela sua técnica. A partir daí eu consegui depois que meu pai (que mora em SP) gravasse uma fita cassete num programa de rádio de lá que ele participou. Quando eu ouvi eu fiquei completamente maluco, porque ele tinha conseguido unir duas coisas que eram justamente minhas maiores paixões: o techno sendo tocado com as manobras tradicionais do hip hop! Eu sempre fui viciado em drum and bass por exemplo, e ver a dinâmica do Marky tocando era algo único. Quando eu vi então o Murphy aplicando isso no Techno, eu achei perfeito. Não foi à toa que ele se destacou tanto por isso. Eu já tinha tentado algumas coisas antes disso, como o scratch no beat 4×4. Mas quando eu vi ele fazer eu vi que era perfeito e com o “swing” ideal.

    A partir disso tudo, eu comecei a treinar (ainda mais) para aperfeiçoar. Um tempo depois, nos encontramos quando ele veio tocar no sul a primeira vez em 2002 (salvo engano). Era um momento muito especial para o techno naquela época. Para sorte nossa, ele passou a tocar com mais frequência por aqui e consequentemente, acabamos tocando juntos em algumas festas. Uma delas foi num clube chamado CASE, aqui em Balneário Camboriú mesmo. Nesse dia, eu tinha tocado no Warung e sai de lá pra ir fechar a noite pra ele nesse clube. Eu lembro que ele ficou até a hora de desligar o som me vendo tocar sentado num sofá, rs. Ai ele me elogiou bastante e disse que ia me levar pra tocar na noite dele no Lov.e. Às vezes você sabe, né? Papo de noite a gente não leva muito a sério e fica por isso mesmo. Mas pra minha sorte não foi à toa, ele de fato cumpriu! Pouco tempo depois a gente continuou se falando e acertamos os detalhes. Tocar no Lov.e naquela época era um sonho pra qualquer DJ. Com o “plus” de tocar fechando a noite pra ele, mais ainda! Foi incrível. Vale lembrar que ele fez isso sem eu oferecer nada em troca pra ele. Acredito que tudo isso rolou porque simplesmente ele gostou mesmo. Hoje em dia eu não vejo isso de forma tão comum. É normal DJs trocarem favores ou te chamarem pra tocar por algum interesse ou algo em troca. Ali eu comecei a entender a simplicidade dele, que obviamente vem da sua origem de quem conquistou as coisas por talento, e não por política ou “puxação de saco”. Ainda houveram outras ocasiões em que nos cruzamos tocando juntos, como numa circuito no Lago (SP) em 2006 – a principal rave de techno do país na época. Desse ponto em diante, o techno começou a sofrer uma grande mudança e ele alçou de fato sua carreira internacional – o que consequentemente fez ele ficar um pouco mais distante. 

    Essa noite no Terraza é também a sua estreia na casa. Como está a sua expectativa pra essa festa?

    Sobre a expectativa para esta noite eu não tenho dúvidas que deve ser algo especial. Por vários motivos. O primeiro deles por ser em Balneário Camboriú, mas também não posso deixar de mencionar o fato de ser minha estreia no Terraza, pelo do Detroitbr estar junto, pela certeza de vários amigos na pista, e por fim, por estar tocando do lado do cara que é uma referência pra mim, com um detalhe especial: é nosso! É brasileiro!

  • Pete Tong retorna ao Warung e relembra a escola inglesa dos anos 90

    É fato, quando estamos diante de um remanescente da escola inglesa de DJing, as chances de receber uma aula de como se deve tratar com música são altas. Não só neste país, mas em todo Reino Unido, existe um desvio cultural para tudo que envolve melodias, profundidade e progressão. Nem preciso aqui citar as bandas até por que faltaria espaço, no entanto, de uma forma ou de outra tudo sempre acaba se afunilando em Londres, a capital onde todos criaram suas bases. Desde o final dos anos 80, vários Djs advindos deste pedaço de mapa milenar tem ditado o ritmo do que se toca no resto do mundo e um deles, que sem pensar seria colocado em um Top 10 de todos os tempos, é Pete Tong.  Um radialista que virou Dj ou um Dj que virou radialista? Difícil dizer, a história é paralela e ele criou marcas únicas dos dois lados. Ser o mentor do Essential Mix como o maior programa de música eletrônica de todos os tempos ou ser referência de uma linha – o house progressivo – que dominou os clubes do mundo todo por pelo menos 15 anos? O que é maior? Novamente, estamos em paralelo.

