Introdução – O Sonho
Fazer um review do Awakenings Festival é como contar aquele sonho sensacional que você teve enquanto dormia. Felizmente, diferente do que quase sempre acontece quando acordamos, desta vez o sonho é claro e fácil de lembrar e todos os detalhes e momentos pelos quais passei estão guardados muito bem em minha memória. É bem difícil contar todos os detalhes em um review, pois resultaria em dezenas de parágrafos, portanto, tentarei ser objetivo e contar sobre um pouco de tudo, tendo que deixar algumas perspectivas de fora.
Participar deste evento, um dos maiores festivais de techno do mundo, era um sonho antigo. Como fã e DJ do gênero, sempre soube que seria uma das únicas oportunidades de ver e ouvir DJs e produtores que servem de inspiração em meus sets, tocando e produzindo o tipo de som que eu mais curto. Lendas que trabalham incessantemente por muitos anos para que os fãs possam continuar ouvindo o que gostam e a essência da coisa não acabe. Artistas que muito dificilmente tocarão um dia no Brasil, infelizmente.
O festival acontece anualmente desde 2001 em Amsterdam, Holanda, sendo realizado no Spaarnwoude, uma área de recreação gigantesca e com muito verde. É o ponto mais alto de toda a “maratona” de eventos Awakenings que ocorrem o ano todo em locais diversos, principalmente no excelente Gashouder, também em Amsterdam.
Antes começar a falar do evento em si, preciso esclarecer uma situação que eu, com a chance de realizar meu sonho e ver muitos artistas que nunca tinha visto ao vivo, vivenciei por lá: a maioria deles tocava em horários conflitantes, em palcos diferentes (veja aqui o timetable oficial). “OMG! O que fazer?”, é a primeira coisa que se pensa. Decidi então ver um pouco de tudo, dos meus artistas preferidos, das minhas referências, dos meus ídolos, intercalando-os a cada 1h mais ou menos, e seguindo atrás da melhor experiência possível, não esquecendo, é claro, de curtir também o festival em si, o clima, a estrutura, conhecer pessoas. Já adiantando o resultado: deu para coletar uma bagagem e tanto, a qual trago para casa, para meus sets e para vocês. Vamos lá!? 😉
Obs: devido à extrema pressão sonora, a qualidade do som nos vídeos ficou ruim. Sorry for that. Eles servem mais para passar a idéia de como era o local, os palcos, a estrutura, o clima, etc. Sugiro procurar pelos sets dos DJs se querem ouvir nitidamente o que tocaram.
Day One
Eu e minha esposa saímos do hotel por volta das 11:30, pegamos um metrô até a estação de trem Sloterdijk. De lá, pegaríamos um ônibus especialmente fretado para o festival. A primeira novidade para nós foi ver que muita gente, talvez até a grande maioria, utiliza o transporte público (e em alguns casos até a amigável bicicleta) para ir ao evento. Estes ônibus fazem o trajeto Sloterdijk-Festival durante o dia todo, a partir das 11:00 até 00:30. Já fora da estação de trem, nos juntamos a muitos outros e pegamos um dos ônibus. O trajeto dura uns 15 minutos e a TPF (tensão-pré-festa) já começou a bater ali, com tanta gente falando sem parar, em várias línguas, empolgados com suas turmas.
Chegando no local de desembarque, vimos que teríamos que andar mais um bom tanto até a entrada da festa propriamente dita. A boa notícia, depois de um calor infernal dentro do ônibus: Iced Tea estupidamente gelado sendo distribuído (grátis!) a quem quisesse, antes de continuar a caminhada. Alguns banheiros, cartazes de outros festivais e campos de golf depois, chegamos. E-tickets verificados, passamos pela revista, colocamos as pulseiras de acesso e pegamos o código do locker (guarda-volumes), tudo isso em mais ou menos 30 minutos, tudo bem organizado e tranquilo. Logo ao entrar, ganhamos mais um “mimo”: um óculos de sol personalizado, bem legal! Usei no primeiro dia inteiro. ☺
Os lockers individuais são uma sacada e tanto, uma mão na roda mesmo, pois nos deixa tranquilos para curtirmos a festa sem nos preocupar com mochila, roupa, acessórios, protetor solar e tudo mais.
Próxima etapa: comprar fichas e comer algo, porque saco vazio não para em pé. 😉 As fichas, ou munts (moeda em Holandês), também chamadas de tokens, podiam ser compradas em caixas espalhados pelo festival ou através dos caixas automáticos self-service, muito fáceis de usar.
