No dia 19 de julho o Warung Beach Club abrigou dois showcases: o do selo europeu maeve, no Inside, e o da agência brasileira 24bit Management. Nossa maior expectativa era pelo primeiro, não por uma questão de qualidade, mas pela questão de buscar novidades. Somado ao fato de que o Garden estava super-lotado a noite toda, acabamos ficando 95% do tempo no antigo Main Room, ambiente no qual este review será focado. Para nós a noite tinha mais um grande atrativo, já que o nosso residente Danee seria o responsável por iniciar os trabalhos por ali, porém, mais uma vez, a burocracia e a falta de gente pra resolver problemas pontuais fez com que a noite começasse mais tarde pra nós.
Tudo começou com a fila de carros, que mesmo às 22h já era grande, graças também ao club vizinho Galera’s, que funcionava naquela noite. Após cerca de 40 minutos, conseguimos estacionar e corremos, na expectativa de pegar a segunda metade da apresentação de Danee. Esta ilusão se desfez assim que nos posicionamos na fila da lista, local no qual ficamos aguardando por uma hora. Quando nossa vez chegou, faltando 15 minutos para Daniel encerrar seu set, o golpe final: o nome de uma amiga (que havia sido confirmado) não estava na lista, o que nos fez aguardar mais 40 minutos até que alguém com autonomia aparecesse pra resolver o problema e permitir a entrada.
Enfim dentro, demos um giro não tão rápido por banheiro, caixa e bar, até finalmente subimos para a pista, a tempo de ver a última meia hora de The Drifter. É difícil emitir uma opinião honesta sobre um artista cujo qual você viu apenas 25% da apresentação, ainda mais depois de todo o transtorno passado. Neste curto período pudemos ver que o irlandês envolvia os presentes com uma linha de grave muito característica, apesar de abusar das melodias, bonitas porém emocionais demais para o momento. No entanto, prefiro acreditar que apenas não nos ambientamos por ter perdido o começo do set e o warm up da noite.
Logo em seguida foi a vez de Baikal, a estreia da noite mais aguardada pela nossa equipe, que fez jus à confiança depositada. O que mais chamou a atenção em seu set foi a construção, com ousados altos e baixos repentinos, que em sua maioria foram muito bem encaixados. A base da história era um tech house dançante, com os frequentes picos de emoção para ambos os lados, da introspectiva Northern Light, de Cobblestone Jazz, ao pesado remix de Adam Port para Ritual of Life, de Sven Vath. Seu set foi o melhor momento da festa, pois foi quando a maior parte do público estava se apertando para conseguir um lugar no Garden para ver Dashdot.
Uma pena que no final da noite, quando o headliner Mano Le Tough assumiu o controle da pista, toda essa galera tenha resolvido subir para o Inside. Em questão de minutos o ambiente estava no nível de super-lotação que já acabou com diversas noites no passado e tanto criticamos aqui. Por sorte havia um camarote no qual pudemos nos refugiar, de onde vimos boa parte da apresentação de Mano, que foi boa, porém, sem surpresas. O headliner navegou pela zona de conforto da sua atmosfera dançante, salpicando os clássicos momentos de melodias melancólicas e emocionantes, mas sem a ousadia que Baikal teve. Era passado das 6:00 quando optamos por deixar o club, por esta soma de falta de conforto e atrativo musical no artista do momento, com uma sensação de que havia sido bom, mas poderia ter sido melhor. As expectativas agora se voltam para o D-Edge Showcase, que deve ser a melhor festa do club nos próximos 2 meses, com Gaiser, Amirali e um ótimo time de DJs nacionais, como Stekke, Renato Ratier, Gromma e Doriva Rozek.
Fazer um review do Awakenings Festival é como contar aquele sonho sensacional que você teve enquanto dormia. Felizmente, diferente do que quase sempre acontece quando acordamos, desta vez o sonho é claro e fácil de lembrar e todos os detalhes e momentos pelos quais passei estão guardados muito bem em minha memória. É bem difícil contar todos os detalhes em um review, pois resultaria em dezenas de parágrafos, portanto, tentarei ser objetivo e contar sobre um pouco de tudo, tendo que deixar algumas perspectivas de fora.
Participar deste evento, um dos maiores festivais de techno do mundo, era um sonho antigo. Como fã e DJ do gênero, sempre soube que seria uma das únicas oportunidades de ver e ouvir DJs e produtores que servem de inspiração em meus sets, tocando e produzindo o tipo de som que eu mais curto. Lendas que trabalham incessantemente por muitos anos para que os fãs possam continuar ouvindo o que gostam e a essência da coisa não acabe. Artistas que muito dificilmente tocarão um dia no Brasil, infelizmente.
O festival acontece anualmente desde 2001 em Amsterdam, Holanda, sendo realizado no Spaarnwoude, uma área de recreação gigantesca e com muito verde. É o ponto mais alto de toda a “maratona” de eventos Awakenings que ocorrem o ano todo em locais diversos, principalmente no excelente Gashouder, também em Amsterdam.
Antes começar a falar do evento em si, preciso esclarecer uma situação que eu, com a chance de realizar meu sonho e ver muitos artistas que nunca tinha visto ao vivo, vivenciei por lá: a maioria deles tocava em horários conflitantes, em palcos diferentes (veja aqui o timetable oficial). “OMG! O que fazer?”, é a primeira coisa que se pensa. Decidi então ver um pouco de tudo, dos meus artistas preferidos, das minhas referências, dos meus ídolos, intercalando-os a cada 1h mais ou menos, e seguindo atrás da melhor experiência possível, não esquecendo, é claro, de curtir também o festival em si, o clima, a estrutura, conhecer pessoas. Já adiantando o resultado: deu para coletar uma bagagem e tanto, a qual trago para casa, para meus sets e para vocês. Vamos lá!? 😉
Obs: devido à extrema pressão sonora, a qualidade do som nos vídeos ficou ruim. Sorry for that. Eles servem mais para passar a idéia de como era o local, os palcos, a estrutura, o clima, etc. Sugiro procurar pelos sets dos DJs se querem ouvir nitidamente o que tocaram.
Day One
Eu e minha esposa saímos do hotel por volta das 11:30, pegamos um metrô até a estação de trem Sloterdijk. De lá, pegaríamos um ônibus especialmente fretado para o festival. A primeira novidade para nós foi ver que muita gente, talvez até a grande maioria, utiliza o transporte público (e em alguns casos até a amigável bicicleta) para ir ao evento. Estes ônibus fazem o trajeto Sloterdijk-Festival durante o dia todo, a partir das 11:00 até 00:30. Já fora da estação de trem, nos juntamos a muitos outros e pegamos um dos ônibus. O trajeto dura uns 15 minutos e a TPF (tensão-pré-festa) já começou a bater ali, com tanta gente falando sem parar, em várias línguas, empolgados com suas turmas.
