O dia 1º de agosto simbolizou o bom momento que vive a cena artística nacional. Este processo vem acontecendo silenciosamente há anos e vem ganhando adeptos a cada dia e a cada lugar do Brasil que passa. Os brasileiros estão cada vez mais se profissionalizando, dentro de seus ideais, conquistando o público e quebrando a adoração, muitas vezes cega, pelos nomes estrangeiros. Esse meio vem sendo explorado de forma inteligente pelo D-Edge e pelo Warung há algum tempo, a exemplo disso podemos citar os lines-ups nacionais do Warung Day Festival e do aniversário do D-Edge, porém, ambos fora do estado de Santa Catarina. O que tínhamos por aqui nesse ideal é a eventual festa dos Savages, contando com o excelente time de residentes da casa. Para ampliar o leque de opções, o showcase do D-edge caiu como uma luva no cronograma do clube. Toda essa introdução serve para explicar porque valeu a pena estar dentro do clube às 10 horas da noite.
Assim que a festa começou, nos dirigimos para o Inside, aonde nosso residente Doriva Rozek seria o primeiro a se apresentar. Pelo fato de trabalharmos diretamente juntos e de sermos grandes amigos, eu tinha uma expectativa pessoal em sua apresentação. Nos dias que antecederam a festa ele comentou comigo que estava nervoso, ansioso para que a data chegasse. Seu preparo foi intenso, muitas horas de pesquisa, para que o resultado final fosse excelente. E quando acompanha-se isso é que se torna ainda mais gratificante ver o artista te surpreender! O que Doriva apresentou foi um set daqueles para guardar na memória. Logo na abertura já devia haver cerca de 200 pessoas ali o prestigiando. Uma hora depois a pista já estava cheia, vendo-o fazer uma de suas construções emblemáticas. Para quem costumar ler meus reviews sabe que adoro citar momentos chaves, mas nesse caso, o momento foi o todo, algo totalmente novo, uma experiência incrível.
Ao final da apresentação de Doriva, que era aclamado pelos presentes, o duo Stekke, formado por Ale Reis e Renee Mussi, se preparava para o que seria o inicio de um novo capítulo, diante de toda história que a festa prometia. Já com os discos girando, pudemos perceber várias novidades, um repertório vasto e com uma qualidade musical absurda, com momentos ora dançantes, ora reflexivos, fazendo com que os presentes refletissem sobre a arte que era apresentada. Além do belo set, o profissionalismo apresentado pelo duo foi outra de suas nobres características: próximo ao fim da apresentação o set complexo fora desconstruído, respeitando o contexto geral pretendido pela curadoria e finalizando com uma linha apropriada para que Willian Kraupp fizesse a melhor estréia possível. Na pista poucos percebem este tipo de situação, tanto que o próprio Ale me explicou em uma conversa de bastidores: algumas ações muitas vezes fogem da compreensão de quem está na pista.
Com o clima mais morno que Stekke entregou, Wilian bateu pro gol e correu pro abraço: a pista explodiu já em sua primeira track! Pude assistir seu inicio e ver o público em uma ótima vibe, muitos nitidamente orgulhosos pelo seu momento, afinal, é raro um artista local conseguir tal destaque no Warung. No entanto, por uma questão de afinidade musical, optei por me deslocar ao Garden, para ver Gromma. Depois dos reviews que fiz para a noite com Mind Against, no templo, e com Makam, no Terraza, a palavra “surpreendente” pode soar repetitiva nesse review, mas de fato o curitibano se reinventa a cada noite. Desta vez ele estava com enfoque mais voltado para o house, mas sempre mantendo o respeito ao que o headliner Amirali apresentaria a seguir. Ainda assim, a cada virada, o público aplaudia e vibrava com o DJ. Ao fim do set o garden estava em êxtase, na medida certa para a atração principal.
Amirali começou apresentando um live bem estruturado, apesar de sua sonoridade não ser minha praia pude perceber que o artista possuía qualidade. O assisti por algum tempo, mas sem a mesma empolgação dos artistas anteriores. Comecei a pensar: “Vai ser uma noite verde e amarela”! Subseqüente a isso me desloquei para o Inside, para ver o que o outro gringo estava apresentando. Ao contrário do Garden, a pista ali estava transbordando energia, característica marcante do som de Gaiser. O problema é que, depois de vê-lo pela quarta fez, percebemos claramente como seu live é repetitivo: o mesmo padrão do começo ao fim, mudando apenas o repertório. Depois de cerca de 30 minutos sua apresentação já era maçante, sem muita dinâmica. Nesse momento tive certeza: a noite de fato era verde e amarela, só faltava o líder do D-Edge Renato Ratier levantar o troféu.
Já assisti diversas apresentações dele, e essa sem dúvidas foi a melhor de todas. Seu set foi dinâmico, passeando por linhas de techno conceituais e dançantes. Comentei com alguns amigos que estava muito feliz por aquele momento e por tudo que aquela noite nos proporcionou. Falamos sobre o significado daquele momento, com tantos artistas brasileiros se destacando e se mostrando tão bons quanto ou até melhores que os estrangeiros, com o “chefe” colocando a cereja do bolo naquela manhã. Com uma pequena esticadinha além do tradicional, o evento teve seu encerramento às 7h30min. Era o fim de uma linda história na qual cada artista foi responsável por um capitulo, cumprindo seu papel e emocionando os presentes, transitando por vários gostos musicais, livre de rótulos.
No dia 19 de julho o Warung Beach Club abrigou dois showcases: o do selo europeu maeve, no Inside, e o da agência brasileira 24bit Management. Nossa maior expectativa era pelo primeiro, não por uma questão de qualidade, mas pela questão de buscar novidades. Somado ao fato de que o Garden estava super-lotado a noite toda, acabamos ficando 95% do tempo no antigo Main Room, ambiente no qual este review será focado. Para nós a noite tinha mais um grande atrativo, já que o nosso residente Danee seria o responsável por iniciar os trabalhos por ali, porém, mais uma vez, a burocracia e a falta de gente pra resolver problemas pontuais fez com que a noite começasse mais tarde pra nós.
Tudo começou com a fila de carros, que mesmo às 22h já era grande, graças também ao club vizinho Galera’s, que funcionava naquela noite. Após cerca de 40 minutos, conseguimos estacionar e corremos, na expectativa de pegar a segunda metade da apresentação de Danee. Esta ilusão se desfez assim que nos posicionamos na fila da lista, local no qual ficamos aguardando por uma hora. Quando nossa vez chegou, faltando 15 minutos para Daniel encerrar seu set, o golpe final: o nome de uma amiga (que havia sido confirmado) não estava na lista, o que nos fez aguardar mais 40 minutos até que alguém com autonomia aparecesse pra resolver o problema e permitir a entrada.
Enfim dentro, demos um giro não tão rápido por banheiro, caixa e bar, até finalmente subimos para a pista, a tempo de ver a última meia hora de The Drifter. É difícil emitir uma opinião honesta sobre um artista cujo qual você viu apenas 25% da apresentação, ainda mais depois de todo o transtorno passado. Neste curto período pudemos ver que o irlandês envolvia os presentes com uma linha de grave muito característica, apesar de abusar das melodias, bonitas porém emocionais demais para o momento. No entanto, prefiro acreditar que apenas não nos ambientamos por ter perdido o começo do set e o warm up da noite.
Logo em seguida foi a vez de Baikal, a estreia da noite mais aguardada pela nossa equipe, que fez jus à confiança depositada. O que mais chamou a atenção em seu set foi a construção, com ousados altos e baixos repentinos, que em sua maioria foram muito bem encaixados. A base da história era um tech house dançante, com os frequentes picos de emoção para ambos os lados, da introspectiva Northern Light, de Cobblestone Jazz, ao pesado remix de Adam Port para Ritual of Life, de Sven Vath. Seu set foi o melhor momento da festa, pois foi quando a maior parte do público estava se apertando para conseguir um lugar no Garden para ver Dashdot.
