Boghosian brilha na ausência de Dettmann

Quando o primeiro line-up da noite de 22 de agosto foi divulgado não pude conter a criação de grandes expectativas: um dos meus maiores ídolos, Marcel Dettmann, seria o grande headliner do Inside, que contaria ainda com o warm up de um surpreendente b2b entre Boghosian e Ale Reis. Infelizmente agosto faz parte da alta temporada de festivais na Europa, o que fez com que Marcel cancelasse a data dias após a divulgação do material abaixo.

Após a perda do artista, Ale Reis também foi sacado do line-up, que contou apenas com Dimitri Nakov como reforço. No lançamento dos horários, Blond:ish assumiu a vaga principal do Inside e surpreendentemente Paulo ocupou a outra vaga “nobre” dos horários, deixando o aquecimento a cargo do francês. Conversando com o público presente pude perceber que muitos achavam que Dimitri deveria estar no segundo horário, mas após ver o resultado da noite podemos afirmar que a curadoria acertou nesta “inversão”. Quem conhece o trabalho de Nakov sabe: é um camaleão, e um excelente DJ. Nesta noite provou que warm up nem sempre é sinônimo de BPMs baixos. Com um set dinâmico, soube fazer uma construção bem elaborada, tendo momentos de intensidade, como também cadenciados. Podemos dizer também que Dimitri apresentou um profissionalismo de primeira, que mesmo com um set fora do habitual, soube respeitar o artista subsequente e ao mesmo tempo encantar quem o assistia.

Com a entrada de Paulo, o impacto veio em sua primeira música. Vocês sabem aquela sensação de que algo grande viria? O sentimento era esse. Já de início aplicava algo desconcertante, até então inédito para mim, pelo tempo que acompanho seu trabalho. Na sua primeira hora de set já era evidente o porquê de ele estar ali e, naquele horário, justificando tamanha confiança que o clube tem no Savage. Desta vez sua construção, normalmente bem equilibrada entre techno, tech house e house, foi focada no techno na maior parte do tempo, transitando por selos como Klockwork, de Ben Klock, tocando em um momento muito ímpar a track “Black Russian” de DVS1. 

A vibração do público no momento era de emocionar, o que me fez refletir sobre o estágio de maturação do público relacionado à música. Mesmo sem o desejado Dettmann presente pudemos acompanhar um set com muita conexão com o universo que o alemão carregaria consigo, sendo executado por um brasileiro com a mesma maestria do mega-time que havia roubado a cena no começo do mês. Nesta noite  o ponto era de Paulo, que fazia uma apresentação fantástica, acredito que um dos melhores que já o vi fazer. Artista de muita qualidade, saindo totalmente da sua zona de conforto, buscando algo inovador, o que esperamos de grandes apresentações. No final o público o aplaudia, como forma de reconhecimento pelo grande trabalho que foi apresentado.

Com a entrada de Blond:ish, houve um rompimento na história que estava sendo contata pela noite. Não necessariamente como algo pejorativo, mas descontextualizado com que Dimitri e Paulo apresentaram. As canadenses apresentaram bons momentos e outros aquém do que se espera de um artista que já encabeça bons EPs por selos como Kompakt e Get Physical. Infelizmente na pista elas não conseguiram surpreender ou sequer desenvolver uma linearidade para quem o assistia, era um set com boas referências, mas longe de ser algo próximo do que já havíamos assistido ali naquela noite. Religiosamente o término do evento aconteceu as 7h da manhã. A próxima noite do templo é com a lenda argentina Hernan Cattaneo, no feriado da independência, e o warm-up é por conta do nosso residente Danee

Imagens: Juliano Viana / IMAGECARE.