Chegando no local de desembarque, vimos que teríamos que andar mais um bom tanto até a entrada da festa propriamente dita. A boa notícia, depois de um calor infernal dentro do ônibus: Iced Tea estupidamente gelado sendo distribuído (grátis!) a quem quisesse, antes de continuar a caminhada. Alguns banheiros, cartazes de outros festivais e campos de golf depois, chegamos. E-tickets verificados, passamos pela revista, colocamos as pulseiras de acesso e pegamos o código do locker (guarda-volumes), tudo isso em mais ou menos 30 minutos, tudo bem organizado e tranquilo. Logo ao entrar, ganhamos mais um “mimo”: um óculos de sol personalizado, bem legal! Usei no primeiro dia inteiro. ☺
Os lockers individuais são uma sacada e tanto, uma mão na roda mesmo, pois nos deixa tranquilos para curtirmos a festa sem nos preocupar com mochila, roupa, acessórios, protetor solar e tudo mais.
Próxima etapa: comprar fichas e comer algo, porque saco vazio não para em pé. 😉 As fichas, ou munts (moeda em Holandês), também chamadas de tokens, podiam ser compradas em caixas espalhados pelo festival ou através dos caixas automáticos self-service, muito fáceis de usar.
Com 8 (sim, OITO) palcos, fica um pouco difícil se localizar e saber o que está acontecendo em cada um, mas placas e indicativos foi o que não faltou dentro do festival: placas direcionando para cada palco, timetables em forma de livreto entregues na entrada de cada dia e espalhadas pela festa e indicadores luminosos nos quais podia-se ver, para cada stage, qual artista estava tocando e qual seria o próximo. É o fim do saudoso e simplório line-up impresso em casa e carregado com cuidado no bolso! ☺ Informações sobre saídas, pontos de taxi e ônibus também estavam disponível para todos.
Falando em estrutura, esta era simples, sem extravagâncias, mas muito funcional e organizada. Além do habitual, como praça de alimentação, posto médico e achados & perdidos, não pudemos deixar de notar algumas novidades e surpresas bem legais:
– Água grátis (!!!); – Banheiros em boa quantidade, com vaso sanitário e descarga de verdade, muito bem cuidados e limpos, até com espelhos e pias para lavar as mãos; – Barraquinha da Sociedade Holandesa de Câncer, com protetor solar gratuito (!!!); – Barraquinha Awakenings Merchandise, onde eram vendidas camisetas, moletons, blusinhas, óculos, leques, pulseiras e bonés personalizados da marca; – Barraquinhas diversas vendendo acessórios, óculos, bonés, capa de chuva, isqueiros, desodorantes e outras variedades, bem útil caso tenha esquecido algo em casa; – Barraquinha conscientizando os frequentadores sobre os malefícios da exposição constante à altos volumes sonoros e também vendendo diversos modelos de earplugs (dos mais baratos, que já ajudam, até modelos mais caros e customizados); – Massagem feita por especialistas; – Cartazes, colados próximo aos lockers, com os horários dos últimos trens na estação Sloterdijk; – Barraquinha de coquetéis (Caipirinha, Mojito, Pina Colada, etc); – Carrinho fazendo e vendendo Stroopwafel, famoso doce holandês.
E ainda, para animar a “criançada”, uma espécie de “chapéu mexicano” gigante. ☺
Ok, tudo pronto. Atacar!
Já ambientado, era hora de partir pra cima e sentir a pressão do Techno europeu, começando com um finalzinho do b2b dos suecos Cari Lekebusch e Joel Mull na Area Z. A sensação ao entrar no stage e ir me aproximando do palco onde dois dos meus produtores favoritos estavam destruindo tudo foi muito boa e reconfortante. Pensei comigo: “já valeu a pena!”. Arrepios dos pés à cabeça aos montes e em poucos segundos, sorriso largo no rosto e um sentimento que há tempos não sentia… o de que eu realmente era apaixonado por aquilo. Havia esperado tanto tempo por isso que me senti como se fosse a primeira rave/festa.
O som estava muito bom, divertido e pesado na medida, a sintonia dos dois estava ótima, mas não ficamos até o final pois queria ver Rebekah, na Area B. Chegando lá, estava rolando o característico som da DJ e produtora: BPM mais acelerado, pesado, sujo e dançante. Não é a toa que a inglesa é artista da renomada CLR, selo alemão de (nada mais nada menos que) Chris Liebing.
Rebekah estava muito animada e a pista estava esquentando, mas chegou uma hora que o som ficou distorcido demais, ruim de ouvir, até para os padrões sujos de Techno, talvez por algum problema no sound system. Resolvi dar uma volta para conhecer um pouco mais o festival e visitar a Area Y, onde Ben Klock estava tocando.
O DJ, produtor, dono do selo Klockworks, residente do místico club Berghain, e com tracks lançadas em selos como BPitch Control e Ostgut Ton, é um dos nomes mais falados na história recente do techno. Sem dúvida um dos horários e stages mais lotados do festival todo, o alemão era aguardado por muitos fãs. Primeira vez que vi Ben Klock ao vivo e fiquei realmente impressionado. Seguindo a linha pesada (ok, vão ler isso muitas vezes ☺) e hipnótica, característica de seus sets, comandava a pista com maestria. O cara sabe muito bem o que faz.
Como já explicado anteriormente, eu já sabia que os dois dias seriam de decisões difíceis e algumas renúncias (quanto drama!). Decidi não assistir Ben Klock e Marcel Dettmann em seus sets separados, no dia 1, pois tocariam juntos no dia 2. Sendo assim, passado algum tempo, abandonei a Area Y e fui em direção à Area X ver a lenda Jeff Mills a.k.a The Wizard.
O DJ e produtor americano, dono do selo Axis Records e um dos fundadores do coletivo Underground Resistance, é reconhecido mundialmente não só por artistas da música. Escrever sobre este mago daria um livro, então não irei me estender no assunto. Ao chegarmos no stage, mais ou menos no meio do set, vimos o público delirando ao som de Mills e suas divertidas e interessantes improvisações na TR-909. Enquanto estive ali, inevitavelmente analisando cada detalhe da apresentação, ouvi um estilo de techno mais old school, com características claras de uso das clássicas baterias eletrônicas que fizeram história no gênero, e sem muita melodia. A energia estava muito boa, apesar da seriedade do DJ, provavelmente por sua extrema concentração. Afinal, “quem sabe faz ao vivo”. 😉
Próxima parada: Speedy J, na Area Y. O holandês Jochem Paap, dono do selo Electric Deluxe, pioneiro do início dos anos 90 e um dos primeiros a abraçar a tecnologia digital (Traktor) em seus sets, junto com seu parceiro Chris Liebing, era um dos caras que mais queria ver, pois segue a linha “peak-time Techno” que tanto gosto, bastante energética, hipnótica e pesada. Seu setup é bem interessante, tocando com 4 decks do Traktor e mais um sampler/sequencer Elektron Octatrack, o que possibilita manipulações e criações ao vivo, adicionando dinâmica e variações ao set.
