Zeca Camargo não detonou o sertanejo, ele detonou a música ruim

Na semana passada a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo tomou conta da mídia tradicional brasileira. Em uma cobertura digna de Ayrton Senna, todos os veículos de comunicação das Organizações Globo (e todo o resto da imprensa, de carona no hype) inundaram a vida dos brasileiros com informações dos procedimentos post mortem, deixando as pessoas que vivem fora da esfera do sertanejo universitário sem entender nada. Ao longo da semana foi possível ver no Facebook inúmeras declarações mal colocadas, como a do Deejay Freedom II, que num ato digno de Ten Walls comemorou a morte do cara só porque ele cantava sertanejo. Passada a shitstorm e o período de luto eis que surge a primeira crítica consistente, para nossa surpresa, no Globo News, apresentada por Zeca Camargo no formato de crônica.

Não posso dizer que concordo com tudo o que ele fala, ou com as referências que apresenta. Mamonas Assassinas me comoveu, mas quando criança. Analisando friamente hoje é fácil concluir que do ponto de vista musical eles não tiveram muita relevância para justificar o endeusamento, no entanto, isso foi há 20 anos e não vale a pena exumar o assunto agora, vamos voltar ao cadáver mais recente. Zeca está enfrentando neste momento a ira cega de todos os fãs e fãs-relâmpago de Cristiano, naquele velho costume do brasileiro de não saber ouvir uma crítica negativa e ainda reagir como criança. Porém quem prestou atenção na crônica percebe que ele não ataca o cantor, que implicitamente acaba ainda sendo retratado como vítima parcial, um cara que estava no lugar certo na hora certa e foi escolhido pra cantar as músicas certas e virar o novo Ídolo Hot Pocket do sertanejo universitário.

Sua crítica é à atual dinâmica da cena musical brasileira, na qual ídolos são fabricados seguindo uma série de parâmetros, que vão da aparência física ao famoso QI (quem indica), mas ficam alheios à aptidão daquele cidadão para a música. O paralelo que ele faz com os livros de colorir é ótimo, pois é inegável que muitas páginas pintadas pelos brasileiros fiquem lindas e dignas de um elogio, mas ela nunca será uma peça de relevância criativa, quem dirá uma obra de arte. O mesmo vale para a música: o pop brasileiro atual não é necessariamente ruim, ou feio, mas ele peca na hora de cumprir um papel fundamental que qualquer tipo de arte tem na sociedade, que é o de levar conteúdo rico pras pessoas. No curto prazo as críticas a essa prática são tachadas de “dor-de-cotovelo”, mas agora que estamos chegando no longo prazo vemos o dano que tantos anos de livros de colorir causaram na sociedade brasileira. O global pode ser visto como hipócrita nesse momento, pois a empresa para quem trabalha é a grande culpada por essa falta de desenvolvimento criativo do brasileiro médio, mas eu diria tratar-se mesmo de um ato de desobediência genial, tanto que ao ser posto para se retratar no Video Show ele manteve o tom sarcástico em alta e parafraseou Fátima Bernardes, chamando o cantor de Cristiano Ronaldo.

Aí nos perguntamos… Por que ele fez isso? Eu não sou fã dele e pouco sei sobre sua carreira, mas dois fatos podem nos ajudar a entender: primeiro que sua carreira iniciou na MTV, lá na época em que o Kurt Cobain estava vivo e o canal era, de fato, uma referência séria pra juventude ávida por música. Segundo, a belíssima resenha que fez sobre Ricardo Villalobos em janeiro de 2007, mesmo ano em que eu fui à primeira rave pra ouvir Skazi e GMS. No texto ele, que se diz alheio à música eletrônica alternativa característica da loja de discos aonde comprou o Alcachofa, disseca o trabalho do artista de tal maneira que nenhum jornalista especializado da nossa cena atual seria capaz de fazer. Em poucos parágrafos ele pegou um dos mais complexos e incompreendidos produtores e o tornou palatável para a massa brasileira, que sem ler seu texto talvez desistisse da Fizheuer Zieheuer nos primeiros quatro minutos, dizendo que ela dá sono.

Sendo assim, Zeca fez o que fez porque ele viveu uma época boa, sabe apreciar as mais diferentes ousadas e complexas formas de arte (se não ele jamais compreenderia Ricardo, sendo um cara de fora do eletrônico) e deve estar completamente depressivo assistindo a nossa música indo cada vez mais para o fundo do abismo. Foi um pedido de socorro!

Tá Moha, mas e você, por que se deu ao trabalho de fazer tal análise aqui no detroitbr?

Porque enquanto frequentador da cena eletrônica, me identifiquei com seu chamado. Os fatos aconteceram no mundo do sertanejo, mas a crítica vale em paralelo para qualquer cena musical brasileira, inclusive a nossa. 

Salvo raríssimas exceções (e como é triste ver que o nosso exemplo de exceção é o mesmo desde 2007, Gui Boratto), toda a trupe de DJs que hoje cobra cachês na casa das dezenas de milhar por noite nada mais são do que Cristianos Araújos do eletrônico, produzindo o som enlatado do momento. Hoje vivemos a era do “future techno”, mas quem viveu outras épocas sabe que já houve o grande momento “deep bombombom”, “tech house universitário”, “minimal goteirinha”, cada um com seus Ídolos Hot Pocket que levavam milhares pras festas, geravam fortunas em vendas e… poucos anos depois ou estavam sumidos, ou tiveram agilidade pra migrar pra próxima moda e continuar em voga.


Alok Lima e você

Na cena internacional isso também acontece, claro, o Top 100 da DJ Mag está aí pra nos provar isso. No entanto fora do país há também uma valorização relevante de artistas diferenciados, que conseguem fazer seu trabalho, tocar seu público e ser bem remunerado sem precisar se incomodar com o que rola no meio do “EDM” – o line-up de festivais como Sónar e Movement estão aí pra nos provar isso. O que nos falta é espaço para que essa cena paralela (também chamada de alternativa, ou underground) possa se desenvolver em concomitância com a cena comercial já estabelecida.

Por isso, achei importante pegarmos a crítica que o Zeca fez ao sertanejo e estimular todos a olharmos para nosso próprio nariz: estamos constantemente criticando o sertanejo universitário, mas o que estamos fazendo para que o eletrônico seja o antagonista do bem nessa história? O próximo herói nacional que o Zeca tanto clama pode não ser apenas um, mas vários, oriundos do techno, do house, do trance… Basta que se construa uma cena artística consistente e com visão de longo prazo, que valorize a criatividade, a capacidade de ousar e surpreender, o incomum.