Uma pena que no final da noite, quando o headliner Mano Le Tough assumiu o controle da pista, toda essa galera tenha resolvido subir para o Inside. Em questão de minutos o ambiente estava no nível de super-lotação que já acabou com diversas noites no passado e tanto criticamos aqui. Por sorte havia um camarote no qual pudemos nos refugiar, de onde vimos boa parte da apresentação de Mano, que foi boa, porém, sem surpresas. O headliner navegou pela zona de conforto da sua atmosfera dançante, salpicando os clássicos momentos de melodias melancólicas e emocionantes, mas sem a ousadia que Baikal teve. Era passado das 6:00 quando optamos por deixar o club, por esta soma de falta de conforto e atrativo musical no artista do momento, com uma sensação de que havia sido bom, mas poderia ter sido melhor. As expectativas agora se voltam para o D-Edge Showcase, que deve ser a melhor festa do club nos próximos 2 meses, com Gaiser, Amirali e um ótimo time de DJs nacionais, como Stekke, Renato Ratier, Gromma e Doriva Rozek.
Fazer um review do Awakenings Festival é como contar aquele sonho sensacional que você teve enquanto dormia. Felizmente, diferente do que quase sempre acontece quando acordamos, desta vez o sonho é claro e fácil de lembrar e todos os detalhes e momentos pelos quais passei estão guardados muito bem em minha memória. É bem difícil contar todos os detalhes em um review, pois resultaria em dezenas de parágrafos, portanto, tentarei ser objetivo e contar sobre um pouco de tudo, tendo que deixar algumas perspectivas de fora.
Participar deste evento, um dos maiores festivais de techno do mundo, era um sonho antigo. Como fã e DJ do gênero, sempre soube que seria uma das únicas oportunidades de ver e ouvir DJs e produtores que servem de inspiração em meus sets, tocando e produzindo o tipo de som que eu mais curto. Lendas que trabalham incessantemente por muitos anos para que os fãs possam continuar ouvindo o que gostam e a essência da coisa não acabe. Artistas que muito dificilmente tocarão um dia no Brasil, infelizmente.
O festival acontece anualmente desde 2001 em Amsterdam, Holanda, sendo realizado no Spaarnwoude, uma área de recreação gigantesca e com muito verde. É o ponto mais alto de toda a “maratona” de eventos Awakenings que ocorrem o ano todo em locais diversos, principalmente no excelente Gashouder, também em Amsterdam.
Antes começar a falar do evento em si, preciso esclarecer uma situação que eu, com a chance de realizar meu sonho e ver muitos artistas que nunca tinha visto ao vivo, vivenciei por lá: a maioria deles tocava em horários conflitantes, em palcos diferentes (veja aqui o timetable oficial). “OMG! O que fazer?”, é a primeira coisa que se pensa. Decidi então ver um pouco de tudo, dos meus artistas preferidos, das minhas referências, dos meus ídolos, intercalando-os a cada 1h mais ou menos, e seguindo atrás da melhor experiência possível, não esquecendo, é claro, de curtir também o festival em si, o clima, a estrutura, conhecer pessoas. Já adiantando o resultado: deu para coletar uma bagagem e tanto, a qual trago para casa, para meus sets e para vocês. Vamos lá!? 😉
Obs: devido à extrema pressão sonora, a qualidade do som nos vídeos ficou ruim. Sorry for that. Eles servem mais para passar a idéia de como era o local, os palcos, a estrutura, o clima, etc. Sugiro procurar pelos sets dos DJs se querem ouvir nitidamente o que tocaram.
Day One
Eu e minha esposa saímos do hotel por volta das 11:30, pegamos um metrô até a estação de trem Sloterdijk. De lá, pegaríamos um ônibus especialmente fretado para o festival. A primeira novidade para nós foi ver que muita gente, talvez até a grande maioria, utiliza o transporte público (e em alguns casos até a amigável bicicleta) para ir ao evento. Estes ônibus fazem o trajeto Sloterdijk-Festival durante o dia todo, a partir das 11:00 até 00:30. Já fora da estação de trem, nos juntamos a muitos outros e pegamos um dos ônibus. O trajeto dura uns 15 minutos e a TPF (tensão-pré-festa) já começou a bater ali, com tanta gente falando sem parar, em várias línguas, empolgados com suas turmas.
Chegando no local de desembarque, vimos que teríamos que andar mais um bom tanto até a entrada da festa propriamente dita. A boa notícia, depois de um calor infernal dentro do ônibus: Iced Tea estupidamente gelado sendo distribuído (grátis!) a quem quisesse, antes de continuar a caminhada. Alguns banheiros, cartazes de outros festivais e campos de golf depois, chegamos. E-tickets verificados, passamos pela revista, colocamos as pulseiras de acesso e pegamos o código do locker (guarda-volumes), tudo isso em mais ou menos 30 minutos, tudo bem organizado e tranquilo. Logo ao entrar, ganhamos mais um “mimo”: um óculos de sol personalizado, bem legal! Usei no primeiro dia inteiro. ☺
Os lockers individuais são uma sacada e tanto, uma mão na roda mesmo, pois nos deixa tranquilos para curtirmos a festa sem nos preocupar com mochila, roupa, acessórios, protetor solar e tudo mais.
Próxima etapa: comprar fichas e comer algo, porque saco vazio não para em pé. 😉 As fichas, ou munts (moeda em Holandês), também chamadas de tokens, podiam ser compradas em caixas espalhados pelo festival ou através dos caixas automáticos self-service, muito fáceis de usar.
Com 8 (sim, OITO) palcos, fica um pouco difícil se localizar e saber o que está acontecendo em cada um, mas placas e indicativos foi o que não faltou dentro do festival: placas direcionando para cada palco, timetables em forma de livreto entregues na entrada de cada dia e espalhadas pela festa e indicadores luminosos nos quais podia-se ver, para cada stage, qual artista estava tocando e qual seria o próximo. É o fim do saudoso e simplório line-up impresso em casa e carregado com cuidado no bolso! ☺ Informações sobre saídas, pontos de taxi e ônibus também estavam disponível para todos.
Falando em estrutura, esta era simples, sem extravagâncias, mas muito funcional e organizada. Além do habitual, como praça de alimentação, posto médico e achados & perdidos, não pudemos deixar de notar algumas novidades e surpresas bem legais:
– Água grátis (!!!); – Banheiros em boa quantidade, com vaso sanitário e descarga de verdade, muito bem cuidados e limpos, até com espelhos e pias para lavar as mãos; – Barraquinha da Sociedade Holandesa de Câncer, com protetor solar gratuito (!!!); – Barraquinha Awakenings Merchandise, onde eram vendidas camisetas, moletons, blusinhas, óculos, leques, pulseiras e bonés personalizados da marca; – Barraquinhas diversas vendendo acessórios, óculos, bonés, capa de chuva, isqueiros, desodorantes e outras variedades, bem útil caso tenha esquecido algo em casa; – Barraquinha conscientizando os frequentadores sobre os malefícios da exposição constante à altos volumes sonoros e também vendendo diversos modelos de earplugs (dos mais baratos, que já ajudam, até modelos mais caros e customizados); – Massagem feita por especialistas; – Cartazes, colados próximo aos lockers, com os horários dos últimos trens na estação Sloterdijk; – Barraquinha de coquetéis (Caipirinha, Mojito, Pina Colada, etc); – Carrinho fazendo e vendendo Stroopwafel, famoso doce holandês.
E ainda, para animar a “criançada”, uma espécie de “chapéu mexicano” gigante. ☺
Ok, tudo pronto. Atacar!
Já ambientado, era hora de partir pra cima e sentir a pressão do Techno europeu, começando com um finalzinho do b2b dos suecos Cari Lekebusch e Joel Mull na Area Z. A sensação ao entrar no stage e ir me aproximando do palco onde dois dos meus produtores favoritos estavam destruindo tudo foi muito boa e reconfortante. Pensei comigo: “já valeu a pena!”. Arrepios dos pés à cabeça aos montes e em poucos segundos, sorriso largo no rosto e um sentimento que há tempos não sentia… o de que eu realmente era apaixonado por aquilo. Havia esperado tanto tempo por isso que me senti como se fosse a primeira rave/festa.
O som estava muito bom, divertido e pesado na medida, a sintonia dos dois estava ótima, mas não ficamos até o final pois queria ver Rebekah, na Area B. Chegando lá, estava rolando o característico som da DJ e produtora: BPM mais acelerado, pesado, sujo e dançante. Não é a toa que a inglesa é artista da renomada CLR, selo alemão de (nada mais nada menos que) Chris Liebing.
