Carnaval eletrônico reúne diferentes tribos no Warung

O Brasil é conhecido no mundo por ser o país do futebol, da caipirinha e, claro, do famoso carnaval. Os primeiros indícios das festas remontam do século XVII com a introdução do entrudo português, que é como eram chamado os grandes bonecos que faziam desfiles nas ruas. Com o passar dos anos os desfiles passaram a ser proibidos pela polícia, devido à violência de rua gerada. Na virada do século XX os entrudos foram substituídos por corsos, onde grupos de elite das cidades se fantasiavam e decoravam os seus carros de acordo, fazendo assim os primeiros desfiles de carros alegóricos de escola de samba. 


Foto: Reprodução.

Aqui no sul do país a cultura tradicional do carnaval não é tão celebrada quanto em outras partes do território nacional, por isso muitos aproveitam o período para festejar de acordo com a programação de casas noturnas da região ou optam por viajar para longe do agito diurno e/ou noturno. Na Praia Brava, mais precisamente no Warung Beach Club, a programação estava repleta de nomes conhecidos, artistas nacionais e internacionais que coroaram as três noites de folia eletrônica.

Logo na primeira noite o selo espanhol Rumors criado por Guy Gerber em 2014, enalteceu o Garden trazendo as estreias de Acid Mondays e Bill Patrick. Minha ansiedade maior era por Bill, que em outubro de 2015 cancelou a sua vinda. Entrei tarde no club porém felizmente consegui ver a parte final do seu set. Transitando por uma linha mais voltada para o tech house com leves pitadas de progressive, soube levar e entregar muito bem o Garden para as mãos do anfitrião daquela noite.


Foto: Ebraim Martini

Por saber como seria a proposta de Guy Gerber, optei por ir ao Inside acompanhar o set de Renato Ratier, nome por trás do D-Edge, lendário club que fomenta a cena eletrônica de São Paulo. Assim que comecei a subir as escadas, me familiarizei com o som de Johannes Heil – B2. 
Adotando uma postura 100% voltada para o techno, Renato introduziu diversas faixas do gênero criado em Detroit, deixando assim todos muito bem preparados para o que viria a seguir.




Foto: Ebraim Martini

Nicole Moudaber é natural da Nigéria, trabalhou por vários anos promovendo festas em Beirute, capital do Líbano. Após um longo período de aprendizagem foi apadrinhada por ninguém menos que Carl Cox, que como seu mentor a ajudou a encontrar o seu estilo musical. Figurou como anfitriã de vários afters parties até assumir a linha de frente de festas de clubs famosos da Espanha como Space e DC-10, não demorando muito para seu nome chegar ao line-up dos grandes festivais. No Inside ela estava muito à vontade, dona de um carisma único sua presença pode ser notada de longe, seja pelo seu estilo de discotecagem, seja por seus cabelos cacheados, sempre armados e acompanhados do seus óculos escuro. 

Não demorou muito para uma chuva de músicas estarrecedoras e assombrosas começar a ecoar por dentro do Inside, indo contra o período carnavalesco que sugere mais alegria, Nicole não poupou os ouvidos do público e optou por seguir uma linha de techno mais industrial. O trabalho de um DJ consiste basicamente em entreter o público que sai de casa para se divertir, dentro deste contexto se introduz uma história e através disso toda uma atmosfera se cria e se renova música após música. No set dela não foi diferente: na primeira noite de carnaval músicas de artistas consagrados como Len Faki e Ben Klock e até algumas de autoria própria soaram de forma esplêndida dentro do pistão. Dos inúmeros trunfos que ela tinha na manga, o que mais me chamou a atenção foi Scuba – Family Entertainment (Øphase Remix), tocada na transição da noite para a dia.

