Foram 7 anos de jejum desde sua última vinda para o Warung, que foi em janeiro de 2011, na época com o projeto híbrido de live + dj set chamado LBS. Desta vez tive a oportunidade de vê-lo duas vezes: primeiro em SP, na Tantsa, e na sequência aqui em Santa Catarina no Warung Beach Club, onde todo o ambiente e o clima proporcionaram uma entrega bem mais fiel ao que ele se propõe a fazer.
Laurent é o cara que conhece mais a música popular e GENUÍNA brasileira do que eu e muito tupiniquim. É isso que dá a ele gabarito para de manhã poder tocar uma faixa de samba original, que no contexto se fez parecer tão coerente e ao mesmo tempo não apelativa. Méritos também da pista que possibilitou isso naquele momento. É clássico dele propor esse tipo de mistura, que não se faz apenas querendo, tem que PODER fazer. Pra isso ele é um exímio entendedor de tudo que se possa imaginar. Entusiasta do “bass culture”, sempre tocou faixas de dubstep e drum and bass no meio dos sets, por exemplo. Universos totalmente distintos e até desconhecidos pra muita gente se fazem juntos nas mãos dele.
Salsa e Jazz também entram no bolo, muita gente ainda deve estar se perguntando que versão foi aquela de The Man With The Red Face que ele tocou no final. Como eu acompanhei bem de perto o projeto LBS (Live Booth Session e também as iniciais de Laurent, Benjamin e Scan X) que durou aproximadamente de 2009 a 2012, eu imagino que essa versão tenha sido um take tirado de alguma sessão e fatalmente “unreleased”. Quem teve a oportunidade de presenciar as apresentações do extinto projeto sabe o quão sério era, especialmente quando uma linha muito fina impede uma ideia interessante sobre unir jazz com techno de se tornar brega e forçada.
Como se não bastasse, ele ainda é, como o próprio diz, um “Detroit Guy”, que tem o real respeito de todos os caras de lá. Há muitos idos atrás ele já fazia turnê com o Jeff Mills numa proposta de só tocar funk, jazz, hip hop e porquê não uma faixa ou outra de techno no meio. Isso por si só diz muito a respeito de toda a ligação, respeito e atenção dele com a diversidade dos gêneros, coisa que em breve talvez seja extinta da essência dos DJs. Nós precisamos reconhecer que estamos numa era onde acompanhamos muitos produtores de estúdio se apresentando em clubs e festivais fazendo DJ sets, e bem menos DJs com essência de DJ. Isso acabou sendo uma tendência natural do mercado, mas é importante sabermos que são duas expressões com sensibilidades bem diferentes. Quem teve a oportunidade de ver a apresentação do Laurent no Warung pode talvez constatar como uma linguagem de expressão tão básica e clássica ainda funciona e convence.
De fato existe um valor subjetivo e intangível sobre o que você pode por de valor em cima de uma música que você toca, ou na forma como você compila um set. Afinal, se isso não existisse seria muito fácil qualquer um aproveitar e viver apenas da benção dessa era de charts, Shazam e tracklists abertos. Há muito mais para ser interpretado, muito além de apenas conseguir tocar por horas sem provocação nenhuma de nuances. Da mesma forma quando falamos sobre hit, há uma série de fatores que mudam a percepção sobre ser um apelo ou ser algo com propriedade.
Ver Garnier nessa última apresentação foi assistir alguém colocar muita personalidade e acreditar muito no que está fazendo, algo que ele faz muito bem. Pra quem está acostumado a fazer all night longs há mais de duas décadas (como por exemplo no extinto The End Club em Londres), 5h de set pode ser considerado viagem curta. A sua marca registrada de mesclar o melhor dos mundos independente de rótulos e de pregação de regra foi apenas confirmada no Warung. Gerações atrás isso era mais comum, na cultura do que era ser um DJ, a segregação e o fanatismo foram surgindo com o tempo. Caras como ele, Hernan Cattaneo e mais uma meia dúzia podem ser considerados atemporais e fora de discussão sobre o que pode ser ultrapassado.
Enfim, essa noite no Warung foi o dia pra misturar os clubbers velhos com a nova geração, regados a um gostinho de velhos tempos. Afinal, a cozinha francesa é base de tudo, independente do quão inovadora a culinária seja 😉