Rebekah estava muito animada e a pista estava esquentando, mas chegou uma hora que o som ficou distorcido demais, ruim de ouvir, até para os padrões sujos de Techno, talvez por algum problema no sound system. Resolvi dar uma volta para conhecer um pouco mais o festival e visitar a Area Y, onde Ben Klock estava tocando.
O DJ, produtor, dono do selo Klockworks, residente do místico club Berghain, e com tracks lançadas em selos como BPitch Control e Ostgut Ton, é um dos nomes mais falados na história recente do techno. Sem dúvida um dos horários e stages mais lotados do festival todo, o alemão era aguardado por muitos fãs. Primeira vez que vi Ben Klock ao vivo e fiquei realmente impressionado. Seguindo a linha pesada (ok, vão ler isso muitas vezes ☺) e hipnótica, característica de seus sets, comandava a pista com maestria. O cara sabe muito bem o que faz.
Como já explicado anteriormente, eu já sabia que os dois dias seriam de decisões difíceis e algumas renúncias (quanto drama!). Decidi não assistir Ben Klock e Marcel Dettmann em seus sets separados, no dia 1, pois tocariam juntos no dia 2. Sendo assim, passado algum tempo, abandonei a Area Y e fui em direção à Area X ver a lenda Jeff Mills a.k.a The Wizard.
O DJ e produtor americano, dono do selo Axis Records e um dos fundadores do coletivo Underground Resistance, é reconhecido mundialmente não só por artistas da música. Escrever sobre este mago daria um livro, então não irei me estender no assunto. Ao chegarmos no stage, mais ou menos no meio do set, vimos o público delirando ao som de Mills e suas divertidas e interessantes improvisações na TR-909. Enquanto estive ali, inevitavelmente analisando cada detalhe da apresentação, ouvi um estilo de techno mais old school, com características claras de uso das clássicas baterias eletrônicas que fizeram história no gênero, e sem muita melodia. A energia estava muito boa, apesar da seriedade do DJ, provavelmente por sua extrema concentração. Afinal, “quem sabe faz ao vivo”. 😉
Próxima parada: Speedy J, na Area Y. O holandês Jochem Paap, dono do selo Electric Deluxe, pioneiro do início dos anos 90 e um dos primeiros a abraçar a tecnologia digital (Traktor) em seus sets, junto com seu parceiro Chris Liebing, era um dos caras que mais queria ver, pois segue a linha “peak-time Techno” que tanto gosto, bastante energética, hipnótica e pesada. Seu setup é bem interessante, tocando com 4 decks do Traktor e mais um sampler/sequencer Elektron Octatrack, o que possibilita manipulações e criações ao vivo, adicionando dinâmica e variações ao set.
O set em si foi nos moldes que eu imaginava, muito bom, combinando com o clima mais dark dos stages cobertos/fechados. A energia das pessoas que nítida e genuinamente estavam ali por causa do techno era contagiante e a combinação de pirofagia dos telões, lasers e luzes completava o show.
Antes de acabar o set de Speedy J era hora de partir para o próximo artista e, mais uma vez, tive que escolher entre Joseph Capriati, Adam Beyer, The Advent e Maetrik. Como Beyer tocaria no dia 2, resolvi respirar um pouco de ar fresco no stage open air e ver Capriati na Area V.
O italiano me pareceu inspirado e apresentou um set muito bom, passando por trechos mais animados e outros mais fechados/dark/sombrios, sempre com peso e groove na medida, animando a todos. Conseguimos ver praticamente o set todo e gostei muito do resultado. Além disso, pude confirmar mais uma vez que meu estilo de tocar, incluindo muitas vezes até o setup, é bem parecido ao de Capriati. Não é a toa, afinal, é comum nos inspirarmos em quem gostamos. Para adicionar um toque especial, contamos com o ótimo tempo do dia, com um bonito céu azul que durava até altas horas da noite, devido ao início do verão europeu.
Chris Liebing, Len Faki, Pan-Pot, Nina Kraviz ou Richie Hawtin? Quem seria o próximo? ☺ Os três primeiros tocariam no dia 2. Hawtin já vi algumas vezes. Então dessa vez a escolha foi fácil: Nina Kraviz ganhou. No caminho até a Area X, como faltavam uns 20 minutos para o set da Nina, paramos para ver um pouquinho do DJ, produtor e ídolo Chris Liebing, na Area Y. Pausa para um fato de fã: o sonho de vê-lo tocar eu já havia realizado, no Brasil, inclusive! Foi em uma edição da Electrance em SP, na qual tive a oportunidade de bater um papo antes de seu set e, claro, tirar uma foto para lembrança.
Chris é um dos respeitadíssimos pioneiros e monstros do techno. Dono do selo CLR, guerreiro incansável pelo gênero e um dos primeiros a abraçar tecnologias digitais em seu setup (assim como Speedy J), já lançou tracks e remixes em selos como Electric Deluxe, Primate Recordings, Sleaze Records e outros. Não é muito difícil explicar o que rolou: o alemão, fluente em seu setup de infinitas possibilidades (são 6 decks – veja aqui um vídeo onde ele explica tudo), mostrou mais uma vez porque é considerado um rei por onde toca. Techno super pesado, obscuro, hipnótico, energético, muitas vezes até psicodélico, misturando muitos loops e improvisações com a Maschine. É absurdo o domínio com que o artista comanda sua nave. Assisti-lo tocando é uma experiência que todo amante de música eletrônica deveria ter uma vez na vida. É praticamente impossível tentar gravar um vídeo de seu set, devido à pressão sonora, então só resta uma foto ☺
Finalmente era a hora de ver Nina Kraviz. É difícil esconder o encanto ao ver a russa tocando e dançando, como se estivesse curtindo seu set mais que qualquer um. Não que as pessoas não estivessem em êxtase e hipnotizadas ao ver e ouvi-la, mas é que suas caras e bocas e seu jeito divertido e sexy de dançar demonstram que ela realmente curte muito o que faz. O set em si estava bem bom, com seu techno ácido e pegado, fez a pista ferver e dançar muito.
Deu 22:30 e era hora de ir embora antes que o som parasse (23:00) e a saída virasse um caos. O céu estava ainda muito bonito e o clima estava mágico, fechando com chave de ouro o primeiro dia de festival, com sensação de felicidade e satisfação. Abaixo, os últimos minutos antes de sair, ao som de Richie Hawtin na Area W.
Day Two
Devidamente descansados do primeiro dia, era hora de aproveitar ao máximo o segundo e último dia do festival. No dia 2, já totalmente ambientados e cansados do espirito desbravador da área toda, conseguimos curtir melhor e com mais calma. Depois de todos os procedimentos iniciais semelhantes aos de sábado, partimos direto ao que interessa: música. ☺
Antes de mais nada, importante mencionar que este seria um dia em que a Area B seria dedicada ao Hard Techno e, mais importante ainda, que praticamente metade dos artistas deste stage era brasileiro! Julyukie a.k.a Juliana Yamasaki, DJ Lukas b2b Fernanda Martins, Candy Cox (com seu projeto No Dolls, juntamente com a chilena Daniela Haverbeck) e PETDuo mostraram que o Brasil, (especialmente PR e SP) é potência e referência mundial do Hard Techno. Que orgulho!
Começamos pela Area W, com o alemão Recondite. A idéia era só passar um tempinho ali, sem maiores pretensões, e logo seguir estrada para ver outros artistas. Mr. Brunner iniciou o set com a bela e já consagrada track Fiery e o set foi evoluindo na mesma linha, BPM baixo, clima mais fechado e viajante.
Confesso que não achei o estilo mais apropriado para um palco open air, mas sim para um club pequeno, com ambiente mais intimista. Comparado ao que estava rolando em outros palcos, o ritmo ali estava meio devagar e isso foi o suficiente para que fôssemos para a Area X ver Nicole Moudaber.
Minha primeira surpresa do segundo dia foi esta DJ e produtora super animada, que dominou a pista e construiu um set sensacional, gostoso de ouvir e ver, com uma pegada um pouco mais lenta, mas pesada, energética e dançante. Chegamos um pouco depois do início do set e ficamos até o fim, momento em que a artista foi “aplaudida de pé” por um bom tempo! Uma cena que não tinha tido oportunidade de presenciar até o momento. Ponto para as mulheres! 😉
A espera até o final do set de Nicole não era a toa. Quem tocaria em seguida, ali no mesmo stage, seria Gary Beck. Reconhecido ídolo de muitos, eu inclusive, o inglês é conhecido por seu som único e já lançou tracks por selos como Drumcode e Cocoon, entre outras, além de seu próprio selo BEK Audio.