O meu desejo neste instante era de permanecer ali e acompanhar até o fim a sua performance, mas sabia que era hora de descer as escadas para ser surpreendido por Guy Gerber. O Garden é um palco mais aberto, onde o público fica mais à vontade, o que se intensifica quando a Rumors assina e muda toda a decoração. Se durante a noite a experiência visual já estava bonita, durante o dia se tornou melhor ainda, era possível ver com detalhes todos os arranjos postos, flores e toda a arte feita para receber este selo. Gerber possui produções únicas que destacam muito a sua capacidade de prender o ouvinte, logo que me estabeleci fui bombardeado com Secret Encounters, track de autoria própria dele lançada em 2016 pelo seu selo.





Alguns minutos passados, não bastando toda a euforia de ver a festa se encaminhando para o seu desfecho, às 8hrs da manhã eis que surge Here Comes The Rain – Deniz Kurtel, me fez voltar 4 anos no tempo e relembrar aquela apresentação dele de final de ano. No mundo dos DJs acontece muito de uma música ser tocada várias e várias vezes sem ser lançada, esta por incrível que pareça foi lançada apenas no passado. E foi assim, com esse sentimento de nostalgia que o Garden deu as boas-vindas ao carnaval.




Foto: Gustavo Remor

Para a segunda noite as energias já estavam um pouco esgotadas e era necessário se resguardar, pois na noite seguinte haveria mais uma festa, por isso encontrei rapidamente um bom local no Inside e por ali me estabeleci. Acompanhei o live inteiro de Recondite e realmente, é uma pena ser apenas 1 hora. Um setlist repleto de músicas produzidas por ele mesmo, acompanhado de uma categoria e uma maneira absoluta de gerenciar todos os seus recursos, digno de uma noite Spectrum. 



Foto: Gustavo Remor



Logo nos minutos iniciais a exuberante Warg mudava o clima da noite, subitamente nos vimos entrando em uma imersão que se aprofundou ainda mais com Wist 365. Neste momento eu sabia que deveria permanecer ali contemplando toda a obra sendo construída, o “tijolo” final para santificar toda a sua construção foi Phalanx.

Sempre que vejo o retorno de um grande nome me pergunto: Vai ser bom? Será ruim? Talvez aceitável? Na dúvida deixo a expectativa de lado e tento me surpreender, quando se trata de um artista como Joris Voorn nenhuma das alternativas se aplica, pois ele é uma mescla de vários estilos. Diferente da proposta introspectiva adotada por Recondite, Joris optou por jogar em vários campos da música eletrônica, como por exemplo a clássica e insuperável releitura de Tiesto para Adagio for Strings. Poucos sabem, mas a música que o inspirou vem da obra de Samuel Barber e foi orquestrada em 1936, Tiesto a adptou e a transformou em um dos clássicos supremos do euro trance.

Depois de uma rápida passagem pelo bar, fiz um bate e volta no Garden e pude conferir um pouco da proposta de Black Coffee, que teria sido mais agradável não fosse a chuva que assolava a noite. Presenciei muitos rostos sorridentes e contentes com toda a sonoridade que o africano estava apresentando, explorando vocais com tribal ao fundo começou a escrever um livro com o público do Warung, que certamente ainda tem mais páginas para serem escritas. Fui presenteado com Keinemusik (Rampa, Adam Port, &ME) – Muyè.






Foto: Gustavo Remor

O Inside sempre traz grandes surpresas, se em um momento você está no euro trance, em outro você pode se deparar com um dos maiores hinos da música: Depeche Mode – Enjoy The Silence. É espantoso e ao mesmo tempo espetacular o efeito que a voz de Dave Gahan tem sobre as pessoas que amam música eletrônica. Logo em seguida mais um clássico, só que dessa vez da house music lá do final dos anos 90: Stardust – Music Sounds Better With You. Seria Joris o camaleão do carnaval? Vestindo a fantasia de inúmeros estilos musicais e acertando muito bem em cada escolha? Talvez, mas o encerramento do seu set ainda reservava mais uma surpresa: Ringo, tida até hoje como um dos seus maiores clássicos.


