Falar de DJ MURPHY é falar de história. Na ativa desde o início dos anos 90, ele acompanhou o desenvolvimento da cena eletrônica no Brasil e foi um dos responsáveis por disseminar o techno pelos quatro cantos do país. Atualmente, apesar de carregar o título de um dos melhores DJs do Brasil, MURPHY não alimenta qualquer tipo de estrelismo, muito pelo contrário, quem já o viu atuando sabe que o foco é 100% na música e na própria discotecagem, técnica que ele domina como poucos.
Na sua rotina agitada, idas e vindas entre Brasil e Europa é algo constante e que já lhe renderam apresentações nos mais conceituados clubs e festivais do mundo, como Awakenings, Time Warp e Nature One, além de manter residência no conceituado D-EDGE. Como produtor, já assinou com importantes labels como Dolma Records, Fine Audio e Hotstage, gravadora gerenciada por ele ao lado de Spuri.
Não importa onde é chamado, DJ MURPHY consegue entregar através de seu techno aquilo que a pista espera: energia, pressão e emoção através de uma habilidade magistral no comando dos decks. Sua próxima parada acontece no Seas Festival neste final de semana, dia 13 de julho, onde ele toca especialmente no palco do detroitbr. Por isso, nós fizemos questão de bater um papo com ele antes de sua nova apresentação em terras catarinenses. Confira:
Olá, Murphy! É um prazer enorme falar com você. Como você lida com a posição de estar entre um dos principais nomes do techno da cena brasileira? Há uma certa responsabilidade envolvida?
Lido muito bem, de forma natural, pois já estou envolvido nisso e em certa posição há muitos anos! A responsabilidade eu vejo de forma que posso influenciar muito quem vem chegando, servindo como um espelho, por isso tento desenvolver um bom trabalho e que assim o sigam de maneira coerente!
Já são mais de 25 anos de carreira e imagino que você evoluiu muito desde o começo. Além da paixão em tocar, o que mais se mantém firme em suas apresentações em relação ao início da sua carreira?
Sim, são muitos anos de estrada. Sempre tentei evoluir e alcançar novos horizontes na minha forma de discotecar e envolver a pista. O que se mantém firme é a minha característica forma de tocar fazendo o uso máximo do ‘turntabilismo’, efeitos, stems, desconstrução e remixes em tempo real!
Mudando um pouco o foco, hoje percebemos o surgimento de muitos núcleos e pessoas realmente interessadas em propagar a música underground aqui no Brasil. Você que está presente a tanto tempo na indústria, como avalia essa transformação da cena independente nos últimos anos?
Esse surgimento de novos núcleos é maravilhoso para a cena, agrega muito, absorve e introduz um público que clubs e festivais não alcançavam pois geralmente é uma galera mais alternativa e que se encontraram melhor nestes ambientes. Porém, isso não é algo novo, a internet evidencia muito hoje esses novos núcleos mas já existiram muitos desde os anos 90, mas agora sim eles têm força e conseguem mover multidões!
Dentre todos os momentos já vividos nas pista ao redor do mundo, há algum que você considera como um dos mais especiais ou simbólicos? O que mais te marcou até hoje?
Lembro muito bem quando toquei em Berlim, na Love Parade, para 1 milhão de pessoas no palco principal. Tiveram outras ocasiões também como os encerramentos que fiz no Main stage do festival Monegros, na Espanha, inesquecíveis!
Foto Love Parade Berlim
Você já tocou conosco em um showcase do detroitbr no Terraza BC e agora está de volta para uma nova jornada no Seas Festival. Como tem sido a preparação para gigs no Sul do país?
A preparação é sempre divertida, toco músicas que gosto e que sei que a pista vai absorver muito bem. É sempre mágico tocar no sul do país, a vibração e energia dessa galera é quase única e sempre tenho apresentações bastante satisfatórias, sempre conto os dias para estar de volta!
Há alguma novidade que você já pode anunciar pra gente? Quais os principais projetos para o segundo semestre?
Tenho novidades no cenário internacional; Agora faço parte da Miracle mngmt ao lado de grandes artistas mundialmente reconhecidos (Alex Stein, Oliver Koletzki, Pig & Dan, Stefano Noferini e Victor Ruiz são alguns) e vem uma tour internacional bem legal para os próximos meses! Também lanço em breve pelo selo francês Dolma, com quem tenho trabalhado muito, além de releases com Eric Sneo, Atze Ton e mais lançamentos do meu selo Hotstage com o talentoso Spuri!
Para encerrar, deixe um recado para quem está lendo, em especial para os novos artistas da cena. Muito obrigado pelo seu tempo, nos vemos na pista!
Corram atrás e invistam no que vocês acreditam, tanto em estúdio quanto nas pistas, fórmulas não funcionam para todos, então criem suas próprias! 😉
Conforme a próxima edição da TribalTech se aproxima, a organização vem revelando as novidades que estão sendo preparados para o festival. A nova jornada foi intitulada Enlighten, fazendo alusão a ideias que vão do iluminismo ao filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, propondo questionamentos filosóficos e a busca por mais racionalidade crítica.
A proposta já pode ser sentida pelo público no line-up, que foi montado meticulosamente para que cada pista tivesse profundidade no conceito apresentado. Os 6 principais palcos já tiveram todos seus artistas divulgados, conheça-os abaixo:
TribalTech Stage
O palco principal será montado no maior galpão do complexo, que terá sua estrutura otimizada para proporcionar melhor circulação e acomodar mais pessoas. No line-up deste ano serão apresentados alguns dos principais artistas de techno do mundo, como Dubfire, ex-integrante da dupla Deep Dish, e os residentes do renomado club Berghain, Len Faki e Ben Klock. Abrindo o leque de vertentes, o tech house e o prog house também darão suas caras no stage, pelas mãos de Guy Gerber, Patrice Baumel e Solardo, duo revelação do último Tomorrowland. Representando o nosso país, o TribalTech Stage apresenta um back-to-back inédito entre Victor Ruiz e Any Mello, o novo live de Gabe, além dos sets de Eli Iwasa e do talento local Shadow Movement.
