A preparação e a expectativa de Eduardo M para sua gig com Murphy no Terraza

 

 

Sabemos que musicalmente você é muito eclético e podemos inclusive notar isso em alguns dos seus sets. Como funciona sua pesquisa musical e como ela colide com a versatilidade do seu gosto musical? 

A minha forma de pesquisa é bastante orgânica. Além das paradas programadas que eu faço para pra ouvir algumas coisas específicas, eu ouço música o dia inteiro – a maioria fora do gênero techno. Quando estou no carro, tenho um pendrive em modo “shuffle” que roda de tudo, desde rock, nu jazz, funk, eletrônica experimental, dubstep, hip hop, drum and bass e etc. Como eu estou há muito tempo nisso, eu preciso deixar meus ouvidos e minha cabeça respirar com sonoridades diferentes das que eu estou acostumado a tocar. É exatamente aí que eu sinto toda a diferença. Em casa, desde a hora que eu acordo eu dou play numa rádio online e também em listas de pesquisa. A partir daí, fico conectado até a hora que eu preciso sair. Essa dinâmica forma automaticamente a minha referência eclética. 

Na sexta-feira (06/05) você, Murphy, Guilherme Konin e Petrius D estão escalados para tocar no Terraza de Balneário Camboriú. Falando especificamente dessa noite, como é a preparação e a pesquisa? Algo de diferente acontece no processo?

É claro que quando eu me preparo para uma noite como a de sexta eu tento buscar algumas coisas instintivamente. Isso ocorre garimpando meus discos pra ver o que eu posso resgatar para aquela ocasião específica, repassando as músicas digitais que eu já tenho e também checando meus artistas, selos e lojas preferidas. 

É sabido que dentre todas as suas atividades na música, você também costuma produzir. Conte pra gente um pouco sobre essa dinâmica e como isso se entrelaça com teu trabalho já conhecido no comando dos discos.

Tenho dedicado bastante tempo na produção. Diferentemente do objetivo mais comum que é fazer para lançar, eu trabalho em muita coisa específica para eu mesmo tocar. Algumas coisas funcionam como ferramentas e muitas vezes nem chegam a ser faixas totalmente finalizadas. Pode ser por exemplo algo que eu pensei pra algum momento ou para que sirva de apoio ou complemento pra alguma manobra que eu queira fazer.

Fiquei sabendo que você e o Murphy já se conheciam de tempos atrás. É verdade que ele já te chamou pra tocar numa festa dele em São Paulo? Narra pra gente como isso tudo começou.

Sobre o Murphy, eu lembro que tive a primeira notícia dele numa revista que se chamava DJ Sound. Isso deveria ser por volta de 1999 ou 2000. A matéria falava de um campeonato promovido por uma rave antiga, chamada HIPNOTIC. Nisso o Murphy era o destaque por ter sido o campeão, e por ter chamado atenção pela sua técnica. A partir daí eu consegui depois que meu pai (que mora em SP) gravasse uma fita cassete num programa de rádio de lá que ele participou. Quando eu ouvi eu fiquei completamente maluco, porque ele tinha conseguido unir duas coisas que eram justamente minhas maiores paixões: o techno sendo tocado com as manobras tradicionais do hip hop! Eu sempre fui viciado em drum and bass por exemplo, e ver a dinâmica do Marky tocando era algo único. Quando eu vi então o Murphy aplicando isso no Techno, eu achei perfeito. Não foi à toa que ele se destacou tanto por isso. Eu já tinha tentado algumas coisas antes disso, como o scratch no beat 4×4. Mas quando eu vi ele fazer eu vi que era perfeito e com o “swing” ideal.

A partir disso tudo, eu comecei a treinar (ainda mais) para aperfeiçoar. Um tempo depois, nos encontramos quando ele veio tocar no sul a primeira vez em 2002 (salvo engano). Era um momento muito especial para o techno naquela época. Para sorte nossa, ele passou a tocar com mais frequência por aqui e consequentemente, acabamos tocando juntos em algumas festas. Uma delas foi num clube chamado CASE, aqui em Balneário Camboriú mesmo. Nesse dia, eu tinha tocado no Warung e sai de lá pra ir fechar a noite pra ele nesse clube. Eu lembro que ele ficou até a hora de desligar o som me vendo tocar sentado num sofá, rs. Ai ele me elogiou bastante e disse que ia me levar pra tocar na noite dele no Lov.e. Às vezes você sabe, né? Papo de noite a gente não leva muito a sério e fica por isso mesmo. Mas pra minha sorte não foi à toa, ele de fato cumpriu! Pouco tempo depois a gente continuou se falando e acertamos os detalhes. Tocar no Lov.e naquela época era um sonho pra qualquer DJ. Com o “plus” de tocar fechando a noite pra ele, mais ainda! Foi incrível. Vale lembrar que ele fez isso sem eu oferecer nada em troca pra ele. Acredito que tudo isso rolou porque simplesmente ele gostou mesmo. Hoje em dia eu não vejo isso de forma tão comum. É normal DJs trocarem favores ou te chamarem pra tocar por algum interesse ou algo em troca. Ali eu comecei a entender a simplicidade dele, que obviamente vem da sua origem de quem conquistou as coisas por talento, e não por política ou “puxação de saco”. Ainda houveram outras ocasiões em que nos cruzamos tocando juntos, como numa circuito no Lago (SP) em 2006 – a principal rave de techno do país na época. Desse ponto em diante, o techno começou a sofrer uma grande mudança e ele alçou de fato sua carreira internacional – o que consequentemente fez ele ficar um pouco mais distante. 

Essa noite no Terraza é também a sua estreia na casa. Como está a sua expectativa pra essa festa?

Sobre a expectativa para esta noite eu não tenho dúvidas que deve ser algo especial. Por vários motivos. O primeiro deles por ser em Balneário Camboriú, mas também não posso deixar de mencionar o fato de ser minha estreia no Terraza, pelo do Detroitbr estar junto, pela certeza de vários amigos na pista, e por fim, por estar tocando do lado do cara que é uma referência pra mim, com um detalhe especial: é nosso! É brasileiro!