    Depois de bater na trave em 2015 o seu retorno finalmente teve confirmação, então não pensei em deixar a chance passar. Era sabido porém, que o artista esteve caminhando nos últimos anos em ondas rasas, principalmente depois de assumir também o comando do Evolution Show, programa norte-americano de rádio devidamente focado no mundo EDM. Ainda assim, fui de peito aberto com a ideia de que era um nome que precisava riscar da lista e se ele ainda tivesse personalidade, sentia que ia ser bom. 

    Com um público aquém do que se espera de um feriadão no litoral catarinense, presenciei no Garden o Curitibano Gui Tomé.  Em um primeiro momento ele me parecia um pouco descontrolado na aceleração do BPM, porém, com devida cautela ele conquistou o ritmo ideal para o difícil horário que se estenderia até a 1h. Técnica e escolha de músicas admiráveis, Gui mostrou o que sempre se deve esperar dos Djs de sua cidade. Continuando, logo em seguida pude conferir uma ótima surpresa no excelente set de Diogo Accioly. Não sentindo-se intimidado pelo importante horário lhe conferido, conduziu a pista com enorme personalidade em um ritmo por vezes viajante de house e outrora dançante de techno, intercalando essas duas referências em um set consistente e tendo seu ponto máximo o remix de Guy Gerber para “Walls” de Monkei Safari. 

    Após dar um tempo na sacada do Inside, finalmente pude ver pelas telas da pista que Pete Tong estava se aprontando. Juntamente de novos amigos que fiz alguns momentos antes no garden, me dirigi ao centro da pista para já se impressionar com as primeiras músicas do ícone. As linhas de baixo longas e introspectivas deram as caras e pude refletir que sim, hoje iria ver um daqueles Djs de uma seleta lista de mestres e influenciadores de toda uma geração. Como necessário, ele logo começou a introduzir ritmo e balanço com viradas daquele jeito que só esse estilo proporciona, penso que quem esteve lá e conhece essa linha, saberá do que eu estou falando, a pista simplesmente não cai da sua mão. Atentei-me a performance e assisti Pete frequentemente cortando uma linha horizontal de um CDJ a outro, andando e voltando na escolha das músicas como um tique. Todo artista carrega certas singularidades, gestos e posturas corporais que repetidas em determinadas situações denunciam o que o público ira levar para casa como lembrança além da música, e esse era o dele. 

    Com a pista em mãos, arrancou aplausos e gritos eufóricos de seu groove com pontas melódicas, linhas tribais e vocais com sentimento. Certa vez um Argentino me ensinou que:

    “O set deve ser coerente, assim como o seu estilo, sua carreira e você mesmo. Se pensarmos nos grandes DJs, todos eles têm seu estilo característico; eles podem mudar o tipo de música que tocam, mas o estilo? Nunca. É legal, por que mesmo que demore anos para que você o assista tocando de novo, sabe o que esperar do seu set.” – Hernan Cattaneo

     

    Foi desse ensinamento que lembrei quando os momentos finais do set de Pete Tong foram se aproximando, no momento certo ele coloca ‘’No Distance’’ de Dixon & GG, sendo a música perfeita para aquele momento em que a pista ainda está escura, porém, você já observa que ao final do triângulo o mundo já está claro. Com a atmosfera simbiótica que os raios de sol carregam para dentro da pista, lentamente é preciso acordar e “Acamar” de Frankey & Sandrino cai com perfeição. Essa é o tipo de música que literalmente puxa a pista novamente pro jogo e se possível, a levará ainda por um bom tempo. Mesmo demorando 10 anos pra voltar, foi interessante ver como Pete escolheu algo semelhante a sua estreia no templo para os momentos finais, ”What’s A Girl To Do” de Fatima Yamaha no re-edit de Capulet foi marcante tanto quanto “It’s Too Late” de Dirty South & Evermore, ambas são clássicos de seus respectivos anos.