Timetech Stage
Em 2017 o Timetech Stage foi sem dúvidas o palco mais comentado do festival. Criada para apresentar artistas inéditos e sonoridades alternativas às do TribalTech Stage, a Timetech tem em 2018 um line-up crescente, partindo do minimalismo do SIT, projeto formado pelos romenos Cristi Cons e Vlad Caia, avançando pela versatilidade da experiente Vera e do jovem Nicolas Lutz, para culminar na intensidade do DJ set do duo Modeselektor e de Anthony Parasole, conhecidos por misturar techno, electro, breaks e outros ritmos surpreendentes. Fazendo as honras da casa, três artistas nacionais que figuram entre as melhores pérolas recentes da cena underground brasileira: Tati Pimont, de São Paulo, Gromma e Kultra, ambos de Curitiba.
SuperCool Stage
Com uma proposta musical completamente diferente dos dois palcos anteriores, o SuperCool Stage também surgiu em 2017 e conquistou diversos admiradores por misturar house music com influências que vão do boogie à música brasileira. Em 2018 ele apresentará artistas internacionais pela primeira vez: Medlar, revelação da Wolf Music, e o multifacetado Fred P, que também responde pelos projetos Black Jazz Consortium, Captain P e Anomaly. O time nacional vem representado por grandes nomes, como Caio T e Gui Scott, integrantes do selo Gop Tun e responsáveis pela edição brasileira do Dekmantel Festival, os ecléticos Joutro Mundo e Carrot Green e o histórico Renato Cohen. O line-up se completa com os artistas locais Biel Précoma, Dani Souto e Cauana.
Organic Beat
O palco de bandas da TribalTech está maior do que nunca! A presença da banda Planet Hemp é sem dúvidas a grande surpresa desta edição, que apresentará também a cantora Karol Conka e o projeto paralelo de Mano Brown chamado Boogie Naipe, que troca a agressividade do rap que o consagrou à frente dos Racionais MC’s pela leveza do R&B, influenciado por ritmos que vão do MPB ao jazz – uma experiência multicultural digna do conceito proposto pelo Organic Beat.
351 Stage
Como nesta edição o Organic Beat será destinado apenas às bandas, os DJs e lives de hip hop e bass music ganharam um espaço próprio! Assinado pelo 351, tradicional casa de Curitiba que levanta a bandeira desses estilos, tem como grandes atrações o DJ Negralha, d’O Rappa, e o rapper BNegão, que irá discotecar após o show do Planet Hemp. Destaque também para a crew Damassaclan, que será representada por Ursso, Bitrinho e Chayco, e para o show de jazz Plata o Plomo, que contará com a participação de Dembeats. Diversos talentos locais completam o line-up: Abduzidub & Subvertentes, Anaum, Bastardman, DJ Ploc, Dow Raiz, Low C x Sala, Ganesh x Korsain, Gui Hahn, Numa, Peen, Raggamonk, Samsara, Sydney e THD x Givv.
3DTTRIP
O 3DTTRIP é o mais novo palco da TribalTech, criado para abrigar o estilo que há mais tempo faz parte dos line-ups do festival: o psy trance. O nome vem do sistema de som 3D, apresentado na edição de 2014 e que estará de volta em 2018, assim como a cenografia produzida pelos holandeses do VuuV Festival. O line-up apresenta um conceito similar ao proposto nos outros stages de música eletrônica, apostando em uma seleção que vai de renomados artistas, como Azax e Perfect Stranger, a respeitados nomes do progressive trance, como Gaudium, Flegma e Symbolic. Além deles, o stage conta com a presença de Trang, projeto musical do responsável pelo Laser Beam Factory, dos brasileiros de nível internacional Element e Fabio Leal e dos DJs Automack e Natascha.
Além dos 6 palcos já divulgados a organização promete um sétimo ambiente musical, que está sendo chamado de “pista secreta”. O festival acontece na Usina 5, complexo industrial que foi revitalizado e transformado em um dos principais espaços para eventos de grande porte de Curitiba. Os ingressos estão à venda em três categorias: pista, área VIP e backstage, cujas distinções você conhece melhor consultando o site oficial www.tribaltech.com.br.
A edição Escape, da TribalTech, deixou saudades para os amantes da música eletrônica não só pelo line-up, mas também pela inovação do espaço e da proposta. Por conta disso, no próximo dia 9 de junho, às 23 horas, a Usina 5 receberá a primeira edição da Timetech – uma festa cujo conceito será o de apresentar sonoridades eletrônicas conceituais pelas mãos de artistas que pouco passaram pelo nosso país, sejam renomados ou revelações.
Na sua estreia na TribalTech 2017 foram vários os destaques, como o peso da ucraniana Nastia, a versatilidade da polonesa Margaret Dygas, a experiência do americano Daniel Bell e a surpresa do alemão XDB. Mais do que a apresentação individual de cada artista, se destacou também a forma como o stage se desenvolveu ao longo do festival, permeando várias atmosferas sem se prender a apenas uma ou outra vertente. Para a primeira Timetech independente, que acontecerá das 23h de sábado até a manhã do dia seguinte, foi escalado um time com 4 artistas internacionais inéditos em Curitiba: Monoloc, Vril, Tijana T, integrantes do respeitado selo alemão Dystopian, e a DJ russa Julia Govor, que se juntam a RHR, uma das principais revelações da nossa música eletrônica dos últimos anos.