Com 8 (sim, OITO) palcos, fica um pouco difícil se localizar e saber o que está acontecendo em cada um, mas placas e indicativos foi o que não faltou dentro do festival: placas direcionando para cada palco, timetables em forma de livreto entregues na entrada de cada dia e espalhadas pela festa e indicadores luminosos nos quais podia-se ver, para cada stage, qual artista estava tocando e qual seria o próximo. É o fim do saudoso e simplório line-up impresso em casa e carregado com cuidado no bolso! ☺ Informações sobre saídas, pontos de taxi e ônibus também estavam disponível para todos.
Falando em estrutura, esta era simples, sem extravagâncias, mas muito funcional e organizada. Além do habitual, como praça de alimentação, posto médico e achados & perdidos, não pudemos deixar de notar algumas novidades e surpresas bem legais:
– Água grátis (!!!);
– Banheiros em boa quantidade, com vaso sanitário e descarga de verdade, muito bem cuidados e limpos, até com espelhos e pias para lavar as mãos;
– Barraquinha da Sociedade Holandesa de Câncer, com protetor solar gratuito (!!!);
– Barraquinha Awakenings Merchandise, onde eram vendidas camisetas, moletons, blusinhas, óculos, leques, pulseiras e bonés personalizados da marca;
– Barraquinhas diversas vendendo acessórios, óculos, bonés, capa de chuva, isqueiros, desodorantes e outras variedades, bem útil caso tenha esquecido algo em casa;
– Barraquinha conscientizando os frequentadores sobre os malefícios da exposição constante à altos volumes sonoros e também vendendo diversos modelos de earplugs (dos mais baratos, que já ajudam, até modelos mais caros e customizados);
– Massagem feita por especialistas;
– Cartazes, colados próximo aos lockers, com os horários dos últimos trens na estação Sloterdijk;
– Barraquinha de coquetéis (Caipirinha, Mojito, Pina Colada, etc);
– Carrinho fazendo e vendendo Stroopwafel, famoso doce holandês.
E ainda, para animar a “criançada”, uma espécie de “chapéu mexicano” gigante. ☺
Ok, tudo pronto. Atacar!
Já ambientado, era hora de partir pra cima e sentir a pressão do Techno europeu, começando com um finalzinho do b2b dos suecos Cari Lekebusch e Joel Mull na Area Z. A sensação ao entrar no stage e ir me aproximando do palco onde dois dos meus produtores favoritos estavam destruindo tudo foi muito boa e reconfortante. Pensei comigo: “já valeu a pena!”. Arrepios dos pés à cabeça aos montes e em poucos segundos, sorriso largo no rosto e um sentimento que há tempos não sentia… o de que eu realmente era apaixonado por aquilo. Havia esperado tanto tempo por isso que me senti como se fosse a primeira rave/festa.
O som estava muito bom, divertido e pesado na medida, a sintonia dos dois estava ótima, mas não ficamos até o final pois queria ver Rebekah, na Area B. Chegando lá, estava rolando o característico som da DJ e produtora: BPM mais acelerado, pesado, sujo e dançante. Não é a toa que a inglesa é artista da renomada CLR, selo alemão de (nada mais nada menos que) Chris Liebing.
Rebekah estava muito animada e a pista estava esquentando, mas chegou uma hora que o som ficou distorcido demais, ruim de ouvir, até para os padrões sujos de Techno, talvez por algum problema no sound system. Resolvi dar uma volta para conhecer um pouco mais o festival e visitar a Area Y, onde Ben Klock estava tocando.
O DJ, produtor, dono do selo Klockworks, residente do místico club Berghain, e com tracks lançadas em selos como BPitch Control e Ostgut Ton, é um dos nomes mais falados na história recente do techno. Sem dúvida um dos horários e stages mais lotados do festival todo, o alemão era aguardado por muitos fãs. Primeira vez que vi Ben Klock ao vivo e fiquei realmente impressionado. Seguindo a linha pesada (ok, vão ler isso muitas vezes ☺) e hipnótica, característica de seus sets, comandava a pista com maestria. O cara sabe muito bem o que faz.
Como já explicado anteriormente, eu já sabia que os dois dias seriam de decisões difíceis e algumas renúncias (quanto drama!). Decidi não assistir Ben Klock e Marcel Dettmann em seus sets separados, no dia 1, pois tocariam juntos no dia 2. Sendo assim, passado algum tempo, abandonei a Area Y e fui em direção à Area X ver a lenda Jeff Mills a.k.a The Wizard.