    Saí dessa experiência realizado por ter assistido um DJ alinhado com o que acredito ser a sonoridade total e principalmente, uma figura-chave no crescimento da música eletrônica como um todo. 

    Fotos: Gustavo Remor

  • Noite que encerrou a temporada no Warung sai como uma das festas mais elogiadas do verão

    Depois de uma ótima programação de verão com uma grande diversidade de artistas – algumas importantes estreias e outros já bem conhecidos pelo público local – o Warung veio para sua última noite de verão com um line-up bastante interessante que trouxe como atrações principais da noite Mind Against e Nicole Moudaber.

    A dupla de italianos do Mind Against arrancou elogios já na sua primeira passagem pelo clube e dessa vez a expectativa pela apresentação deles era visivelmente maior. O projeto que nasceu em 2011 tem ganhado espaço rapidamente e lançado faixas de sucesso por importantes selos como Cocoon, Kompakt e Life & Death.

    Com a missão de fechar o Inside, Nicole veio como a grande novidade da noite. Nascida na Nigéria, teve o seu primeiro contato com a música já na cultura local, conhecida pelos ritmos tribais hipnóticos. Sua carreira na música eletrônica iniciou de forma mais contundente após se mudar para Londes, onde trabalhou como promoter. Após lançar sua festa chamada “Soundworx”, seu interesse em sair dos bastidores e fazer parte das pick-ups foi aumentando. Através de sua dedicação, suas habilidades e o seu conhecimento musical foram se expandindo, mas foi com a ajuda de seu amigo Carl Cox que seu nome ganhou notoriedade. Nicole carrega consigo uma grande experiência, já fez apresentações em festivais como Time Warp, Awakenings e ADE. Como fundadora da gravadora Mood, ainda promove eventos ao redor do mundo, como por exemplo, a In the Mood que já aterrissou em festivais como o BPM Festival.

    Voltando a narrativa para a noite de encerramento da temporada, alguns pequenos contratempos marcaram o início da nossa jornada. Acabamos passamos algum tempo presos no congestionamento na via de acesso ao clube e chegamos próximo a uma hora da madrugada. Esse Warung também foi marcado pelo início da proibição do estacionamento na extensão da rua em frente à casa durante o período das 22h às 6h. A medida culminou na melhora significativa do trânsito e também propiciou a eliminação natural de boa parte das pessoas mal intencionadas que acabavam trazendo transtornos aos frequentadores da casa no trajeto até o templo. Uma mudança simples, porém, eficiente.

    Já no Inside, Mind Against estava recém iniciando sua apresentação. Nos primeiros minutos a predominância de elementos bastante melódicos, que é uma das características do duo, já surtia efeito na pista. À medida em que o set era construído, o bassline das músicas ficavam mais intensos.

    Suas transições mesclavam entre o house e techno, passando por algumas faixas como “Audion – Mouth to Mouth”, que causou euforia no público naquele momento. O ponto mais alto da apresentação, foi quando tocaram North Star de Tale Of Us, dupla essa, que possui bastante semelhança na forma de expressão musical. Enquanto os minutos finais se aproximavam, Nicole já estava se preparando para assumir os trabalhos. Com uma boa apresentação e bastante aplaudidos, os irmãos entregaram a pista à ela.

    Naquele momento, a ansiedade e expectativa em torno da apresentação dela, para mim, era enorme. Na cabine estava presente um dos nomes de notável destaque na atualidade quando o assunto é Techno, no momento mais alto da sua carreira até então. Vê-la pessoalmente com seu super estilo ajudou a deixar aquele momento mais empolgante.  Eu já havia apreciado em casa algumas apresentações dela em outras festas e sabia que se tratava de uma artista versátil e que podia se adaptar a qualquer festa e ambiente, portanto o que ela tinha reservado para essa noite ainda era uma incógnita.