O local da Timetech 2018 será o mesmo utilizado na TribalTech 2017, com o objetivo de relembrar a última edição do festival. “Nós percebemos que aquele espaço conquistou o público que ficou no Timetech Stage ao longo da última TT. Nesta edição vamos trabalhar com um novo projeto de cenografia e iluminação, ainda mais ousado, pra deixar a experiência do público realmente imersiva”, conta Carlos Civitate, o Jeje, idealizador da TribalTech.
Lançamento da TribalTech e apresentação em primeira mão o line-up e conceito do festival em 2018
A Timetech já seria motivo suficiente para ir à Usina 5 no próximo dia 9, mas para deixar a noite ainda mais completa a T2 Eventos anunciou que fará o lançamento oficial da TribalTech 2018 dentro da festa. Em um ambiente inédito do complexo será preparado o Lounge da TT, onde às 21h, antes da chegada do público, será realizada a cerimônia de lançamento da próxima edição do festival. Nela os organizadores apresentarão em primeira mão o line-up do festival, que ocorre no dia 22 de setembro. Também serão apresentados o novo conceito, os palcos, as novas ideias de utilização do espaço da Usina 5, e algumas surpresas que farão parte da TribalTech neste ano. “O público ainda não conhece todo o potencial da Usina 5. Desta vez o festival ocupará 100% do complexo, com alguns palcos mudando de lugar e diversas novidades que tornarão o festival ainda mais interessante e culturalmente diversificado”, completa Jeje. A cerimônia contará com a intervenção artística de Beatriz Braun, Leonardo Valentim e Renam Canzi, integrantes da Redoma, agência de artistas que teve presença marcante na última edição da TribalTech. Durante a Timetech 2018 o espaço será aberto ao público.
Neste sábado quem esteve presente no Warung Beach Club pôde vivenciar outra grande apresentação que passou por sua tradicionalíssima cabine, uma das mais imprevisíveis que presenciei. Quem acompanha a trajetória de Marcel Dettmann sabe de sua capacidade de pesquisa e o quanto isso enriquece suas apresentações, além de sua excelente técnica, é claro. Também o reconhece por ser um dos grandes expoentes do techno mundial, geralmente o viés escolhido por ele para conduzir suas histórias. Acompanhando-o em suas redes sociais foi possível notar uma maior inclusão de diferentes vertentes nos últimos anos, que antes eram menos exploradas ou usadas apenas em momentos especiais, pois convenhamos: é muito difícil entender como funciona o feeling do artista nos momentos de apresentação, já que isso envolve uma relação individual diante de vários aspectos que vão além da música.
Em sua primeira passagem pelo clube ele mostrou seu cartão de visitas, fazendo uma apresentação recheada com linhas densas e melódicas, carregadas com muito peso, criando-se uma verdadeira hipnose. Naquela ocasião ele foi uma das grandes estrelas do ano, o que fez com que seu retorno fosse aguardado com carinho por grande parte do público. Com o anúncio desta nova data grandes expectativas se criaram, não só pela volta de Marcel, mas pelo fato de que Nina Kraviz também seria headliner no Inside e porque eu estaria presente comemorando 29 primaveras ao som de artistas que tenho grande respeito.
Entrei no clube por volta das 01h e me direcionei ao palco principal, onde o alemão iniciava a sua apresentação e por onde eu estive a noite toda, ao lado de amigos que celebravam comigo esse momento. Suas primeiras faixas me lembraram muito as características da apresentação anterior, mas conforme o set progredia o cenário mudava completamente. É de suma importância salientar que nunca assisti um Dettmann tão leve e feliz, optando por uma postura totalmente carismática, com danças e grande interação com o público do front-stage, contrastando com seu lado sério e frio. Isso refletiu em sua apresentação, que embora tivesse seus momentos densos, era dominada pelos sons dançantes.
Além desta predominância, foi emocionante ver um Dettmann extremamente eclético, apresentando um set em que inicialmente parecia não ter sentido lógico algum, mas que fez sentido e encantou, fazendo a pista vibrar a cada virada. Ele optou por uma apresentação extremamente arriscada, que embora tivesse sua identidade bem definida não seguia algum rótulo específico, dava pra sentir que de certa forma as faixas selecionadas vinham de um túnel do tempo da sua experiência com o meio. Marcel estava tocando música, antigas e novas, misturando house, techno, trance, disco, electro, synthpop, breakbeat. E mais incrível foi ver as pessoas entregues, dispostas a consumir o que ele apresentava.
Dentre os vários clássicos apresentados acredito que Enjoy the Silence, do Depeche Mode, tenha chamado mais a atenção do público presente, que cantou junto em um dos seus momentos old school. Ele conseguiu encaixar a música original de forma brilhante em um edit, remix ou até mesmo mash up feito na hora, deixando-a mais ritmada. Todo o sentimento nostálgico causado pelas pessoas em minha volta estarem cantando junto deixou o momento ainda mais especial!
É nessas horas que reflito o quanto artistas como Marcel Dettmann nos ajudam a mudar a nossa forma de pensar e evoluir. No Brasil é muito comum as pessoas ficarem presas a nichos específicos, deixando de vivenciar a grande gama de experiências que poderiam ser absorvidas e apreciadas caso ampliassem seus leques de possibilidades. Confesso que já pratiquei muito disso no passado e não falo isso somente na música, mas de maneira geral: é como se vivêssemos em um condicionamento social que nos guia a isso e desvincular-se é algo muito difícil. É legal você olhar pra frente e ter a sensação de ser surpreendido por algo que muitas vezes foge da sua compreensão – de olhar pro seu amigo ao lado e falar “cara, o que ele está fazendo?“. A música, assim como as mais diversas formas de arte, nos permite esse sentimento e é com ele que eu admirava cada faixa apresentada.
