Autor: Eduardo M

  • DJ Stingray vem ao Brasil para mostrar lado roots de Detroit

    Se no ano passado o Dekmantel Festival São Paulo teve a Helena Hauff fazendo uma sessão de “massacre electro”, este ano teremos DJ Stingray para dar sequência nessa missão. O veterano americano Sherard Ingram ajuda a perpetuar o espírito mais roots dos ares de Detroit, trazendo sua marca registrada: electro techno ou o electro funk, sendo tocado no estilo gangsta clássico. 

    Tanto no lado DJ quanto no lado produtor a identidade é bem forte. As referências de MODEL 500 a Drexciya são claríssimas e mostram exatamente a fase em que a cultura negra trombou o sci-fi, lá no final da década de 80. Essa estrutura é esteticamente diferente da mais popularmente conhecida 4/4 e evidencia mais o lado “ghetto” do techno de Detroit, definitivamente algo que não é feito para o lado hype do mercado. 

    Em outras palavras: pode ser um beat de funk que lembra o nosso aqui do Brasil, mas com outro molho por cima. Para quem é adicto de toda a cultura e misticismo por trás da história de Detroit com o techno Stingray é imperdível, pois apresentará muita batida quebrada e mostrará que o espírito de lá transcende muito além das batidas quadradas. 

    Serviço

    Evento: Dekmantel Festival São Paulo
    Data: 3 e 4 de março de 2018
    Locais: Rua Inhaúma, 263 (Antigo PlayCenter) e Av. Olavo Fontoura, 1209 (Sambódromo do Anhembi), ambos em São Paulo (SP)
    Ingressos: Eventbrite
    Links: site oficial / evento no facebook

  • Laurent Garnier une gerações e mantém acesa a chama do DJ clássico

    Foram 7 anos de jejum desde sua última vinda para o Warung, que foi em janeiro de 2011, na época com o projeto híbrido de live + dj set chamado LBS. Desta vez tive a oportunidade de vê-lo duas vezes: primeiro em SP, na Tantsa, e na sequência aqui em Santa Catarina no Warung Beach Club, onde todo o ambiente e o clima proporcionaram uma entrega bem mais fiel ao que ele se propõe a fazer.

    Laurent é o cara que conhece mais a música popular e GENUÍNA brasileira do que eu e muito tupiniquim. É isso que dá a ele gabarito para de manhã poder tocar uma faixa de samba original, que no contexto se fez parecer tão coerente e ao mesmo tempo não apelativa. Méritos também da pista que possibilitou isso naquele momento. É clássico dele propor esse tipo de mistura, que não se faz apenas querendo, tem que PODER fazer. Pra isso ele é um exímio entendedor de tudo que se possa imaginar. Entusiasta do “bass culture”, sempre tocou faixas de dubstep e drum and bass no meio dos sets, por exemplo. Universos totalmente distintos e até desconhecidos pra muita gente se fazem juntos nas mãos dele.

    Salsa e Jazz também entram no bolo, muita gente ainda deve estar se perguntando que versão foi aquela de The Man With The Red Face que ele tocou no final. Como eu acompanhei bem de perto o projeto LBS (Live Booth Session e também as iniciais de Laurent, Benjamin e Scan X) que durou aproximadamente de 2009 a 2012, eu imagino que essa versão tenha sido um take tirado de alguma sessão e fatalmente “unreleased”. Quem teve a oportunidade de presenciar as apresentações do extinto projeto sabe o quão sério era, especialmente quando uma linha muito fina impede uma ideia interessante sobre unir jazz com techno de se tornar brega e forçada.

    Como se não bastasse, ele ainda é, como o próprio diz, um “Detroit Guy”, que tem o real respeito de todos os caras de lá. Há muitos idos atrás ele já fazia turnê com o Jeff Mills numa proposta de só tocar funk, jazz, hip hop e porquê não uma faixa ou outra de techno no meio. Isso por si só diz muito a respeito de toda a ligação, respeito e atenção dele com a diversidade dos gêneros, coisa que em breve talvez seja extinta da essência dos DJs. Nós precisamos reconhecer que estamos numa era onde acompanhamos muitos produtores de estúdio se apresentando em clubs e festivais fazendo DJ sets, e bem menos DJs com essência de DJ. Isso acabou sendo uma tendência natural do mercado, mas é importante sabermos que são duas expressões com sensibilidades bem diferentes. Quem teve a oportunidade de ver a apresentação do Laurent no Warung pode talvez constatar como uma linguagem de expressão tão básica e clássica ainda funciona e convence.

    De fato existe um valor subjetivo e intangível sobre o que você pode por de valor em cima de uma música que você toca, ou na forma como você compila um set. Afinal, se isso não existisse seria muito fácil qualquer um aproveitar e viver apenas da benção dessa era de charts, Shazam e tracklists abertos. Há muito mais para ser interpretado, muito além de apenas conseguir tocar por horas sem provocação nenhuma de nuances. Da mesma forma quando falamos sobre hit, há uma série de fatores que mudam a percepção sobre ser um apelo ou ser algo com propriedade. 

    Ver Garnier nessa última apresentação foi assistir alguém colocar muita personalidade e acreditar muito no que está fazendo, algo que ele faz muito bem. Pra quem está acostumado a fazer all night longs há mais de duas décadas (como por exemplo no extinto The End Club em Londres), 5h de set pode ser considerado viagem curta. A sua marca registrada de mesclar o melhor dos mundos independente de rótulos e de pregação de regra foi apenas confirmada no Warung. Gerações atrás isso era mais comum, na cultura do que era ser um DJ, a segregação e o fanatismo foram surgindo com o tempo. Caras como ele, Hernan Cattaneo e mais uma meia dúzia podem ser considerados atemporais e fora de discussão sobre o que pode ser ultrapassado. 