    Nos primeiros instantes da primeira música, uma nova atmosfera tinha se espalhado pelo Inside e sem muita delonga, já causou a primeira explosão na pista. Nicole foi construindo sua história passando predominantemente por texturas obscuras, com um bassline pesado e batidas marcantes. Conforme suas músicas iam se encaixando, era possível perceber que a sintonia entre ela e a pista ia aumentando enquanto ela ficava cada vez mais à vontade. Durante as duas primeiras horas prevaleceu um techno com uma característica séria e com intensas respostas da pista com gritos. 

    Na sua última hora, trouxe um pouco de traços melódicos para sua construção e quando o sol já estava aparecendo tocou “Recondite – Cleric”. Com um sorriso no rosto e uma expressão de quem estava gostando de estar ali, ela finalizou seu set tocando “Old Soul ‘Young But Not New’” de sua autoria, que por sinal, se encaixou perfeitamente para esse momento. 

    Um fato interessante a respeito da vida dela é que antes de iniciar sua carreira diretamente ligada à música, ela estudou ciências sociais e sempre foi uma militante na luta contra as desigualdades, inclusive, participa ativamente nos dias de hoje de um projeto chamado Lower East Side Girls Club. O projeto tem como objetivo transformar jovens garotas de baixa renda em líderes éticos, empresariais e ambientais. Um dos programas do LESGC é a música, no qual a Nicole é responsável por, utilizando as palavras dela, “Ensinar e inspirar as crianças que querem estar na magia do mundo da música. Sim, apenas na magia…”. Hoje na sua carreira como DJ, ela consegue fazer exatamente o que sempre lutou: promover, nos mais diferentes cantos do mundo, a união entre as pessoas através da música.

    Fotos – Warung 05/03: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung)

  • O lado bom da crise

    Podemos dizer que o Brasil vive hoje uma das suas maiores crises econômicas, sociais e políticas em virtude da má gestão pública que comanda o país. O aumento dos índices de desemprego e do número de crimes são alguns dentre muitos indicadores que podemos levantar. Como em qualquer período conturbado, sempre é possível enxergar um lado positivo, mesmo embora isso esteja oculto por trás de tantos fatos negativos que costumam ofuscar nossa percepção.

    Berlim, por exemplo, passou anos cercada por um muro sob um rigoroso regime totalitário. Bastante tensão foi criada na época sobre a devastada capital alemã, o que fomentou alguns sentimentos que estavam “engasgados”. Muita arte foi criada justamente nesse período, permanecendo em anonimato até a queda do muro, quando a cidade pode renascer com uma expressão artística extremamente forte. Talvez nós brasileiros possamos aprender com a história de países como Alemanha e tantos outros com uma biografia similar. Podemos fazer desse momento um grande salto qualitativo em nossa cultura, que propicie um novo momento, um renascimento da música eletrônica. 

     

    Você deve estar se perguntando como isso pode refletir em nosso cenário cultural, e mais especificamente, na música eletrônica no Brasil. O raciocínio é simples. Ao atravessar uma crise, a primeira coisa que nos vem à cabeça são os cortes: as pessoas tendem a evitar gastos menos essenciais. Em outras palavras, o lazer é um dos primeiros setores a serem prejudicados pela austeridade forçada. Com a “bolha” prestes a estourar, teremos aqueles que se previnem preocupados com a instabilidade e outros que buscarão novos mercados, imaginando formas diferentes de se relacionar com o setor. 
Em um mercado em baixa, os clubs “Big Room”, sentem-se prejudicados neste momento ao verem suas pistas com baixo número de clientes, faturamento cada vez menor. Como estratégia, investem nas atrações já consolidadas, buscando vender o máximo de ingressos possíveis, evitando assim, correrem grandes riscos. Eles não estão errados e sim defendendo seus negócios, no entanto o público fica sujeito aos mesmos artistas de sempre. Já os artistas com menor popularidade acabam sendo menos demandados para “gigs” em geral. É um efeito cascata.