O set em si foi nos moldes que eu imaginava, muito bom, combinando com o clima mais dark dos stages cobertos/fechados. A energia das pessoas que nítida e genuinamente estavam ali por causa do techno era contagiante e a combinação de pirofagia dos telões, lasers e luzes completava o show.
Antes de acabar o set de Speedy J era hora de partir para o próximo artista e, mais uma vez, tive que escolher entre Joseph Capriati, Adam Beyer, The Advent e Maetrik. Como Beyer tocaria no dia 2, resolvi respirar um pouco de ar fresco no stage open air e ver Capriati na Area V.
O italiano me pareceu inspirado e apresentou um set muito bom, passando por trechos mais animados e outros mais fechados/dark/sombrios, sempre com peso e groove na medida, animando a todos. Conseguimos ver praticamente o set todo e gostei muito do resultado. Além disso, pude confirmar mais uma vez que meu estilo de tocar, incluindo muitas vezes até o setup, é bem parecido ao de Capriati. Não é a toa, afinal, é comum nos inspirarmos em quem gostamos. Para adicionar um toque especial, contamos com o ótimo tempo do dia, com um bonito céu azul que durava até altas horas da noite, devido ao início do verão europeu.
Chris Liebing, Len Faki, Pan-Pot, Nina Kraviz ou Richie Hawtin? Quem seria o próximo? ☺ Os três primeiros tocariam no dia 2. Hawtin já vi algumas vezes. Então dessa vez a escolha foi fácil: Nina Kraviz ganhou. No caminho até a Area X, como faltavam uns 20 minutos para o set da Nina, paramos para ver um pouquinho do DJ, produtor e ídolo Chris Liebing, na Area Y. Pausa para um fato de fã: o sonho de vê-lo tocar eu já havia realizado, no Brasil, inclusive! Foi em uma edição da Electrance em SP, na qual tive a oportunidade de bater um papo antes de seu set e, claro, tirar uma foto para lembrança.
Chris é um dos respeitadíssimos pioneiros e monstros do techno. Dono do selo CLR, guerreiro incansável pelo gênero e um dos primeiros a abraçar tecnologias digitais em seu setup (assim como Speedy J), já lançou tracks e remixes em selos como Electric Deluxe, Primate Recordings, Sleaze Records e outros. Não é muito difícil explicar o que rolou: o alemão, fluente em seu setup de infinitas possibilidades (são 6 decks – veja aqui um vídeo onde ele explica tudo), mostrou mais uma vez porque é considerado um rei por onde toca. Techno super pesado, obscuro, hipnótico, energético, muitas vezes até psicodélico, misturando muitos loops e improvisações com a Maschine. É absurdo o domínio com que o artista comanda sua nave. Assisti-lo tocando é uma experiência que todo amante de música eletrônica deveria ter uma vez na vida. É praticamente impossível tentar gravar um vídeo de seu set, devido à pressão sonora, então só resta uma foto ☺
Finalmente era a hora de ver Nina Kraviz. É difícil esconder o encanto ao ver a russa tocando e dançando, como se estivesse curtindo seu set mais que qualquer um. Não que as pessoas não estivessem em êxtase e hipnotizadas ao ver e ouvi-la, mas é que suas caras e bocas e seu jeito divertido e sexy de dançar demonstram que ela realmente curte muito o que faz. O set em si estava bem bom, com seu techno ácido e pegado, fez a pista ferver e dançar muito.
Deu 22:30 e era hora de ir embora antes que o som parasse (23:00) e a saída virasse um caos. O céu estava ainda muito bonito e o clima estava mágico, fechando com chave de ouro o primeiro dia de festival, com sensação de felicidade e satisfação. Abaixo, os últimos minutos antes de sair, ao som de Richie Hawtin na Area W.
Day Two
Devidamente descansados do primeiro dia, era hora de aproveitar ao máximo o segundo e último dia do festival. No dia 2, já totalmente ambientados e cansados do espirito desbravador da área toda, conseguimos curtir melhor e com mais calma. Depois de todos os procedimentos iniciais semelhantes aos de sábado, partimos direto ao que interessa: música. ☺
Antes de mais nada, importante mencionar que este seria um dia em que a Area B seria dedicada ao Hard Techno e, mais importante ainda, que praticamente metade dos artistas deste stage era brasileiro! Julyukie a.k.a Juliana Yamasaki, DJ Lukas b2b Fernanda Martins, Candy Cox (com seu projeto No Dolls, juntamente com a chilena Daniela Haverbeck) e PETDuo mostraram que o Brasil, (especialmente PR e SP) é potência e referência mundial do Hard Techno. Que orgulho!
Começamos pela Area W, com o alemão Recondite. A idéia era só passar um tempinho ali, sem maiores pretensões, e logo seguir estrada para ver outros artistas. Mr. Brunner iniciou o set com a bela e já consagrada track Fiery e o set foi evoluindo na mesma linha, BPM baixo, clima mais fechado e viajante.
Confesso que não achei o estilo mais apropriado para um palco open air, mas sim para um club pequeno, com ambiente mais intimista. Comparado ao que estava rolando em outros palcos, o ritmo ali estava meio devagar e isso foi o suficiente para que fôssemos para a Area X ver Nicole Moudaber.
Minha primeira surpresa do segundo dia foi esta DJ e produtora super animada, que dominou a pista e construiu um set sensacional, gostoso de ouvir e ver, com uma pegada um pouco mais lenta, mas pesada, energética e dançante. Chegamos um pouco depois do início do set e ficamos até o fim, momento em que a artista foi “aplaudida de pé” por um bom tempo! Uma cena que não tinha tido oportunidade de presenciar até o momento. Ponto para as mulheres! 😉
A espera até o final do set de Nicole não era a toa. Quem tocaria em seguida, ali no mesmo stage, seria Gary Beck. Reconhecido ídolo de muitos, eu inclusive, o inglês é conhecido por seu som único e já lançou tracks por selos como Drumcode e Cocoon, entre outras, além de seu próprio selo BEK Audio.