Foto: Gustavo Remor



Economizar energias de domingo para segunda valeu a pena, poucas vezes se vê um nível tão alto de profissionalismo e comprometimento quanto o apresentado no terceiro dia. Infelizmente devido ao atraso no voo e a impossibilidade de conexão, Tânia Vulcano que era a artista que eu mais queria ver, não pode vir. Rapidamente o time do templo se pronunciou nas redes sociais e remanejou os horários de Seth Troxler e The Martinez Brothers, fazendo com que a brincadeira começasse às 23h e seguisse com os três até o fim. Não é de hoje que eles se juntam para proporcionar noites recheadas de clássicos, em 2016 no aniversário de 14 anos do Warung eles se reuniram no Garden e caíram nas graças dos que estavam presentes. 

Enquanto isso, no Garden estava rolando a estreia de Alex Niggemann, que até então era desconhecido para mim. Mais uma vez deixei o destino encarregado de agradar os meus ouvidos, que já estavam bem calibrados após duas noites. O retorno foi super-positivo, sem dúvidas o melhor nome que o carnaval me trouxe, irei me aprofundar mais em suas produções. O warm up foi feito por Gromma, seguido de Flow & Zeo, mas quem realmente tratou deixar a pista pronta para Nastia foi o alemão Alex. Se no piso superior o house e o tech house iriam imperar, a pista inferior era do techno, daqueles muito bem trabalhados que te deixam hipnotizado e sem palavras. Sem ser muito agressivo ele tratou de deixar todos em ponto de ebulição para que a DJ ucraniana afirmasse mais uma vez seu nome.


Foto: Gustavo Remor





Não é de hoje que as mulheres vem cada vez mais ganhando espaço dentro do entretenimento musical eletrônico, quando se pensa nisso inúmeros nomes são enfatizados como sinônimo de qualidade e acima de tudo respeito. Nastia já acumula um bom currículo, pode se dizer que sua conexão começou a ficar próxima com o Brasil após a sua apresentação na TribalTech de 2014.





O que se nota atualmente é a postura de uma profissional pós-graduada no que faz, que seduz e conduz a pista sem muitas delongas e que sabe manter a elegância em cada mixagem. É extremamente difícil e ao mesmo tempo gratificante não encontrar palavras para definir como foi a apresentação dela: Histórico? Único? inesquecível? São palavras que talvez possam se aplicar muito bem. 

Durante as minhas idas e vindas entre o Inside e Garden em uma tentativa de tentar me dividir em dois para extrair o melhor dos dois palcos, eis que me deparo com uma homenagem ao povo brasileiro. Sim, a polêmica Rap da Felicidade de Cidinho e Doca. Antes da criação deste texto analisei a música várias e várias vezes, criada em 1995, explodiu trazendo uma mensagem politizada que mensurava a realidade das comunidades do Rio de Janeiro, onde moradores eram frequentemente desrespeitados pela sua condição financeira. Se aplicada aos dias atuais, nota-se um subliminar pedido de socorro. O funk é algo intrínseco da cultura brasileira e sempre esteve presente, mas nem sempre agradou gregos e troianos, assim como vários outros estilos musicais. Dentro do Warung a recepção por muitos foi negativa: “Como pode um DJ tocar isso? ” Outros falaram: “Isso que é homenagem! ”. Dentro do turbilhão de opiniões geradas, devemos ser gratos pelo trabalho que o DJ tem de chegar aqui, procurar algo que seja nosso e consegui encaixar perfeitamente dentro da sua história apresentada na noite. 


Foto: Gustavo Remor

Para o final do set, outra homenagem, de um cantor que possivelmente foi uma das melhores vozes da MPB, Tim Maia. Não é a primeira vez que Acenda o Farol ecoa pelas estruturas do templo, mas sempre que surge, todos cantam e seguem o dia com a certeza de que mais uma noite foi curtida com sucesso.



O carnaval é sempre um período marcado por muitas histórias e experiências que na sua grande maioria sempre deixam saudades, em 2018 a sensação não poderia ser outra. Nossas atenções agora se voltam para a segunda edição do festival holandês Dekmantel que acontece 3 e 4 de março em São Paulo, simultaneamente ao retorno de Marcel Dettmann e Nina Kraviz ao templo da Praia Brava.