    Em contrapartida a toda essa movimentação, os eventos menores têm aberto o mercado e inovado. Trazem atrações nacionais e internacionais muitas vezes inéditas, com custos mais baixos. Em consequência disso, o ticket médio mais em conta, tornando assim a operação financeiramente mais atraente. E o maior beneficiário disso tudo é o público, que passa a ser exposto a um prisma de artistas cada vez mais rico, com uma musicalidade mais atual.

     

    É nesse ambiente que núcleos pequenos vêm crescendo e conquistando espaço. A cena eletrônica ressurge com frequentadores fiéis, sedentos pelo novo e sempre com mente aberta a novas experiências. Pode-se dizer que é na crise que se aprende a sobreviver, que buscamos novas alternativas para o lazer e que reaprendemos a criar novos meios para suprir nossa paixão pela arte. E é na terapia da arte que encontramos nosso momento de relaxar e de proporcionar a nós mesmos a vivência de belas experiências. É a linguagem da música falando por si só.

  • Showcase da Rumors encanta o Garden e The Martinez Brothers marca o fim do carnaval no Templo

    A terceira noite de carnaval no Warung sempre marca o fim de um ciclo de ótimas apresentações. Este ano, mesmo com o dólar em alta, diversos nomes importantes foram convocados. O clima era de folia e a esperança era um só: presenciar mais uma noite histórica liderada por ícones da música eletrônica mundial. Infelizmente por problemas pessoais uma das estrelas da noite cancelou sua apresentação, Seth Troxler que há alguns meses atrás revelaria ao Garden uma case recheada de ótimos vinis, dessa vez não pode comparecer para nos agraciar com sua típica personalidade. Uma pena, pois a possibilidade de um b2b lendário com os irmãos Martinez era alta e claramente seria um dos ápices do período carnavalesco.

    Consegui adentrar ao templo e já se passava da 1h00 da manhã, nesse momento, o Inside estava sob o controle de Renato. Sempre aclamado pelo público, tratou de aquecer o pistão com sonoridades explosivas e arrojadas, deixando todos efervescidos para The Martinez Brothers. Por volta das 2h30 me dirigi ao Garden onde fiquei fascinado por toda a decoração voltada para o Showcase Rumors. Luminárias amarelas, girassóis, gérberas rosas e vermelhas haviam sido utilizadas para caracterização do palco, que diga-se de passagem, abrilhantou ainda mais as apresentações.

    Lauren tinha a missão de mostrar toda sua personalidade em 2 horas de apresentação e ao mesmo tempo, preparar a pista para o seu headliner. Presenciei 30 minutos de seu set e pude notar que ela estava extremamente à vontade, criando assim um clima aconchegante, similar ao que acontece em Ibiza em noites de Rumors. Pontualmente às 3 da madrugada, Guy Gerber assumiu o domínio do Garden. Seu histórico de ótimas apresentações fala por si só. Buscando sempre alimentar o público com ótimas performances, o israelense abusou dos sintetizadores, proporcionando momentos ímpares que resultaram no surgimento de ótimas tracks como Freund – Berlin, em seu mix original.

     

    Em seguida, quem mais uma vez faria várias pessoas retrocederem no tempo seria “Timing”. É incrível o quão nostálgica e fascinante essa música é. Lançada em janeiro de 2009 pelo selo Cocoon do Papa Sven, a música transparece toda a genialidade de Gerber, que enobreceu ainda mais a noite. Decidi então que era hora de ver o que acontecia na pista de cima, afinal, não é todo o dia que se tem a presença de Chris e Steve. Os irmãos possuem uma ótima sintonia e ambos estavam vislumbrados com a arquitetura do templo e a energia do público. Esbanjando sorrisos e felicidade, a seleção de tracks foi feita com sutileza e sensatez, com destaque para o remix de Radio Slave para Michel Cleis & Klement Bonelli – “Marvinello”, música que caiu como uma luva para os irmãos. Como de costume, o Inside encerrou suas atividades às 7h00 da manhã, deixando um gostinho de quero mais para os Martinez.

    Ainda dava tempo para ver um pouco do que foi apresentado no Garden, uma das últimas tracks escolhidas por Guy para encerrar o carnaval foi “Mandy vs. Booka Shade – Oh Superman”, que por si só anestesiou os “foliões” que ali estavam.

