Pluralidade define Dettmann em passagem pelo Warung

Neste sábado quem esteve presente no Warung Beach Club pôde vivenciar outra grande apresentação que passou por sua tradicionalíssima cabine, uma das mais imprevisíveis que presenciei. Quem acompanha a trajetória de Marcel Dettmann sabe de sua capacidade de pesquisa e o quanto isso enriquece suas apresentações, além de sua excelente técnica, é claro. Também o reconhece por ser um dos grandes expoentes do techno mundial, geralmente o viés escolhido por ele para conduzir suas histórias. Acompanhando-o em suas redes sociais foi possível notar uma maior inclusão de diferentes vertentes nos últimos anos, que antes eram menos exploradas ou usadas apenas em momentos especiais, pois convenhamos: é muito difícil entender como funciona o feeling do artista nos momentos de apresentação, já que isso envolve uma relação individual diante de vários aspectos que vão além da música.

Em sua primeira passagem pelo clube ele mostrou seu cartão de visitas, fazendo uma apresentação recheada com linhas densas e melódicas, carregadas com muito peso, criando-se uma verdadeira hipnose. Naquela ocasião ele foi uma das grandes estrelas do ano, o que fez com que seu retorno fosse aguardado com carinho por grande parte do público. Com o anúncio desta nova data grandes expectativas se criaram, não só pela volta de Marcel, mas pelo fato de que Nina Kraviz também seria headliner no Inside e porque eu estaria presente comemorando 29 primaveras ao som de artistas que tenho grande respeito.

Entrei no clube por volta das 01h e me direcionei ao palco principal, onde o alemão iniciava a sua apresentação e por onde eu estive a noite toda, ao lado de amigos que celebravam comigo esse momento. Suas primeiras faixas me lembraram muito as características da apresentação anterior, mas conforme o set progredia o cenário mudava completamente. É de suma importância salientar que nunca assisti um Dettmann tão leve e feliz, optando por uma postura totalmente carismática, com danças e grande interação com o público do front-stage, contrastando com seu lado sério e frio. Isso refletiu em sua apresentação, que embora tivesse seus momentos densos, era dominada pelos sons dançantes.

Além desta predominância, foi emocionante ver um Dettmann extremamente eclético, apresentando um set em que inicialmente parecia não ter sentido lógico algum, mas que fez sentido e encantou, fazendo a pista vibrar a cada virada. Ele optou por uma apresentação extremamente arriscada, que embora tivesse sua identidade bem definida não seguia algum rótulo específico, dava pra sentir que de certa forma as faixas selecionadas vinham de um túnel do tempo da sua experiência com o meio. Marcel estava tocando música, antigas e novas, misturando house, techno, trance, disco, electro, synthpop, breakbeat. E mais incrível foi ver as pessoas entregues, dispostas a consumir o que ele apresentava.


Dentre os vários clássicos apresentados acredito que Enjoy the Silence, do Depeche Mode, tenha chamado mais a atenção do público presente, que cantou junto em um dos seus momentos old school. Ele conseguiu encaixar a música original de forma brilhante em um edit, remix ou até mesmo mash up feito na hora, deixando-a mais ritmada. Todo o sentimento nostálgico causado pelas pessoas em minha volta estarem cantando junto deixou o momento ainda mais especial!

É nessas horas que reflito o quanto artistas como Marcel Dettmann nos ajudam a mudar a nossa forma de pensar e evoluir. No Brasil é muito comum as pessoas ficarem presas a nichos específicos, deixando de vivenciar a grande gama de experiências que poderiam ser absorvidas e apreciadas caso ampliassem seus leques de possibilidades. Confesso que já pratiquei muito disso no passado e não falo isso somente na música, mas de maneira geral: é como se vivêssemos em um condicionamento social que nos guia a isso e desvincular-se é algo muito difícil. É legal você olhar pra frente e ter a sensação de ser surpreendido por algo que muitas vezes foge da sua compreensão – de olhar pro seu amigo ao lado e falar “cara, o que ele está fazendo?“. A música, assim como as mais diversas formas de arte, nos permite esse sentimento e é com ele que eu admirava cada faixa apresentada.

Já próximo do final de sua apresentação Nina nos brindou com um b2b inesperado com o alemão, pois confesso que não esperava vê-los tocando juntos. Nesse momento a experiência se tornou ainda mais rica, foi muito legal ver a russa cedendo parte de sua apresentação para que seu amigo continuasse, afinal ele merecia – e muito! Penso que em terras tupiniquins Nina tem uma popularidade maior do que Dettmann e esse tipo de espaço ajuda artistas como ele a terem uma melhor entrega e maior adesão. Afinal, com mais de 3 horas de apresentação você já tem uma noção do que seria um long set, assim como já assisti Kraviz fazer coisas magníficas em momentos nos quais se apresentou com o tempo prolongado. E o mais importante: era nítida a felicidade deles de estarem juntos no palco. Já próximo às 5h a russa então assumiu de forma individual e seguiu com um bom ritmo, dando sequência ao que foi impresso anteriormente por eles, fechando com chave-de-ouro uma das noites que levo com maior carinho nessa década como frequentador do Warung.

Foto: Ebraim Martini.