Já próximo do final de sua apresentação Nina nos brindou com um b2b inesperado com o alemão, pois confesso que não esperava vê-los tocando juntos. Nesse momento a experiência se tornou ainda mais rica, foi muito legal ver a russa cedendo parte de sua apresentação para que seu amigo continuasse, afinal ele merecia – e muito! Penso que em terras tupiniquins Nina tem uma popularidade maior do que Dettmann e esse tipo de espaço ajuda artistas como ele a terem uma melhor entrega e maior adesão. Afinal, com mais de 3 horas de apresentação você já tem uma noção do que seria um long set, assim como já assisti Kraviz fazer coisas magníficas em momentos nos quais se apresentou com o tempo prolongado. E o mais importante: era nítida a felicidade deles de estarem juntos no palco. Já próximo às 5h a russa então assumiu de forma individual e seguiu com um bom ritmo, dando sequência ao que foi impresso anteriormente por eles, fechando com chave-de-ouro uma das noites que levo com maior carinho nessa década como frequentador do Warung.
Quando se fala de Berlim logo nos vem à cabeça o lendário Berghain, tido como a meca mundial do techno contemporâneo. O lugar possuiu uma mística impar que começa logo na entrada com seu famoso bouncer Sven Marquardt, responsável por permitir a entrada ou bloqueio dos que tentam se aventurar pelas estruturas inabaláveis do club alemão. Os principais chamarizes são as festas insanas que começam sábado e terminam na madrugada de domingo para segunda e, claro, o seu imbatível time de residentes. De Anthony Parasole a Steffi, passando por Efdemin e Ryan Elliot, a cultura dos residentes permanece forte e confirma o quão importante eles são para difundir e representar o seu local de residência.
Um dos nomes que também pertence ao “dream team” do club alemão é Marcel Dettmann. Nascido e criado em Pößneck, cidade que fica localizada no estado de Turíngia, desde pequeno esteve envolvido com música, pois sua mãe era professora e uma grande influenciadora em favor da arte em sua família. Sempre que todos estavam reunidos aproveitavam o tempo para cantar e tocar instrumentos, não demorando muito para ele se familiarizar com bandas como Depeche Mode, Joy Division e New Order.
Sua cidade natal fica a 60 quilômetros de Berlim, onde fica localizada a famosa loja de discos Hard Wax. No início dos anos 90 Marcel fazia festas em sua cidade com seus amigos, pouco tempo antes de fundar sua loja dentro de sua própria casa, afim de incentivar a disseminação da música eletrônica, o que criou um vínculo inegável com a record store berlinense. Em contato direto com os clubs E-Werk e Tresor, não por acaso começou a despertar o seu desejo pelas novidades que estavam vindo de Detroit. Em 1999 se tornou residente do Ostgut, predecessor do Berghain, e após um curto período recebeu o convite para trabalhar na Hard Wax, onde além de vender discos poderia refinar ainda mais o seu aguçado conhecimento.
Rapidamente seu nome se popularizou por toda a Alemanha, até que em 2006 fundou sua própria label intitulada Marcel Dettmann Records, por onde passou a ter liberdade para lançar suas próprias músicas e ajudar a revelar novos talentos. O primeiro single, chamado MDR 01, trazia as músicas Let’s Do It e Radio e seu lançamento foi um sucesso, seguido pelo single MDR 02, remixado por T++.
Em 2014 seu nome já havia se estabelecido como um dos maiores embaixadores do techno industrial de Berlim, seu mix fabric 77, lançado em agosto do mesmo ano, confirma toda a sua notoriedade e a sua precisão cirúrgica na escolha das músicas que figurarão em seus sets.
Aqui no Brasil a sua primeira aparição foi em 2009 no Club Kraft em São Paulo. Uma de suas vindas mais recentes e memoráveis foi em 2016, quando ele retornou para uma turnê na qual mais uma vez passou por São Paulo, agora na festa Moving do D-Edge, e por Itajaí, quando foi protagonista de uma das noites mais geladas do Warung Beach Club naquele ano.
Marcel Dettmann é o tipo de DJ que atrai os olhares de qualquer amante de techno, seu nome por si só causa bastante impacto, o qual é correspondido por suas performances, em club ou em open air elas sempre são de tirar o fôlego. Dettmann retorna ao nosso país como uma das principais atrações do festival holandês Dekmantel, que aporta em São Paulo pela segunda vez apresentando grandes artistas da música eletrônica mundial. Antes da sua apresentação lá, que será no dia 4 (domingo), o DJ alemão passa pela festa Caos no dia 2 (sexta) e pelo Warung Beach Club no sábado (3), sendo que ao longo de toda a tour ele se apresentará junto de Nina Kraviz.
Data: 3 e 4 de março de 2018 Locais: Rua Inhaúma, 263 (Antigo PlayCenter) e Av. Olavo Fontoura, 1209 (Sambódromo do Anhembi), ambos em São Paulo (SP) Ingressos:Eventbrite Links: site oficial / evento no facebook
Se no ano passado o Dekmantel Festival São Paulo teve a Helena Hauff fazendo uma sessão de “massacre electro”, este ano teremos DJ Stingray para dar sequência nessa missão. O veterano americano Sherard Ingram ajuda a perpetuar o espírito mais roots dos ares de Detroit, trazendo sua marca registrada: electro techno ou o electro funk, sendo tocado no estilo gangsta clássico.
