Autor: Eduardo Roslindo

  • Pluralidade define Dettmann em passagem pelo Warung

    Neste sábado quem esteve presente no Warung Beach Club pôde vivenciar outra grande apresentação que passou por sua tradicionalíssima cabine, uma das mais imprevisíveis que presenciei. Quem acompanha a trajetória de Marcel Dettmann sabe de sua capacidade de pesquisa e o quanto isso enriquece suas apresentações, além de sua excelente técnica, é claro. Também o reconhece por ser um dos grandes expoentes do techno mundial, geralmente o viés escolhido por ele para conduzir suas histórias. Acompanhando-o em suas redes sociais foi possível notar uma maior inclusão de diferentes vertentes nos últimos anos, que antes eram menos exploradas ou usadas apenas em momentos especiais, pois convenhamos: é muito difícil entender como funciona o feeling do artista nos momentos de apresentação, já que isso envolve uma relação individual diante de vários aspectos que vão além da música.

    Em sua primeira passagem pelo clube ele mostrou seu cartão de visitas, fazendo uma apresentação recheada com linhas densas e melódicas, carregadas com muito peso, criando-se uma verdadeira hipnose. Naquela ocasião ele foi uma das grandes estrelas do ano, o que fez com que seu retorno fosse aguardado com carinho por grande parte do público. Com o anúncio desta nova data grandes expectativas se criaram, não só pela volta de Marcel, mas pelo fato de que Nina Kraviz também seria headliner no Inside e porque eu estaria presente comemorando 29 primaveras ao som de artistas que tenho grande respeito.

    Entrei no clube por volta das 01h e me direcionei ao palco principal, onde o alemão iniciava a sua apresentação e por onde eu estive a noite toda, ao lado de amigos que celebravam comigo esse momento. Suas primeiras faixas me lembraram muito as características da apresentação anterior, mas conforme o set progredia o cenário mudava completamente. É de suma importância salientar que nunca assisti um Dettmann tão leve e feliz, optando por uma postura totalmente carismática, com danças e grande interação com o público do front-stage, contrastando com seu lado sério e frio. Isso refletiu em sua apresentação, que embora tivesse seus momentos densos, era dominada pelos sons dançantes.

    Além desta predominância, foi emocionante ver um Dettmann extremamente eclético, apresentando um set em que inicialmente parecia não ter sentido lógico algum, mas que fez sentido e encantou, fazendo a pista vibrar a cada virada. Ele optou por uma apresentação extremamente arriscada, que embora tivesse sua identidade bem definida não seguia algum rótulo específico, dava pra sentir que de certa forma as faixas selecionadas vinham de um túnel do tempo da sua experiência com o meio. Marcel estava tocando música, antigas e novas, misturando house, techno, trance, disco, electro, synthpop, breakbeat. E mais incrível foi ver as pessoas entregues, dispostas a consumir o que ele apresentava.


    Dentre os vários clássicos apresentados acredito que Enjoy the Silence, do Depeche Mode, tenha chamado mais a atenção do público presente, que cantou junto em um dos seus momentos old school. Ele conseguiu encaixar a música original de forma brilhante em um edit, remix ou até mesmo mash up feito na hora, deixando-a mais ritmada. Todo o sentimento nostálgico causado pelas pessoas em minha volta estarem cantando junto deixou o momento ainda mais especial!

    É nessas horas que reflito o quanto artistas como Marcel Dettmann nos ajudam a mudar a nossa forma de pensar e evoluir. No Brasil é muito comum as pessoas ficarem presas a nichos específicos, deixando de vivenciar a grande gama de experiências que poderiam ser absorvidas e apreciadas caso ampliassem seus leques de possibilidades. Confesso que já pratiquei muito disso no passado e não falo isso somente na música, mas de maneira geral: é como se vivêssemos em um condicionamento social que nos guia a isso e desvincular-se é algo muito difícil. É legal você olhar pra frente e ter a sensação de ser surpreendido por algo que muitas vezes foge da sua compreensão – de olhar pro seu amigo ao lado e falar “cara, o que ele está fazendo?“. A música, assim como as mais diversas formas de arte, nos permite esse sentimento e é com ele que eu admirava cada faixa apresentada.

    Já próximo do final de sua apresentação Nina nos brindou com um b2b inesperado com o alemão, pois confesso que não esperava vê-los tocando juntos. Nesse momento a experiência se tornou ainda mais rica, foi muito legal ver a russa cedendo parte de sua apresentação para que seu amigo continuasse, afinal ele merecia – e muito! Penso que em terras tupiniquins Nina tem uma popularidade maior do que Dettmann e esse tipo de espaço ajuda artistas como ele a terem uma melhor entrega e maior adesão. Afinal, com mais de 3 horas de apresentação você já tem uma noção do que seria um long set, assim como já assisti Kraviz fazer coisas magníficas em momentos nos quais se apresentou com o tempo prolongado. E o mais importante: era nítida a felicidade deles de estarem juntos no palco. Já próximo às 5h a russa então assumiu de forma individual e seguiu com um bom ritmo, dando sequência ao que foi impresso anteriormente por eles, fechando com chave-de-ouro uma das noites que levo com maior carinho nessa década como frequentador do Warung.

    Foto: Ebraim Martini.

  • Conversamos com Ney Faustini às vésperas de sua apresentação no Dekmantel Brasil

    Sem dúvidas, uma das grandes atrações do Dekmantel Festival é o paulista Ney Faustini, que em meio a tantos nomes importantes tem seu lugar de destaque e carrega consigo uma nação que ama o seu trabalho. Ele é aquele tipo de artista singular, que não encontramos nas prateleiras de lojas comuns, pois seu trabalho é denso e cheio de camadas a serem desvendadas.  

     

     

    Em todo tempo que o acompanho já apreciei vários momentos incríveis. Já pude ver seus belos edits de clássicos brasileiros e internacionais, influências que vão do hip-hop ao jazz, como também sets de house, techno, ou tudo misturado, sem prender-se a uma aparência. Embora isso devesse soar como comum, graças à nossa cultura extremamente rica, não é o que acontece. Poucos artistas conseguem extrair leveza e originalidade nesse contexto, por isso ele está onde está: a poucos dias de abrir o palco principal do Dekmantel Festival em sua primeira edição em terras tupiniquins.

     


    Para conhecê-lo melhor, o convidamos para um bate papo sobre a sua carreira e o que ele está preparando para esse momento único.