O set começou misterioso, com um típico som de drone, sem baterias e grave o suficiente para revirar os intestinos. Não demorou e sua típica avalanche de techno pesado, reto e sem massagem começou. O DJ estava muito à vontade e demonstrou ótima técnica, inclusive um pouco diferente do habitual: muitas vezes, após criar um momento de tensão, com filtro e efeitos, ia liberando o grave gradativamente até que voltasse ao peso total, ao invés de voltar tudo de uma vez, gerando aquela explosão de alegria no público. Nada de outro mundo, mas achei interessante e ousado.
Depois de ter ouvido algumas tracks conhecidas e presenciar o “peso” em pessoa, decidimos levantar acampamento, pois outro grande nome nos esperava na Area V, tocando no mesmo horário que Gary Beck. Alan Fitzpatrick estava na minha lista de must see. É um dos produtores que mais tenho admirado ultimamente. O estilo de suas produções me agrada muito, unindo peso, melodia e alguns vocais na medida certa, com uma qualidade excepcional.
O som estava um pouco baixo na Area V, e o estilo de Fitzpatrick estava mais light do que eu esperava, ou talvez por ter vindo de outro artista muito mais pesado. Mas esses fatores não chegaram a prejudicar em nada a apresentação do grande Alan, que mostrou o que sabe e tocou várias de sua autoria, agradando bastante o público. O clima estava começando a fechar, antes mesmo do fim do set, e uma chuva estava se armando. Hora de dar uma volta, comer algo e pegar nossas jaquetas impermeáveis no guarda-volumes.
A garoa não durou muito, mas foi o suficiente para atrapalhar os planos de ver Rødhåd na Area Z. O stage assinado pelo selo Electric Deluxe serviu de abrigo da chuva para os muitos desavisados e era praticamente impossível ficar ali devido à quantidade de pessoas e, principalmente, pelo calor que, aliás, era o problema dos stages cobertos. Uma pena, pois o som estava muito bom, hipnótico, pesado e mais acelerado.
Para respirar melhor, demos uma passada na Area W, stage open air, onde Ricardo Villalobos estava tentando tocar. Explico: por algum problema técnico, talvez agulha ou sujeira, ou ainda mesa vibrando, a música pulava ou entrava em loop. Arrumou a agulha algumas vezes, reclamou com o responsável pelos equipamentos, mas nada parecia adiantar.
Alguns minutos depois, já nitidamente chateado e impaciente, Ricardo mixou rapidamente uma outra track e tirou o disco “problemático”. Esses problemas cortaram a vibe do público e do próprio DJ e então resolvemos voltar à Area V para ver um pouco do set de Pan-Pot. A dupla formada por Tassilo Ippenberger e Thomas Benedix tocou um Techno animado, mas sem exagero, mantendo uma linha séria e ao mesmo tempo dançante. O carisma e entrosamento destes dois é notável, gostam de brincar com o público, que respondeu muito bem.
Logo depois, no mesmo stage, era a vez de Maceo Plex, também conhecido como Maetrik. Confesso que não tinha muitas expectativas sobre Maceo, talvez por puro desconhecimento mais aprofundado e pelas últimas tracks que ouvi do produtor. O espanhol iniciou o set com a track Conjure Sex, a qual gosto bastante, e em seguida mostrou a que veio, levantando o público com uma bela sequência, mais séria do que eu esperava (no melhor sentido).
Mas o objetivo mesmo não era assistir o set de Maceo Plex, e sim, o super aguardado Len Faki, na Area X. O lendário alemão, residente do Berghain desde sua abertura e com grandes tracks atemporais em seu currículo (várias delas tocadas por mim e vários amigos DJs), era um dos meus favoritos em todo o festival. Seu set foi absurdamente bom, bastante energético, contando com uma técnica apurada e presença de palco cativante, receita para uma experiência e tanto! Foi exatamente (ou até mais) como eu esperava e ouso dizer que, pelo menos para mim, foi o melhor do festival. Mais do que nunca, agora posso afirmar: Len Faki é um monstro, ponto final.
Mesmo sabendo que no mesmo horário que Len Faki, em outro stage, Collabs 3000 (Chris Liebing e Speedy J) já havia começado seu set de três horas e meia (o maior do festival, diga-se de passagem), resolvi aguardar na mesma pista pelo b2b da dupla Ben Klock e Marcel Dettmann, pois tinha decidido não assisti-los separadamente no dia anterior.
E os caras não estavam para brincadeira: pareciam estar decididos a levar todos ali à uma viagem interestelar. Com um BPM um pouco mais acelerado, o set começou muito bem, mas seguiu para um caminho viajante ao extremo para o meu gosto, um lance muito “mental”. E quando digo “extremo”, significa que estava difícil até de curtir e dançar.
As imagens e vídeos projetados nos telões complementavam o clima lisérgico da apresentação, que estava bem interessante, mas um pouco “fora da curva” demais até o momento, pelo menos para o que eu esperava. Claro, ainda era possível que, mais adiante, o clima mudasse. Mas era o momento de decidir: arriscar ali ou correr para ver Collabs 3000? Já devem imaginar a conclusão, não? ☺
Chegando na Area Z, bastante empolgado para o que estava para assistir, entrei com um objetivo: curtir ao máximo um dos famosos closing sets, ainda mais sendo executado por estas lendas. Os dois já foram apresentados neste review, mais acima, então não é difícil imaginar o poderio bélico que essa dupla possui e representa. A junção dos dois setups, que separadamente já fazem um grande estrago, resulta em um paredão sonoro pesado, preenchido e complexo.
Vale ressaltar que ambos praticamente criam novas músicas ao vivo, utilizando seus arsenais para combinar diversos loops (trechos de outras músicas) e camadas extras de bateria/samples (Maschine e Octatrack), além de efeitos. Ou seja, cada set é sempre único, pois não é uma simples sequência de tracks, mas sim, uma combinação de pequenos elementos, muito bem encaixados, que formam o todo. O vídeo abaixo demonstra bem esses detalhes:
O tom do set foi o que se esperava: explosivo, pesadíssimo, sem dó nem piedade, energético, literalmente uma bomba atômica sendo lançada em nossa direção. Minha definição para este collabs? Duas bestas, saídas direto do inferno, releasing the kraken. ☺ Dançamos e curtimos muito, foi de lavar a alma e fechamos com chave de ouro este excelente festival que vai ficar para sempre em nossas memórias. Confira abaixo mais algumas imagens que fiz por lá:
A noite do dia 4 de julho foi mais uma daquelas noites de inverno em que o Warung nos surpreende. A primeira noticia positiva se deu através da curadoria da noite, que fez um belo strike com a divulgação dos horários do line-up. Uma das coisas que sempre defendemos neste assunto é a equidade artística, esse equilíbrio é fundamental para que a noite renda boas experiências ao público. Nesse quesito que o clube acertou, atingindo diferentes tipos de públicos que se dividiram entre o Inside e Garden. Ao longo da festa a lotação esteve em um nível agradável, com uma divisão ideal em ambos os stages, que eram duas pistas bastante confortáveis, mas sem perder a energia. No palco em que a nossa equipe ficou a maior parte do tempo, pudemos ver uma articulação muito bem feita por Gromma, Boghosian e Mind Against.