     

    E assim se encerrou-se o período a tríplice sequência de carnaval do Warung. Vale ressaltar que diante do cenário econômico que vivemos é difícil trazer nomes deste calibre para cá. A presença dos ótimos brasileiros figurando as pick-ups foi mais que essencial para que o carnaval se desenvolvesse de maneira formidável e graciosa. 

    Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)

  • Depois de 6 anos Luciano retorna ao carnaval do Warung Beach Club

    Em janeiro de 2007 o Warung desembarcou pela segunda vez na praia brava umas das marcas mais conceituais e originais de Ibiza, a “Circo Loco Party“, comandada pela lenda uruguaia Tânia Vulcano, que por sua vez trouxe junto outro Sul-Americano que estava dando o que falar na tradicional festa do DC10. Luciano fez sua estreia no templo e ajudou a marcar uma nova fase do club educando uma geração de frequentadores que estava muito bem-acostumada a progressão e melodias dominantes da época, porém eram novos tempos, a casa sempre buscou apresentar novidades e provou estar certa visto a ascensão que Luciano e outro seu conterrâneo, Ricardo Villalobos, apresentaram nos anos seguintes. Ambos tornaram-se aclamados na Europa e criaram impérios com suas concorridas festas e labels. É evidente que a residência na festa Circo Loco formou as bases do que Luciano mais tarde criaria como seu maior projeto de vida, a marca “Vagabundos Cadenza”, lançando vários artistas de extrema qualidade como Dani Casarano, Felipe Valenzuela e Mendo. Eles se consagraram na Space Ibiza e encantaram plateias de todo mundo trajados como artistas de uma companhia circense do século XVIII.

    Já no carnaval de 2010, Luciano volta ao templo como headliner máximo e faz um dos longsets mais marcantes daquele ano. Consolidado, ele tinha tudo para se tornar um artista anual do club. Sua conexão com a pista e o clima sul-americano reavivado em sua personalidade o encantaram, fazendo rasgar elogios ao templo mundo afora. Nos dois anos seguintes a história mudou seu curso e ele desembarcou com sua trupe em frente da “lagoa” e não do “mar”, possivelmente um dos motivos de não ser mais uma prioridade do club e assim, os anos se passaram.

    Não consegui visitar a casa naquele memorável carnaval de 2010, mas sempre ouvi boas histórias sobre aquela noite. Já tinha perdido as esperanças de vê-lo novamente na brava, mas o que seria da vida sem as surpresas? Foi essa minha reação ao ver o nome do chileno na programação e ainda melhor, no mesmo carnaval que ele deixou há 6 anos. Mesmo tendo meu gosto pessoal muito mais centrado na segunda-feira com Guy Gerber ou até mesmo no sábado com Dixon, não pensei duas vezes que a noite escolhida seria com Luciano.

    Como do costume me aprontei mais cedo e acessei a casa com enorme tranquilidade,  fiz o roteiro habitual de banheiro, bar e Garden, onde pude ver o set do Fran Bortolossi, o artista hoje referencia do renascimento da cena Gaúcha. Tocando adequadamente ao horário ele mostrou uma linha de house e deephouse séria na primeira hora e observando o crescimento da pista, trouxe levadas bem dançantes em um segundo momento. Sem dúvidas o ponto mais marcante em seu ótimo set foi o edit de Redondo para um artista que admiro muito, Fatima Yamaha na já clássica “What’s A Girl To Do”. A pista inevitavelmente transbordou.

     

    Muito curioso, subi ao Inside para conhecer aqueles que para mim eram até então desconhecidos, falo dos londrinos Koko Bayern e Daylomar. Ambos se apresentavam sob a proposta do showcase de lançamento da label Unleash, que passara pela D-edge um dia antes. Bayern já havia se apresentando e quem estava virando os discos era Daylomar. Eu poderia ter pesquisado sobre seus trabalhos dias antes, mas dessa vez pensei em fazer diferente, fui sem expectativa nenhuma e de peito aberto para descobrir quem eles eram. Em 10 minutos de música já estava totalmente tomado pela linear sutileza em que Daylomar  construira seu set. Entre vinil e CDJ, ele jogava com uma pegada de house e tech house de muita classe, tentando buscar referências sobre o que tocava, me veio a mente o estilo de Audiofly, se é que podem me servir de exemplo.