    1 – Olá, Ney! Primeiramente obrigado por aceitar o convite e responder algumas perguntas para o detroitbr. Nosso coletivo tem uma relação muito intima com você e acompanha sua carreira diariamente, e mesmo assim somos pegos de surpresa com freqüência diante de seu dinamismo musical. Como é pra você organizar todo esse conteúdo fazendo como  que cada uma de suas apresentações soe como se fosse a primeira? Como que funciona o ritual de cada apresentação? Você pesquisa sobre os locais que você vai tocar para preparar da melhor forma? Explique um pouco pra gente sobre isso.

     

    Prazer em falar com vocês! Bom, acredito que toda gig merece uma atenção e preparação bastante específica. Acho importante, antes de tudo, investir tempo em pesquisa e conhecer bem os discos e as músicas que você tem pra, a partir disso, analisar o conceito da festa, o horário, ordem do line up, etc. Na minha residência no D-Edge, por exemplo, gosto igualmente de fazer warm-ups ou de encerrar a noite com sets de 5h, o que obviamente exigem preparações diferentes. Separo sempre uma bag de discos e tenho conseguido me encontrar cada vez melhor nas pastas dos meus pen drives, que tem de tudo, do techno à mpb. Acho que montar repertórios de estilos distintos torna-se natural quando você sabe exatamente o que quer ter gravado ali. Gosto de encarar situações distintas e de encontrar caminhos para que eu possa tocar o que eu quero, de acordo com cada uma delas. Arriscar músicas e seqüências inusitadas pode não ser o caminho mais garantido, mas é sempre divertido, mesmo quando alguma coisa não funciona tão bem.

     

    2 – E para o Dekmantel Festival, como está sendo sua preparação? Que surpresas podemos esperar?

     

    Apesar da ansiedade, comecei a pensar mais na apresentação no Dekmantel só nos últimos dias. É um festival com o qual já tenho uma identificação musical muito natural, mas tenho consciência da responsabilidade que é abrir o palco principal. Apesar de ser um set de 1h30, estou separando uma quantidade de músicas que renderiam um long set rs… Existe a necessidade de se adaptar a situação, e as pessoas estarão chegando, tendo o primeiro contato sonoro e visual com tudo. Eu tenho uma idéia do caminho que gostaria de seguir, mas só vou saber mesmo quando eu ver o público ali, e como estarão reagindo aos primeiros sons, pra tentar construir alguma coisa que faça sentido pro momento. Prefiro não adiantar nada, mas venham de ouvidos abertos rs…

     

    3 – Embora você tenha experiência, o fator psicológico pode ser um aliado ou não em um momento como esse. Como você faz sua preparação psicológica? Mesmo em todos esse anos ainda rola aquele tradicional “frio na barriga”? Em algum momento de sua carreira isso o atrapalhou? Fale um pouco como é lidar com esses momentos importantes!

     

    Eu acho que o “frio na barriga” é parte importante disso tudo, e tem que rolar, em qualquer situação. Você se prepara, imagina a festa, o público, então é natural a ansiedade pra descobrir se é mesmo da forma que você imaginou. E é dessa preparação que deve vir a segurança necessária para que você se sinta à vontade quando for se apresentar. Existe sempre aquele momento em que você tem o primeiro contato com os equipamentos da festa, com o retorno, com o visual da pista… Isso às vezes pode causar uma introspecção natural nos primeiros minutos, mas tudo flui logo que você se conecta com tudo ao redor.

     

    4 – Você é um cara de referências diversas, como hip hop, mpb, jazz, etc. De onde vieram essas influências todas? Como condensar tudo isso em uma apresentação voltada para a música eletrônica?

     

    Eu ouvia quase isso tudo desde moleque, mesmo antes de pensar em ser DJ. Em casa minhas primeiras referências foram Stevie Wonder e Sade. Hip Hop peguei mais na fase do colégio, pouco antes das primeiras coletâneas de house e drum & bass que eu comprei (ainda fase pré Napster, tinha que comprar tudo mesmo). Ouvia dance de rádio nessa mesma época também rs… Tudo isso me influenciou, de alguma forma. Curiosamente, só aprofundei minha relação com a música brasileira e com o jazz quando comecei a tocar drum & bass, lá por 99. Enfim, comecei a pesquisar mais sobre as origens daquilo que eu estava tocando, e fui me aprofundando quase que naturalmente em disco, funk, soul, jazz, mpb, hip hop, dub… É música com alma, no final das contas. E a música eletrônica que eu toco, desde o início no jungle/d&b à Detroit e Chicago, tem relação direta com tudo isso.

     

    5 – Para finalizar nos conte como foi receber o convite para tocar no Dekmantel Brasil? Você sabe como foi feito o critério de seleção? Conte um pouco dos bastidores desta grande notícia.

     

    Apesar de ser frequentador das festas e amigo do crew da Gop Tun, não acompanhei muito dos bastidores, dos critérios… Fiquei sabendo do festival em meados do ano passado pelo Caio Taborda, quando fui acompanhar uma das gravações da rádio Na Manteiga, poucos meses após a Gop Tun realizar uma grande festa no centro de SP, com vários artistas do Dekmantel. Ele basicamente me mostrou uma lista de nomes que pretendiam trazer e disse que eu era um dos DJs nacionais que estavam nos planos. Obviamente fiquei muito feliz em ser lembrado, mas era tudo bem sigiloso, não teria nem como falar pra ninguém. E dali até o convite oficial se passaram alguns meses, então a ficha foi caindo aos poucos rs… O envolvimento do crew do Dekmantel é muito direto, do line up à montagem do festival. Posso dizer que da lista inicial que eu vi, uma parte muito considerável estará por aqui. E praticamente todo o line up é formado por artistas que acompanho de alguma forma. Tô só um pouco ansioso… Falta muito pra sábado? Nos vemos lá!

     

     Foto por Gustavo Remor

  • Moodymann e suas produções autênticas e atemporais

    Kenny Dixon Jr, ou simplesmente Moodymann, é um dos mais autênticos artistas que já surgiram no universo da música eletrônica. Com uma enorme discografia, o músico e produtor de Detroit que esbanja originalidade em seu trabalho ligado ao techno e ao house, com vasta influência de jazz, soul e disco music, vem para o Brasil na próxima semana para uma apresentação única no Dekmantel em São Paulo.