Tanto no lado DJ quanto no lado produtor a identidade é bem forte. As referências de MODEL 500 a Drexciya são claríssimas e mostram exatamente a fase em que a cultura negra trombou o sci-fi, lá no final da década de 80. Essa estrutura é esteticamente diferente da mais popularmente conhecida 4/4 e evidencia mais o lado “ghetto” do techno de Detroit, definitivamente algo que não é feito para o lado hype do mercado.
Em outras palavras: pode ser um beat de funk que lembra o nosso aqui do Brasil, mas com outro molho por cima. Para quem é adicto de toda a cultura e misticismo por trás da história de Detroit com o techno Stingray é imperdível, pois apresentará muita batida quebrada e mostrará que o espírito de lá transcende muito além das batidas quadradas.
Serviço
Evento: Dekmantel Festival São Paulo Data: 3 e 4 de março de 2018 Locais: Rua Inhaúma, 263 (Antigo PlayCenter) e Av. Olavo Fontoura, 1209 (Sambódromo do Anhembi), ambos em São Paulo (SP) Ingressos:Eventbrite Links: site oficial / evento no facebook
“Diversificados e inspirados pelo absurdo, os grooves do Modeselektor parecem emanar de todos os gêneros musicais, criando um caos controlado cuja expressão eleva as sobrancelhas da crítica e os batimentos cardíacos das pistas ao redor do mundo.”
A frase acima é uma tradução adaptada do começo do release da dupla, composta por Gernot Bronsert e Sebastian Szary, dois alemães que nasceram na Berlim oriental e passaram sua juventude participando do movimento acid underground da Alemanha pós-queda do muro. O projeto foi concebido em 1995, mesclando ideias para as quais futuramente não iriam faltar rótulos, tentativas de descrevê-las: big bass techno, acid rap, psychedelic electro, entre outros. Fugindo destas nomenclaturas, poderíamos descrever a música deles como a floresta: densa, texturizada e rica em sonoridades nunca antes experimentadas.
Em 2001 Gernot e Sebastian encontraram Ellen Allien, cujo selo BPitch Control fora a catapulta que ejetou o Modeselektor às cabeças da cena techno europeia da época. Com uma série de singles e EPs começaram a conquistar o gosto de grandes artistas, como Thom Yorke e Apparat, com quem viriam a colaborar futuramente. Na segunda metade da década vieram os dois primeiros álbuns, Hello Mom! (2005) e Happy Birthday! (2007), cuja sonoridade completamente fora dos limites de qualquer rótulo acabou por influenciar toda uma geração de DJs de diferentes nichos e partes do mundo.
Em 2009 o duo fez seu debut como trio: com Sascha Ring, músico alemão responsável pelo projeto Apparat, lançaram o álbum Moderat, cujo nome seria utilizado para se referir também à banda recém lançada. Gravado utilizando apenas equipamentos analogicos, o Moderat apresentava uma sinérgica e funcional mistura entre a robustez caótica do Modeselektor e a viagem obscura de Apparat, que somada à dinâmica musical da apresentação ao vivo da banda fez com que ela adquirisse respeito global instantâneo.
Ainda no mesmo ano de 2009 o mundo viu a Monkeytown Records nascer, gravadora criada com o propósito de lançar materiais próprios e de amigos, mas que rapidamente tornou-se uma das principais referências de bass music da década atual, junto com seu sub-label 50WEAPONS. Pouco tempo depois viria o terceiro álbum de estúdio, intitulado Monkeytown (2011), com participação de Thom Yorke em duas faixas e uma atmosfera ainda mais densa, demonstrando a maturidade adquirida no decorrer da carreira.
Foi na tour do Monkeytown que o Brasil teve a última oportunidade de ver a dupla em ação, quando se apresentaram no Sónar SP em 2012. Logo em seguida Gernot e Sebastian passariam a dedicar suas energias ao Moderat novamente, período que rendeu dois novos álbuns e longas tours à banda, deixando o Modeselektor em um hiato que só foi acabou há poucos meses.
No período em que a criatividade e as datas na agenda eram dedicados à colaboração com Apparat, o Modeselektor ainda se fez presente nas playlists dos fãs graças ao Vol. 3 da compilação Modeselektion, pela qual o duo apresenta seu lado DJ.
E é esse lado que conheceremos neste sábado no Dekmantel Festival São Paulo, que aproveitou o retorno deste grande nome da história da música eletrônica e o selecionou para encerrar o primeiro dia no formato DJ set. Ouvir a discografia completa (álbuns de estúdio e compilações) do Modeselektor é uma boa exercício para sentir a amplitude da musicalidade deles e testar nossa própria ecleticidade. Assim como eu, você certamente vai encontrar coisas horríveis para seu gosto, vai se perguntar “como é que eles tem coragem de lançar isso?”
Mas ao ouvir as belas pérolas que nos agradam, conseguimos perceber a genialidade e a ousadia intrínseca ao projeto, qualidades tão essenciais e cada vez mais escassas em artistas dos tempos atuais. E aí até dá pra reconhecer que mesmo as músicas ruins, no fundo, são muito boas.
Serviço
Evento: Dekmantel Festival São Paulo Data: 3 e 4 de março de 2018 Locais: Rua Inhaúma, 263 (Antigo PlayCenter) e Av. Olavo Fontoura, 1209 (Sambódromo do Anhembi), ambos em São Paulo (SP) Ingressos:Eventbrite Links: site oficial / evento no facebook
O Brasil é conhecido no mundo por ser o país do futebol, da caipirinha e, claro, do famoso carnaval. Os primeiros indícios das festas remontam do século XVII com a introdução do entrudo português, que é como eram chamado os grandes bonecos que faziam desfiles nas ruas. Com o passar dos anos os desfiles passaram a ser proibidos pela polícia, devido à violência de rua gerada. Na virada do século XX os entrudos foram substituídos por corsos, onde grupos de elite das cidades se fantasiavam e decoravam os seus carros de acordo, fazendo assim os primeiros desfiles de carros alegóricos de escola de samba.
