Podemos dizer que o Brasil vive hoje uma das suas maiores crises econômicas, sociais e políticas em virtude da má gestão pública que comanda o país. O aumento dos índices de desemprego e do número de crimes são alguns dentre muitos indicadores que podemos levantar. Como em qualquer período conturbado, sempre é possível enxergar um lado positivo, mesmo embora isso esteja oculto por trás de tantos fatos negativos que costumam ofuscar nossa percepção.
Berlim, por exemplo, passou anos cercada por um muro sob um rigoroso regime totalitário. Bastante tensão foi criada na época sobre a devastada capital alemã, o que fomentou alguns sentimentos que estavam “engasgados”. Muita arte foi criada justamente nesse período, permanecendo em anonimato até a queda do muro, quando a cidade pode renascer com uma expressão artística extremamente forte. Talvez nós brasileiros possamos aprender com a história de países como Alemanha e tantos outros com uma biografia similar. Podemos fazer desse momento um grande salto qualitativo em nossa cultura, que propicie um novo momento, um renascimento da música eletrônica.
Você deve estar se perguntando como isso pode refletir em nosso cenário cultural, e mais especificamente, na música eletrônica no Brasil. O raciocínio é simples. Ao atravessar uma crise, a primeira coisa que nos vem à cabeça são os cortes: as pessoas tendem a evitar gastos menos essenciais. Em outras palavras, o lazer é um dos primeiros setores a serem prejudicados pela austeridade forçada. Com a “bolha” prestes a estourar, teremos aqueles que se previnem preocupados com a instabilidade e outros que buscarão novos mercados, imaginando formas diferentes de se relacionar com o setor. Em um mercado em baixa, os clubs “Big Room”, sentem-se prejudicados neste momento ao verem suas pistas com baixo número de clientes, faturamento cada vez menor. Como estratégia, investem nas atrações já consolidadas, buscando vender o máximo de ingressos possíveis, evitando assim, correrem grandes riscos. Eles não estão errados e sim defendendo seus negócios, no entanto o público fica sujeito aos mesmos artistas de sempre. Já os artistas com menor popularidade acabam sendo menos demandados para “gigs” em geral. É um efeito cascata.
Em contrapartida a toda essa movimentação, os eventos menores têm aberto o mercado e inovado. Trazem atrações nacionais e internacionais muitas vezes inéditas, com custos mais baixos. Em consequência disso, o ticket médio mais em conta, tornando assim a operação financeiramente mais atraente. E o maior beneficiário disso tudo é o público, que passa a ser exposto a um prisma de artistas cada vez mais rico, com uma musicalidade mais atual.
É nesse ambiente que núcleos pequenos vêm crescendo e conquistando espaço. A cena eletrônica ressurge com frequentadores fiéis, sedentos pelo novo e sempre com mente aberta a novas experiências. Pode-se dizer que é na crise que se aprende a sobreviver, que buscamos novas alternativas para o lazer e que reaprendemos a criar novos meios para suprir nossa paixão pela arte. E é na terapia da arte que encontramos nosso momento de relaxar e de proporcionar a nós mesmos a vivência de belas experiências. É a linguagem da música falando por si só.