    Kenny é conhecido por ser polêmico, incisivo e com personalidade forte, ligados ao seu ativismo claramente expostos em suas produções trazendo sempre mensagens anti-racismo e de cunho sócio-político, com estatísticas ligadas a fatos da história norte americana envolvendo o movimento negro da época. Em seu próprio label, a KDJ Records, ele explora bastante essa identidade. 

    Nos meados dos anos 90, trabalhou em diversas lojas de discos de Detroit, incluindo a loja do produtor Blake Baxter, onde certamente aflorou ainda mais a sua paixão por discos o fazendo um grande defensor da cultura do vinyl e da arte do digging. Seu primeiro álbum, intitulado Silentintroduction (1997) e lançado pela Planet E Communications de Carl Craig, deu início à sua incursão no mundo das produções. Em seguida outros ótimos álbuns foram lançados: Mahoganny Brown, Forevernevermore, Silence in the Secret Garden, Black Mahoghani (este sendo considerado um dos discos mais clássicos lançados por ele) e Black Mahogani II, todos pelo respeitadíssimo selo de techno Peacefrog Records. Para muitos ele é considerado mestre na arte de samplear (em sua MPC).

    Silentintroduction (1997)

    Black Mahogani (2004)

    Com mais de 40 singles/12″, todos atemporais e com enorme procura no “black market” de vinyl, Moodymann pode ser considerado um dos mais prolíficos e autênticos produtores de todos os tempos, fugindo a qualquer regra e fórmula. Sua musica, com certeza, perdurará por decadas.

    Serviço

    Dekmantel Festival São Paulo 2017
    Local: Jockey Club e Fabriketa
    Data: 04 e 05 de fevereiro de 2017
    Site oficial
    Evento oficial
    Ingressos à venda 

  • O detroitbr chegou em Carazinho com Eduardo M e três toca-discos

    No dia 16 de agosto o detroitbr esteve presente pela primeira vez em Carazinho/RS, com mais uma histórica apresentação do meu querido amigo Eduardo Moraes. Antes de começar a narrar a minha aventura com ele, gostaria de explicar como aconteceu esse link entre o clube e eu.

    Em 2014, durante o Timewarp na Argentina, conheci vários brasileiros, que assim como eu foram prestigiar esse que é um dos festivais mais aguardados na America do Sul. Entre os presentes estava Alekson, ficamos amigos, trocamos algumas ideias sobre música e após a viagem continuamos nos comunicando. O mesmo apresentou-me o Marcelo de Carli tempo depois e rapidamente começamos à trocar algumas mensagens. Depois desse momento, eu e Marcelo ficamos um ano acompanhando o trabalho um-do-outro a distância. O legal desse período inicial é que o detroitbr era recém-nascido, e eu queria muito mostrar o que estávamos fazendo em Santa Catarina. Talvez para época seria um tiro no pé, ir até à cidade tão precocemente.

    Quando surgiu o request para o booking do Eduardo, confeso que foi uma bela surpresa, afinal passara um ano desde a conversa que tivemos, e até o momento não havia sido feito nenhum convite. Em primeira instância, não conseguimos chegar em um acerto para ida do artista – vocês devem imaginar a minha tristeza, pois você tem um DJ em potêncial para uma data em um lugar que só escuta-se falar coisas boas e o acerto por final acaba não se concretizando. Apesar disso, tudo teve um desfecho feliz, voltamos a conversar e em uma negociação extremamente transparente batemos o martelo. 

    Naquele momento Eduardo estava na europa viajando e havia me ligado falando que estava trazendo vários discos novos para sua coleção, e que poderiamos pensar em uma apresentação em três decks. Imediatamente entrei em contato com o Marcelo e apresentei como possibilidade essa apresentação. Ao aceitar, Marcelo ainda me disse “Edu, avisa que ele pode vir tranquilo, a galera aqui curte os Jeff Mills, Robert Hood, etc.” Imaginem a minha cara de felicidade ao escutar isso – e também a ansiedade para ver tudo isso ao vivo.

    Com o retorno do Eduardo ao Brasil realizamos duas reuniões de planejamento, pois eram cansativas nove horas de viagens. Posso dizer que nessas reuniões conquistamos nossa pos-graduação em google maps. Brincadeiras a parte, nessas viagens sempre acontecem imprevistos, não é? Conosco não seria diferente. A menos de uma semana da festa o carro que faria a viagem apresentou alguns problemas, o invalidando como nosso transporte. Nesse mesmo momento começei a olhar os meus contatos, até que encontrei o quinto protagonista dessa história: Rodrigo Ribeiro, também conhecido como Slipe. Ele salvou nossa viagem, pois precisávamos de alguém de confiança para dividir o volante mas que ao mesmo tempo não fosse um maluco beleza, desses que encontramos pelas BRs, ruas e avenidas da vida. 

    Saímos de Itajaí às 6h e passamos em Balneário Camboriú, pegamos nosso astro e partimos em direção ao Rio Grande do Sul. Fizemos uma viagem tranquila com boas paradas durante o trajeto e com pen drives inacreditavelmente diversificados. Para quem é fã de coisas malucas, rolou Flooating Points, SBTRKT, Radiohead, Mr. Scruffe entre outras coisas. Chegamos por volta das 16h em Carazinho, fomos diretamente ao local fazer o soundcheck, e também conhecer as estruturas do clube. Essa é uma parte interessante, pois ela fica em um complexo formado por 2 clubes – o B Club e Sky Tronic, uma micro cervejaria, um bar/restaurante, e um salão de eventos sociais – o lugar é simplesmente incrível. O B Club, local onde foi a apresentação, tem capacidade para 250 pessoas. Trata-se de uma pista totalmente intimista, com setup e soundsystem de primeira. É emocionante ver a dedicação da adimistração em manter aquilo vivo, pois é de uma riqueza enorme e de ideias semelhantes com os que temos aqui no detroitbr.  Outro fato é que ficamos hospedados em um hotel na frente do complexo. Poderiamos ir a pé.

    Devidamente hospedados, descançamos um pouco até sair para jantar com Marcelo e Dani Moraes, sua primeira dama. Em seguida, foi dada a largada para que sentíssemos à energia do povo de Carazinho. As pessoas começaram a chegar e rapidamente começando a ver rostos conhecidos dos quais estavam interagindo conosco no evento durante a promoção da festa. Uma grata surpresa foi conversar com várias pessoas que vieram nos parabenizar pelo coletivo.