Foto: Reprodução.
Aqui no sul do país a cultura tradicional do carnaval não é tão celebrada quanto em outras partes do território nacional, por isso muitos aproveitam o período para festejar de acordo com a programação de casas noturnas da região ou optam por viajar para longe do agito diurno e/ou noturno. Na Praia Brava, mais precisamente no Warung Beach Club, a programação estava repleta de nomes conhecidos, artistas nacionais e internacionais que coroaram as três noites de folia eletrônica.
Logo na primeira noite o selo espanhol Rumors criado por Guy Gerber em 2014, enalteceu o Garden trazendo as estreias de Acid Mondays e Bill Patrick. Minha ansiedade maior era por Bill, que em outubro de 2015 cancelou a sua vinda. Entrei tarde no club porém felizmente consegui ver a parte final do seu set. Transitando por uma linha mais voltada para o tech house com leves pitadas de progressive, soube levar e entregar muito bem o Garden para as mãos do anfitrião daquela noite.
Foto: Ebraim Martini
Por saber como seria a proposta de Guy Gerber, optei por ir ao Inside acompanhar o set de Renato Ratier, nome por trás do D-Edge, lendário club que fomenta a cena eletrônica de São Paulo. Assim que comecei a subir as escadas, me familiarizei com o som de Johannes Heil – B2. Adotando uma postura 100% voltada para o techno, Renato introduziu diversas faixas do gênero criado em Detroit, deixando assim todos muito bem preparados para o que viria a seguir.
Foto: Ebraim Martini
Nicole Moudaber é natural da Nigéria, trabalhou por vários anos promovendo festas em Beirute, capital do Líbano. Após um longo período de aprendizagem foi apadrinhada por ninguém menos que Carl Cox, que como seu mentor a ajudou a encontrar o seu estilo musical. Figurou como anfitriã de vários afters parties até assumir a linha de frente de festas de clubs famosos da Espanha como Space e DC-10, não demorando muito para seu nome chegar ao line-up dos grandes festivais. No Inside ela estava muito à vontade, dona de um carisma único sua presença pode ser notada de longe, seja pelo seu estilo de discotecagem, seja por seus cabelos cacheados, sempre armados e acompanhados do seus óculos escuro.
Não demorou muito para uma chuva de músicas estarrecedoras e assombrosas começar a ecoar por dentro do Inside, indo contra o período carnavalesco que sugere mais alegria, Nicole não poupou os ouvidos do público e optou por seguir uma linha de techno mais industrial. O trabalho de um DJ consiste basicamente em entreter o público que sai de casa para se divertir, dentro deste contexto se introduz uma história e através disso toda uma atmosfera se cria e se renova música após música. No set dela não foi diferente: na primeira noite de carnaval músicas de artistas consagrados como Len Faki e Ben Klock e até algumas de autoria própria soaram de forma esplêndida dentro do pistão. Dos inúmeros trunfos que ela tinha na manga, o que mais me chamou a atenção foi Scuba – Family Entertainment (Øphase Remix), tocada na transição da noite para a dia.
O meu desejo neste instante era de permanecer ali e acompanhar até o fim a sua performance, mas sabia que era hora de descer as escadas para ser surpreendido por Guy Gerber. O Garden é um palco mais aberto, onde o público fica mais à vontade, o que se intensifica quando a Rumors assina e muda toda a decoração. Se durante a noite a experiência visual já estava bonita, durante o dia se tornou melhor ainda, era possível ver com detalhes todos os arranjos postos, flores e toda a arte feita para receber este selo. Gerber possui produções únicas que destacam muito a sua capacidade de prender o ouvinte, logo que me estabeleci fui bombardeado com Secret Encounters, track de autoria própria dele lançada em 2016 pelo seu selo.
Alguns minutos passados, não bastando toda a euforia de ver a festa se encaminhando para o seu desfecho, às 8hrs da manhã eis que surge Here Comes The Rain – Deniz Kurtel, me fez voltar 4 anos no tempo e relembrar aquela apresentação dele de final de ano. No mundo dos DJs acontece muito de uma música ser tocada várias e várias vezes sem ser lançada, esta por incrível que pareça foi lançada apenas no passado. E foi assim, com esse sentimento de nostalgia que o Garden deu as boas-vindas ao carnaval.
Foto: Gustavo Remor
Para a segunda noite as energias já estavam um pouco esgotadas e era necessário se resguardar, pois na noite seguinte haveria mais uma festa, por isso encontrei rapidamente um bom local no Inside e por ali me estabeleci. Acompanhei o live inteiro de Recondite e realmente, é uma pena ser apenas 1 hora. Um setlist repleto de músicas produzidas por ele mesmo, acompanhado de uma categoria e uma maneira absoluta de gerenciar todos os seus recursos, digno de uma noite Spectrum.
Foto: Gustavo Remor
Logo nos minutos iniciais a exuberante Warg mudava o clima da noite, subitamente nos vimos entrando em uma imersão que se aprofundou ainda mais com Wist 365. Neste momento eu sabia que deveria permanecer ali contemplando toda a obra sendo construída, o “tijolo” final para santificar toda a sua construção foi Phalanx.
