O dia 1º de agosto simbolizou o bom momento que vive a cena artística nacional. Este processo vem acontecendo silenciosamente há anos e vem ganhando adeptos a cada dia e a cada lugar do Brasil que passa. Os brasileiros estão cada vez mais se profissionalizando, dentro de seus ideais, conquistando o público e quebrando a adoração, muitas vezes cega, pelos nomes estrangeiros. Esse meio vem sendo explorado de forma inteligente pelo D-Edge e pelo Warung há algum tempo, a exemplo disso podemos citar os lines-ups nacionais do Warung Day Festival e do aniversário do D-Edge, porém, ambos fora do estado de Santa Catarina. O que tínhamos por aqui nesse ideal é a eventual festa dos Savages, contando com o excelente time de residentes da casa. Para ampliar o leque de opções, o showcase do D-edge caiu como uma luva no cronograma do clube. Toda essa introdução serve para explicar porque valeu a pena estar dentro do clube às 10 horas da noite.
Assim que a festa começou, nos dirigimos para o Inside, aonde nosso residente Doriva Rozek seria o primeiro a se apresentar. Pelo fato de trabalharmos diretamente juntos e de sermos grandes amigos, eu tinha uma expectativa pessoal em sua apresentação. Nos dias que antecederam a festa ele comentou comigo que estava nervoso, ansioso para que a data chegasse. Seu preparo foi intenso, muitas horas de pesquisa, para que o resultado final fosse excelente. E quando acompanha-se isso é que se torna ainda mais gratificante ver o artista te surpreender! O que Doriva apresentou foi um set daqueles para guardar na memória. Logo na abertura já devia haver cerca de 200 pessoas ali o prestigiando. Uma hora depois a pista já estava cheia, vendo-o fazer uma de suas construções emblemáticas. Para quem costumar ler meus reviews sabe que adoro citar momentos chaves, mas nesse caso, o momento foi o todo, algo totalmente novo, uma experiência incrível.
Ao final da apresentação de Doriva, que era aclamado pelos presentes, o duo Stekke, formado por Ale Reis e Renee Mussi, se preparava para o que seria o inicio de um novo capítulo, diante de toda história que a festa prometia. Já com os discos girando, pudemos perceber várias novidades, um repertório vasto e com uma qualidade musical absurda, com momentos ora dançantes, ora reflexivos, fazendo com que os presentes refletissem sobre a arte que era apresentada. Além do belo set, o profissionalismo apresentado pelo duo foi outra de suas nobres características: próximo ao fim da apresentação o set complexo fora desconstruído, respeitando o contexto geral pretendido pela curadoria e finalizando com uma linha apropriada para que Willian Kraupp fizesse a melhor estréia possível. Na pista poucos percebem este tipo de situação, tanto que o próprio Ale me explicou em uma conversa de bastidores: algumas ações muitas vezes fogem da compreensão de quem está na pista.
Com o clima mais morno que Stekke entregou, Wilian bateu pro gol e correu pro abraço: a pista explodiu já em sua primeira track! Pude assistir seu inicio e ver o público em uma ótima vibe, muitos nitidamente orgulhosos pelo seu momento, afinal, é raro um artista local conseguir tal destaque no Warung. No entanto, por uma questão de afinidade musical, optei por me deslocar ao Garden, para ver Gromma. Depois dos reviews que fiz para a noite com Mind Against, no templo, e com Makam, no Terraza, a palavra “surpreendente” pode soar repetitiva nesse review, mas de fato o curitibano se reinventa a cada noite. Desta vez ele estava com enfoque mais voltado para o house, mas sempre mantendo o respeito ao que o headliner Amirali apresentaria a seguir. Ainda assim, a cada virada, o público aplaudia e vibrava com o DJ. Ao fim do set o garden estava em êxtase, na medida certa para a atração principal.
Amirali começou apresentando um live bem estruturado, apesar de sua sonoridade não ser minha praia pude perceber que o artista possuía qualidade. O assisti por algum tempo, mas sem a mesma empolgação dos artistas anteriores. Comecei a pensar: “Vai ser uma noite verde e amarela”! Subseqüente a isso me desloquei para o Inside, para ver o que o outro gringo estava apresentando. Ao contrário do Garden, a pista ali estava transbordando energia, característica marcante do som de Gaiser. O problema é que, depois de vê-lo pela quarta fez, percebemos claramente como seu live é repetitivo: o mesmo padrão do começo ao fim, mudando apenas o repertório. Depois de cerca de 30 minutos sua apresentação já era maçante, sem muita dinâmica. Nesse momento tive certeza: a noite de fato era verde e amarela, só faltava o líder do D-Edge Renato Ratier levantar o troféu.
Já assisti diversas apresentações dele, e essa sem dúvidas foi a melhor de todas. Seu set foi dinâmico, passeando por linhas de techno conceituais e dançantes. Comentei com alguns amigos que estava muito feliz por aquele momento e por tudo que aquela noite nos proporcionou. Falamos sobre o significado daquele momento, com tantos artistas brasileiros se destacando e se mostrando tão bons quanto ou até melhores que os estrangeiros, com o “chefe” colocando a cereja do bolo naquela manhã. Com uma pequena esticadinha além do tradicional, o evento teve seu encerramento às 7h30min. Era o fim de uma linda história na qual cada artista foi responsável por um capitulo, cumprindo seu papel e emocionando os presentes, transitando por vários gostos musicais, livre de rótulos.
Fotos: Gustavo Remor / IMAGECARE.