O DJ e produtor americano, dono do selo Axis Records e um dos fundadores do coletivo Underground Resistance, é reconhecido mundialmente não só por artistas da música. Escrever sobre este mago daria um livro, então não irei me estender no assunto. Ao chegarmos no stage, mais ou menos no meio do set, vimos o público delirando ao som de Mills e suas divertidas e interessantes improvisações na TR-909. Enquanto estive ali, inevitavelmente analisando cada detalhe da apresentação, ouvi um estilo de techno mais old school, com características claras de uso das clássicas baterias eletrônicas que fizeram história no gênero, e sem muita melodia. A energia estava muito boa, apesar da seriedade do DJ, provavelmente por sua extrema concentração. Afinal, “quem sabe faz ao vivo”. 😉
Próxima parada: Speedy J, na Area Y. O holandês Jochem Paap, dono do selo Electric Deluxe, pioneiro do início dos anos 90 e um dos primeiros a abraçar a tecnologia digital (Traktor) em seus sets, junto com seu parceiro Chris Liebing, era um dos caras que mais queria ver, pois segue a linha “peak-time Techno” que tanto gosto, bastante energética, hipnótica e pesada. Seu setup é bem interessante, tocando com 4 decks do Traktor e mais um sampler/sequencer Elektron Octatrack, o que possibilita manipulações e criações ao vivo, adicionando dinâmica e variações ao set.
O set em si foi nos moldes que eu imaginava, muito bom, combinando com o clima mais dark dos stages cobertos/fechados. A energia das pessoas que nítida e genuinamente estavam ali por causa do techno era contagiante e a combinação de pirofagia dos telões, lasers e luzes completava o show.
Antes de acabar o set de Speedy J era hora de partir para o próximo artista e, mais uma vez, tive que escolher entre Joseph Capriati, Adam Beyer, The Advent e Maetrik. Como Beyer tocaria no dia 2, resolvi respirar um pouco de ar fresco no stage open air e ver Capriati na Area V.
O italiano me pareceu inspirado e apresentou um set muito bom, passando por trechos mais animados e outros mais fechados/dark/sombrios, sempre com peso e groove na medida, animando a todos. Conseguimos ver praticamente o set todo e gostei muito do resultado. Além disso, pude confirmar mais uma vez que meu estilo de tocar, incluindo muitas vezes até o setup, é bem parecido ao de Capriati. Não é a toa, afinal, é comum nos inspirarmos em quem gostamos. Para adicionar um toque especial, contamos com o ótimo tempo do dia, com um bonito céu azul que durava até altas horas da noite, devido ao início do verão europeu.
Chris Liebing, Len Faki, Pan-Pot, Nina Kraviz ou Richie Hawtin? Quem seria o próximo? ☺ Os três primeiros tocariam no dia 2. Hawtin já vi algumas vezes. Então dessa vez a escolha foi fácil: Nina Kraviz ganhou. No caminho até a Area X, como faltavam uns 20 minutos para o set da Nina, paramos para ver um pouquinho do DJ, produtor e ídolo Chris Liebing, na Area Y. Pausa para um fato de fã: o sonho de vê-lo tocar eu já havia realizado, no Brasil, inclusive! Foi em uma edição da Electrance em SP, na qual tive a oportunidade de bater um papo antes de seu set e, claro, tirar uma foto para lembrança.
Chris é um dos respeitadíssimos pioneiros e monstros do techno. Dono do selo CLR, guerreiro incansável pelo gênero e um dos primeiros a abraçar tecnologias digitais em seu setup (assim como Speedy J), já lançou tracks e remixes em selos como Electric Deluxe, Primate Recordings, Sleaze Records e outros. Não é muito difícil explicar o que rolou: o alemão, fluente em seu setup de infinitas possibilidades (são 6 decks – veja aqui um vídeo onde ele explica tudo), mostrou mais uma vez porque é considerado um rei por onde toca. Techno super pesado, obscuro, hipnótico, energético, muitas vezes até psicodélico, misturando muitos loops e improvisações com a Maschine. É absurdo o domínio com que o artista comanda sua nave. Assisti-lo tocando é uma experiência que todo amante de música eletrônica deveria ter uma vez na vida. É praticamente impossível tentar gravar um vídeo de seu set, devido à pressão sonora, então só resta uma foto ☺
Finalmente era a hora de ver Nina Kraviz. É difícil esconder o encanto ao ver a russa tocando e dançando, como se estivesse curtindo seu set mais que qualquer um. Não que as pessoas não estivessem em êxtase e hipnotizadas ao ver e ouvi-la, mas é que suas caras e bocas e seu jeito divertido e sexy de dançar demonstram que ela realmente curte muito o que faz. O set em si estava bem bom, com seu techno ácido e pegado, fez a pista ferver e dançar muito.