O set começou misterioso, com um típico som de drone, sem baterias e grave o suficiente para revirar os intestinos. Não demorou e sua típica avalanche de techno pesado, reto e sem massagem começou. O DJ estava muito à vontade e demonstrou ótima técnica, inclusive um pouco diferente do habitual: muitas vezes, após criar um momento de tensão, com filtro e efeitos, ia liberando o grave gradativamente até que voltasse ao peso total, ao invés de voltar tudo de uma vez, gerando aquela explosão de alegria no público. Nada de outro mundo, mas achei interessante e ousado.
Depois de ter ouvido algumas tracks conhecidas e presenciar o “peso” em pessoa, decidimos levantar acampamento, pois outro grande nome nos esperava na Area V, tocando no mesmo horário que Gary Beck. Alan Fitzpatrick estava na minha lista de must see. É um dos produtores que mais tenho admirado ultimamente. O estilo de suas produções me agrada muito, unindo peso, melodia e alguns vocais na medida certa, com uma qualidade excepcional.
O som estava um pouco baixo na Area V, e o estilo de Fitzpatrick estava mais light do que eu esperava, ou talvez por ter vindo de outro artista muito mais pesado. Mas esses fatores não chegaram a prejudicar em nada a apresentação do grande Alan, que mostrou o que sabe e tocou várias de sua autoria, agradando bastante o público. O clima estava começando a fechar, antes mesmo do fim do set, e uma chuva estava se armando. Hora de dar uma volta, comer algo e pegar nossas jaquetas impermeáveis no guarda-volumes.
A garoa não durou muito, mas foi o suficiente para atrapalhar os planos de ver Rødhåd na Area Z. O stage assinado pelo selo Electric Deluxe serviu de abrigo da chuva para os muitos desavisados e era praticamente impossível ficar ali devido à quantidade de pessoas e, principalmente, pelo calor que, aliás, era o problema dos stages cobertos. Uma pena, pois o som estava muito bom, hipnótico, pesado e mais acelerado.
Para respirar melhor, demos uma passada na Area W, stage open air, onde Ricardo Villalobos estava tentando tocar. Explico: por algum problema técnico, talvez agulha ou sujeira, ou ainda mesa vibrando, a música pulava ou entrava em loop. Arrumou a agulha algumas vezes, reclamou com o responsável pelos equipamentos, mas nada parecia adiantar.
Alguns minutos depois, já nitidamente chateado e impaciente, Ricardo mixou rapidamente uma outra track e tirou o disco “problemático”. Esses problemas cortaram a vibe do público e do próprio DJ e então resolvemos voltar à Area V para ver um pouco do set de Pan-Pot. A dupla formada por Tassilo Ippenberger e Thomas Benedix tocou um Techno animado, mas sem exagero, mantendo uma linha séria e ao mesmo tempo dançante. O carisma e entrosamento destes dois é notável, gostam de brincar com o público, que respondeu muito bem.
Logo depois, no mesmo stage, era a vez de Maceo Plex, também conhecido como Maetrik. Confesso que não tinha muitas expectativas sobre Maceo, talvez por puro desconhecimento mais aprofundado e pelas últimas tracks que ouvi do produtor. O espanhol iniciou o set com a track Conjure Sex, a qual gosto bastante, e em seguida mostrou a que veio, levantando o público com uma bela sequência, mais séria do que eu esperava (no melhor sentido).
Mas o objetivo mesmo não era assistir o set de Maceo Plex, e sim, o super aguardado Len Faki, na Area X. O lendário alemão, residente do Berghain desde sua abertura e com grandes tracks atemporais em seu currículo (várias delas tocadas por mim e vários amigos DJs), era um dos meus favoritos em todo o festival. Seu set foi absurdamente bom, bastante energético, contando com uma técnica apurada e presença de palco cativante, receita para uma experiência e tanto! Foi exatamente (ou até mais) como eu esperava e ouso dizer que, pelo menos para mim, foi o melhor do festival. Mais do que nunca, agora posso afirmar: Len Faki é um monstro, ponto final.
Mesmo sabendo que no mesmo horário que Len Faki, em outro stage, Collabs 3000 (Chris Liebing e Speedy J) já havia começado seu set de três horas e meia (o maior do festival, diga-se de passagem), resolvi aguardar na mesma pista pelo b2b da dupla Ben Klock e Marcel Dettmann, pois tinha decidido não assisti-los separadamente no dia anterior.
E os caras não estavam para brincadeira: pareciam estar decididos a levar todos ali à uma viagem interestelar. Com um BPM um pouco mais acelerado, o set começou muito bem, mas seguiu para um caminho viajante ao extremo para o meu gosto, um lance muito “mental”. E quando digo “extremo”, significa que estava difícil até de curtir e dançar.
As imagens e vídeos projetados nos telões complementavam o clima lisérgico da apresentação, que estava bem interessante, mas um pouco “fora da curva” demais até o momento, pelo menos para o que eu esperava. Claro, ainda era possível que, mais adiante, o clima mudasse. Mas era o momento de decidir: arriscar ali ou correr para ver Collabs 3000? Já devem imaginar a conclusão, não? ☺
Chegando na Area Z, bastante empolgado para o que estava para assistir, entrei com um objetivo: curtir ao máximo um dos famosos closing sets, ainda mais sendo executado por estas lendas. Os dois já foram apresentados neste review, mais acima, então não é difícil imaginar o poderio bélico que essa dupla possui e representa. A junção dos dois setups, que separadamente já fazem um grande estrago, resulta em um paredão sonoro pesado, preenchido e complexo.
Vale ressaltar que ambos praticamente criam novas músicas ao vivo, utilizando seus arsenais para combinar diversos loops (trechos de outras músicas) e camadas extras de bateria/samples (Maschine e Octatrack), além de efeitos. Ou seja, cada set é sempre único, pois não é uma simples sequência de tracks, mas sim, uma combinação de pequenos elementos, muito bem encaixados, que formam o todo. O vídeo abaixo demonstra bem esses detalhes:
O tom do set foi o que se esperava: explosivo, pesadíssimo, sem dó nem piedade, energético, literalmente uma bomba atômica sendo lançada em nossa direção. Minha definição para este collabs? Duas bestas, saídas direto do inferno, releasing the kraken. ☺ Dançamos e curtimos muito, foi de lavar a alma e fechamos com chave de ouro este excelente festival que vai ficar para sempre em nossas memórias. Confira abaixo mais algumas imagens que fiz por lá:
A noite do dia 4 de julho foi mais uma daquelas noites de inverno em que o Warung nos surpreende. A primeira noticia positiva se deu através da curadoria da noite, que fez um belo strike com a divulgação dos horários do line-up. Uma das coisas que sempre defendemos neste assunto é a equidade artística, esse equilíbrio é fundamental para que a noite renda boas experiências ao público. Nesse quesito que o clube acertou, atingindo diferentes tipos de públicos que se dividiram entre o Inside e Garden. Ao longo da festa a lotação esteve em um nível agradável, com uma divisão ideal em ambos os stages, que eram duas pistas bastante confortáveis, mas sem perder a energia. No palco em que a nossa equipe ficou a maior parte do tempo, pudemos ver uma articulação muito bem feita por Gromma, Boghosian e Mind Against.
Abrindo a noite, Gromma mais uma vez nos surpreendeu. Digo isso pois recentemente o vimos tocar no Terraza, com uma proposta bem diferente da apresentada no templo, mostrando que seu repertório é vasto, mas sem perder sua identidade. Essa flexibilidade musical tornou-se possível devido à versatilidade do artista, que mais uma vez norteou-se pelo house e pelo techno, criando bons momentos dentro de uma construção consistente. O primeiro ápice da noite aconteceu quando ele tocou um remix de Kerri Chandler para Westwind, de Nina Simone, artista de jazz/blues dos anos 60. Outro momento marcante foi quando rolou o remix de XDB para Angels of Night, de Lawrence, enquanto a pista era preparada para Paulo.