Abrindo a noite, Gromma mais uma vez nos surpreendeu. Digo isso pois recentemente o vimos tocar no Terraza, com uma proposta bem diferente da apresentada no templo, mostrando que seu repertório é vasto, mas sem perder sua identidade. Essa flexibilidade musical tornou-se possível devido à versatilidade do artista, que mais uma vez norteou-se pelo house e pelo techno, criando bons momentos dentro de uma construção consistente. O primeiro ápice da noite aconteceu quando ele tocou um remix de Kerri Chandler para Westwind, de Nina Simone, artista de jazz/blues dos anos 60. Outro momento marcante foi quando rolou o remix de XDB para Angels of Night, de Lawrence, enquanto a pista era preparada para Paulo.
Com a entrada de Boghosian, o Inside ganhou mais peso. Sua apresentação foi dinâmica, passando por variações que dividem o set em três partes, que foram essenciais para que o headliner pudesse ter uma boa atuação. Na primeira, sonoridades voltadas pro tech-house, com uma personalidade mais séria, e sendo intensificadas conforme sua apresentação evoluía. A cada passada de música era nítida a euforia nos presentes, bem como o controle e feeling de pista do artista. Na segunda parte o techno foi predominante, em uma transição muito bem elaborada. Próximo ao fim, a terceira parte surge com características melódicas, o que se aproximava da linha musical do próximo artista. Em sua última música o savage arrematou o segundo grande momento da noite: uma versão de Signs do artista Howling, que colocou a pista abaixo. Após um warm up sob medida, era só Federico e Alessandro derrubarem os pinos restantes e correrem para o abraço do público, que aguardava ansiosamente sua entrada.
Logo na abertura já foi possível notar a identidade do duo, com bastante melodia e timbragens impactantes, além de sua técnica apurada, combinação que fez com que o público vibrasse com frequência. A apresentação seguiu uma mesma estética do começo ao fim, hipnotizando os presentes. Foi durante esse transe coletivo que surgiu o terceiro grande momento da festa: A música REJ, do artista Âme – um clássico de música eletrônica. Com a ausência da super-lotação e este ótimo trabalho da curadoria, de tudo o que foi presenciado no Main Room nesta festa apenas um fator pode ser citado como negativo: o sound system, que parecia estar com intensidade aquém do que foi presenciado nas festas anteriores.
Quanto ao Garden, nas poucas vezes que o visitei pude ver um Leo Janeiro diferente do seu tradicional, tocando um som elaborado e acessível para os presentes, comentário que se estende a Lauren, headliner do stage. Agora todas as atenções miram no dia 18 de julho, data em que o templo recebe o showcase da 24bit no Garden e da Maeve no Inside, com Mano Le Tough, Baikal e The Drifter, com warm-up do nosso residente Danee.
O mistério finalmente acabou: hoje a Tribaltech divulgou mais de quatro dezenas de artistas confirmados na edição de 2015, com muitas novidades e artistas de peso. A forma de divulgação também chamou a atenção: o lado storyteller da marca está cada vez mais forte nas campanhas, pois os artistas foram divididos em 3 pequenos contos narrados por um personagem fictício, que simboliza cada um dos frequentadores do festival – ou moradores da Evolution Town.
Confira abaixo todos os artistas já confirmados:
O evento rola em dois dias, 10 (sábado) e 11 (domingo) de outubro, lembrando que dia 12 é feriado nacional. Para ler os contos, assistir os videos e obter mais informações, confira a fanpage oficial. Os ingressos estão à venda pelo Alô Ingressos.
No imaginário popular Curitiba existe como uma das capitais mais “evoluídas” do país, o que já lhe rendeu alguns apelidos talvez exagerados, como “cidade-modelo” e “Europa brasileira”. Alguns aspectos da cidade podem até fazer jus a tais títulos, no entanto, qualquer morador sincero vai saber apontar vários outros que desmentem os superlativos. Um deles é o projeto de lei do vereador Tico Kuzma (PROS), que coloca a cidade no topo da intolerância contra usuários de drogas. A proposta prevê multa de R$ 500,00 (além da obrigação de comparecer a pelo menos 5 reuniões de grupos de ajuda) para quem for pego portando qualquer tipo e quantidade de substância ilícita nas ruas da cidade.
O texto já foi aprovado pelas comissões legislativas e deve ir pra votação em Plenário a qualquer momento. A proposta destoa do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, regulamentada pela lei 11.343/2006, que defende uma postura educativa não-punitiva para quem for pego portando quantidades para consumo próprio, e também da evolução cultural pela qual o mundo passa. O autor do projeto, que se diz bastante religioso e defensor da família, já tentou participar do BBB e teve um mandato cassado por infidelidade partidária, e foca o seu discurso em defesa da proposta na preservação da tranquilidade de logradouros públicos, como se os usuários de crack fossem ter como pagar tal multa ou as pessoas que fumam maconha na pracinha representassem algum perigo para o resto da sociedade.
No âmbito nacional as coisas caminham – mesmo que a lentos passos – no sentido contrário. No ano passado o deputado Jean Wyllys (PSOL) apresentou projeto de lei para descriminalizar e regulamentar o consumo da cannabis sativa no país, o qual foi apensado ao projeto semelhante do deputado Eurico Junior (PV), que aguarda formação de comissão especial para analisar o assunto antes de ir a votação em Plenário. Já existem diversos países do mundo e estados americanos que descriminalizaram o consumo da maconha e/ou outras drogas, mas a quantidade ainda é pequena diante do que deverá ser num curto período de tempo. Confira abaixo um giro pelas notícias mais recentes sobre o assunto em alguns países.