Deu 22:30 e era hora de ir embora antes que o som parasse (23:00) e a saída virasse um caos. O céu estava ainda muito bonito e o clima estava mágico, fechando com chave de ouro o primeiro dia de festival, com sensação de felicidade e satisfação. Abaixo, os últimos minutos antes de sair, ao som de Richie Hawtin na Area W.
Day Two
Devidamente descansados do primeiro dia, era hora de aproveitar ao máximo o segundo e último dia do festival. No dia 2, já totalmente ambientados e cansados do espirito desbravador da área toda, conseguimos curtir melhor e com mais calma. Depois de todos os procedimentos iniciais semelhantes aos de sábado, partimos direto ao que interessa: música. ☺
Antes de mais nada, importante mencionar que este seria um dia em que a Area B seria dedicada ao Hard Techno e, mais importante ainda, que praticamente metade dos artistas deste stage era brasileiro! Julyukie a.k.a Juliana Yamasaki, DJ Lukas b2b Fernanda Martins, Candy Cox (com seu projeto No Dolls, juntamente com a chilena Daniela Haverbeck) e PETDuo mostraram que o Brasil, (especialmente PR e SP) é potência e referência mundial do Hard Techno. Que orgulho!
Começamos pela Area W, com o alemão Recondite. A idéia era só passar um tempinho ali, sem maiores pretensões, e logo seguir estrada para ver outros artistas. Mr. Brunner iniciou o set com a bela e já consagrada track Fiery e o set foi evoluindo na mesma linha, BPM baixo, clima mais fechado e viajante.
Confesso que não achei o estilo mais apropriado para um palco open air, mas sim para um club pequeno, com ambiente mais intimista. Comparado ao que estava rolando em outros palcos, o ritmo ali estava meio devagar e isso foi o suficiente para que fôssemos para a Area X ver Nicole Moudaber.
Minha primeira surpresa do segundo dia foi esta DJ e produtora super animada, que dominou a pista e construiu um set sensacional, gostoso de ouvir e ver, com uma pegada um pouco mais lenta, mas pesada, energética e dançante. Chegamos um pouco depois do início do set e ficamos até o fim, momento em que a artista foi “aplaudida de pé” por um bom tempo! Uma cena que não tinha tido oportunidade de presenciar até o momento. Ponto para as mulheres! 😉
A espera até o final do set de Nicole não era a toa. Quem tocaria em seguida, ali no mesmo stage, seria Gary Beck. Reconhecido ídolo de muitos, eu inclusive, o inglês é conhecido por seu som único e já lançou tracks por selos como Drumcode e Cocoon, entre outras, além de seu próprio selo BEK Audio.
O set começou misterioso, com um típico som de drone, sem baterias e grave o suficiente para revirar os intestinos. Não demorou e sua típica avalanche de techno pesado, reto e sem massagem começou. O DJ estava muito à vontade e demonstrou ótima técnica, inclusive um pouco diferente do habitual: muitas vezes, após criar um momento de tensão, com filtro e efeitos, ia liberando o grave gradativamente até que voltasse ao peso total, ao invés de voltar tudo de uma vez, gerando aquela explosão de alegria no público. Nada de outro mundo, mas achei interessante e ousado.
Depois de ter ouvido algumas tracks conhecidas e presenciar o “peso” em pessoa, decidimos levantar acampamento, pois outro grande nome nos esperava na Area V, tocando no mesmo horário que Gary Beck. Alan Fitzpatrick estava na minha lista de must see. É um dos produtores que mais tenho admirado ultimamente. O estilo de suas produções me agrada muito, unindo peso, melodia e alguns vocais na medida certa, com uma qualidade excepcional.
O som estava um pouco baixo na Area V, e o estilo de Fitzpatrick estava mais light do que eu esperava, ou talvez por ter vindo de outro artista muito mais pesado. Mas esses fatores não chegaram a prejudicar em nada a apresentação do grande Alan, que mostrou o que sabe e tocou várias de sua autoria, agradando bastante o público. O clima estava começando a fechar, antes mesmo do fim do set, e uma chuva estava se armando. Hora de dar uma volta, comer algo e pegar nossas jaquetas impermeáveis no guarda-volumes.
A garoa não durou muito, mas foi o suficiente para atrapalhar os planos de ver Rødhåd na Area Z. O stage assinado pelo selo Electric Deluxe serviu de abrigo da chuva para os muitos desavisados e era praticamente impossível ficar ali devido à quantidade de pessoas e, principalmente, pelo calor que, aliás, era o problema dos stages cobertos. Uma pena, pois o som estava muito bom, hipnótico, pesado e mais acelerado.