Com a entrada de Boghosian, o Inside ganhou mais peso. Sua apresentação foi dinâmica, passando por variações que dividem o set em três partes, que foram essenciais para que o headliner pudesse ter uma boa atuação. Na primeira, sonoridades voltadas pro tech-house, com uma personalidade mais séria, e sendo intensificadas conforme sua apresentação evoluía. A cada passada de música era nítida a euforia nos presentes, bem como o controle e feeling de pista do artista. Na segunda parte o techno foi predominante, em uma transição muito bem elaborada. Próximo ao fim, a terceira parte surge com características melódicas, o que se aproximava da linha musical do próximo artista. Em sua última música o savage arrematou o segundo grande momento da noite: uma versão de Signs do artista Howling, que colocou a pista abaixo. Após um warm up sob medida, era só Federico e Alessandro derrubarem os pinos restantes e correrem para o abraço do público, que aguardava ansiosamente sua entrada.
Logo na abertura já foi possível notar a identidade do duo, com bastante melodia e timbragens impactantes, além de sua técnica apurada, combinação que fez com que o público vibrasse com frequência. A apresentação seguiu uma mesma estética do começo ao fim, hipnotizando os presentes. Foi durante esse transe coletivo que surgiu o terceiro grande momento da festa: A música REJ, do artista Âme – um clássico de música eletrônica. Com a ausência da super-lotação e este ótimo trabalho da curadoria, de tudo o que foi presenciado no Main Room nesta festa apenas um fator pode ser citado como negativo: o sound system, que parecia estar com intensidade aquém do que foi presenciado nas festas anteriores.
Quanto ao Garden, nas poucas vezes que o visitei pude ver um Leo Janeiro diferente do seu tradicional, tocando um som elaborado e acessível para os presentes, comentário que se estende a Lauren, headliner do stage. Agora todas as atenções miram no dia 18 de julho, data em que o templo recebe o showcase da 24bit no Garden e da Maeve no Inside, com Mano Le Tough, Baikal e The Drifter, com warm-up do nosso residente Danee.
O mistério finalmente acabou: hoje a Tribaltech divulgou mais de quatro dezenas de artistas confirmados na edição de 2015, com muitas novidades e artistas de peso. A forma de divulgação também chamou a atenção: o lado storyteller da marca está cada vez mais forte nas campanhas, pois os artistas foram divididos em 3 pequenos contos narrados por um personagem fictício, que simboliza cada um dos frequentadores do festival – ou moradores da Evolution Town.
Confira abaixo todos os artistas já confirmados:
O evento rola em dois dias, 10 (sábado) e 11 (domingo) de outubro, lembrando que dia 12 é feriado nacional. Para ler os contos, assistir os videos e obter mais informações, confira a fanpage oficial. Os ingressos estão à venda pelo Alô Ingressos.
Sexta-feira, 19 de junho, uma das noites mais frias de 2015. Pessoas comuns estariam embaixo de suas cobertas, comendo um fondue, vendo televisão. Como sou mais um apaixonado por música, me programei para ir ao Warung, pois, das atrações agendadas para esse período do ano, Joris Voorn é, provavelmente o retorno mais aguardado por aqueles que frequentam o club por pelo menos alguns bons anos. Digo isso pois sua última apresentação no Templo, ao lado de Phonique, foi uma daquelas noites completas, nostálgicas.
Chegando ao clube, nos deparamos com um pequeno inconveniente. Devido a questões burocráticas e a falta de uma pessoa de plantão pra resolver problemas operacionais, perdemos mais de uma hora na entrada, fazendo com que não ouvíssemos a maior parte do warm up da incrível Aninha. Sou suspeito para falar dela, pois, sou um grande fã há muito tempo. Da parte final que pude acompanhar, muito groove e uma pista fervida. A finalização com o remake de Sebastien Leger para a clássica “Jaguar” dividiu opiniões: Uns acharam desnecessário para o momento, outros sentiram uma conexão com o que estava por vir (coincidentemente, eu havia tocado ela dias atrás em uma festa entre amigos). A partir disso, começamos a acompanhar o long set que estava por vir. Artista muito completo, com produções figurando no topo há alguns anos, Joris é daqueles caras que monta sets como uma montanha russa, com variações de estilos frequentes. Utilizando uma fórmula que mesclava faixas melódicas e dançantes constantemente, seu set apresentou diversas músicas autorais. Sua técnica é refinada e, obviamente, a pista soube reconhecer seu mérito. No final, momentos de techno fizeram a pista bombar. Naquele momento, a energia só não foi maior porque o frio era realmente muito intenso e, devido a isso, o club apresentava público abaixo do normal.
Se no Inside o frio era controlado, no Garden, isso só foi possível no momento da apresentação do duo Elekfantz, que apresentou o seu live clássico e embalou a turma que lá se concentrava. Após eles, a dupla Shadow Movement, de artistas extremamente jovens, apresentou um set bem coerente, que, infelizmente, devido à gélida noite, foi apreciado por pouquíssimos clubbers que ali estavam.
Na semana passada a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo tomou conta da mídia tradicional brasileira. Em uma cobertura digna de Ayrton Senna, todos os veículos de comunicação das Organizações Globo (e todo o resto da imprensa, de carona no hype) inundaram a vida dos brasileiros com informações dos procedimentos post mortem, deixando as pessoas que vivem fora da esfera do sertanejo universitário sem entender nada. Ao longo da semana foi possível ver no Facebook inúmeras declarações mal colocadas, como a do Deejay Freedom II, que num ato digno de Ten Walls comemorou a morte do cara só porque ele cantava sertanejo. Passada a shitstorm e o período de luto eis que surge a primeira crítica consistente, para nossa surpresa, no Globo News, apresentada por Zeca Camargo no formato de crônica.
Não posso dizer que concordo com tudo o que ele fala, ou com as referências que apresenta. Mamonas Assassinas me comoveu, mas quando criança. Analisando friamente hoje é fácil concluir que do ponto de vista musical eles não tiveram muita relevância para justificar o endeusamento, no entanto, isso foi há 20 anos e não vale a pena exumar o assunto agora, vamos voltar ao cadáver mais recente. Zeca está enfrentando neste momento a ira cega de todos os fãs e fãs-relâmpago de Cristiano, naquele velho costume do brasileiro de não saber ouvir uma crítica negativa e ainda reagir como criança. Porém quem prestou atenção na crônica percebe que ele não ataca o cantor, que implicitamente acaba ainda sendo retratado como vítima parcial, um cara que estava no lugar certo na hora certa e foi escolhido pra cantar as músicas certas e virar o novo Ídolo Hot Pocket do sertanejo universitário.
Sua crítica é à atual dinâmica da cena musical brasileira, na qual ídolos são fabricados seguindo uma série de parâmetros, que vão da aparência física ao famoso QI (quem indica), mas ficam alheios à aptidão daquele cidadão para a música. O paralelo que ele faz com os livros de colorir é ótimo, pois é inegável que muitas páginas pintadas pelos brasileiros fiquem lindas e dignas de um elogio, mas ela nunca será uma peça de relevância criativa, quem dirá uma obra de arte. O mesmo vale para a música: o pop brasileiro atual não é necessariamente ruim, ou feio, mas ele peca na hora de cumprir um papel fundamental que qualquer tipo de arte tem na sociedade, que é o de levar conteúdo rico pras pessoas. No curto prazo as críticas a essa prática são tachadas de “dor-de-cotovelo”, mas agora que estamos chegando no longo prazo vemos o dano que tantos anos de livros de colorir causaram na sociedade brasileira. O global pode ser visto como hipócrita nesse momento, pois a empresa para quem trabalha é a grande culpada por essa falta de desenvolvimento criativo do brasileiro médio, mas eu diria tratar-se mesmo de um ato de desobediência genial, tanto que ao ser posto para se retratar no Video Show ele manteve o tom sarcástico em alta e parafraseou Fátima Bernardes, chamando o cantor de Cristiano Ronaldo.
Aí nos perguntamos… Por que ele fez isso? Eu não sou fã dele e pouco sei sobre sua carreira, mas dois fatos podem nos ajudar a entender: primeiro que sua carreira iniciou na MTV, lá na época em que o Kurt Cobain estava vivo e o canal era, de fato, uma referência séria pra juventude ávida por música. Segundo, a belíssima resenha que fez sobre Ricardo Villalobos em janeiro de 2007, mesmo ano em que eu fui à primeira rave pra ouvir Skazi e GMS. No texto ele, que se diz alheio à música eletrônica alternativa característica da loja de discos aonde comprou o Alcachofa, disseca o trabalho do artista de tal maneira que nenhum jornalista especializado da nossa cena atual seria capaz de fazer. Em poucos parágrafos ele pegou um dos mais complexos e incompreendidos produtores e o tornou palatável para a massa brasileira, que sem ler seu texto talvez desistisse da Fizheuer Zieheuer nos primeiros quatro minutos, dizendo que ela dá sono.