    O warm-up do evento foi liderado por Wagner Scorsatto. Esse menino representa uma nova geração de artistas gaúchos que devemos ficar de olho para os próximos anos. Além do Wagner, eu pude conhecer outros meninos que também estão iniciando. Também conheci pessoalmente o Felipe Barros, amigo de internet já há algum tempo, todos apoiados pelo “Professor” Marcelo, assim chamado carinhosamente por eles. Marcelo ainda comentou comigo que por ele já tinha passado umas 4 gerações de pessoas e djs, e que essa era uma das mais legais que surgiu nos últimos anos.  

    Enquanto nos divertiámos na pista conversando com a galera local, Eduardo preparava-se para mais um de seus rituais. O legal de quando você acompanha um artista por um longo período é perceber as caracteristicas que formam sua personalidade. No caso do Eduardo é nítido uma mudança radical de comportamento, é como se ele deixasse de lado por algumas horas aquele meninão brincalhão, por um cara extremamente sério e concentrado, sedendo pra ver a pista pular em cada disco escolhido. Em tempo, Wagner finalizava sua apresentação e lá estava o nosso astro com todo xadrez montado em sua cabeça.

    Falar de uma apresentação do Eduardo é sempre incrível, pois a qualidade é sempre de um altíssimo nível – e eu tenho a honra e sorte de trabalhar com ele e me surpreender frequentemente, porém, tem algo que eu sempre comento com os meus amigos – a primeira apresentação é sempre inesquessível. Para os mais de 250 presentes na noite, aquilo estava sendo mágico, e para mim também. Em alguns momentos eu fui parado por pessoas falando “Em anos que eu frequento clubes eu nunca vi um cara como uma habilidade como o Eduardo”. Foram intensas duas horas e meia da mais pura e verdadeira conexão que um artista pode ter com o público presente. 

    No o final da apresentação do Edu, eu fiquei imaginando o que Marcelo faria, e é nessas horas que a experiência conta. Ele saiu do rítimo frenético que estava anteriormente para algo mais cadenciado e de maneira muito inteligente. Foi muito legal também ver cada um dos presentes na pista, deu pra ver literalmente que ele é adorado por todos. Naquele momento eu entendi todo lance do titulo de professor. De fato, ele é um grande DJ e protagonista no desenvolvimento da cena gaúcha. Digamos que ele esteja focado em uma proposta “Lado B”, longe de todos esses lances mainstream que impedem apresentação artisticas complexas. O público que ele educou esta ali sedento por música, e os artistas tem liberdade plena em suas apresentações. No final da apresentação rolou até um b2b, e eu estava tentando entender o que estava acontecendo. Quem conhece o Edu sabe o quanto ele é seletivo para esses lances, e ver os dois juntos no palco foi a cereja do bolo. O clube geralmente tem suas atividades finalizadas às 7h, mas a noite/dia estava tão mágica que acabou rolando um plus até às 9h.

    Com o final do evento, fomos para o hotel, tomamos um café e descançamos, pois depois das belas experiências vividas tinhamos longas 9 horas de volta até à nossa cidade. Posso dizer que essa foi uma das festas mais sensacionais do ano pra mim, tanto que me dediquei minuciosamente para contar cada detalhes a todos vocês. Que essa seja a primeira de muitas idas a Carazinho. Eu em nome de todo detroitbr agradeço todo carinho, seja ele da da organização, dos djs ou do público presente. 

  • A preparação e a expectativa de Eduardo M para sua gig com Murphy no Terraza

     

     

    Sabemos que musicalmente você é muito eclético e podemos inclusive notar isso em alguns dos seus sets. Como funciona sua pesquisa musical e como ela colide com a versatilidade do seu gosto musical? 

    A minha forma de pesquisa é bastante orgânica. Além das paradas programadas que eu faço para pra ouvir algumas coisas específicas, eu ouço música o dia inteiro – a maioria fora do gênero techno. Quando estou no carro, tenho um pendrive em modo “shuffle” que roda de tudo, desde rock, nu jazz, funk, eletrônica experimental, dubstep, hip hop, drum and bass e etc. Como eu estou há muito tempo nisso, eu preciso deixar meus ouvidos e minha cabeça respirar com sonoridades diferentes das que eu estou acostumado a tocar. É exatamente aí que eu sinto toda a diferença. Em casa, desde a hora que eu acordo eu dou play numa rádio online e também em listas de pesquisa. A partir daí, fico conectado até a hora que eu preciso sair. Essa dinâmica forma automaticamente a minha referência eclética. 

    Na sexta-feira (06/05) você, Murphy, Guilherme Konin e Petrius D estão escalados para tocar no Terraza de Balneário Camboriú. Falando especificamente dessa noite, como é a preparação e a pesquisa? Algo de diferente acontece no processo?

    É claro que quando eu me preparo para uma noite como a de sexta eu tento buscar algumas coisas instintivamente. Isso ocorre garimpando meus discos pra ver o que eu posso resgatar para aquela ocasião específica, repassando as músicas digitais que eu já tenho e também checando meus artistas, selos e lojas preferidas. 

    É sabido que dentre todas as suas atividades na música, você também costuma produzir. Conte pra gente um pouco sobre essa dinâmica e como isso se entrelaça com teu trabalho já conhecido no comando dos discos.

    Tenho dedicado bastante tempo na produção. Diferentemente do objetivo mais comum que é fazer para lançar, eu trabalho em muita coisa específica para eu mesmo tocar. Algumas coisas funcionam como ferramentas e muitas vezes nem chegam a ser faixas totalmente finalizadas. Pode ser por exemplo algo que eu pensei pra algum momento ou para que sirva de apoio ou complemento pra alguma manobra que eu queira fazer.

    Fiquei sabendo que você e o Murphy já se conheciam de tempos atrás. É verdade que ele já te chamou pra tocar numa festa dele em São Paulo? Narra pra gente como isso tudo começou.