Para respirar melhor, demos uma passada na Area W, stage open air, onde Ricardo Villalobos estava tentando tocar. Explico: por algum problema técnico, talvez agulha ou sujeira, ou ainda mesa vibrando, a música pulava ou entrava em loop. Arrumou a agulha algumas vezes, reclamou com o responsável pelos equipamentos, mas nada parecia adiantar.
Alguns minutos depois, já nitidamente chateado e impaciente, Ricardo mixou rapidamente uma outra track e tirou o disco “problemático”. Esses problemas cortaram a vibe do público e do próprio DJ e então resolvemos voltar à Area V para ver um pouco do set de Pan-Pot. A dupla formada por Tassilo Ippenberger e Thomas Benedix tocou um Techno animado, mas sem exagero, mantendo uma linha séria e ao mesmo tempo dançante. O carisma e entrosamento destes dois é notável, gostam de brincar com o público, que respondeu muito bem.
Logo depois, no mesmo stage, era a vez de Maceo Plex, também conhecido como Maetrik. Confesso que não tinha muitas expectativas sobre Maceo, talvez por puro desconhecimento mais aprofundado e pelas últimas tracks que ouvi do produtor. O espanhol iniciou o set com a track Conjure Sex, a qual gosto bastante, e em seguida mostrou a que veio, levantando o público com uma bela sequência, mais séria do que eu esperava (no melhor sentido).
Mas o objetivo mesmo não era assistir o set de Maceo Plex, e sim, o super aguardado Len Faki, na Area X. O lendário alemão, residente do Berghain desde sua abertura e com grandes tracks atemporais em seu currículo (várias delas tocadas por mim e vários amigos DJs), era um dos meus favoritos em todo o festival. Seu set foi absurdamente bom, bastante energético, contando com uma técnica apurada e presença de palco cativante, receita para uma experiência e tanto! Foi exatamente (ou até mais) como eu esperava e ouso dizer que, pelo menos para mim, foi o melhor do festival. Mais do que nunca, agora posso afirmar: Len Faki é um monstro, ponto final.
Mesmo sabendo que no mesmo horário que Len Faki, em outro stage, Collabs 3000 (Chris Liebing e Speedy J) já havia começado seu set de três horas e meia (o maior do festival, diga-se de passagem), resolvi aguardar na mesma pista pelo b2b da dupla Ben Klock e Marcel Dettmann, pois tinha decidido não assisti-los separadamente no dia anterior.
E os caras não estavam para brincadeira: pareciam estar decididos a levar todos ali à uma viagem interestelar. Com um BPM um pouco mais acelerado, o set começou muito bem, mas seguiu para um caminho viajante ao extremo para o meu gosto, um lance muito “mental”. E quando digo “extremo”, significa que estava difícil até de curtir e dançar.
As imagens e vídeos projetados nos telões complementavam o clima lisérgico da apresentação, que estava bem interessante, mas um pouco “fora da curva” demais até o momento, pelo menos para o que eu esperava. Claro, ainda era possível que, mais adiante, o clima mudasse. Mas era o momento de decidir: arriscar ali ou correr para ver Collabs 3000? Já devem imaginar a conclusão, não? ☺
Chegando na Area Z, bastante empolgado para o que estava para assistir, entrei com um objetivo: curtir ao máximo um dos famosos closing sets, ainda mais sendo executado por estas lendas. Os dois já foram apresentados neste review, mais acima, então não é difícil imaginar o poderio bélico que essa dupla possui e representa. A junção dos dois setups, que separadamente já fazem um grande estrago, resulta em um paredão sonoro pesado, preenchido e complexo.
Vale ressaltar que ambos praticamente criam novas músicas ao vivo, utilizando seus arsenais para combinar diversos loops (trechos de outras músicas) e camadas extras de bateria/samples (Maschine e Octatrack), além de efeitos. Ou seja, cada set é sempre único, pois não é uma simples sequência de tracks, mas sim, uma combinação de pequenos elementos, muito bem encaixados, que formam o todo. O vídeo abaixo demonstra bem esses detalhes:
O tom do set foi o que se esperava: explosivo, pesadíssimo, sem dó nem piedade, energético, literalmente uma bomba atômica sendo lançada em nossa direção. Minha definição para este collabs? Duas bestas, saídas direto do inferno, releasing the kraken. ☺ Dançamos e curtimos muito, foi de lavar a alma e fechamos com chave de ouro este excelente festival que vai ficar para sempre em nossas memórias. Confira abaixo mais algumas imagens que fiz por lá: