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  • Guy J e um carnaval imersivo no Garden do templo

     

    É inegável: o carnaval do Warung Beach Club tem uma atmosféra própria e reconhecível. Algumas das noites mais marcantes da história do clube ocorreram durante as tradicionais três noites, com as portas da Praia Brava se abrindo para reunir a diversidade cultural de pessoas advindas dos mais variados lados desse país continental. 

    Com o objetivo de agradar o maior número de pessoas possível, a formação do clássico sábado (25) de carnaval trazia uma mescla interessante de artistas, desde nomes que estão buscando seu espaço, como Hito, até outros que já foram sinônimo de casa lotada com apenas o peso do seu nome, a exemplo do lendário parte duo do projeto Deep Dish, Sharam. 

    A parte principal dessa noite de abertura foi composta por dois destaques que vivem seus auges na carreira e tinham a missão de fazer a noite de todos compensar, ainda que em níveis diferentes. Me refiro ao francês Agoria, que teve o privilégio de encerrar o Inside, e do israelense Guy J, que é a figura central deste review por ser um artista que vem construindo uma carreira sólida e de personalidade musical extremamente alinhada com o que acredito ser o que meus ouvidos mais apreciam, além de estar no seu momento mais estelar. A cada lugar que passa deixa mais e mais novos admiradores. Jogar no carnaval brasileiro era uma grande oportunidade para ele desprender novas mentes, quanto à isso, adianto que não há dúvidas. 

    Após algumas alterações de horários atendendo o pedido de muitas pessoas, Guy J foi realocado para o meio da noite, não teria a atmosfera do amanhecer, mas ganhou quatro horas e meia de set. Alguns artistas precisam de tempo para mostrar seu trabalho, esse estilo é conhecido por noites longas e instrospectivas e Guy J é um deles. Para o warm-up foi escalado a sempre interessante dupla da casa, Conti & Mandi. Ao adentrar o club e me digirir a pista, pude notar que a música estava fechada e carregada de elementos, é importante quando os DJs tem a missão de receber o público fazem uma pesquisa musical focada para melhor se conectar com o artista principal, deixando todos no clima ideal. Com mixagens tranquilas e bom andamento, o set deles foi exemplar, quando o israelense chegou para montar suas coisas, todos estavam ansiosos.

    Pontualmente à 00:30 Guy J começou seu set chamando todas as atenções para si, foram três minutos de toques de piano e leads viajantes, com um loop de hi-hat de fundo colocando todos em sintonia à esperar com ambição as primeiras batidas. Em seguida, puxando a memória dos mais atentos de suas produções, entra em ação Story of Us, sob seu alter ego Cornucópia o recado estava dado, ele não entraria em muitas delongas. Pode-se dizer hoje que Guy J é o produtor líder da retomada mundial das sonoridades com profundidade e melodia, muito por conseguir personificar de forma unica uma textura macia e intensa, extremamente concentrada em sua própria personalidade. 

    O preço de se ter um estilo tão bem definido é o de ter que ser mais direto, perdendo um pouco da construção do set, já que seu som não é tão amplo. Ao mesmo tempo e em compensação, sua música exibe excelência e um dinamismo pouco comparável no cenário comteporâneo, como mencionei no review de sua vinda em 2016, é house progressivo da mais pura classe, ainda que a elaboração durante o tempo não incorpore o mesmo tradicionalismo. Apesar de acreditar que ele não toque em blocos, igual artistas como Dixon e Mano Le Tough fazem, ele assim como os dois nomes citados pensa a pista de dança dentro de uma visão de produtor musical. Não existe demasiada preocupação em construir um set de baixo para cima, e isso não é uma crítica, longe, conseguir fazer todos se manterem conectados subindo até o limite do seu estilo e descendo a intensidade sem deixar de ser dançante é algo admirável. Acredito ser uma maneira mais sofisticada de trabalhar, como se estivesse em um arranjo levemente tribal pelo meio, com variações entre melodias e timbres sombrios por cima, acelerando e cadenciando as linhas de baixo. Guy J exibe isso de uma forma tão natural que não imaginava ser possível dentro deste estilo de som, porém, vale reforçar, sua música sempre tem balanço, groove e movimento que faz todos respirarem conforme sua vontade, e é ai que está o segredo. Suas ondas pelo Garden eram profundas e suas quebradas à beira da praia eram avassaladoras, éramos capazes de nos distanciarmos e logo em seguida estarmos com os pés na areia. 

     

    Antes das 02:00 ele já tinha subido o ritmo ao extremo, mixando com sua controladora quatro canais em sequência com enorme destreza e sacando aplausos ainda nas viradas, algo que os fãs de Hernan Cattaneo estão bem acostumados, e assim como o maestro argentino, não temia expor sua transição, ao contrário, fez dela uma de suas maiores virtudes ao deixar que o expectador aguardasse cada momento com entusiasmo. Outra novidade em relação à sua evolução comparando com 2016 é a aceleração do bpm. É fato que uma pista aberta, mesmo não sendo grande, exige maior fluidez, mas seu aumento de velocidade se daria de qualquer forma, se trata de ganho de experiência.

    Às 03:00 um de seus últimos lançamentos ganha destaque, “MDQ” era um aviso do que estava por vir. Um dos maiores benefícios de se tocar com o software Traktor é a possibilidade de usar loops, seja com presets ou entre as músicas, abrindo assim um leque de oportunidades quando se tem uma mente criativa, foi assim que magistralmente Guy J conseguiu colocar no auge da noite a música que além de ser uma das minhas favoritas dele, era algo que ainda sonhava poder ouvir novamente no Warung. “Lost & Found” às 03:30 sem perder o ritmo foi subliminar, aí em diante era só seguir, a pista estava vencida. 

    Abrindo a última hora ele começou a apresentar músicas mais sentimentais, baixos com notas longas e a incômoda sensação de que logo precisaria parar. Seu lado emotivo, que tanto lhe fez seguidores no início da carreira, estava ali, exposto em pleno carnaval, abrangendo novas mentes que talvez só o tinham ouvido de nome. Para celebrar tudo isso, reviveu um daqueles seus lançamentos que não são tão conhecidos, mas você sempre reconhece que é de sua autoria, “Pathos”, lançada pela sudbeat em 2012, colocando todos em imersão. Neste ritmo de despedida, mesmo com a energia recíproca para mais horas de música, ele gentilmente cede passagem. 

    Por mais que o tempo passe e as coisas mudem, alguns nomes sempre terão uma vaga no Warung, fizeram coisas demais para a nossa cena e devem ser lembrados, e o iraniano Sharam é um dos poucos que tem esse poder. Inicia sua volta ao templo de forma bem consistente, era evidente que ele iria flertar com o techno, porém, mesmo podendo ser interessante, parecia que todos já estavam sentindo falta do balanço encaixado que Guy J tinha imposto nas últimas horas, então era hora de mudar. A curiosidade em ver Agoria era boa o suficiente para me dirigir à parte da frente do inside. Observando ao redor, notei que todos estavam contagiados com sua música. Mais uma vez, o choque de conceitos musicais falou mais alto, já eram quase seis horas quando comecei a conseguir entrar no ritmo do francês. Ao ver o início do amanhecer, outra oportunidade surgiu. 

    Em todos esses anos frequentando o clube nunca consegui abandonar as primeiras fileiras da pista, sempre senti a necessidade de ter aos meus olhos distância suficiente para observar os movimentos do artista, e naquela hora me dirigi a um dos pontos mais emblemáticos do templo, a sacada foi a melhor escolha possível. Receber o surgimento do sol acompanhado de pessoas que estavam ali pelos mesmos motivos que eu, ouvindo Agoria jogar um de seus hinos, “Scala”, chegou até nós contrastando com um ensaio fotográfico no horizonte repleto de cores e formas. Mesmo sabendo que a música iria se estender até as oito horas, decidimos tomar o caminho de volta com o pensamento repleto de satisfação, mas desejando o retorno do pequeno gênio no lado de cima. 

    Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana
    Videos por: Fernando Hauenstein

  • John Digweed explora as relações humanas em retorno ao Warung

    A primeira semana de fevereiro de 2017, apenas outra data entre várias do calendário de verão no Warung Beach Club, carregava consigo a marca do retorno de um de seus maiores expoentes, parte de um seleto grupo de DJs com mais de 10 anos de casa e uma espera angustiante de quatro anos por seus admiradores: “Ele voltaria como o mesmo de outros tempos?” John Digweed teria que agradar não um, mas dois pontos de vista dominados por incertezas, pois também era uma figura a ser redescoberta pelo atual público do clube:  “vamos ver quem é esse cara”, missão difícil…. Infelizmente, ser um dos maiores nomes da história da dance music não é o bastante em um país onde poucos pesquisam sobre de onde veio tudo, porém, bastou sua entrada misteriosa e as primeiras batidas, para algumas dúvidas serem quebradas. 

    Antes que você se pergunte se cheguei ao templo apenas na entrada do headliner da noite, devo merecidamente destacar os dois artistas que consegui assistir antes. Gaby Endo, um nome até então desconhecido para mim, jogou no Garden perfeitamente alinhada com a sonoridade All Day I Dream, tão aguardada pela figura de Lee Burridge. À uma hora subi para conhecer outro artista, o argentino Herr fora escalado por saber muito bem quem viria por seguinte, seu set carregado de baixos submersos e largos esteve como um contraponto ideal para o warm-up. A noite ainda trazia outras constantes que faziam todos se sentirem à vontade, público na medida, calor moderado, sound system beirando a perfeição e pessoas certas ao lado. 

    Sempre tive John Digweed entre meus artistas favoritos por admirar sua forma universal de lidar com a música, ideias e conceitos muito peculiares que deixam transparecer um cuidado – carreira, lançamentos e gravadora – de alguém que está em constante busca da perfeição, e nesse review além de relembrarmos suas cinco horas de set, que de certa forma retratam tudo isso, vamos também procurar entender o que é um artista em sua totalidade. 

    Embora cada pessoa seja uma em sua individualidade, algo irrepetível e, até certo ponto, insondável, ela precisa se relacionar com outras para se desenvolver como “ser humano”. Para compreendermos como John alcançou sua totalidade, devemos primeiro entender como ele se relaciona com as pessoas que se dispõem a ouvi-lo. A pista de dança não é uma mera justaposição de corpos com uma entidade acima das pessoas, ela é formada por um todo na medida em que se inter-relacionam, formando uma teia de laços interiores, dinamizando-se mutuamente e respeitando cada individualidade. Digweed entende como poucos esse contexto, absorve sutilmente a todos e devolve construção musical da mais pura classe. Após o reconhecimento do público em sua aparição, ele começa seu set ao ritmo do artista anterior, e aos poucos vai desconstruído tudo na primeira meia hora até um ritmo um tanto fragmentado, onde a ideia era estabilizar a pista, deixar quem realmente estava ali para isso, e assim, começar a alvejar intensidade até as bordas do infinito. 

     Você já deve ter percebido, observando a si próprio e aos outros com que convive, que somos seres complexos, multidimensionais e porque não, multifacetados, como um diamante. Para entender melhor este “diamante”, é preciso compreender que cada uma destas facetas produz ações e assim tornam-se objeto de estudo do expectador, que busca saber dele o quanto está determinado a agir. Quando se trata de John, observando sua personalidade mais insondável do que o comum, uma mistura de serenidade e frieza, fica difícil saber em que nível está sua determinação em agir. Tentei entrar em sua mente de diversas maneiras, mas ele se mantinha inacessível, estrutural e metódico, como um verdadeiro diamante que brilha por todos os lados sem nenhum esforço. As quatro horas minha consciência estava de acordo que era um dos sets mais bem elaborados que já pude ouvir, conduzido através de movimentos tão precisos que acabavam derrubando qualquer tentativa de acompanhamento, mixagens milimétricamente pensadas deixavam suas transições escondidas. 

    Acredito que um dos seus segredos está justamente nisso, sua fortaleza acima da cabine era uma forma de colocar a todos em uma única posição, a de apreciar e sentir música a todo momento, e o que ele devolvia em troca? Algo totalmente o oposto de si, os poucos breaks eram carregados de tensão, sem respiro, ritmo frenético e infernal que fazia-nos correr sem sair lugar. Essa forma de se relacionar, que deixa sua figura em segundo plano e concentra todas as atenções na música é uma de suas maiores características, e o mais interessante é que por ser inacessível aos olhos da pista, sempre cabisbaixo e concentrado na manipulação sonora, ele não te faz querer buscá-lo na cabine, porém você a todo momento sabe quem é que está no comando. 

    As cinco horas a música continuava aquecida, cheia de elementos progressivos e delirantes, ainda assim, nota-se a diferença dos grandes DJs para os demais quando eles podem surpreender dentro daquilo que supõe-se beirar a perfeição. Isso é algo que o artista precisa sentir, por meio de um exame das consequências práticas a que cada aspecto da sua música pode levar, e assim descobrir o ponto de convergência da noite em seu sentido mais amplo. John segurou os elementos carregados até o limite, e antecipando a vontade de inovação que todos iriam precisar após tantas horas, começa a soltar sua linha mais agressiva e que tanto é comentada mundo afora. Seu techno fica mais limpo, linear e mixado rapidamente, fazendo todos se olharem deslumbrados, o ritmo ainda poderia ser jogado a mais um degrau? Sim! A essa altura já se passavam das seis da manhã, e todos tinham a mesma energia do começo da noite. 

    Nessa pulsação ele poderia levar a pista por mais quantas horas quisesse, era dançante, com poucos cortes e rápido, muito rápido, quando essa difícil mistura entra em ação, onde a energia das pessoas está no seu máximo, fica fácil de criar momentos de euforia, sem precisar recorrer aos efeitos ou breaks longos, a alta energia concentrada faz todo o trabalho, é só preciso mantê-la. Obviamente, essa é uma tarefa e um estado de domínio das relações humanas que só um verdadeiro mestre da arte consegue alcançar, um ser dotado de aspectos e capacidades quer sejam naturais ou adquiridas, que podem ser desenvolvidas ao longo da noite, aumentando suas potencialidades e por fim, um todo. 

    Perto das sete horas o ritmo desacelera e se cadencia, era hora de mais uma mostra de como deixar todos se entregar. Quando um arranjo de piano entra em cena, a primeira música emotiva de toda a noite, percebi que era algo especial, logo depois uma voz familiar começa a cantar com autoridade sob um leve delay: “Say hello to the greater men.
Tell them your secrets they’re like the grave. Oh what you have done, oh what you have done.
Love is lost, lost is love….”

    Simplesmente David Bowie em um dos seus últimos sucessos ecoando pela pista abraçada por um dos mais lindos amanheceres dos últimos anos. Mais tarde descobri que o edit de “Love is Lost” era de Chris Fortier.

    Nessa levada descontraída onde “Diggers” não conseguia segurar o sorriso, mantém-se por mais alguns minutos até começar a deixar todo aquele turbilhão sonoro desvanecer-se, ao mesmo tempo que se abaixa atrás da mesa, e quando tudo para, apenas o sopro de um splash bate por alguns segundos criando a última expectativa do seu set, ao aparecer novamente e ser reverenciado por todos, solta os acordes inconfundíveis de “Strings Of life” em um edit ainda desconhecido, ditando a mensagem final! 