    Sobre o Murphy, eu lembro que tive a primeira notícia dele numa revista que se chamava DJ Sound. Isso deveria ser por volta de 1999 ou 2000. A matéria falava de um campeonato promovido por uma rave antiga, chamada HIPNOTIC. Nisso o Murphy era o destaque por ter sido o campeão, e por ter chamado atenção pela sua técnica. A partir daí eu consegui depois que meu pai (que mora em SP) gravasse uma fita cassete num programa de rádio de lá que ele participou. Quando eu ouvi eu fiquei completamente maluco, porque ele tinha conseguido unir duas coisas que eram justamente minhas maiores paixões: o techno sendo tocado com as manobras tradicionais do hip hop! Eu sempre fui viciado em drum and bass por exemplo, e ver a dinâmica do Marky tocando era algo único. Quando eu vi então o Murphy aplicando isso no Techno, eu achei perfeito. Não foi à toa que ele se destacou tanto por isso. Eu já tinha tentado algumas coisas antes disso, como o scratch no beat 4×4. Mas quando eu vi ele fazer eu vi que era perfeito e com o “swing” ideal.

    A partir disso tudo, eu comecei a treinar (ainda mais) para aperfeiçoar. Um tempo depois, nos encontramos quando ele veio tocar no sul a primeira vez em 2002 (salvo engano). Era um momento muito especial para o techno naquela época. Para sorte nossa, ele passou a tocar com mais frequência por aqui e consequentemente, acabamos tocando juntos em algumas festas. Uma delas foi num clube chamado CASE, aqui em Balneário Camboriú mesmo. Nesse dia, eu tinha tocado no Warung e sai de lá pra ir fechar a noite pra ele nesse clube. Eu lembro que ele ficou até a hora de desligar o som me vendo tocar sentado num sofá, rs. Ai ele me elogiou bastante e disse que ia me levar pra tocar na noite dele no Lov.e. Às vezes você sabe, né? Papo de noite a gente não leva muito a sério e fica por isso mesmo. Mas pra minha sorte não foi à toa, ele de fato cumpriu! Pouco tempo depois a gente continuou se falando e acertamos os detalhes. Tocar no Lov.e naquela época era um sonho pra qualquer DJ. Com o “plus” de tocar fechando a noite pra ele, mais ainda! Foi incrível. Vale lembrar que ele fez isso sem eu oferecer nada em troca pra ele. Acredito que tudo isso rolou porque simplesmente ele gostou mesmo. Hoje em dia eu não vejo isso de forma tão comum. É normal DJs trocarem favores ou te chamarem pra tocar por algum interesse ou algo em troca. Ali eu comecei a entender a simplicidade dele, que obviamente vem da sua origem de quem conquistou as coisas por talento, e não por política ou “puxação de saco”. Ainda houveram outras ocasiões em que nos cruzamos tocando juntos, como numa circuito no Lago (SP) em 2006 – a principal rave de techno do país na época. Desse ponto em diante, o techno começou a sofrer uma grande mudança e ele alçou de fato sua carreira internacional – o que consequentemente fez ele ficar um pouco mais distante. 

    Essa noite no Terraza é também a sua estreia na casa. Como está a sua expectativa pra essa festa?

    Sobre a expectativa para esta noite eu não tenho dúvidas que deve ser algo especial. Por vários motivos. O primeiro deles por ser em Balneário Camboriú, mas também não posso deixar de mencionar o fato de ser minha estreia no Terraza, pelo do Detroitbr estar junto, pela certeza de vários amigos na pista, e por fim, por estar tocando do lado do cara que é uma referência pra mim, com um detalhe especial: é nosso! É brasileiro!

  • Apollonia supera sua estreia com long set memorável no Inside

    Depois de meses sem escrever reviews para o detroitbr, eis que surge um novo desáfio. Ter a honra de relatar o que de melhor aconteceu no Inside no dia 23 de janeiro, quando Dan, Dyed e Shonky retornaram ao club após de uma excelente estreia no aniversário de 12 anos. Em sua primeira passagem por aqui eles já haviam expressado sua arte por cinco horas, transitando entre belas linhas percursivas com bastante groove, aplicadas com sutileza e sincronia. Esses momentos me fazem lembrar o Warung em sua melhor época, quando os longs sets tinham tanta frequência quanto os line-ups compostos por diversos artistas. Quem viveu esse período sabe do que estou falando, e ver apresentações nesse perfil resgata o sentimento do passado.

    Na divulgação dos horários, uma boa surpresa: de que apenas dois nomes foram escalados para o Inside: Alex Justino e Apollonia. Primeiro plus para o público e para eles, que teriam uma hora a mais de apresentação, iniciando a jornada à 01:00, assim como no recente long set de Hernan Cattaneo. Entrei no clube por volta de 00:30 e me desloquei para o meu tradicional tour, reencontrando amigos e batendo um papo com eles enquanto não me fixava frente ao palco. Durante esse momento pude notar uma grande movimentação de estrangeiros, inclusive um gentil grupo de italianos que me parou para que eu registrasse uma foto, pois era sua primeira vez em terras tupiniquins e o clube fazia parte de seus roteiros. Com o Real sob forte desvalorização, aparentemente o Brasil foi o destino de um número maior de turistas em comparações a anos anteriores, o que beneficia empresas como o Warung, que possuem prestigio internacional, possibilitando um novo perfil de noite no verão catarinense.  

    Já com a presença de Apollonia no palco, eu e um amigo conversavamos sobre como a vida noturna pode ser prazerosa e ao mesmo tempo solitária. A exemplo, vimos muitas personalidades que diante de sua rotina de trabalho ficam grandes períodos distante de suas famílias e amigos. Esse fato deve acontecer com os franceses, mas por eles estarem grande parte do tempo juntos, faz com que sejam grandes companheiros durante todas essas viagens. Esse companheirismo é tão benéfico que facilmente pode ser notado no palco, diante da leveza que eles transmitem, do jeito que se comunicam, como se conhecem, já tendo em vista a apresentação anterior.

     

    Após um pequeno atraso de 30 minutos eles assumiram a cabine e rapidamente foram ovacionados pelo público que ali esperavam. O primeiro a se posicionar foi Dan Ghenacia, seguido por Shonky e Dyed Soundorom. Um fato interessante notado ainda no começo é que na primeira vez que os vi tocar foi em uma formato pouco convencional de b2b, no qual cada integrante tinha liberdade de criação sem uma limitação de músicas. Dessa vez na maior parte do tempo o headphone era passado diante de cada transição feita.