Sendo assim, Zeca fez o que fez porque ele viveu uma época boa, sabe apreciar as mais diferentes ousadas e complexas formas de arte (se não ele jamais compreenderia Ricardo, sendo um cara de fora do eletrônico) e deve estar completamente depressivo assistindo a nossa música indo cada vez mais para o fundo do abismo. Foi um pedido de socorro!
Tá Moha, mas e você, por que se deu ao trabalho de fazer tal análise aqui no detroitbr?
Porque enquanto frequentador da cena eletrônica, me identifiquei com seu chamado. Os fatos aconteceram no mundo do sertanejo, mas a crítica vale em paralelo para qualquer cena musical brasileira, inclusive a nossa.
Salvo raríssimas exceções (e como é triste ver que o nosso exemplo de exceção é o mesmo desde 2007, Gui Boratto), toda a trupe de DJs que hoje cobra cachês na casa das dezenas de milhar por noite nada mais são do que Cristianos Araújos do eletrônico, produzindo o som enlatado do momento. Hoje vivemos a era do “future techno”, mas quem viveu outras épocas sabe que já houve o grande momento “deep bombombom”, “tech house universitário”, “minimal goteirinha”, cada um com seus Ídolos Hot Pocket que levavam milhares pras festas, geravam fortunas em vendas e… poucos anos depois ou estavam sumidos, ou tiveram agilidade pra migrar pra próxima moda e continuar em voga.
Alok Lima e você
Na cena internacional isso também acontece, claro, o Top 100 da DJ Mag está aí pra nos provar isso. No entanto fora do país há também uma valorização relevante de artistas diferenciados, que conseguem fazer seu trabalho, tocar seu público e ser bem remunerado sem precisar se incomodar com o que rola no meio do “EDM” – o line-up de festivais como Sónar e Movement estão aí pra nos provar isso. O que nos falta é espaço para que essa cena paralela (também chamada de alternativa, ou underground) possa se desenvolver em concomitância com a cena comercial já estabelecida.
Por isso, achei importante pegarmos a crítica que o Zeca fez ao sertanejo e estimular todos a olharmos para nosso próprio nariz: estamos constantemente criticando o sertanejo universitário, mas o que estamos fazendo para que o eletrônico seja o antagonista do bem nessa história? O próximo herói nacional que o Zeca tanto clama pode não ser apenas um, mas vários, oriundos do techno, do house, do trance… Basta que se construa uma cena artística consistente e com visão de longo prazo, que valorize a criatividade, a capacidade de ousar e surpreender, o incomum.
Assim que o evento foi lançado, o detroitbr se preparou para essa ocasião, pois Makam era a melhor atração confirmada na casa desde a vinda de Carl Craig, no carnaval. O dia 26 finalmente chegou e pegamos a estrada cedo, pois a noite já começaria com Gromma, DJ curitibano que tem feito apresentações excelentes e tem se destacado na cena nacional.
Ao longo de seu set podemos notar seu nível de pesquisa altíssimo e coeso, junto à uma construção impecável. Ele conseguiu transitar entre o techno e house, o old school e o novo, com bons momentos formados por clássicos como Mystical Rhythm. Vimos ali o que se espera de um DJ: que faça leitura da noite, da pista, do contexto em que está inserido, resultando em uma boa apresentação.
Outro fator que contou positivamente a ele é a semelhança entre o seu som e o do headliner da noite. Esse link entre os artistas da noite é muito importante na construção de uma boa experiência para quem vai curtir, que infelizmente foi quebrado pela atração escalada para fazer o warm up direto para Makam: Elefantkz. O duo atuou dentro da sua perspectiva de trabalho: som totalmente pop, guiado pelo hit She Knows, que inclusive foi tocado duas vezes. Visivelmente esse não era o line-up para eles e por se tratar de um live, não havia muito a se fazer para evitar o choque de realidade. Eu comentei com uns amigos que gostaria que estivéssemos no filme Click, para usar o controle mágico de Adam Sandler para acelerar a festa até a entrada de Makam.
Entendo que o clube precise de atrações mais comerciais para garantir o retorno financeiro, ainda mais sabendo do momento econômico ruim que o Brasil passa, mas infelizmente o fator artístico sofreu uma pequena ruptura, que diante da noite como um todo, foi apenas um contratempo. Os relógios passavam das 4h quando Makam finalmente assumiu, e fui completamente surpreendido pelo que ele apresentou – positivamente. Quando se pensa no artista logo nos vem na cabeça selos como Sushitech/Ostgut, sonoridades mais voltadas para dub techno, porém ele demonstrou ter características as quais eu não conhecia.
Já de cara ele nos presenteou com seu remix de Set it Off, dando início à aula que aconteceria nas horas seguintes. Durante as duas primeiras horas sua sonoridade foi voltada para um techno mais obscuro, fechado, introspectivo e hipnotizante, com o público em suas mãos. Com o amanhecer sua história apresentou um novo capítulo, buscando sonoridades dentro do seu habitual: uma interação entre house, techno e dubtechno, passando por clássicos como Groove lá Chord, apresentando muitas vezes influências de sons latinos, jazz, músicas das mais variadas formas, o tornando ainda mais gigante, um verdadeiro conhecedor de música geral. No final do seu set, a casa ainda estava cheia, com um público totalmente emocionado com o que ele estava fazendo. O término do evento ocorreu quando os relógios passavam das 8h, nos deixando na expectativa por novas datas como essas. Artistas como Makam, daqueles que não se deve perder.
Ahh, o primeiro dia do festival! A espera foi grande e a ansiedade maior ainda, desde que eu decidi que iria no festival. E não apenas um festival, mas O festival, Movement Eletronic Music Festival, em Detroit, a cidade que é o berço do techno. Chegando perto do horário não me aguentei, fui cedo para Downtown em Detroit, onde fica o Hart Plaza. Cheguei lá por umas 11:30 da manhã e como os portões só abriam ao meio dia, caminhei no calçadão do Detroit River, que é lindo, tinha muita gente por lá pedalando, correndo e caminhando, curtindo aquele dia de sol com temperatura agradável.
Portões abertos era hora de entrar, naquele momento só a pista Thump estaria com som, as demais começariam só as 14 horas, mas eu eu precisava me sentir lá dentro, não escondo que me emocionei ao pisar lá, mas seria essa apenas a primeira de várias as vezes que o coração acelerou e a emoção bateu foi forte. Já que tinha um tempo lá dentro fui conhecer o Hart Plaza, visitar todas as pistas, o Biergarden, conhecer os pontos de alimentação, bebida e para passar nas lojas de camisetas, adesivos e demais artigos do festival, Detroit ou relacionados a música eletrônica. De cara já fiquei impressionado com a estrutura para a pista Movement, o main stage do festival, e da pista Beatport, que era na borda da praça, quase em cima do calçadão, e tinha uma vista linda do rio e da cidade de Windsor, no Canadá.
(Foto: Joe Gall-Movement)
Na pista Thump o DJ Stingray (a.k.a Urban Tribe) começava a mostrar que teríamos a raíz do techno de Detroit em todos os aspectos, sendo o primeiro nome da cidade a se apresentar. Ele tem faixas lançadas pelos selos de Carl Graig, Retroactive e Planet E, e já agitou os primeiros que já entraram cedo no festival. Com todas as pistas abertas, a primeira parada foi para ouvir Midland, na pista Beatport. O inglês de poucos sorrisos trouxe uma linha com graves marcantes, enquanto na pista Underground era Anthony Jimenez que estava tocando bem pesado perto das 15h. No entanto, essa foi a marca dessa pista: techno mais dark, sombrio o tempo todo. Depois do giro em todas as pistas, hora de voltar para Beatport para assistir KiNK, com um live empolgado, dançante e cheio de energia. Sua característica mistura de house, techno e breakbeat levantou o público, que estava meio desanimado com Midland. O tempo passa rápido quando a gente se diverte: quando me dei conta já era 17h, hora de ir para a pista Thump pra não perder o live de Gaiser. O alemão estava animado, sorrindo e batendo palmas o tempo todo, atrás de seu Ray-Ban preto fez um live animado e característico!