    Era isso mesmo, estava ouvindo um dos maiores clássicos da música eletrônica, composta pela genialidade do cara de Detroit, Derrick May, através das mãos de uma das mentes mais inquietas e inovadoras que a cena já produziu, uma soma que me trouxe entendimento necessário antes de deixar aquele lugar. Algumas pessoas você consegue ver, sentir e até compreender sua totalidade, mas jamais terá as chaves que abrem as portas até ela. 

    Crédito Fotos: Gustavo Remor

    Crédito Videos: Michelle Schneider Luchtemberg e Fernando Hauenstein

     

  • Novidades sobre o próximo álbum de Jeff Mills: Planets

     

     

    Em janeiro, Mills deixou os fãs curiosos com o novo projeto, um eletrônico clássico conceitual homenageando a peça Os Planetas (1916), de Gustav Holst. Os toques finais no álbum de Mills foram feitos em 2016 no Abbey Road Studios, em Londres.

     

    A versão em CD de Planets contém nove faixas. Haverá também uma versão em Blu-ray, que a Axis descreve como “um conjunto de dezoito movimentos instrumentais que explora os nove planetas, incluindo as porções de espaço entre os planetas, as nove regiões que Mills chama de Trânsitos de Loop.”

     

    Tracklist

    01. Mercury

    02. Venus

    03. Earth

    04. Mars

    05. Jupiter

    06. Saturn

    07. Uranus

    08. Neptune

    09. Pluto

     

    Em junho deste ano, Mills fará uma residência de quatro dias no The Barbican, em Londres, contemplando a estreia no Reino Unido de seu show Planets.

     

    Assista ao novo teaser de Planets:

    Saturn from PLANETS by Jeff Mills from AxisRecords on Vimeo.

     

    Aproveite para conferir o podcast RA Exchange com Jeff Mills, de 2014:

     

     

    Planets será lançado pela Axis Records em 24 de março de 2017.

     

    Fonte: Resident Advisor

  • Dekmantel Festival e uma das mais legítimas manifestações culturais do nosso tempo

    Lá nos idos de 2010 em uma conversa de bar profetizei algo que, na época, fora refutado por quase todos que estavam na mesa: em um momento de empolgação disse que a década de 10 seria o momento no qual a música eletrônica seria reconhecida como uma forma de expressão artística legítima desta geração. A primeira metade seria o momento da massificação, com a tomada do mainstream musical por DJs com foco comercial, enquanto a segunda seria o momento da qualificação, quando o underground emergeria à superfície e, aos poucos, mostraria o verdadeiro potencial artístico da música feita por máquinas. Pois bem, já estamos no sétimo ano da década e o Dekmantel Festival, realizado nos dias 4 e 5 de fevereiro em São Paulo, é a materialização mais clara de que minha aposta foi certeira!

    Digo isso não só pela curadoria apresentada, algo que não era visto no Brasil desde o saudoso Sónar SP 2012, mas pelo contexto todo que foi vivenciado no último final de semana. Desde que comecei a escrever no Psicodelia.org, há sete anos, uma das bandeiras que levanto é a de que a cultura eletrônica pode sim ser o grande ponto de ruptura de nossa geração com o sistema imposto, se espelhando nos movimentos de décadas passadas e compreendendo as particularidades da atual, mantendo viva a esperança de que a arte possa ser o ponto de partida para que uma nova sociedade seja construída.

    Utopias à parte, podemos não ser os revolucionários da vez, mas temos que concordar que somos uma tribo muito mais elevada intelectualmente do que a Rede Jovem Pan FM tentou sugerir em uma matéria sensacionalista publicada às vésperas do festival, insinuando que ele seria uma rave frenética, com pessoas fazendo sexo nas ruas e sem as devidas autorizações legais para acontecer. Sobre a deturpação do termo rave já falei há alguns anos em outro texto, mas toda a imagem pintada serve de contra-ponto para que eu comece a descrever a minha experiência neste evento, que passei a chamar de ritual, dividido em três atos.

    1º ATO: UMA CONVERSA COM O DEUS DO TECHNO

    A beleza de um festival de música reside em sua pluralidade. É geralmente nele que encontramos pessoas de diferentes tribos, crenças, classes e com diferentes objetivos convivendo em plena harmonia. Ir a um bom festival é como fazer uma visita ao paraíso, àquele lugarzinho perfeito que nós idealizamos internamente e temos dificuldade em encontrar no “mundo real”. Por isso cada vez que vou a um que sei que irá atender às minhas expectativas me preparo para sentir emoções intensas, vivenciar momentos de epifania e me tornar uma pessoa diferente e melhor após seu término.

    No Dekmantel essa sensação começou já na entrada: apesar da chuva, os seguranças mantiveram o sorriso, recepcionando as pessoas com saudações e capas gratuitas. Depois de passar pela revista e validação do ingresso, um rápido giro por todas as pistas foi suficiente para surpreender-se tanto com a forma inteligente que a estrutura do Jockey Club foi aproveitada, criando uma ótima ambientação sem precisar de muita cenografia específica, bem como com o perfil do público presente. É difícil de descrever sem cair na armadilha de estereotipar, dava pra reconhecer diversas tribos com suas particularidades e talvez um único fator em comum: a relação com a música. O radicalismo na curadoria pode ter espantado a grande massa, mas serviu para atrair ao festival pessoas que o enxergam como mais do que uma simples festa, mas sim um ambiente de diversão, libertação e evolução pessoal. O line-up se dividiu em cinco pistas e obrigou o público a fazer escolhas, já que não eram raros os momentos em que duas ou mais atrações de interesse se apresentavam simultaneamente. Por conta disso este review irá falar mais sobre os artistas que vi e que construíram a experiência pessoal que vivi lá.

    Minha primeira parada foi na pista UFO, um “inferninho” montado entre duas construções com aspecto de deterioração visível, num visual que facilmente remetia ao termo underground. O artista se apresentando era Anthony Parasole, como não o conhecia fiquei muito satisfeito em começar por algo novo e agradável aos meus ouvidos. Com seu som dançante e pesado imergi na atmosfera do festival, de cuja qual só sairia dois dias mais tarde. De lá segui para o palco principal, onde finalmente veria Nina Kraviz do começo ao fim neste ano. O começo da apresentação foi conturbado, o volume do sound system estava baixo e o público estava visivelmente incomodado (e incomodando) com isso. Após quase meia hora finalmente a falha foi corrigida e nós pudemos, em paz, apreciar o que ela tinha a apresentar. O set que ela tocou foi menos experimental e ousado do que os tocados anteriormente na tour brasileira, imagino que pelo fato de que nesta data ela não fosse a maior headliner. O que passou na cabeça da artista jamais saberemos, o importante é que foi uma ótima seleção e mixagem de preparação para o que viria a seguir.

    Até este ponto eu estava satisfeito, mas ainda sem aquele sentimento superlativo em relação ao festival – algo que seria rapidamente mudado por Jeff Mills. Apesar dele ser um dos precursores do movimento de Detroit e de eu apreciar muito seu trabalho como produtor, confesso que pouco pesquisei sobre seu live em si. Como um cara que odeia spoilers faço isso propositalmente e com frequência, guardando o máximo de surpresas para o momento de ver pessoalmente. Talvez por isso eu tenha sido tão impactado pelos minutos vividos diante do mago dos sinos!