    Para ganhar a pista, as duas primeiras horas de apresentação foram em um ritmo bem quente, com um som bastante acessível. Enquanto Dan e Dyed ousavam em baterias e fortes grooves, Shonky quebrava o rítmo acrescentando timbragens que enriqueciam a apresentação, os deixando em um patamar acima de muitos artista que vi tocando house/tech house por aqui. Durante toda construção a apresentação dos clássicos no set eram bem planejada, tanto que próximo das 3:30, Fly Life (Extra) cai como uma luva em meio ao euforico público que o assistia.


    Crédito: Pedro Henrique Chaves

    Com a entrada de Bob Moses no Garden, parte do público presente foi mudando de pista, gerando um conforto ainda maior a quem os assistia. Naquele momento você olhava ao redor e reconhecia velhos rostos que já não frequentavam o clube com tanta frequência. Tudo aquilo que estava acontecendo contribuía para essa memorável experiência. Essas noites com longs sets podem ser uma faca com dois gumes: corre-se o risco de o DJ não conectar com a pista e a noite ser ruim, é verdade, mas quando o artista sabe o que ele esta fazendo, a noite se torna extremamente rica em diversidade e ali era possível extrair ao maximo o que eles tinham a oferecer.  

    Após quase duas horas intensas, a apresentação começou a ficar mais cadenciada. Naquele momento a pista já estava sobre hipnose, o que deu oportunidade para explorar melhor as linhas melódicas, com uma leve pitada de techno, em meio ao belo house que ali acontecia. Os clássicos continuavam sendo introduzidos, como DJ Pierre, que diante da atmosfera presente, ecoáva a sua tradicional fala “What’s is house music? A unique form… of music”.

    No decorrer da noite a imprevisibilidade do trio era incrível, me sentia como se estivesse no cinema assistindo um filme com um grande roteiro, esperando ansiosamente para saber o que aconteceria. Durante toda minha vida eu fui grande fã de hip-hop e jamais esperaria escutar uma música na qual fosse sampleado um clássico do genero. Os relógios passavam das 05:30, quando uma versão de Matthias Meyer dava vida a 93 ‘Til Infinity de Souls of Mischief. Naquele momento confesso que fiquei meio que sem entender o que estava acontecendo, e pensava comigo: Será? Sim, era inconfundível. Eu realmente estava escutando. 

    Amanheceu e eu estava frente ao inside em um belo dia de Sol, despedindo-se de uma excelênte noite, com a sensação de dever cumprido perante a entrega realizada. Sua última hora de apresentação foi como um educado “obrigado” declamado em forma música, e naquele momento presenciávamos uma verdadeira aula, que depois de quase seis horas de construção anunciava que chegaria ao fim. Próximo às 07:00, ainda houve tempo para Where Do I Go de Gemini, o que deixou tudo mais especial.  

    A sensação que levo dessa noite, é que o clube vem acertando nesse resgate de longs sets, seja com Apollonia, Hernan Cattaneo ou Dixon, recém divulgado. Que esse perfil de evento faça parte dessa temporada. Nós adoramos isso!

    Créditos: Juliano Viana / IMAGECARE

  • Stekke e Mathew Jonson brilham em noite atípica do Garden

    No dia 03 de outubro o Warung recebeu Mathew Jonson, um dos lives mais incríveis da atualidade, que no ano passado carimbou seu nome como um dos destaques da Tribaltech. Completando o line-up do Garden, uma bela articulação da curadoria: um inusitado longset do duo Stekke no warm up e o curitibano Fabo pra encerrar. Na véspera, com a divulgação dos horários, as comunidades de debates sobre assuntos do templo foram tomadas por elogios, tanto pela estreia de Mathew, como também pela oportunidade de ter um dos principais projetos de techno do país guiando a pista por seis horas, podendo contar uma bela história, surpreendendo até mesmo aqueles fãs que já conheciam o som deles. 

    Entramos no clube por volta das 10h e nos instalamos em frente ao palco, para acompanhar cada minuto do que Stekke apresentaria. No primeiro momento rolou o clássico “warm up para si mesmo”, contando com suas características habituais, norteadas pelo dubtechno. O legal desse começo é o clima que se criou: uma atmosfera fechada, misteriosa, sem muitas pistas de como aconteceria a evolução da apresentação, com momentos de experimentalismo puro. Com o passar das horas a evolução era milimétrica, o duo conseguiu hipnotizar os presentes com as mesmas características citadas anteriormente, porém subindo a quantidade de batidas por minuto e algumas certeiras variações de bassline, hats e kicks. Até aquele momento pouco se conhecia sobre os LP tocados, até que próximo ao final o público foi brindado com alguns clássicos, como “Whats Is The Time, Mr. Templar?” e “Kinda Kickin”.

    Com a entrada de Mathew Jonson, a euforia era grande. Em seu primeiro timbre já era perceptível a qualidade que viria a seguir, justificando o porquê de ser tão aguardado. Sua primeira música apresentavam muitas influencias da house music, com um belo vocal, levando a pista ao delírio. Subsequente a isso, uma soma de novidades: músicas desconhecidas, até o primeiro clássico dar as caras: na sua quarta música o canadense apresentou uma versão de Learm to Fly incrível, com uma série de novos elementos, transformando o que já era magnifico! Em seguida tudo passou tão rápido, belo e impactante que quando olhamos no relógio o horário do término de sua apresentação já se aproximava. O carisma de Mathew é surpreendente, um show à parte, além de todos os equipamentos analógicos que o mesmo carrega, ele foi importantíssimo para ganhar os presentes. Essa comunicação entre artista e pista é essencial a qualquer DJ ou produtor que se apresente ao vivo. 

    Com a entrada de Fabo notou-se uma mudança brusca no clima na festa. Não de forma pejorativa, mas a mudança de “humor”, musicalmente falando, foi nítida. O curitibano, diferente de todas as outras vezes que o vi se apresentar, mostrou um som mais sério, longe das características que o consagraram. De certa forma, Fabo foi muito inteligente ao optar por esse perfil de set, pois ele tinha a árdua missão de segurar a pista depois das impactantes apresentações de Stekke e Mathew Jonson. Podemos dizer que ele conseguiu, já que a pista o respondia muito bem diante sua apresentação. 

    A noite seguinte do templo contou com Guy Geber e já aconteceu. Na próxima semana nosso correspondente Thiago irá publicar seu relato da festa, enquanto nos preparamos para o aniversário do templo, marcado para acontecer dias 13 e 14 de novembro. Para obter informações acesse: www.warungclub.com

    Fotos: Juliano Viana / IMAGECARE.