Sempre que vejo o retorno de um grande nome me pergunto: Vai ser bom? Será ruim? Talvez aceitável? Na dúvida deixo a expectativa de lado e tento me surpreender, quando se trata de um artista como Joris Voorn nenhuma das alternativas se aplica, pois ele é uma mescla de vários estilos. Diferente da proposta introspectiva adotada por Recondite, Joris optou por jogar em vários campos da música eletrônica, como por exemplo a clássica e insuperável releitura de Tiesto para Adagio for Strings. Poucos sabem, mas a música que o inspirou vem da obra de Samuel Barber e foi orquestrada em 1936, Tiesto a adptou e a transformou em um dos clássicos supremos do euro trance.
Depois de uma rápida passagem pelo bar, fiz um bate e volta no Garden e pude conferir um pouco da proposta de Black Coffee, que teria sido mais agradável não fosse a chuva que assolava a noite. Presenciei muitos rostos sorridentes e contentes com toda a sonoridade que o africano estava apresentando, explorando vocais com tribal ao fundo começou a escrever um livro com o público do Warung, que certamente ainda tem mais páginas para serem escritas. Fui presenteado com Keinemusik (Rampa, Adam Port, &ME) – Muyè.
Foto: Gustavo Remor
O Inside sempre traz grandes surpresas, se em um momento você está no euro trance, em outro você pode se deparar com um dos maiores hinos da música: Depeche Mode – Enjoy The Silence. É espantoso e ao mesmo tempo espetacular o efeito que a voz de Dave Gahan tem sobre as pessoas que amam música eletrônica. Logo em seguida mais um clássico, só que dessa vez da house music lá do final dos anos 90: Stardust – Music Sounds Better With You. Seria Joris o camaleão do carnaval? Vestindo a fantasia de inúmeros estilos musicais e acertando muito bem em cada escolha? Talvez, mas o encerramento do seu set ainda reservava mais uma surpresa: Ringo, tida até hoje como um dos seus maiores clássicos.
Foto: Gustavo Remor
Economizar energias de domingo para segunda valeu a pena, poucas vezes se vê um nível tão alto de profissionalismo e comprometimento quanto o apresentado no terceiro dia. Infelizmente devido ao atraso no voo e a impossibilidade de conexão, Tânia Vulcano que era a artista que eu mais queria ver, não pode vir. Rapidamente o time do templo se pronunciou nas redes sociais e remanejou os horários de Seth Troxler e The Martinez Brothers, fazendo com que a brincadeira começasse às 23h e seguisse com os três até o fim. Não é de hoje que eles se juntam para proporcionar noites recheadas de clássicos, em 2016 no aniversário de 14 anos do Warung eles se reuniram no Garden e caíram nas graças dos que estavam presentes.
Enquanto isso, no Garden estava rolando a estreia de Alex Niggemann, que até então era desconhecido para mim. Mais uma vez deixei o destino encarregado de agradar os meus ouvidos, que já estavam bem calibrados após duas noites. O retorno foi super-positivo, sem dúvidas o melhor nome que o carnaval me trouxe, irei me aprofundar mais em suas produções. O warm up foi feito por Gromma, seguido de Flow & Zeo, mas quem realmente tratou deixar a pista pronta para Nastia foi o alemão Alex. Se no piso superior o house e o tech house iriam imperar, a pista inferior era do techno, daqueles muito bem trabalhados que te deixam hipnotizado e sem palavras. Sem ser muito agressivo ele tratou de deixar todos em ponto de ebulição para que a DJ ucraniana afirmasse mais uma vez seu nome.
Foto: Gustavo Remor
Não é de hoje que as mulheres vem cada vez mais ganhando espaço dentro do entretenimento musical eletrônico, quando se pensa nisso inúmeros nomes são enfatizados como sinônimo de qualidade e acima de tudo respeito. Nastia já acumula um bom currículo, pode se dizer que sua conexão começou a ficar próxima com o Brasil após a sua apresentação na TribalTech de 2014.
O que se nota atualmente é a postura de uma profissional pós-graduada no que faz, que seduz e conduz a pista sem muitas delongas e que sabe manter a elegância em cada mixagem. É extremamente difícil e ao mesmo tempo gratificante não encontrar palavras para definir como foi a apresentação dela: Histórico? Único? inesquecível? São palavras que talvez possam se aplicar muito bem.
Durante as minhas idas e vindas entre o Inside e Garden em uma tentativa de tentar me dividir em dois para extrair o melhor dos dois palcos, eis que me deparo com uma homenagem ao povo brasileiro. Sim, a polêmica Rap da Felicidade de Cidinho e Doca. Antes da criação deste texto analisei a música várias e várias vezes, criada em 1995, explodiu trazendo uma mensagem politizada que mensurava a realidade das comunidades do Rio de Janeiro, onde moradores eram frequentemente desrespeitados pela sua condição financeira. Se aplicada aos dias atuais, nota-se um subliminar pedido de socorro. O funk é algo intrínseco da cultura brasileira e sempre esteve presente, mas nem sempre agradou gregos e troianos, assim como vários outros estilos musicais. Dentro do Warung a recepção por muitos foi negativa: “Como pode um DJ tocar isso? ” Outros falaram: “Isso que é homenagem! ”. Dentro do turbilhão de opiniões geradas, devemos ser gratos pelo trabalho que o DJ tem de chegar aqui, procurar algo que seja nosso e consegui encaixar perfeitamente dentro da sua história apresentada na noite.
Foto: Gustavo Remor
Para o final do set, outra homenagem, de um cantor que possivelmente foi uma das melhores vozes da MPB, Tim Maia. Não é a primeira vez que Acenda o Farol ecoa pelas estruturas do templo, mas sempre que surge, todos cantam e seguem o dia com a certeza de que mais uma noite foi curtida com sucesso.