Na pista principal era hora de curtir Mano Le Tough, o irlandês que mora em Berlin há anos estava apresentando um set bem mais melódico do que eu esperava, mas boas linhas de grave que não deixavam a pista sem groove. Foi lá na pista Movement que encontrei os primeiros brasileiros no festival. É bom ver que mais gente tem a mesma paixão pelo techno de Detroit e conseguiu estar lá para curtir. Mais uma passada na Underground, quem se apresentava lá pelas 18h era Paula Temple (a.k.a Jaguar Woman). A alemã tem mão pesada, tocou faixas de sua autoria na casa dos 135 bpm. Hora de mais um giro e uma passada rápida na pista Beatport para ver o que o duo Soul Clap tinha para apresentar na cidade do Motown e confesso que esperava um pouco mais do projeto que leva o nome do sample que marcou a soul music. Corri para a pista Thump por que ia rolar em sequência Paul Woolford e Stacey Pullen, artistas que não queria perder. Ambos apresentaram seus sets de forma bem característica, com base no techno e bons momentos puxados para o minimal. O relógio não para e eu querendo aproveitar bem o festival voltei para o main stage para dar mais uma chance para Dixon me convencer do seu som, mas não foi dessa vez 🙁 Só pode ser comigo, pois a pista estava bem cheia, mas a linha de som dele, pela terceira vez, não me faz dançar.
Mudança de ares, pois nem só de Techno é feito o festival: fui curtir um pouco de Method Man na pista Red Bull Music Academy, e não é que o rapper americano me surpreendeu? Com um set misturando Indie Dance, House, Dubstep e até Drum & Bass, fez a pista, que estava bem cheia, dançar muito. A pista RBMA em vários momentos apresentou alguns estilos diferenciados para mostrar talentos fora da linha padrão do techno. Ok, era hora de voltar a ouvir o bom e velho 4 x 4, por isso me dirigi para a pista Beatport, onde Henrik Schwarz apresentava seu live. Como eu conhecia pouco do trabalho desse alemão, não tinha tanta expectativa e foi bem divertido, a vibe da pista estava bem agradável. Espiei ainda nessa pista um pouco de Tuskegee (Seth Troxler b2b The Mantinez Brothers) e os três americanos sabem muito bem o que fazem. No entanto, a pista beatport estava muito cheia nesse horário, sem condições para dançar, então fui para a pista Movement para ouvir Luciano. Sua levada era bem animada, durante o seu set dele caía a noite, momento em que a iluminação do main stage chamava muito a atenção, principalmente pelo efeito que gerava nos enormes prédios que circundam o Hart Plaza.
Quando eram 22 horas e faltavam só duas horas para o fim do primeiro dia de festival, fiquei com uma dúvida enorme do que ouvir. Quisera poder se dividir em dois, mas como não é possível, o jeito foi dividir meu tempo entre as pistas thump e Movement. Primeira parada foi na thump, pois não faria sentido vir para o Movement Festival em Detroit e não ouvir Carl Graig, ainda mais em seu projeto com ‘Mad’ Mike Banks, no qual se juntam a old e a new school da cena da cidade. O live deles é impressionante, dá para entender facilmente por que sua agenda de shows é tão requisitada. Foi um set dançante, com uma linha que trazia muitas referências ao house, principalmente pelos vocais extensos e marcantes. Gostei demais de ter ouvido Carl Graig em seu quintal de casa. (Foto: Steven Pham).
Dado momento a ansiedade de ainda não ter ido pro main stage já havia tomado conta e corri pra lá, aonde o mestre Richie Hawtin já estava com seu set bem adiantado e eu só teria uma hora para ouvi-lo. Hawtin não é de Detroit, ele nasceu na Inglaterra, mas com nove anos se mudou com a família para LaSalle, uma cidade no subúrbio de Windsor no Canadá, essa que faz divisa com Detroit pelo Detroit River. Richie tem uma grande influência e é considerado precursor na segunda onda no techno de Detroit que veio em 1990, é um dos pioneiros do minimal techno e muito respeitado pelo público local. O set dele foi envolvente, alternando entre levadas de minimal e o bom e velho techno de Detroit. A pista estava bem cheia e respondia à altura do set, o que deixou Richie mais à vontade. Ele foi simpático o tempo todo, agradecia as palmas e gritos de empolgação que o público soltava a cada pegada compassada dos graves após os breaks. Eu havia ouvido ele tocar a alguns meses aqui em Santa Catarina e confesso, ouvi-lo lá foi diferente, Detroit é a casa dele, onde ele começou a tocar quando tinha 17 anos.
(Foto: Bryan Mitchell)
Meia noite, e como era de se esperar de qualquer evento americano, o som parou em todas as pista. Sem a chiadeira que acontece por aqui ou gritos de ‘saideira’, o público ovacionou o mestre com longas palmas e gritos. Eu não pude fazer diferente, mas quis deixar minha forma pessoal de agradecimento por aquele momento. Assim que ele foi para a parte de trás do palco para falar com os amigos e pessoal da organização que ali estavam, eu fui para o lado dessa área e com meu bom e velho aplicativo e-Led Me no celular que é um display de LED escrevi: BRAZIL LOVES YOU! E algo que eu nunca imaginaria aconteceu, Richie Hawtin, aponta pra mim e me chama!!! Sim, me chama para ir lá com ele e as pessoas que ainda estavam atrás do palco. Corri pra lá, o segurança olhou pra ele e Richie ainda estava fazendo o movimento com a mão chamando. Nem em sonho eu pensaria que teria uma oportunidade e proximidade dessas, nem aqui nos clubes onde tenho um ou outro promoter conhecido, quando mais lá, no Movement, em Detroit. Simplesmente um momento FANTÁSTICO!! Conversei com ele uns 8 minutos, sobre o festival, sobre eu conhecer toda a história de vida dele, da última apresentação dele em SC, do quando curto e sou fã do projeto Plastikman dele, foi demais. Eu não poderia ter encerrado o primeiro dia de melhor forma. Sequer fui pra alguma das dezenas de after-parties que rolam todas as noites em todos os clubs de Detroit. Eu só queria descansar bem, pois as 14:00h de domingo já começaria o segundo round do festival.
Sai muito impressionado com o evento, pela estrutura montada, com o sound system de todas as pistas com qualidade impecável, com a diversidade de comida disponível dentro de festival (pelo menos uns 11 food trucks, com muita variedade), as poucas filas nos bares e banheiro. E me diverti com as figuras que encontrei por lá, algumas pessoas achando que era uma festa à fantasia, de unicórnio a super-heróis, Marge Simpson a índios. No entanto, nem tudo foram flores no festival: durante a tarde eu me perguntava em alguns momentos como ele ainda parecia ‘vazio’. Sabia que a minoria seria como eu, que entrou antes das pistas começarem, mas estávamos perto das 20h quando vim a saber que o problema era com o novo sistema de controle de entrada na entrega das pulseiras com RFID, formando filas e mais filas do lado de fora. Houve quem ficou mais de 4h aguardando para entrar no festival. Choveram críticas pesadas no Facebook do evento, que fez apenas um simples pedido de desculpas.
Dia 2 – Domingo – 24/05
Descansado, acordei cedo e fui zapear um pouco mais pela cidade de Detroit, e mais uma vez vi uma cidade de contrastes. Downtown totalmente moderna, com enormes prédios arranha-céus, as mais variadas praças, gigantescos estádios de futebol americano e basebol. Já alguns bairros, totalmente abandonados após a decadência da indústria automobilística local, quando milhares de famílias largaram casa e saíram de Detroit. Muitas dessas casas estão queimadas ou totalmente pichadas, local onde infelizmente acontece muita prostituição e uso de crack, segundo relato de várias pessoas que moram lá há anos, com as quais conversei para entender da história.