    Sua capacidade de se comunicar utilizando a TR-909 como linguagem é incrível, imediatamente me colocando sob hipnose. Enquanto dançava em seu ritmo acelerado, mergulhei no transe e consegui encontrar respostas para diversas questões e reflexões que residiam em minha cabeça. Como disse anteriormente, cada um extrai uma experiência do festival, não julgo quem teve formação diferente da minha e estava em outra pista, no entanto eu, alguém que tem Detroit, techno e música clássica como referência para deixar uma marca no mundo, não poderia estar em outro lugar.

    O que vivi ali foi tão abstrato quanto a música de Mills, por isso resumo metaforicamente a minha impressão após ser ejetado de volta ao mundo: o deus do techno nos enviou o seu messias para dizer, em pleno bairro nobre de São Paulo, que a cultura eletrônica veio pra ficar! Como eu estava virado desde o dia anterior, quando havia prestigiado a festa do Club Vibe com Nina Kraviz em Curitiba, optei por não ir à Fabriketa neste dia. Fiquei sabendo que Ben Klock operou um massacre do qual gostaria de ter participado, mas macaco velho não entra em roubada: ainda havia um dia inteiro de novidades me aguardando.

    2º ATO: A FUSÃO ENTRE MÚSICA E ELETRÔNICA

    No domingo acordei com uma sensação maravilhosa de otimismo. Não sei se foi a “ressaca” do dia anterior, se foram os diversos comentários positivos pulando no meu Facebook ou se era o tempo lindo que fazia, com o Sol reinando imponente no céu de São Paulo. Sei que me apressei para almoçar e chegar cedo no Jockey Club, já que meu segundo dia começaria com uma das atrações para que mais criei expectativas nos últimos meses: Hermeto Pascoal.

    Isso aconteceu porque em 2015 tive a oportunidade de vê-lo no Festival Choro Jazz, no Piauí. O que eu estava fazendo em Barra Grande no exato fim de semana que a cidade recebia um festival de jazz com esta lenda é o tipo de acaso difícil de explicar, pois viajei apenas para aproveitar as passagens previamente compradas para um casamento que fora adiado. E apesar de já tê-lo visto lá, sabia que a experiência no Dekmantel seria nova, já que o público e a proposta do evento era outra.

    Dito e feito, pontualmente às 15:30 eu estava lá nas escadarias do fundo da pista Gop Tun / Boiler Room, resistindo a um calor escaldante muito graças ao protetor solar, oferecido gratuitamente por uma equipe espalhada pelo local. Poucos conhecidos na pista, certamente apreciar esse show não seria só chegar lá aleatoriamente, eu mesmo tive que fazer uma preparação meditativa para conseguir acompanhar sem perder o fio da meada. Nos primeiros minutos o que se viu foi um jazz extremamente intenso, improvisos que beiravam a confusão, mas que sempre encontravam um caminho para seguir e concluir suas tensas frases.

    A maratona mental foi quebrada pela primeira vez quando nosso Dumbledore brasileiro pegou o microfone e começou a dialogar conosco, seu público. As palavras exatas eu jamais lembrarei, mas a mensagem era simples: ele estava muito feliz por estar ali e havia vindo pelo mesmo motivo que nós, para sentir! E com um simples convite para solfejar junto ele desconsertava a todos, que não esperavam algo assim em uma rav… digo, festival de música eletrônica. Mesmo eu, que cantei sem receios no Piauí, não consegui entoar as notas com toda a força do pulmão. Porque será que não gostamos de abrir a boca em nossas festas?

    Alguns la-la-lê-lê depois voltamos ao caos com um insano solo de bateria e percussão, não sem antes ouvir do próprio mestre que já que eles tinham só uma hora, nessa hora eles tocariam mais do que em muitas horas! E a beleza daquele momento encantava, a mensagem que os holandeses queriam nos passar era clara: se queremos evoluir a música eletrônica nacional, temos que olhar para nossas raízes. Cada instrumentista fez seu solo, até que chegou o momento em que Hermeto concluiu sua obra, apresentando cada integrante do grupo enquanto eu sentia um orgulho gigantesco, por ter acompanhado uma hora do trabalho de pessoas tão geniais e por elas serem brasileiras.

    De lá segui direto para o palco principal, onde Moodymann já se apresentava há alguns minutos. Meu estado de choque era tão grande que mal conseguia ficar em pé, precisei sentar na arquibancada para processar todas as informações. O som de Kenny Dixon Jr caiu como uma luva para o estado em que me encontrava, agradeci a cada groove macio e melodia bela que fora tocada. Mais uma vez diversos nós se desfaziam em minha mente enquanto o DJ controlava as emoções, até que quando Do It Again (Steely) fora tocada tive que enxugar lágrimas que, literalmente, escorriam por meus olhos. 

    3º ATO: A CONSTRUÇÃO DO FUTURO QUE QUEREMOS

    A noite começava a cair quando me reposicionei diante da caixa esquerda pra acompanhar a última parte da jornada, que iniciava com John Talabot. Só depois dele começar o set que me dei conta de um fato curioso: apesar de praticamente todo o line-up poder ser considerado influência para mim, o resultado final que apresento com meu irmão à frente do Kultra é mais próximo das duas últimas atrações do palco principal, justamente as que estava prestes a ver.

     

    Mais alguns minutos e pude me identificar ainda mais com Talabot, já que sua característica mais marcante é a criação de uma atmosfera densa, algo que eu também busco desenvolver ao máximo em minhas apresentações. Conforme adentrávamos o período noturno o headmaster da Hivern Disc correspondia intensificando sutilmente a pressão com que as melodias nos abraçavam. Como alguém que já ouviu bastante set gravado seu (olha aí o mal do spoiler) fiquei com a impressão de que ele poderia ter ousado mais, mas ver a hora de Nicolas Jaar se aproximar criava ansiedade suficiente para desejar que o conforto fosse mantido até então.

    Quando John acabou que fui perceber que Nico seria o único a tocar em um patamar diferente do palco: no mesmo nível da mesa do DJ só que ao fundo fora montado o cockpit dele, cercado por sintetizadores e luzes, que acendiam-se em movimentos claramente sincronizados com a atmosfera proposta pelas músicas sendo tocadas. Sua introdução, um experimentalismo que misturava Garden Of Eden, Killing Time e mais alguns elementos que não deviam pertencer a trabalho algum de estúdio, demonstrava nitidamente que ele não estava pra brincadeira. Infelizmente os primeiros minutos de sua apresentação fora o momento no qual mais me incomodei com o “público vizinho”, diversas pessoas que estavam ali se importando mais em contar para os amigos o quanto eles eram superiores por estarem vendo Nicolas Jaar e menos em de fato sentir e apreciar o que torna o chileno um artista tão diferenciado.

     

    Alguns passos pra trás e finalmente pude mergulhar no mundo do jovem prodígio, que mostrou que mais uma vez o álbum é uma obra à parte do que ele faz ao vivo, apresentando um repertório muito equilibrado entre músicas conhecidas e músicas totalmente inéditas pra mim, aquelas que provavelmente jamais verão a luz do dia sem ser em um live do seu criador. Depois de ser deliciosamente torturado por uma hora de melodias e ambientações melancólicas encaixadas com maestria em grooves intensos, finalmente fui trazido à superfície pelos hits que sabemos cantar junto, todos em versões totalmente repensadas para o ambiente ao vivo. Quando o vocalista proferiu a frase “Space Is Only Noise If You Can See” vi que tínhamos apenas 10 minutos. Foi quando olhei para o céu, admirei o skyline paulistano servindo de cenário, cantei junto e encaixei as últimas peças que faltavam no meu quebra-cabeça, agradecendo muito a cada efeito borboleta que havia contribuído para a construção daquele momento.