O carnaval é sempre um período marcado por muitas histórias e experiências que na sua grande maioria sempre deixam saudades, em 2018 a sensação não poderia ser outra. Nossas atenções agora se voltam para a segunda edição do festival holandês Dekmantel que acontece 3 e 4 de março em São Paulo, simultaneamente ao retorno de Marcel Dettmann e Nina Kraviz ao templo da Praia Brava.
A música que abre o lançamento é a versão original para Synchronized, uma velha conhecida dos fãs de Tharik e Moha, tendo sido peça chave em sets da dupla há alguns anos. Seus timbres instigantes foram matéria-prima para três belas leituras que remontam as origens do detroitbr, por terem sido produzidas quando os produtores estavam se conhecendo e a crew se formando. André Anttony apostou em uma pegada progressiva, enquanto Eduardo M adicionou sua agressividade à sonoridade, ao passo que Nik Ros deu ares tropicais sem deixar a atmosfera misteriosa de lado.
Só então que surge a faixa título do lançamento, Parallel Engines. Mais recente que as anteriores, apresenta uma sonoridade ainda mais hipnotizante, semelhante à das músicas do Arnemetia EP, lançado pelo Kultra há alguns meses. Seu único remix, assinado por Bernardo Ziembik, adicionou groove e intensidade à ela, fechando com classe um EP que faz parte do DNA da família detroitbr!
Foram 7 anos de jejum desde sua última vinda para o Warung, que foi em janeiro de 2011, na época com o projeto híbrido de live + dj set chamado LBS. Desta vez tive a oportunidade de vê-lo duas vezes: primeiro em SP, na Tantsa, e na sequência aqui em Santa Catarina no Warung Beach Club, onde todo o ambiente e o clima proporcionaram uma entrega bem mais fiel ao que ele se propõe a fazer.
Laurent é o cara que conhece mais a música popular e GENUÍNA brasileira do que eu e muito tupiniquim. É isso que dá a ele gabarito para de manhã poder tocar uma faixa de samba original, que no contexto se fez parecer tão coerente e ao mesmo tempo não apelativa. Méritos também da pista que possibilitou isso naquele momento. É clássico dele propor esse tipo de mistura, que não se faz apenas querendo, tem que PODER fazer. Pra isso ele é um exímio entendedor de tudo que se possa imaginar. Entusiasta do “bass culture”, sempre tocou faixas de dubstep e drum and bass no meio dos sets, por exemplo. Universos totalmente distintos e até desconhecidos pra muita gente se fazem juntos nas mãos dele.
Salsa e Jazz também entram no bolo, muita gente ainda deve estar se perguntando que versão foi aquela de The Man With The Red Face que ele tocou no final. Como eu acompanhei bem de perto o projeto LBS (Live Booth Session e também as iniciais de Laurent, Benjamin e Scan X) que durou aproximadamente de 2009 a 2012, eu imagino que essa versão tenha sido um take tirado de alguma sessão e fatalmente “unreleased”. Quem teve a oportunidade de presenciar as apresentações do extinto projeto sabe o quão sério era, especialmente quando uma linha muito fina impede uma ideia interessante sobre unir jazz com techno de se tornar brega e forçada.
Como se não bastasse, ele ainda é, como o próprio diz, um “Detroit Guy”, que tem o real respeito de todos os caras de lá. Há muitos idos atrás ele já fazia turnê com o Jeff Mills numa proposta de só tocar funk, jazz, hip hop e porquê não uma faixa ou outra de techno no meio. Isso por si só diz muito a respeito de toda a ligação, respeito e atenção dele com a diversidade dos gêneros, coisa que em breve talvez seja extinta da essência dos DJs. Nós precisamos reconhecer que estamos numa era onde acompanhamos muitos produtores de estúdio se apresentando em clubs e festivais fazendo DJ sets, e bem menos DJs com essência de DJ. Isso acabou sendo uma tendência natural do mercado, mas é importante sabermos que são duas expressões com sensibilidades bem diferentes. Quem teve a oportunidade de ver a apresentação do Laurent no Warung pode talvez constatar como uma linguagem de expressão tão básica e clássica ainda funciona e convence.
De fato existe um valor subjetivo e intangível sobre o que você pode por de valor em cima de uma música que você toca, ou na forma como você compila um set. Afinal, se isso não existisse seria muito fácil qualquer um aproveitar e viver apenas da benção dessa era de charts, Shazam e tracklists abertos. Há muito mais para ser interpretado, muito além de apenas conseguir tocar por horas sem provocação nenhuma de nuances. Da mesma forma quando falamos sobre hit, há uma série de fatores que mudam a percepção sobre ser um apelo ou ser algo com propriedade.
Ver Garnier nessa última apresentação foi assistir alguém colocar muita personalidade e acreditar muito no que está fazendo, algo que ele faz muito bem. Pra quem está acostumado a fazer all night longs há mais de duas décadas (como por exemplo no extinto The End Club em Londres), 5h de set pode ser considerado viagem curta. A sua marca registrada de mesclar o melhor dos mundos independente de rótulos e de pregação de regra foi apenas confirmada no Warung. Gerações atrás isso era mais comum, na cultura do que era ser um DJ, a segregação e o fanatismo foram surgindo com o tempo. Caras como ele, Hernan Cattaneo e mais uma meia dúzia podem ser considerados atemporais e fora de discussão sobre o que pode ser ultrapassado.
Enfim, essa noite no Warung foi o dia pra misturar os clubbers velhos com a nova geração, regados a um gostinho de velhos tempos. Afinal, a cozinha francesa é base de tudo, independente do quão inovadora a culinária seja 😉