A Câmara dos Deputados do Chile aprovou ontem proposta que pretende legalizar o cultivo particular de maconha, bem como seu consumo medicinal e recreativo, na tentativa de descriminalizar o uso e conter o tráfico no país. Segundo o projeto, que deve passar pelo Senado antes de vigorar, qualquer indivíduo maior de 18 anos poderá portar até 10 gramas consigo e 500 gramas em casa, ficando proibido ainda o consumo em público. O uso medicinal está permitido para qualquer idade, contanto que com receita médica. O país pode se tornar o segundo da América do Sul a dar esse importante passo rumo ao fim da guerra contra as drogas, já que o Uruguai legalizou a erva em 2013.
A província de Nova Escotia, que recebe o Evolve Festival há anos, comemora um fato inédito no local: a organização irá oferecer aos frequentadores análise gratuita de todas as unidades de MDMA, LSD e speed. A prática se chama “redução de danos” e já é conhecida pelos brasileiros que frequentaram o Universo Paralello recentemente, pois em algumas edições o teste era oferecido no festival. O objetivo não é incentivar o uso, mas sim evitar que substâncias desconhecidas e tóxicas sejam consumidas, acarretando em problemas de saúde e possivelmente morte do usuário.
Cientistas escreveram uma carta aberta a Theresa May, Secretária de Estado para Assuntos Internos, solicitando revisão de um projeto de lei que pretende limitar a pesquisa e comercialização de substâncias psicoativas. O texto diz que “muitos tipos diferentes de pesquisa podem ser afetadas pela nova legislação, particularmente no campo da neurociência, no qual as propriedades das substâncias psicoativas são ferramentas importantes para ajudar cientistas a entenderem a variedade de fenômenos ligados à consciência, memória, vícios e doenças mentais”.
A temporada 2015 da meca das baladas já começou! De agora até meados de setembro a ilha de Ibiza “não dorme“, com eventos de diversas vertentes de música eletrônica quase todos os dias. O techno está presente em diversas noites, mas este ano um detroitiano de peso dará as caras em território espanhol com festas que devem complementar a alegria dos fãs do estilo: Carl Craig.
Desde o ano passado ele está viajando com a proposta de levar ao mundo um pouco do amor que sente pela sua terra natal, com a tour do label Detroit Love, que até passou pelo Brasil durante o carnaval, com apresentações históricas nas duas sedes do Terraza Music Park. Em Ibiza Craig apresenta dois formatos: o primeiro acontecerá no main stage da Space Ibiza em quatro domingos, um por mês. Derrick May, Moodyman, Robert Hood e Octave One são alguns dos nomes confirmados. O segundo se chama Detroit Love Affair, trata-se de seis eventos gratuitos na beira da praia, em terças-feiras de julho e agosto. Apenas o line-up de amanhã foi divulgado, que tem nada menos do que um back-to-back entre C2 e Dubfire. Além destas dez festas, Carl também está escalado para tocar na Cocoon, Carl Cox e ENTER., em data ainda a serem divulgadas.
Nicolas Jaar é jovem artista, de apenas 25 anos, mas que possui um currículo de dar inveja em qualquer um que respire música. Nasceu nos Estados Unidos e cresceu no Chile, terra de seus pais, antes de retornar a New York. Sua origem faz com que frequentemente seja comparado a Ricardo Villalobos, o que em sua opinião não faz o menor sentido. “Não estou nem perto de atingir seu nível de técnica”, afirmou ao Pitchfork em uma entrevista. “Quando eu era jovem e pegava o metrô para o colégio, gostava de ouvir Thé Au Harem D’Árchimède, de Ricardo, e The Last Resort, de Trentemoller. Com o primeiro eu estava sempre pensando ‘Aonde você quer chegar com isto?’, enquanto que o segundo era fácil de ouvir, como doce. Eu sempre quis fazer um Trentemoller mais experimental e um Ricardo mais melódico” completou.
Seu primeiro contato com a dance music, no entanto, foi com DJ Kicks, de Tiga, em 2004. “Quando ouvi eu pensei ‘Que porra é essa? É incrível!’, acabei obcecado por aquelas tracks” confessou. Poucos anos mais tarde já estava esbanjando talento em seu live act, como podemos perceber nesta gravação de 2008, que é muito mais dancefloor friendly do que seu som atual, apesar de já possuir os elementos melódicos e o experimentalismo que posteriormente tornaram-se sua característica.
E foi no ano de 2011 que finalmente veio a consagração, com o lançamento de seu primeiro álbum, Space Is Only Noise If You Can See. A obra é dividida em 14 faixas, mas pode-se dizer que é apenas uma de 46 minutos, já que ela foi criada para ser apreciada como um todo. O disco conquistou elogios e reviews positivos de dentro e fora do mundo da dance music, muito graças ao fato de que a maioria das tracks fugia do padrão de 120 a 130 bpm do techno e do house. Foi neste ano em que tornou-se líder do ranking de live acts do Resident Advisor, posição que seria mantida pelos dois anos seguintes, com ajuda do seu projeto paralelo Darkside, alias sob a qual Nico passou 2012 e 2013 se apresentando, ao lado do guitarrista Dave Harrington. Junto a ele encabeçou a lista de headliners de diversos festivais conceituados, como Sónar e Pitchfork, mas sobrando um tempinho para fazer o que foi considerado o melhor Essential Mix de 2012, na BBC Radio One.
Em 2014 surpreendeu a todos anunciando que o Darkside entraria em um hiato por tempo indefinido, quase ao mesmo tempo em que iniciava os trabalhos no seu novo label, Other People. “Clown & Sunset tinha essa vibe de ser muito conectado a mim. Eu não gostava disso, acabou se tornando uma ‘afiliação’ ao meu som da época do primeiro álbum, cujo qual eu mesmo nem estou mais tão conectado”, conta Nicolas, que completa: “Eu nao estou interessado em ter Other People representando ‘meu som’ dessa maneira”. De lá pra cá rolaram 2 bons EPs, Nymphs II e Nymphs III, mas o que mais chamou a atenção foi Pomegranates, álbum que liberou para download na semana passada. O primeiro contato do público com essas músicas foi no começo do ano, quando ele as usou para criar uma trilha sonora para o filme soviético The Color of The Pomegranates, de 1969. Apesar de Nico nunca ter declarado, vários jornalistas enxergam referências a Angelo Badalamenti em seu gosto por ambiências e trilhas. Alguns reviews de Space Is Only Noise If You Can See apontaram a semelhança, enquanto ele próprio homenageou o ídolo usando um diálogo de Twin Peaks no seu Boiler Room e o nome de uma personagem no título de uma track.