    Ainda houve tempo para curtir um mash up de El Bandido com Mi Mujer, antes que Jaar tivesse que cortar abruptamente o som, obedecendo à determinação de que o som deveria acabar pontualmente às 22:30. Como havia me poupado no dia anterior, não hesitei em ir à Fabriketa para o after oficial, onde pude acompanhar um back-to-back entre John Talabot e Kornél Kovács muito bem entrosado, com uma sonoridade mais próxima do que eu esperava do espanhol. Um belo prêmio para alguém que sobreviveu a tantas emoções propostas nos últimos dias!

    PRÓLOGO: O LEGADO

    Como puderam perceber sou um cara romântico, que ainda acredita na humanidade e espera obter sempre a melhor experiência possível de cada situação. Para alguém com esses valores e uma base musical como a minha, o Dekmantel Festival parecia algo feito sob medida, com o propósito de abastecer as esperanças e mostrar que há um caminho que pode ser seguido. Fico ainda mais feliz em perceber que ele teve 5 pistas e dezenas de artistas que eu sequer sei o nome, mas que tenho certeza que tocaram outras pessoas da mesma maneira que meus selecionados fizeram comigo.

    Não acho que todo mundo deveria gostar de Nicolas Jaar, Hermeto Pascoal ou Jeff Mills como eu gosto, cada um tem sua história e seus anseios. No entanto, se todos encarassem a música e a vida com amor e sinceridade, quem sabe seja possível transformar nossa sociedade, para que nossas gerações futuras encarem um evento desses não como água no deserto, mas sim como parte da sua criação de base. A chave para isso está em nossas mãos! Qual será a próxima jornada?

  • Mike Servito no Dekmantel Festival São Paulo 2017

    Nascido e criado em Detroit, Mike Servito vem balançando a cena eletrônica em Nova York desde 2012 como um dos principais residentes do The Bunker, e mal podemos esperar para ele tomar o mundo. Com um som inovador que combina melodias clássicas com techno de raiz em transições épicas, os sets de Mike são o produto de uma personalidade revolucionária com habilidades insanas. Seus sets são arte, ponto. Não admira que seja bom amigo de Magda, que alega ser sua maior fã.
     

    Depois de espalhar sua mágica dos Estados Unidos à Europa, é hora de finalmente testemunhar a música transcendental de Mike no Brasil, graças ao Dekmantel Festival São Paulo 2017. Então não deixe de conferir o trabalho desse DJ que já imprimiu seu estilo único e desponta como um dos expoentes da boa música eletrônica.

    Serviço

    Dekmantel Festival São Paulo 2017
    Local: Jockey Club e Fabriketa
    Data: 04 e 05 de fevereiro de 2017
    Site oficial
    Evento oficial
    Ingressos à venda  

  • Conversamos com Ney Faustini às vésperas de sua apresentação no Dekmantel Brasil

    Sem dúvidas, uma das grandes atrações do Dekmantel Festival é o paulista Ney Faustini, que em meio a tantos nomes importantes tem seu lugar de destaque e carrega consigo uma nação que ama o seu trabalho. Ele é aquele tipo de artista singular, que não encontramos nas prateleiras de lojas comuns, pois seu trabalho é denso e cheio de camadas a serem desvendadas.  

     

     

    Em todo tempo que o acompanho já apreciei vários momentos incríveis. Já pude ver seus belos edits de clássicos brasileiros e internacionais, influências que vão do hip-hop ao jazz, como também sets de house, techno, ou tudo misturado, sem prender-se a uma aparência. Embora isso devesse soar como comum, graças à nossa cultura extremamente rica, não é o que acontece. Poucos artistas conseguem extrair leveza e originalidade nesse contexto, por isso ele está onde está: a poucos dias de abrir o palco principal do Dekmantel Festival em sua primeira edição em terras tupiniquins.

     


    Para conhecê-lo melhor, o convidamos para um bate papo sobre a sua carreira e o que ele está preparando para esse momento único.

    1 – Olá, Ney! Primeiramente obrigado por aceitar o convite e responder algumas perguntas para o detroitbr. Nosso coletivo tem uma relação muito intima com você e acompanha sua carreira diariamente, e mesmo assim somos pegos de surpresa com freqüência diante de seu dinamismo musical. Como é pra você organizar todo esse conteúdo fazendo como  que cada uma de suas apresentações soe como se fosse a primeira? Como que funciona o ritual de cada apresentação? Você pesquisa sobre os locais que você vai tocar para preparar da melhor forma? Explique um pouco pra gente sobre isso.

     

    Prazer em falar com vocês! Bom, acredito que toda gig merece uma atenção e preparação bastante específica. Acho importante, antes de tudo, investir tempo em pesquisa e conhecer bem os discos e as músicas que você tem pra, a partir disso, analisar o conceito da festa, o horário, ordem do line up, etc. Na minha residência no D-Edge, por exemplo, gosto igualmente de fazer warm-ups ou de encerrar a noite com sets de 5h, o que obviamente exigem preparações diferentes. Separo sempre uma bag de discos e tenho conseguido me encontrar cada vez melhor nas pastas dos meus pen drives, que tem de tudo, do techno à mpb. Acho que montar repertórios de estilos distintos torna-se natural quando você sabe exatamente o que quer ter gravado ali. Gosto de encarar situações distintas e de encontrar caminhos para que eu possa tocar o que eu quero, de acordo com cada uma delas. Arriscar músicas e seqüências inusitadas pode não ser o caminho mais garantido, mas é sempre divertido, mesmo quando alguma coisa não funciona tão bem.

     

    2 – E para o Dekmantel Festival, como está sendo sua preparação? Que surpresas podemos esperar?

     

    Apesar da ansiedade, comecei a pensar mais na apresentação no Dekmantel só nos últimos dias. É um festival com o qual já tenho uma identificação musical muito natural, mas tenho consciência da responsabilidade que é abrir o palco principal. Apesar de ser um set de 1h30, estou separando uma quantidade de músicas que renderiam um long set rs… Existe a necessidade de se adaptar a situação, e as pessoas estarão chegando, tendo o primeiro contato sonoro e visual com tudo. Eu tenho uma idéia do caminho que gostaria de seguir, mas só vou saber mesmo quando eu ver o público ali, e como estarão reagindo aos primeiros sons, pra tentar construir alguma coisa que faça sentido pro momento. Prefiro não adiantar nada, mas venham de ouvidos abertos rs…

     

    3 – Embora você tenha experiência, o fator psicológico pode ser um aliado ou não em um momento como esse. Como você faz sua preparação psicológica? Mesmo em todos esse anos ainda rola aquele tradicional “frio na barriga”? Em algum momento de sua carreira isso o atrapalhou? Fale um pouco como é lidar com esses momentos importantes!

     

    Eu acho que o “frio na barriga” é parte importante disso tudo, e tem que rolar, em qualquer situação. Você se prepara, imagina a festa, o público, então é natural a ansiedade pra descobrir se é mesmo da forma que você imaginou. E é dessa preparação que deve vir a segurança necessária para que você se sinta à vontade quando for se apresentar. Existe sempre aquele momento em que você tem o primeiro contato com os equipamentos da festa, com o retorno, com o visual da pista… Isso às vezes pode causar uma introspecção natural nos primeiros minutos, mas tudo flui logo que você se conecta com tudo ao redor.

     

    4 – Você é um cara de referências diversas, como hip hop, mpb, jazz, etc. De onde vieram essas influências todas? Como condensar tudo isso em uma apresentação voltada para a música eletrônica?