  • DJ Vibe surpreende e faz bela apresentação no showcase da FACT

    O Warung Beach Club apresentou o showcase da FACT no dia 19 de setembro, com nomes como André Jalbut, Rick Maia e o bom DJ Vibe no Garden, onde nossa equipe passou a maior parte do tempo. No Inside, o time escalado foi Diogo Accioly, Phonique e a estreia de Oliver Giacomotto. Infelizmente desta vez nossa equipe não conseguiu comparecer ao evento desde o começo, pois tivemos uma edição do detroitbr labs em Curitiba no dia anterior e enfrentamos vários contra-tempos na BR-101, sendo surpreendidos pela forte chuva e acidentes que fizeram com que nossa chegada ao templo fosse por volta da 01h00. Já dentro do clube pudemos notar algumas coisas interessantes, a primeira delas foi a excelente ação realizada pela Tribaltech, com vendas de ingressos, camisas, além de esclarecer duvidas sobre o festival. 

    No segundo momento fomos conhecer o novo bar da casa, citado pelo Jonas Fachi no review anterior. Posso dizer que o “Temple Drinks” foi um grande acerto! Trata-se de um bar não convencional localizado entre os dois bares do térreo do Inside. Antigamente essa era uma área pouco utilizada no clube e agora passa a ser mais uma boa opção para quem procura algo diferenciado. Depois de passear e conhecer as novidades subimos para a pista, onde Phonique se apresentava. Um dos fatores que nitidamente contribuía para deixar a experiência mais agradável foi o fato do Inside, assim como todo o club, estar extremamente confortável. Comparado a apresentações passadas, pode-se dizer que o alemão teve uma boa evolução, mas ainda assim longe de fazer um set com grandes emoções. Mesmo assim pudemos apreciar bons momentos, como o classic Green Velvet “lala land”.

    Já no Garden o clima era outro. De cara pudemos notar que não havíamos perdido a apresentação de André Buljat, ele e Rick Maia optaram pelo formato b2b, fazendo um long set de 6 horas. A apresentação era dinâmica, não se prendendo a rótulos e criando bons momentos. O legal de vê-los tocando é notar que possuíam um entrosamento importante para que o set funcionasse, era nítido que um conhecia muito bem o trabalho do outro. Próximo às 04h00 me desloquei para o inside para acompanhar a estreia de Oliver Giacomotto, que teve a difícil missão de substituir Marc Houle no headline desta festa. O assisti por uns 40 minutos e, durante esse tempo, seu set foi pouco criativo, como se não contasse uma história, apenas fizesse uma transição de uma música para outra. Diante disso o Garden se tornou a melhor opção novamente. 

    Ele já havia se apresentado outras vezes no Warung, mas nunca foi um DJ que me chamasse atenção. Com uma ótima mixagem e uma variação interessantíssima entre sons mais novos e outros old school, DJ Vibe colocou o tempero que faltava nessa noite que ainda oscilava. Sua apresentação permaneceu numa faixa de altos BPMs, sendo em um primeiro momento uma adaptação do que foi apresentado anteriormente por André e Rick, caracterizado por house e tech house, e em um segundo momento já com a pista na mão o techno como evidencia. Seu principal momento foi quando meio toda essa variação Fly Life surgiu como uma bomba na pista, clássico de Basemant Jaxx que soa até hoje como som atual. 

    Warung teve seu termino às 07h00, como vem religiosamente acontecendo. O próximo evento conta com grandes atrações, como Stekke e Mathew Jonson, no dia 03 de outubro. 

  • Boghosian brilha na ausência de Dettmann

    Quando o primeiro line-up da noite de 22 de agosto foi divulgado não pude conter a criação de grandes expectativas: um dos meus maiores ídolos, Marcel Dettmann, seria o grande headliner do Inside, que contaria ainda com o warm up de um surpreendente b2b entre Boghosian e Ale Reis. Infelizmente agosto faz parte da alta temporada de festivais na Europa, o que fez com que Marcel cancelasse a data dias após a divulgação do material abaixo.

    Após a perda do artista, Ale Reis também foi sacado do line-up, que contou apenas com Dimitri Nakov como reforço. No lançamento dos horários, Blond:ish assumiu a vaga principal do Inside e surpreendentemente Paulo ocupou a outra vaga “nobre” dos horários, deixando o aquecimento a cargo do francês. Conversando com o público presente pude perceber que muitos achavam que Dimitri deveria estar no segundo horário, mas após ver o resultado da noite podemos afirmar que a curadoria acertou nesta “inversão”. Quem conhece o trabalho de Nakov sabe: é um camaleão, e um excelente DJ. Nesta noite provou que warm up nem sempre é sinônimo de BPMs baixos. Com um set dinâmico, soube fazer uma construção bem elaborada, tendo momentos de intensidade, como também cadenciados. Podemos dizer também que Dimitri apresentou um profissionalismo de primeira, que mesmo com um set fora do habitual, soube respeitar o artista subsequente e ao mesmo tempo encantar quem o assistia.

    Com a entrada de Paulo, o impacto veio em sua primeira música. Vocês sabem aquela sensação de que algo grande viria? O sentimento era esse. Já de início aplicava algo desconcertante, até então inédito para mim, pelo tempo que acompanho seu trabalho. Na sua primeira hora de set já era evidente o porquê de ele estar ali e, naquele horário, justificando tamanha confiança que o clube tem no Savage. Desta vez sua construção, normalmente bem equilibrada entre techno, tech house e house, foi focada no techno na maior parte do tempo, transitando por selos como Klockwork, de Ben Klock, tocando em um momento muito ímpar a track “Black Russian” de DVS1. 

    A vibração do público no momento era de emocionar, o que me fez refletir sobre o estágio de maturação do público relacionado à música. Mesmo sem o desejado Dettmann presente pudemos acompanhar um set com muita conexão com o universo que o alemão carregaria consigo, sendo executado por um brasileiro com a mesma maestria do mega-time que havia roubado a cena no começo do mês. Nesta noite  o ponto era de Paulo, que fazia uma apresentação fantástica, acredito que um dos melhores que já o vi fazer. Artista de muita qualidade, saindo totalmente da sua zona de conforto, buscando algo inovador, o que esperamos de grandes apresentações. No final o público o aplaudia, como forma de reconhecimento pelo grande trabalho que foi apresentado.