O mais interessante em Pomegranates é a história recheada de sincronicidade por trás de sua concepção, que foi contada em detalhes pelo próprio em um arquivo pdf que vem junto com as músicas, cujo qual traduzi e transcrevi abaixo:
Olá,
Eu comecei a produzir a maioria das músicas encontradas em Pomegranates antes de ter visto o filme e até mesmo de saber de sua existência. A primeira música, por exemplo, foi feita no começo do outono de 2014. Eu tinha voltado de uma tour de um ano com o Darkside e estava realmente feliz por estar em casa. Eu estava fazendo música na minha sala quando uma barata começou a dançar sobre alguns dos cabos que estavam no chão. Em vez de matá-la, decidi fazer uma música pra ela. Eu a nomeei Garden of Eden porque eu lentamente comecei a ver a pequena criatura como minha amiga e ajudante, e meu estúdio como um jardim (com todos os cabos!).
A música seguinte foi feita originalmente para um programa de TV. Quando percebi que ele não era exatamente o que haviam me prometido quando assinei o contrato decidi pular fora, o que me deixou com horas de trilha sonora pronta. Eu usei apenas uma dúzia de minutos disso em Pomegranates, ainda não sei o que fazer com o resto! Survival foi originalmente feita para ser a track de fundo para Guetto, uma música que produzi para o DJ Slugo, na qual ele fala sobre crescer em Chicago. Shame é uma batida que eu fiz para um rapper, que foi recusada. No fim de 2014 eu morei com meus pais por seis meses, num período de troca de residências. Eu não tinha estúdio, apenas um piano, alguns microfones e headphones. Foi neste período que escrevi Muse. Volver é a versão em coro de Revolver, uma track que fiz em 2011 e espero que seja lançada neste ano. Enfim, poderia ir adiante contando a história de cada uma delas.
No começo de 2015 meu amigo Milo ouviu algumas destas músicas e me falou sobre o filme. Eu assisti e fiquei estupefato. Eu senti que a estética fez completo sentido com os temas estranhos que eu fiquei obcecado nos últimos anos… Eu estava curioso pra saber como as músicas soariam quando sincronizadas com as imagens, o que se tornou em um trabalho de dois dias no qual eu coloquei trilha no filme todo, criando uma estranha colagem com a ambient music que eu fiz nos últimos 2 anos.
O filme me deu estrutura para seguir e temas para cumprir. Ele deu clareza para estas músicas, que em sua maioria foram produzidas através do caos. Ele me deu também a coragem para publicar… Eu queria fazer algumas exibições, mas o cara que possui os direitos do filme não queria nenhuma versão que não fosse a original por aí. Não posso culpá-lo, tenho certeza que Paradjanov não gostaria de ver uma criança de NY mijando sobre toda a sua obra-prima e chamando aquilo de trilha sonora! Eu a ouvi algumas vezes sem assistir ao filme e acredito que ela consegue viver de forma independente. Pelo menos eu espero que sim!
Eu ainda estava na casa dos meus pais quando terminei Pomegranates. No dia 1º de março eu cheguei na minha casa nova e ela estava completamente vazia, exceto por uma pequena árvore. O dono estava lá pra me cumprimentar e me perguntou se eu gostaria de mantê-la, pois ele não tinha mais aonde colocá-la e nem alguém a quem dá-la. Eu concordei em ficar e cuidar dela.
Antes que ele saísse, perguntei que tipo de árvore era. Era um pé de romãs [pomegranates]. E ele não tinha a vaga ideia do trabalho que eu estava executando!
Sexta-feira, 19 de junho, uma das noites mais frias de 2015. Pessoas comuns estariam embaixo de suas cobertas, comendo um fondue, vendo televisão. Como sou mais um apaixonado por música, me programei para ir ao Warung, pois, das atrações agendadas para esse período do ano, Joris Voorn é, provavelmente o retorno mais aguardado por aqueles que frequentam o club por pelo menos alguns bons anos. Digo isso pois sua última apresentação no Templo, ao lado de Phonique, foi uma daquelas noites completas, nostálgicas.
Chegando ao clube, nos deparamos com um pequeno inconveniente. Devido a questões burocráticas e a falta de uma pessoa de plantão pra resolver problemas operacionais, perdemos mais de uma hora na entrada, fazendo com que não ouvíssemos a maior parte do warm up da incrível Aninha. Sou suspeito para falar dela, pois, sou um grande fã há muito tempo. Da parte final que pude acompanhar, muito groove e uma pista fervida. A finalização com o remake de Sebastien Leger para a clássica “Jaguar” dividiu opiniões: Uns acharam desnecessário para o momento, outros sentiram uma conexão com o que estava por vir (coincidentemente, eu havia tocado ela dias atrás em uma festa entre amigos). A partir disso, começamos a acompanhar o long set que estava por vir. Artista muito completo, com produções figurando no topo há alguns anos, Joris é daqueles caras que monta sets como uma montanha russa, com variações de estilos frequentes. Utilizando uma fórmula que mesclava faixas melódicas e dançantes constantemente, seu set apresentou diversas músicas autorais. Sua técnica é refinada e, obviamente, a pista soube reconhecer seu mérito. No final, momentos de techno fizeram a pista bombar. Naquele momento, a energia só não foi maior porque o frio era realmente muito intenso e, devido a isso, o club apresentava público abaixo do normal.
Se no Inside o frio era controlado, no Garden, isso só foi possível no momento da apresentação do duo Elekfantz, que apresentou o seu live clássico e embalou a turma que lá se concentrava. Após eles, a dupla Shadow Movement, de artistas extremamente jovens, apresentou um set bem coerente, que, infelizmente, devido à gélida noite, foi apreciado por pouquíssimos clubbers que ali estavam.
E a semana parece ser de polêmicas no mundo da música. Depois de Zeca Camargo causar no país todo falando sobre a morte de Cristiano Araújo, agora é a vez de Alok e Amine Edge protagonizarem um pequeno barraco virtual, que deve ficar restrito apenas à cena eletrônica, mas não deixa de ser interessante. Tudo começou com este tweet carinhoso do DJ francês:
Sem papas na língua, ele afirma que odeia com todo seu coração o remix de Alok (desconsiderando o Gabe na história) para sua track Lost, que é barato, amador e comparável ao cocozinho simpático do Whatsapp. Não estamos aqui para dizer se ele tem ou não razão no que fala, mas certamente foi uma atitude hipócrita e deselegante, já que várias de suas músicas poderiam receber os mesmos adjetivos sem que a oração se torne inverdadeira. Sabendo disso, o filho do Universo Paralello resolveu fazer um video-resposta, no qual lembra que a música em questão é na verdade de Frank Ocean e demonstra como fazer uma versão semelhante à do Amine Edge & DANCE em apenas 5 minutos:
Clique na imagem pra assistir
Enquanto isso, a grande massa brasileira continua adorando a dupla de pseudo-rappers, que já tem até escova de dentes no banheiro de alguns clubs do país, de tanto que tocam. Será que não está na hora da nação g-houser trocar de heróis?