     

    Eu ouvia quase isso tudo desde moleque, mesmo antes de pensar em ser DJ. Em casa minhas primeiras referências foram Stevie Wonder e Sade. Hip Hop peguei mais na fase do colégio, pouco antes das primeiras coletâneas de house e drum & bass que eu comprei (ainda fase pré Napster, tinha que comprar tudo mesmo). Ouvia dance de rádio nessa mesma época também rs… Tudo isso me influenciou, de alguma forma. Curiosamente, só aprofundei minha relação com a música brasileira e com o jazz quando comecei a tocar drum & bass, lá por 99. Enfim, comecei a pesquisar mais sobre as origens daquilo que eu estava tocando, e fui me aprofundando quase que naturalmente em disco, funk, soul, jazz, mpb, hip hop, dub… É música com alma, no final das contas. E a música eletrônica que eu toco, desde o início no jungle/d&b à Detroit e Chicago, tem relação direta com tudo isso.

     

    5 – Para finalizar nos conte como foi receber o convite para tocar no Dekmantel Brasil? Você sabe como foi feito o critério de seleção? Conte um pouco dos bastidores desta grande notícia.

     

    Apesar de ser frequentador das festas e amigo do crew da Gop Tun, não acompanhei muito dos bastidores, dos critérios… Fiquei sabendo do festival em meados do ano passado pelo Caio Taborda, quando fui acompanhar uma das gravações da rádio Na Manteiga, poucos meses após a Gop Tun realizar uma grande festa no centro de SP, com vários artistas do Dekmantel. Ele basicamente me mostrou uma lista de nomes que pretendiam trazer e disse que eu era um dos DJs nacionais que estavam nos planos. Obviamente fiquei muito feliz em ser lembrado, mas era tudo bem sigiloso, não teria nem como falar pra ninguém. E dali até o convite oficial se passaram alguns meses, então a ficha foi caindo aos poucos rs… O envolvimento do crew do Dekmantel é muito direto, do line up à montagem do festival. Posso dizer que da lista inicial que eu vi, uma parte muito considerável estará por aqui. E praticamente todo o line up é formado por artistas que acompanho de alguma forma. Tô só um pouco ansioso… Falta muito pra sábado? Nos vemos lá!

     

     Foto por Gustavo Remor

  • Petre Inspirescu retorna ao Warung após hiato de 10 anos

    De modo geral, é comum o redator ter seus momentos de baixa criatividade em que o texto não flui, são inúmeros os fatores que rodeiam e primam o cérebro até que você encontre o seu ponto de partida. Redigir um texto sobre um dos nomes que mais efervesce a cena eletrônica romena é de longe um dos meus maiores desafios, desde que comecei a me aventurar por esse vasto mundo. Durante a semana que sucedeu o evento aquele típico frio de noite histórica ecoava sobre mim, as lembranças da última passagem de Petre Inspirescu por terras tupiniquins ainda me assombravam e a certeza que essas memórias seriam excluídas estava prestes a se confirmar.

    Quando se fala em Romênia automaticamente associasse o nome Sunwaves, festival que acontece na praia Bulevardul Mamaia Nord na cidade de Constanta. Por lá, acontecimentos emblemáticos costumam ocorrer com certa facilidade, como o set de 31 horas feito por tINI e Bill Patrick durante o ano passado. No Line-Up, a presença de nomes expressivos como Ricardo Villalobos, SIT, Priku, Premiesku e Herodot fomentam ainda mais que a sutileza do Minimal, em conjunto com Techno e Tech-House formam a proposta do festival em si.

    Um dos momentos mais aguardados durante o evento é a presença do trio por trás da sigla [a.rpia.r], Petre Inspirescu, Rhadoo e Raresh partilham momentos inigualáveis de amor à arte, seja com sua música atemporal que foge dos moldes tradicionais, ou apenas pela presença de palco e sinergia que os rodeia. Receber um desses nomes aqui na cidade de Itajaí no Club de maior referência para o estado e até para o Brasil é sem dúvidas uma das melhores maneiras de se começar um ano.

     

     

    Janeiro é um dos meses mais aguardados aqui no Sul, seja pela noite incandescente repleta de atrações nacionais e internacionais ou pelas praias abarrotadas de turistas de outras cidades do Brasil e do mundo que ajudam a movimentar a economia. A revista britânica de maior prestigio na cena eletrônica mundial Resident Advisor, tomou por assinar quatro noites neste verão. Apollonia, Recondite, Nina Kraviz e Cassy são alguns dos convidados para encabeçar os diversos eventos que estarão acontecendo no Warung Beach Club.

    Sábado, 07 de janeiro de 2017.

    Pelas redes sociais horas antes do evento era possível notar a euforia nas publicações que falavam do retorno de Petre Inspirescu, inúmeros links com vídeos no YouTube, sets no SoundCloud ou apenas o nome Pedro esquentava ainda mais a noite atípica de verão. É comum notar certos erros em algumas noites das quais a curadoria utiliza artistas que não casam tão bem com a atração principal, porém não dessa vez. Gromma e Ale Reis, nomes que não precisam de muitas apresentações, o primeiro sem dúvida alguma um dos DJs curitibanos de maior renome na cena eletrônica brasileira, o segundo por sua vez transborda experiência, conhecimento e respeito.

    A escolha deles para abrir a noite confirma que estamos na direção certa em relação ao conceito de Warm Up. João Paulo Gromma fez nada mais nada menos que 4 horas de set, infelizmente devido à enorme fila que se formava no caminho que liga a praia de Cabeçudas à Praia Brava acabei perdendo a incontestável fábula do “Magrelo”. Ao chegar no Warung outra surpresa não incomum, o convite não estava disponível para a retirada, após horas de ligações, terminei por entrar no Club às 2:20 da manhã, felizmente neste momento acabei me deparando com ninguém menos que o próprio Pedro.

    Usando sandálias havaianas e portando um ar extremamente pacifico transbordou simpatia ao ceder alguns de seus minutos para tirar fotos com quem estava por perto. Aproveitei a chance para lhe abordar e questionar sobre como era retornar ao Warung após 10 anos, modestamente ele me respondeu dizendo que estava contente com o retorno e surpreso com o quão bonito era o público da casa e que muita coisa mudou desde então. O acompanhei até o Garden onde ele observou atentamente a história que Ale Reis contextualizava, o tiozinho como é conhecido faz parte do time de Savages e era dele a honra de entregar a pista pronta para o que estava por vir.

    Pontualmente às 3:30 da madrugada Radu Dumitru Bodiu assumiu o controle da cabine. Subitamente o clima se transformou e a sensação de estar vivenciando algo histórico era nítida. Calmamente ele foi se aconchegando e se adequando a pista e ao local, aos poucos as mixagens começavam a ecoar pelo Garden. É incrível o poder que esse tipo de artista tem, a fascinação que consegue exercer é algo que não se vê todos os dias.

    Muitas das pessoas com as quais falei antes da festa esperavam um tipo de som menos intragável, porém foi exatamente o oposto disso que nos foi apresentado. Pedro se molda de acordo com o lugar, destrói e reconstrói sua história sem muito esforço e não economiza músicas na hora de confundir os ouvintes. Ao mesmo tempo, expõe toda a sua genialidade usufruindo de elementos ritmados e dançantes. Sem muita apelação seu set ia se desenvolvendo de acordo com o tempo que ele tinha, certos momentos de BPM mais baixo já em outros com BPM mais alto, porém sempre mantendo aquele típico som groovado e quebrado, padrão de seu estilo.

    Inúmeras perolas foram decorando a noite, uma das que mais me chamou a atenção foi Clap, produzida por ninguém menos que Ricardo Villalobos. Villa é sem dúvida alguma a maior referência quando se fala em criatividade, infelizmente nesse mês de janeiro completa-se quatro anos desde a sua última vinda para o Brasil.