     

    Jackmaster era outro artista que seria quase totalmente novidade para meus ouvidos, embora tenha acompanhado de longe seu sucesso e sabendo que ele tem despontado entre grandes djs na Europa, eu nunca tinha sequer ouvido alguma de suas produções ou sets. Suas primeiras músicas foram bem quebradas e intensas, me deixando em um primeiro momento confuso sobre a qualidade de Jack, porém, conforme ele foi construindo seu som, pude perceber que a ideia inicial de desconstruir todo o ritmo criado antes por Daylomar era para poder fazer a pista entender melhor sua segunda hora de música. É preciso coragem para isso e sua ótima técnica aliada a rápidas viradas fizeram-me apreciar com interesse seu trabalho. Não é todo dia que se ouve um estilo de música como esse.

    Depois de uma pequena demora na montagem dos equipamentos por seu manager, Luciano inicia seu set sendo muito aplaudido, porém, já nos primeiros minutos notei que o sound system estava bem abaixo da sua normalidade e até mesmo mais do que quando Jack estava tocando. Seus equipamentos foram montados em cima de outro mixer e a pista não estava recebendo o ideal. Essa é a situação em que o público não se dá conta, o pessoal da casa menos ainda e no final ficaria a impressão que o set não foi tão legal. Assisti à mesma situação no carnaval de 2013, quando Matador fez seu live e em seguida Richie Hawtin entrou com o som bem abaixo e tudo acabou ficando por isso.

    Mesmo sendo um grande set, ninguém acaba se recordando da apresentação ou até mesmo chegam ao ponto de criticar o DJ por algo que estava além da sua percepção, uma vez que o artista na cabine recebe os retornos sempre iguais. Incomodado lembrando de tudo isso, não me contive e escrevi no celular a mensagem ”the sound sytem need’s a gain”, simples e direto, me dirigi até o manager e mostrei a mensagem, ele por sua vez me fez um sinal de positivo, voltou-se para o mixer e deu um ganho no master. Lamentavelmente o problema não era ali, mas para minha felicidade, uma segunda pessoa no palco olhava intrigada para as caixas na pista. Depois de alguns minutos, o sujeito foi atrás na mesa de som e alertou os desatentos técnicos da casa, que trataram logo de somar cerca de 30 a 40% de volume. Dali em diante foi outra festa. A virada da música seguinte já fez a pista explodir com as mãos para cima, com sorriso no rosto e tradicionais palmas virado de lado, Luciano mostrou a que veio.

    Ele é um artista que respira energia e isso contagia qualquer pista, seu set sempre é carregado com muitas referencias sul-americanas e no Warung não foi diferente: vocais latinos, linhas de baixo dançantes com breaks longos e percussivos que não deixavam a pista parar por um minuto. A noite perfeita para um carnaval quente brasileiro estava construída, mas acima de tudo, o que faz dele um dos Djs mais respeitados dos últimos 10 anos é sua qualidade técnica, sua mixagem muito bem trabalhada com a soma de seus mashup ao vivo. Trabalhando quase sempre com dois canais ou mais, ele abusa de seu extremo bom gosto.

    As rápidas 3 horas e meia se traduziram em consistência na primeira parte e pegadas mais explosivas na segunda. Por volta das 6 da manhã, o momento da noite chega com o inconfundível vocal de “Enfants” de Ricardo Villalobos, jogado junto em outra música mais limpa com extrema maestria. Próximo das 7 horas, o escuro triangulo no final da pista deu lugar a uma página amarela mesmo sem o sol aparecer. Já com saudades desta vista, pude observar no mesmo momento Luciano extremamente realizado curvando-se diante do público em agradecimento e talvez sabendo que agora ele poderá ser frequente na casa. Quem agradecerá desse vez será o público.

    Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)