Na semana passada a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo tomou conta da mídia tradicional brasileira. Em uma cobertura digna de Ayrton Senna, todos os veículos de comunicação das Organizações Globo (e todo o resto da imprensa, de carona no hype) inundaram a vida dos brasileiros com informações dos procedimentos post mortem, deixando as pessoas que vivem fora da esfera do sertanejo universitário sem entender nada. Ao longo da semana foi possível ver no Facebook inúmeras declarações mal colocadas, como a do Deejay Freedom II, que num ato digno de Ten Walls comemorou a morte do cara só porque ele cantava sertanejo. Passada a shitstorm e o período de luto eis que surge a primeira crítica consistente, para nossa surpresa, no Globo News, apresentada por Zeca Camargo no formato de crônica.
Não posso dizer que concordo com tudo o que ele fala, ou com as referências que apresenta. Mamonas Assassinas me comoveu, mas quando criança. Analisando friamente hoje é fácil concluir que do ponto de vista musical eles não tiveram muita relevância para justificar o endeusamento, no entanto, isso foi há 20 anos e não vale a pena exumar o assunto agora, vamos voltar ao cadáver mais recente. Zeca está enfrentando neste momento a ira cega de todos os fãs e fãs-relâmpago de Cristiano, naquele velho costume do brasileiro de não saber ouvir uma crítica negativa e ainda reagir como criança. Porém quem prestou atenção na crônica percebe que ele não ataca o cantor, que implicitamente acaba ainda sendo retratado como vítima parcial, um cara que estava no lugar certo na hora certa e foi escolhido pra cantar as músicas certas e virar o novo Ídolo Hot Pocket do sertanejo universitário.
Sua crítica é à atual dinâmica da cena musical brasileira, na qual ídolos são fabricados seguindo uma série de parâmetros, que vão da aparência física ao famoso QI (quem indica), mas ficam alheios à aptidão daquele cidadão para a música. O paralelo que ele faz com os livros de colorir é ótimo, pois é inegável que muitas páginas pintadas pelos brasileiros fiquem lindas e dignas de um elogio, mas ela nunca será uma peça de relevância criativa, quem dirá uma obra de arte. O mesmo vale para a música: o pop brasileiro atual não é necessariamente ruim, ou feio, mas ele peca na hora de cumprir um papel fundamental que qualquer tipo de arte tem na sociedade, que é o de levar conteúdo rico pras pessoas. No curto prazo as críticas a essa prática são tachadas de “dor-de-cotovelo”, mas agora que estamos chegando no longo prazo vemos o dano que tantos anos de livros de colorir causaram na sociedade brasileira. O global pode ser visto como hipócrita nesse momento, pois a empresa para quem trabalha é a grande culpada por essa falta de desenvolvimento criativo do brasileiro médio, mas eu diria tratar-se mesmo de um ato de desobediência genial, tanto que ao ser posto para se retratar no Video Show ele manteve o tom sarcástico em alta e parafraseou Fátima Bernardes, chamando o cantor de Cristiano Ronaldo.
Aí nos perguntamos… Por que ele fez isso? Eu não sou fã dele e pouco sei sobre sua carreira, mas dois fatos podem nos ajudar a entender: primeiro que sua carreira iniciou na MTV, lá na época em que o Kurt Cobain estava vivo e o canal era, de fato, uma referência séria pra juventude ávida por música. Segundo, a belíssima resenha que fez sobre Ricardo Villalobos em janeiro de 2007, mesmo ano em que eu fui à primeira rave pra ouvir Skazi e GMS. No texto ele, que se diz alheio à música eletrônica alternativa característica da loja de discos aonde comprou o Alcachofa, disseca o trabalho do artista de tal maneira que nenhum jornalista especializado da nossa cena atual seria capaz de fazer. Em poucos parágrafos ele pegou um dos mais complexos e incompreendidos produtores e o tornou palatável para a massa brasileira, que sem ler seu texto talvez desistisse da Fizheuer Zieheuer nos primeiros quatro minutos, dizendo que ela dá sono.
Sendo assim, Zeca fez o que fez porque ele viveu uma época boa, sabe apreciar as mais diferentes ousadas e complexas formas de arte (se não ele jamais compreenderia Ricardo, sendo um cara de fora do eletrônico) e deve estar completamente depressivo assistindo a nossa música indo cada vez mais para o fundo do abismo. Foi um pedido de socorro!
Tá Moha, mas e você, por que se deu ao trabalho de fazer tal análise aqui no detroitbr?
Porque enquanto frequentador da cena eletrônica, me identifiquei com seu chamado. Os fatos aconteceram no mundo do sertanejo, mas a crítica vale em paralelo para qualquer cena musical brasileira, inclusive a nossa.
Salvo raríssimas exceções (e como é triste ver que o nosso exemplo de exceção é o mesmo desde 2007, Gui Boratto), toda a trupe de DJs que hoje cobra cachês na casa das dezenas de milhar por noite nada mais são do que Cristianos Araújos do eletrônico, produzindo o som enlatado do momento. Hoje vivemos a era do “future techno”, mas quem viveu outras épocas sabe que já houve o grande momento “deep bombombom”, “tech house universitário”, “minimal goteirinha”, cada um com seus Ídolos Hot Pocket que levavam milhares pras festas, geravam fortunas em vendas e… poucos anos depois ou estavam sumidos, ou tiveram agilidade pra migrar pra próxima moda e continuar em voga.
Alok Lima e você
Na cena internacional isso também acontece, claro, o Top 100 da DJ Mag está aí pra nos provar isso. No entanto fora do país há também uma valorização relevante de artistas diferenciados, que conseguem fazer seu trabalho, tocar seu público e ser bem remunerado sem precisar se incomodar com o que rola no meio do “EDM” – o line-up de festivais como Sónar e Movement estão aí pra nos provar isso. O que nos falta é espaço para que essa cena paralela (também chamada de alternativa, ou underground) possa se desenvolver em concomitância com a cena comercial já estabelecida.
Por isso, achei importante pegarmos a crítica que o Zeca fez ao sertanejo e estimular todos a olharmos para nosso próprio nariz: estamos constantemente criticando o sertanejo universitário, mas o que estamos fazendo para que o eletrônico seja o antagonista do bem nessa história? O próximo herói nacional que o Zeca tanto clama pode não ser apenas um, mas vários, oriundos do techno, do house, do trance… Basta que se construa uma cena artística consistente e com visão de longo prazo, que valorize a criatividade, a capacidade de ousar e surpreender, o incomum.