    Perto das 7 da manhã quando os raios da luz do dia já tomavam conta do Terrace aka Garden, Petre coroa o início da manhã com Dubsons – Faraon, track presente no EP Olecuta lançado no ano passado pela gravadora espanhola NG Trax.

     

    O sucesso no retorno de Petre Inpirescu confirma a existência de um público que anseia por timbres mais refinados, está é a recompensa do trabalho árduo de diversos núcleos em educar e catequizar novos membros com sonoridades aquém das comuns. Nós do detroitbr ficamos felizes em saber que a revolução no modo de viver, pensar e dançar música está cada vez mais presente na vida daqueles que assim como nós amam a música eletrônica.

    Escrito por Thiago Silva

    Fotos por Remor e Juliano

    Vídeos por Bruno Janke

  • Moodymann e suas produções autênticas e atemporais

    Kenny Dixon Jr, ou simplesmente Moodymann, é um dos mais autênticos artistas que já surgiram no universo da música eletrônica. Com uma enorme discografia, o músico e produtor de Detroit que esbanja originalidade em seu trabalho ligado ao techno e ao house, com vasta influência de jazz, soul e disco music, vem para o Brasil na próxima semana para uma apresentação única no Dekmantel em São Paulo.

    Kenny é conhecido por ser polêmico, incisivo e com personalidade forte, ligados ao seu ativismo claramente expostos em suas produções trazendo sempre mensagens anti-racismo e de cunho sócio-político, com estatísticas ligadas a fatos da história norte americana envolvendo o movimento negro da época. Em seu próprio label, a KDJ Records, ele explora bastante essa identidade. 

    Nos meados dos anos 90, trabalhou em diversas lojas de discos de Detroit, incluindo a loja do produtor Blake Baxter, onde certamente aflorou ainda mais a sua paixão por discos o fazendo um grande defensor da cultura do vinyl e da arte do digging. Seu primeiro álbum, intitulado Silentintroduction (1997) e lançado pela Planet E Communications de Carl Craig, deu início à sua incursão no mundo das produções. Em seguida outros ótimos álbuns foram lançados: Mahoganny Brown, Forevernevermore, Silence in the Secret Garden, Black Mahoghani (este sendo considerado um dos discos mais clássicos lançados por ele) e Black Mahogani II, todos pelo respeitadíssimo selo de techno Peacefrog Records. Para muitos ele é considerado mestre na arte de samplear (em sua MPC).

    Silentintroduction (1997)

    Black Mahogani (2004)

    Com mais de 40 singles/12″, todos atemporais e com enorme procura no “black market” de vinyl, Moodymann pode ser considerado um dos mais prolíficos e autênticos produtores de todos os tempos, fugindo a qualquer regra e fórmula. Sua musica, com certeza, perdurará por decadas.

    Serviço

    Dekmantel Festival São Paulo 2017
    Local: Jockey Club e Fabriketa
    Data: 04 e 05 de fevereiro de 2017
    Site oficial
    Evento oficial
    Ingressos à venda 

  • Sasha renovado retorna ao Warung em long set

    Uma relação que transcende a própria música. Se me perguntassem como eu encaro ter a chance de ver Sasha no Warung Beach Club, diria essa frase. Muitos artistas marcam as pessoas, educam, inovam, mas pouquíssimos tem o poder de mudar a essência delas, e Sasha é um deles. Seria estranho se em 2016 ele não viesse ao templo, sua última aparição no aniversário do clube em 2014 deixou novos admiradores somente em duas horas de set, e desde janeiro do mesmo ano, ele não mais tinha sido oportunizado a um long set em seu lugar favorito.

    O ano era especial, por completar 10 de sua marcante estreia no carnaval de 2006 e por acontecimentos importantes na continuação e direcionamento de sua carreira. Me refiro ao impressionante álbum em plano de fundo, Scene Delete, onde Alexander deu, digamos, um cartão de visitas para o novo mundo cinematográfico que pretende ingressar  – e sobre isso, encontrei um paralelo que será apresentado adiante –  além do aguardado retorno de back to back com John Digweed após 6 anos de hiato. Para os fãs brasileiros, lhe foi concedido 5 horas de trabalho, os mais calejados da noite sabiam que seria o suficiente para vislumbrar-se, ainda assim, quem acompanhou seus dois últimos anos poderia levantar a seguinte questão: O que ele iria trazer para o Templo? Desde seu anúncio eu comecei a perguntar-me. Sasha mostraria sua fórmula de sucesso emotiva e viajante de tantos anos no clube, ou deslocaria para sua linha reestilizada de techno e tech house progressivo inerentemente estampada pelos artistas de sua gravadora?

    Entrei no clube um pouco mais tarde do que de costume com essa indagação que já se arrastava por semanas. Após rever os amigos no inside rapidamente, me dirigi ao garden onde Edu Schwartz pacientemente começava a deixar os ouvintes afim de jogo. Em seguida, o DJ e produtor inglês Cristoph foi recebido por uma pista sedenta por novidades, e foi isso que ele retratou.

     É sempre ótimo poder ver ao vivo um produtor que acompanha e notar que ele também sabe conduzir uma pista. Timidamente começou levando em variações limpas e levemente viajantes de house e tech house. Com muita segurança soube desviar de alguns momentos de quebra de ritmo, que imediatamente eram supridos por uma nova faixa. Após meia hora, tinha todos na pista envolvidos e os picos de explosão surgiram, quando vimos já passara das 2h00 e infelizmente não pude ver o restante de seu set. Certamente é um nome que espero poder apreciar com um horário mais avançado em breve.

    A sorte foi que Sasha teve um pequeno atraso, e por volta das 2h15 quando adentrei ao febril inside, ele ainda estava em cima da primeira track. Se existe algo que aprendi na música eletrônica é que você não reconhece um artista pelo tipo de som que toca, e sim pelo seu estilo, pois isso, ele nunca mudará. Os inicios de long set de Sasha são sempre arrastados, e dessa vez ele foi além, resetou a pista nos primeiros minutos colocando faixas quase sem ritmo, apenas texturização. Na primeira batida, eu obtive a resposta que tanto buscava, ela era seca! Então é isso, vamos em uma nova experiência.

    Quando você corre por uma estrada sinuosa por algum tempo, seu senso de direção é melhorado, e quando finalmente chega em linha reta, vai apreciar cada instante de consistência. Essas duas horas iniciais de Sasha sempre foram polêmicas, ele precisa de tempo, isso é fato, seu semblante distante faz alguns acreditar que seja uma dificuldade até conseguir ganhar ritmo, já outros – onde me incluo – observam como uma necessidade criada pelo artista em seus expectadores, só para depois entregar-lhes a solução, e ela será abraçada com toda energia, por isso você apenas precisa confia-lo sua mente. Sasha embaralhou as cartas e foi soltando pouco a pouco cada uma delas, ora deixando uma música por 2 minutos, ora mixando no último tempo, era difícil de distinguir onde tudo estava, isso é um break ou uma virada? Meio, fim? Todas essas questões me provocavam, e na faixa ‘’X – Secret Weapons’’ de  Eagles & Butterflies percebi que a conexão havia começado, e não teria mais volta. 