    Com a entrada de Blond:ish, houve um rompimento na história que estava sendo contata pela noite. Não necessariamente como algo pejorativo, mas descontextualizado com que Dimitri e Paulo apresentaram. As canadenses apresentaram bons momentos e outros aquém do que se espera de um artista que já encabeça bons EPs por selos como Kompakt e Get Physical. Infelizmente na pista elas não conseguiram surpreender ou sequer desenvolver uma linearidade para quem o assistia, era um set com boas referências, mas longe de ser algo próximo do que já havíamos assistido ali naquela noite. Religiosamente o término do evento aconteceu as 7h da manhã. A próxima noite do templo é com a lenda argentina Hernan Cattaneo, no feriado da independência, e o warm-up é por conta do nosso residente Danee

    Imagens: Juliano Viana / IMAGECARE.

  • D-Edge realiza uma das melhores noites do Warung no ano

    O dia 1º de agosto simbolizou o bom momento que vive a cena artística nacional.  Este processo vem acontecendo silenciosamente há anos e vem ganhando adeptos a cada dia e a cada lugar do Brasil que passa. Os brasileiros estão cada vez mais se profissionalizando, dentro de seus ideais, conquistando o público e quebrando a adoração, muitas vezes cega, pelos nomes estrangeiros. Esse meio vem sendo explorado de forma inteligente pelo D-Edge e pelo Warung há algum tempo, a exemplo disso podemos citar os lines-ups nacionais do Warung Day Festival e do aniversário do D-Edge, porém, ambos fora do estado de Santa Catarina. O que tínhamos por aqui nesse ideal é a eventual festa dos Savages, contando com o excelente time de residentes da casa. Para ampliar o leque de opções, o showcase do D-edge caiu como uma luva no cronograma do clube. Toda essa introdução serve para explicar porque valeu a pena estar dentro do clube às 10 horas da noite.

    Assim que a festa começou, nos dirigimos para o Inside, aonde nosso residente Doriva Rozek seria o primeiro a se apresentar. Pelo fato de trabalharmos diretamente juntos e de sermos grandes amigos, eu tinha uma expectativa pessoal em sua apresentação. Nos dias que antecederam a festa ele comentou comigo que estava nervoso, ansioso para que a data chegasse. Seu preparo foi intenso, muitas horas de pesquisa, para que o resultado final fosse excelente. E quando acompanha-se isso é que se torna ainda mais gratificante ver o artista te surpreender! O que Doriva apresentou foi um set daqueles para guardar na memória. Logo na abertura já devia haver cerca de 200 pessoas ali o prestigiando. Uma hora depois a pista já estava cheia, vendo-o fazer uma de suas construções emblemáticas. Para quem costumar ler meus reviews sabe que adoro citar momentos chaves, mas nesse caso, o momento foi o todo, algo totalmente novo, uma experiência incrível. 

    Ao final da apresentação de Doriva, que era aclamado pelos presentes, o duo Stekke, formado por Ale Reis e Renee Mussi, se preparava para o que seria o inicio de um novo capítulo, diante de toda história que a festa prometia. Já com os discos girando, pudemos perceber várias novidades, um repertório vasto e com uma qualidade musical absurda, com momentos ora dançantes, ora reflexivos, fazendo com que os presentes refletissem sobre a arte que era apresentada. Além do belo set, o profissionalismo apresentado pelo duo foi outra de suas nobres características: próximo ao fim da apresentação o set complexo fora desconstruído, respeitando o contexto geral pretendido pela curadoria e finalizando com uma linha apropriada para que Willian Kraupp fizesse a melhor estréia possível. Na pista poucos percebem este tipo de situação, tanto que o próprio Ale me explicou em uma conversa de bastidores: algumas ações muitas vezes fogem da compreensão de quem está na pista.

    Com o clima mais morno que Stekke entregou, Wilian bateu pro gol e correu pro abraço: a pista explodiu já em sua primeira track! Pude assistir seu inicio e ver o público em uma ótima vibe, muitos nitidamente orgulhosos pelo seu momento, afinal, é raro um artista local conseguir tal destaque no Warung. No entanto, por uma questão de afinidade musical, optei por me deslocar ao Garden, para ver Gromma. Depois dos reviews que fiz para a noite com Mind Against, no templo, e com Makam, no Terraza, a palavra “surpreendente” pode soar repetitiva nesse review, mas de fato o curitibano se reinventa a cada noite. Desta vez ele estava com enfoque mais voltado para o house, mas sempre mantendo o respeito ao que o headliner Amirali apresentaria a seguir. Ainda assim, a cada virada, o público aplaudia e vibrava com o DJ. Ao fim do set o garden estava em êxtase, na medida certa para a atração principal.  

    Amirali começou apresentando um live bem estruturado, apesar de sua sonoridade não ser minha praia pude perceber que o artista possuía qualidade. O assisti por algum tempo, mas sem a mesma empolgação dos artistas anteriores. Comecei a pensar: “Vai ser uma noite verde e amarela”! Subseqüente a isso me desloquei para o Inside, para ver o que o outro gringo estava apresentando. Ao contrário do Garden, a pista ali estava transbordando energia, característica marcante do som de Gaiser. O problema é que, depois de vê-lo pela quarta fez, percebemos claramente como seu live é repetitivo: o mesmo padrão do começo ao fim, mudando apenas o repertório. Depois de cerca de 30 minutos sua apresentação já era maçante, sem muita dinâmica. Nesse momento tive certeza: a noite de fato era verde e amarela, só faltava o líder do D-Edge Renato Ratier levantar o troféu. 

    Já assisti diversas apresentações dele, e essa sem dúvidas foi a melhor de todas. Seu set foi dinâmico, passeando por linhas de techno conceituais e dançantes. Comentei com alguns amigos  que estava muito feliz por aquele momento e por tudo que aquela noite nos proporcionou. Falamos sobre o significado daquele momento, com tantos artistas brasileiros se destacando e se mostrando tão bons quanto ou até melhores que os estrangeiros, com o “chefe” colocando a cereja do bolo naquela manhã. Com uma pequena esticadinha além do tradicional, o evento teve seu encerramento às 7h30min. Era o fim de uma linda história na qual cada artista foi responsável por um capitulo, cumprindo seu papel e emocionando os presentes, transitando por vários gostos musicais, livre de rótulos.

    Fotos: Gustavo Remor / IMAGECARE.