Depois de meses sem escrever reviews para o detroitbr, eis que surge um novo desáfio. Ter a honra de relatar o que de melhor aconteceu no Inside no dia 23 de janeiro, quando Dan, Dyed e Shonky retornaram ao club após de uma excelente estreia no aniversário de 12 anos. Em sua primeira passagem por aqui eles já haviam expressado sua arte por cinco horas, transitando entre belas linhas percursivas com bastante groove, aplicadas com sutileza e sincronia. Esses momentos me fazem lembrar o Warung em sua melhor época, quando os longs sets tinham tanta frequência quanto os line-ups compostos por diversos artistas. Quem viveu esse período sabe do que estou falando, e ver apresentações nesse perfil resgata o sentimento do passado.
Na divulgação dos horários, uma boa surpresa: de que apenas dois nomes foram escalados para o Inside: Alex Justino e Apollonia. Primeiro plus para o público e para eles, que teriam uma hora a mais de apresentação, iniciando a jornada à 01:00, assim como no recente long set de Hernan Cattaneo. Entrei no clube por volta de 00:30 e me desloquei para o meu tradicional tour, reencontrando amigos e batendo um papo com eles enquanto não me fixava frente ao palco. Durante esse momento pude notar uma grande movimentação de estrangeiros, inclusive um gentil grupo de italianos que me parou para que eu registrasse uma foto, pois era sua primeira vez em terras tupiniquins e o clube fazia parte de seus roteiros. Com o Real sob forte desvalorização, aparentemente o Brasil foi o destino de um número maior de turistas em comparações a anos anteriores, o que beneficia empresas como o Warung, que possuem prestigio internacional, possibilitando um novo perfil de noite no verão catarinense.
Já com a presença de Apollonia no palco, eu e um amigo conversavamos sobre como a vida noturna pode ser prazerosa e ao mesmo tempo solitária. A exemplo, vimos muitas personalidades que diante de sua rotina de trabalho ficam grandes períodos distante de suas famílias e amigos. Esse fato deve acontecer com os franceses, mas por eles estarem grande parte do tempo juntos, faz com que sejam grandes companheiros durante todas essas viagens. Esse companheirismo é tão benéfico que facilmente pode ser notado no palco, diante da leveza que eles transmitem, do jeito que se comunicam, como se conhecem, já tendo em vista a apresentação anterior.
Após um pequeno atraso de 30 minutos eles assumiram a cabine e rapidamente foram ovacionados pelo público que ali esperavam. O primeiro a se posicionar foi Dan Ghenacia, seguido por Shonky e Dyed Soundorom. Um fato interessante notado ainda no começo é que na primeira vez que os vi tocar foi em uma formato pouco convencional de b2b, no qual cada integrante tinha liberdade de criação sem uma limitação de músicas. Dessa vez na maior parte do tempo o headphone era passado diante de cada transição feita.
Para ganhar a pista, as duas primeiras horas de apresentação foram em um ritmo bem quente, com um som bastante acessível. Enquanto Dan e Dyed ousavam em baterias e fortes grooves, Shonky quebrava o rítmo acrescentando timbragens que enriqueciam a apresentação, os deixando em um patamar acima de muitos artista que vi tocando house/tech house por aqui. Durante toda construção a apresentação dos clássicos no set eram bem planejada, tanto que próximo das 3:30, Fly Life (Extra) cai como uma luva em meio ao euforico público que o assistia.
Crédito: Pedro Henrique Chaves
Com a entrada de Bob Moses no Garden, parte do público presente foi mudando de pista, gerando um conforto ainda maior a quem os assistia. Naquele momento você olhava ao redor e reconhecia velhos rostos que já não frequentavam o clube com tanta frequência. Tudo aquilo que estava acontecendo contribuía para essa memorável experiência. Essas noites com longs sets podem ser uma faca com dois gumes: corre-se o risco de o DJ não conectar com a pista e a noite ser ruim, é verdade, mas quando o artista sabe o que ele esta fazendo, a noite se torna extremamente rica em diversidade e ali era possível extrair ao maximo o que eles tinham a oferecer.
Após quase duas horas intensas, a apresentação começou a ficar mais cadenciada. Naquele momento a pista já estava sobre hipnose, o que deu oportunidade para explorar melhor as linhas melódicas, com uma leve pitada de techno, em meio ao belo house que ali acontecia. Os clássicos continuavam sendo introduzidos, como DJ Pierre, que diante da atmosfera presente, ecoáva a sua tradicional fala “What’s is house music? A unique form… of music”.
No decorrer da noite a imprevisibilidade do trio era incrível, me sentia como se estivesse no cinema assistindo um filme com um grande roteiro, esperando ansiosamente para saber o que aconteceria. Durante toda minha vida eu fui grande fã de hip-hop e jamais esperaria escutar uma música na qual fosse sampleado um clássico do genero. Os relógios passavam das 05:30, quando uma versão de Matthias Meyer dava vida a 93 ‘Til Infinity de Souls of Mischief. Naquele momento confesso que fiquei meio que sem entender o que estava acontecendo, e pensava comigo: Será? Sim, era inconfundível. Eu realmente estava escutando.
Amanheceu e eu estava frente ao inside em um belo dia de Sol, despedindo-se de uma excelênte noite, com a sensação de dever cumprido perante a entrega realizada. Sua última hora de apresentação foi como um educado “obrigado” declamado em forma música, e naquele momento presenciávamos uma verdadeira aula, que depois de quase seis horas de construção anunciava que chegaria ao fim. Próximo às 07:00, ainda houve tempo para Where Do I Go de Gemini, o que deixou tudo mais especial.
A sensação que levo dessa noite, é que o clube vem acertando nesse resgate de longs sets, seja com Apollonia, Hernan Cattaneo ou Dixon, recém divulgado. Que esse perfil de evento faça parte dessa temporada. Nós adoramos isso!
Créditos: Juliano Viana / IMAGECARE