    Imprimindo pulsação e viradas sorrateiras, as 4h00 Coe estava finalmente em linha reta, e como esperado, começou a abrir seus famosos processadores de efeito, nesse quesito, ele os usa como ninguém. Todos sabem com qual finalidade um artista implementa efeitos durante o set, mas Sasha consegue ir além, suas camadas foram se conectando até formarem um novo elemento na pista de dança. Gosto de comparar os clássicos processadores de efeito de Sasha com as cenas de quebra da quarta parede no cinema ou tv, exemplos recentes de sucesso em séries como House of Cards com Kevin Spacey, ou Mr. Robot, com Rami Malek podem servir de paralelo. Nos momentos que se dirigem à câmera e interagem com o expectador, dão um novo sentido a cena e era isso que sentia quando os efeitos surgiam desde o breakdown e ganhavam expressão tomando conta do restante da música e assim, sucessivamente, ele mudou o cenário dos que estavam presentes. O resultado? Não poderia ser outro: delírio coletivo!

    Quanto mais próximo da manhã chegava, melhor o set ia ficando e isso me dava medo, pois sabia que iria faltar tempo.  As 6h00 Sasha começou a colocar mais profundidade em sua música para um lado misterioso e até sombrio, foi uma dose de house progressivo que tantos esperavam. Quem assistiu a transmissão ao vivo que aconteceu em sua fanpag as 6:30 hrs certamente imaginou que ele tinha passado a noite em um groove imersivo, a faixa ‘’Carthage’’ de Fairmont representa perfeitamente, e é a minha favorita na noite.

     Eu já comentei sobre isso outras vezes, mas vale destacar novamente. Esse horário de transição para o dia tem um dos climas mais comoventes que se pode ter ali dentro, o contraste da pista ainda escura com o painel branco do lado de fora é como se a realidade estivesse nos chamando, mas ainda podemos ficar. Passando das 7 horas finalmente algo totalmente emotivo, uma entrega final perfeita, ‘’Trigonometry’’ fez todos suspirarem em sua obra mais aguardada. Ouvir uma música com uma identidade tão singular como essa, naquele momento, nada mais serviu para que ele nos colocasse em uma encruzilhada. No que Sasha foi ou é mais genial, tocando ou produzindo?

    No encerramento, algo bem parecido com 2011, Sasha fecha os médios no final da música em um loop por alguns segundos, um chamado de olhares para si, era isso que buscava, e então o vocal de ‘’track 10’’ entra para colocar todos em êxtase e reverência de seu nome, ele poderia tocar um DJ set inteiro só com seus remixes de bandas em que se pode cantar junto, porém, deixou esta como unanimidade para todos lembrarem. É por momentos assim que continua a deixar uma legião de seguidores por onde passa.

    Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana

    Videos por: Thais Olluk e Marlon Mendes

  • Jeff Mills: além dos sinos

    Não há dúvidas de que tocar The Bells em uma pista é algo único, fora do tempo, que não deixa indiferença por parte de ninguém que estiver ali. Pois bem, o pai dessa obra possui uma história ímpar e que se perpetua até hoje.  

    Uma das heresias que você observa num artista como o Mills é a maneira de se vestir. Na verdade não deveria ser, mas acaba sendo por um código pré-estabelecido que acabou se criando, com uma uniformização dos que frequentam essa “cena”. Imagine alguém da alta entidade do techno de Detroit chegando pra tocar com sapatos bem polidos, calça social, camisa social (para dentro da calça) e talvez até um terno por cima. Daria pra ele colocar uma Bíblia debaixo do braço e entrar em qualquer igreja sem levantar suspeitas! Isso sem falar na sobriedade e seriedade. Outra delas, é o fato dele já ter admitido que não quer ficar passando horas do seu dia ouvindo promos de outros DJs e mandando feedbacks e muito menos que alguém faça isso por ele. Em outras palavras, ele disse: “eu fico feliz que as pessoas me mandem suas músicas querendo um feedback de volta, é como se elas me respeitassem, mas tudo que eu quero é aproveitar o tempo que eu tenho livre e continuar explorando todas as possibilidades de fazer/tocar techno, ver o quão longe eu posso ir”. Ele ainda completa: “Nas lojas de discos há músicas que tem todos os componentes certos para cativar o ouvinte. São feitas para vender, não para expressar algo. Por isso acho que 99% do meu set é composto por faixas minhas.” Não há como negar que isso não seja um artista de personalidade livre e independente.  

    Lá pelos idos de 2000 ele fez uma turnê com o Laurent Garnier chamada “Expect the Unexpect”. A ideia era basicamente casar bookings em diversos países com participações especiais em programas de rádio, na noite ou no dia seguinte à gig em algum club. Em ambos espaços, tanto rádio como club, a proposta era que eles tocassem long sets juntos, soltando todas suas referências sem limite algum de alcance. Isso incluía jazz, salsa, reggae, dub reggae, rock, punk rock, drum and bass, hip hop, funk, e CLARO, em algum momento uma pitada de techno com algum clássico Purpose Maker ou AXIS (selos próprios). Isso ilustra pra mim como mais ou menos funciona a cabeça de um cara como esse: a ideia de techno vai muito além do que algum beat de 909 ou timbre de 303, embora ambos sejam icônicos dentro deste estilo. 

    Quando você carinhosamente estuda a discografia do Mills, é notável que ele não se limita em absolutamente nada. Já no início da década de 90, se analisarmos dois álbums fundamentais na minha opinião (Waveform Transmission Vol. 1 e 3) já dá pra sacar o potencial de expressão sem limites. 

    Quando se ouve hoje em dia caras como Rødhåd e Ben Klock e os considera incrivelmente moderno ou “novo”, vale lembrar que a faixa abaixo estava sendo laçado lá em 2004. Na verdade já em 1996 já existiam coisas bem parecidas com isso, salvo alguns pequenos detalhes característicos da sonoridade na época, soa um tanto quanto “atual”. Além destes dois nomes, há muitos outros que fazem esse resgate constantemente no meios dos sets, e para os ouvidos menos acostumados passam batidos como alguma faixa dos tempos recentes. 

    Eu considero a junção de músicos tocando a apresentações de DJs uma situação de extremos: ou fica incrível, ou fica brega. Digo isso por tudo que já vi até hoje. Pode parecer uma ideia genial e enriquecedora, mas é essencial um belo propósito e respeito mútuo entre os participantes. Imagino ser uma experiência única para um DJ e produtor de techno que, aos olhos de quem está de fora do seu mundo, vive à beira da marginalidade intelectual perto de músicos de uma orquestra

    Outro capítulo interessante foi quando ele lançou esse vídeo set (?) – evento não tão comum na época. Quase que um show de voyeurismo. A primeira versão conta com uma apresentação real em 3 decks, propondo o improviso, e a recriação de algo novo a partir de algo existente. É possível ver pequenos “erros” nas mixagens, algo que é totalmente comum e devido a dificuldade de controle neste caso. A ideia é que apareça mesmo, como um processo que ocorre orgânico e humano. 

    Além de tudo isso, é muito gratificante ver um artista de referência estar ainda por aí lançando sua expressão sem medo, do fundo da alma, sem a preocupação do agradar ou não o público. Isso tem um valor nobre e provavelmente raro, mesmo depois de tanto tempo de colaboração e tanta renovação de mercado. Acredito que até pelo fato de isso ser tão levado a sério por ele é que esse fato seja possível, correndo por fora da grande cultura do hedonismo pregada nos dias de hoje.

    Qual a expectativa para a sua apresentação no Dekmantel Festival? Imagino eu que não será algo padrão, de prazer fácil e entregue pronto que nem pão quente. É pra ir com coração aberto, sem expectativas determinadas, e com respeito a alguém que lançou as bases do que a gente consome e tanto ama hoje. Boa viagem pra todos nós!

    Serviço

    Dekmantel Festival São Paulo 2017
    Local: Jockey Club e Fabriketa
    Data: 04 e 05 de fevereiro de 2017
    Site oficial
    Evento oficial
    Ingressos à venda