    Enfim, essa noite no Warung foi o dia pra misturar os clubbers velhos com a nova geração, regados a um gostinho de velhos tempos. Afinal, a cozinha francesa é base de tudo, independente do quão inovadora a culinária seja 😉

  • Jeff Mills: além dos sinos

    Não há dúvidas de que tocar The Bells em uma pista é algo único, fora do tempo, que não deixa indiferença por parte de ninguém que estiver ali. Pois bem, o pai dessa obra possui uma história ímpar e que se perpetua até hoje.  

    Uma das heresias que você observa num artista como o Mills é a maneira de se vestir. Na verdade não deveria ser, mas acaba sendo por um código pré-estabelecido que acabou se criando, com uma uniformização dos que frequentam essa “cena”. Imagine alguém da alta entidade do techno de Detroit chegando pra tocar com sapatos bem polidos, calça social, camisa social (para dentro da calça) e talvez até um terno por cima. Daria pra ele colocar uma Bíblia debaixo do braço e entrar em qualquer igreja sem levantar suspeitas! Isso sem falar na sobriedade e seriedade. Outra delas, é o fato dele já ter admitido que não quer ficar passando horas do seu dia ouvindo promos de outros DJs e mandando feedbacks e muito menos que alguém faça isso por ele. Em outras palavras, ele disse: “eu fico feliz que as pessoas me mandem suas músicas querendo um feedback de volta, é como se elas me respeitassem, mas tudo que eu quero é aproveitar o tempo que eu tenho livre e continuar explorando todas as possibilidades de fazer/tocar techno, ver o quão longe eu posso ir”. Ele ainda completa: “Nas lojas de discos há músicas que tem todos os componentes certos para cativar o ouvinte. São feitas para vender, não para expressar algo. Por isso acho que 99% do meu set é composto por faixas minhas.” Não há como negar que isso não seja um artista de personalidade livre e independente.  

    Lá pelos idos de 2000 ele fez uma turnê com o Laurent Garnier chamada “Expect the Unexpect”. A ideia era basicamente casar bookings em diversos países com participações especiais em programas de rádio, na noite ou no dia seguinte à gig em algum club. Em ambos espaços, tanto rádio como club, a proposta era que eles tocassem long sets juntos, soltando todas suas referências sem limite algum de alcance. Isso incluía jazz, salsa, reggae, dub reggae, rock, punk rock, drum and bass, hip hop, funk, e CLARO, em algum momento uma pitada de techno com algum clássico Purpose Maker ou AXIS (selos próprios). Isso ilustra pra mim como mais ou menos funciona a cabeça de um cara como esse: a ideia de techno vai muito além do que algum beat de 909 ou timbre de 303, embora ambos sejam icônicos dentro deste estilo. 

    Quando você carinhosamente estuda a discografia do Mills, é notável que ele não se limita em absolutamente nada. Já no início da década de 90, se analisarmos dois álbums fundamentais na minha opinião (Waveform Transmission Vol. 1 e 3) já dá pra sacar o potencial de expressão sem limites. 

    Quando se ouve hoje em dia caras como Rødhåd e Ben Klock e os considera incrivelmente moderno ou “novo”, vale lembrar que a faixa abaixo estava sendo laçado lá em 2004. Na verdade já em 1996 já existiam coisas bem parecidas com isso, salvo alguns pequenos detalhes característicos da sonoridade na época, soa um tanto quanto “atual”. Além destes dois nomes, há muitos outros que fazem esse resgate constantemente no meios dos sets, e para os ouvidos menos acostumados passam batidos como alguma faixa dos tempos recentes. 

    Eu considero a junção de músicos tocando a apresentações de DJs uma situação de extremos: ou fica incrível, ou fica brega. Digo isso por tudo que já vi até hoje. Pode parecer uma ideia genial e enriquecedora, mas é essencial um belo propósito e respeito mútuo entre os participantes. Imagino ser uma experiência única para um DJ e produtor de techno que, aos olhos de quem está de fora do seu mundo, vive à beira da marginalidade intelectual perto de músicos de uma orquestra

    Outro capítulo interessante foi quando ele lançou esse vídeo set (?) – evento não tão comum na época. Quase que um show de voyeurismo. A primeira versão conta com uma apresentação real em 3 decks, propondo o improviso, e a recriação de algo novo a partir de algo existente. É possível ver pequenos “erros” nas mixagens, algo que é totalmente comum e devido a dificuldade de controle neste caso. A ideia é que apareça mesmo, como um processo que ocorre orgânico e humano. 

    Além de tudo isso, é muito gratificante ver um artista de referência estar ainda por aí lançando sua expressão sem medo, do fundo da alma, sem a preocupação do agradar ou não o público. Isso tem um valor nobre e provavelmente raro, mesmo depois de tanto tempo de colaboração e tanta renovação de mercado. Acredito que até pelo fato de isso ser tão levado a sério por ele é que esse fato seja possível, correndo por fora da grande cultura do hedonismo pregada nos dias de hoje.

    Qual a expectativa para a sua apresentação no Dekmantel Festival? Imagino eu que não será algo padrão, de prazer fácil e entregue pronto que nem pão quente. É pra ir com coração aberto, sem expectativas determinadas, e com respeito a alguém que lançou as bases do que a gente consome e tanto ama hoje. Boa viagem pra todos nós!

    Serviço

    Dekmantel Festival São Paulo 2017
    Local: Jockey Club e Fabriketa
    Data: 04 e 05 de fevereiro de 2017
    Site oficial
    Evento oficial
    Ingressos à venda