Chegando ao Movement, entrei e fui direto curtir um pouco da pista Sixth Stage, mal tinha passado perto dela no dia anterior, pois nenhum nome de lá tinha me chamado atenção. Quem abriu a pista foi Marissa Guzman, apresentando o seu live, no qual além de mixar também é vocalista. Ela tem seu vocal lançado em mais de 15 tracks e tinha até um grupo de dança que completava a apresentação com coreografias na pista. O público teve uma recepção bem boa, dançando junto e aplaudindo essa morena, que é natural de Detroit. Naquele momento também quem tocava na pista Movement era Gabi, alemã de Frankfurt criada em Detroit. Soube levar de forma espetacular o main stage do festival, com uma linha de muito groove mostrou em seu set toda a influência do techno de Detroit em sua carreira. Consegui ainda pegar na pista Beatport o finalzinho do set do duo detroitiano Ataxia – não era nem 16h e a pista estava muito animada. Por ali ainda na sequencia fiquei ouvindo e dançando com Robert Dietz, era minha segunda vez ouvindo seu set. Mal rolou uma voltinha nas demais pistas e uma parada para comer uma pizza e reabastecer de cerveja, voltei fiquei ali para curtir seu set inteiro. Ele não tem todo aquele carisma que as vezes eu espero de um DJ, mas tem uma boa técnica e um bom repertório que compensam o seu jeito de ser.
E por quem eu não queria sair muito da pista beatport? Por que ela iria pegar fogo! Dubfire assume o som e não tem como perder um minuto sequer. Ali Shirazinia é o mago por trás da SCI+TEC, é um dos iranianos de maior sucesso na música eletrônica, já ganhou até o Grammy pelo projeto Deep Dish, que o consagrou ao lado de Sharam nos anos 90. Seu set foi de aclamar em pé, com uma pegada bastante groovada viajou entre o techno e minimal, não deixando ninguém parado na pista. Tocou clássicos como “I Feel Speed”, do seu EP de 2007, até seus lançamentos de 2014. Senti falta de ouvir ele tocando “Grindhouse”, sem dúvida, eu ia chorar ouvindo! Mas tudo bem, ele estava bem animado, interagindo bastante com a pista.
Próxima parada era main stage, pois viria nada menos que Josh Wink e Art Department em sequência. Josh dispensa apresentações, é veterano e escreveu boa parte da cena americana e mundial nos anos 90. O set dele foi impecável, só com clássicos de acid house e acid techno, inclusive fechando com um bootleg de Prodigy que ainda me arrepio só de lembrar. E o que falar de Art Department? O duo canadense não conseguia esconder o desconforto de ainda tocarem juntos, o festival era a penúltima apresentação oficial tocando juntos, eles anunciaram que vão seguir carreira solo. Por vários momentos eles nem fica próximos, mas respeitaram o público com um set forte, tocando mais músicas clássicas e animando a pista.
Next? Hot Since 82, na pista Beatport. O inglês era um dos Top 5 na minha lista de DJs para ouvir, sou fã dele de carteirinha, toco várias produções dele e nunca tinha conseguido ver ele ao vivo. O set dele foi marcante, com muita pegada e tocou inúmeras de suas próprias tracks. Lembro de ter ouvido “Forty Shorty”, “Hit & Run” e “Don’t Touch The Alarm”. Com certeza não perderei as próximas apresentações dele por aqui. Após este momento o conflito de palcos começou a me deixar angustiado, mais uma vez quisera eu poder estar em mais de uma pista ao mesmo tempo. Acabei optando primeiro por Loco Dice, no main stage. O alemão estava muito animado, tocando para uma pista bem cheia, tanto que mal consegui chegar perto para tirar uma foto legal. Estava quase um empurra-empurra, muito graças ao set dele, que é sempre forte e dançante. Passei rapidamente para ver o entusiasmo empolgante de Joseph Capriati por alguns minutos na pista Beatport, o italiano sabe muito bem o talento que tem, porém ainda queria tempo para ver o que Ben Klock faria na Underground. Ali pude ver quão pesada a mão dele pode ser! Com um set fortíssimo, que beirava o hard techno, ele fez a estrutura da pista tremer liberalmente.
Alguns minutos antes das onze da noite corri para a pista Red Bull Music Academy, para nao perder nem um minuto da apresentação de Model 500. Model 500 é um dos projetos de Juan Atkins, um dos pais do techno de Detroit, fundador do selo Metroplex, um dos mais relevantes do estilo. Model 500 é formado por Juan, Mike Banks, DJ Skurge e Mark Taylor. O show começou cheio de expectativa, muita gente aglomerada para assistir esse momento, que seria histórico. A apresentação explicita a grande influência que o grupo tem dos alemães do Kraftwerk, a banda que foi fundamental para o surgimento da música eletrônica como conhecemos hoje: quatro integrantes com seus teclados, bateria eletrônica, sintetizadores e Atkins no vocal. Já abriram o show com o primeiro grande sucesso, “No UFOs”, e na sequência mandaram “Night Drive”, ambas músicas de 1985. O show foi marcante, tinha horas que era bem dançante, outras era um enorme prazer apenas assistir. Era impossível não se emocionar por estar vendo eles ao vivo. Não só a música me chamou a atenção durante a apresentação, mas também as imagens do enorme telão de LED atrás deles, fazendo referências aos vocais das músicas, a momentos de guerra e revolução.
(Foto: Douglas Wojciechowski)
Um fator muito interessante da experiência que passei no festival foi o público. Eu já esperava que fosse um público mais experiente, mas me impressionou a quantidade de gente com pelo menos o dobro da idade do techno em si. É isso mesmo, senhores e senhoras na casa dos 60/70 anos! Uma delas era uma senhorinha muito simpática e famosa na cena, Patricia Lay-Dorsey, conhecida como “Gradma Techno” (a vovó do Techno), que pude avistar bem próxima de Dubfire enquanto este tocava. Durante a apresentação do Model 500 havia um casal de senhores, ele com 68 e ela com 72, que estavam lá esbanjando empolgação, firmes e fortes até a meia noite, quando encerrou a segunda noite do festival. Conversei com eles na saída do show, dei os parabéns pela garra e comentei que me vejo assim também no futuro, indo ao menos em uma grande festa por ano. E se você pensou que só a terceira idade que me impressionou, nada disso! As crianças também chamaram atenção, não só as crianças, como também vários bebês. Isso mesmo, durante as tardes, com os pais e proteção auricular, haviam vários bebês em carrinhos ou naqueles “cangurus”, que os pais levam. Cheguei a cumprimentar um dos pais, que estava com a filha de 6 anos lá sentadinha, curtindo uma pizza e dançando com a cabeça, enquanto eles estavam animadões! Me apresentei e os parabenizei pela iniciativa, pois a pequena realmente parecia estar curtindo, dá vontade de um dia estar com minha filhota num festival assim também.
Infelizmente não pude ir no festival no seu último dia, segunda-feira (25/05), pois não quis arriscar perder meu voo para o Brasil, que sairia às 20:00h. Fiquei de coração apertado por não ir, o line up era o melhor dos três dias em minha opinião. Perdi de ouvir Maceo Plex, JETS, Audio Fly, Paco Osuna, Joris Voorn, The Saunderson Brothers, Lee Foss, MK, Hi-Tech Soul por Kevin Saunderson e Derick May, Steve Rachmad, e Ben Sims. Mas ainda assim, valeu muito a pena, toda a experiência foi fantástica. Houve ainda muito barulho sobre alguns nomes sem sentido no line up, como o DJ Snoopadelic a.k.a Snoop Dog. O raper pelo que li e vídeos que vi, estava perdido, não sabia mixar, ficou apenas trocando músicas e quando tocou rap conseguiu esvaziar a pista. Como eu não consegui ir no último dia de festival, aproveitei o domingo à noite para ir pra ir a uma after party no Paradigm Underground. Trata-se de uma balada de Chicago, que aluga o subsolo do hotel LeLand para fazer os afters durante a semana do Movement Detroit. Quem tocou lá foi Lee Foss e Art Department, então deu pra dar uma esticadinha até as 6:00 horas da manhã da festa que tinha começado as duas da tarde do dia anterior.
Os motivos para ir ao Movement
O site Dancing Astronaut publicou uma matéria interessante sobre os 10 motivos para você ir para o Movement Detroit: (1) Os DJs do underground. (2) Pela história do festival. (3) A localização no Hart Plaza. (4) Os momentos épicos que só acontecem em Detroit. (5) O Sound System. (6) As seis pistas. (7) As afterparties. (8) O amor de Detroit. (9) Os fabricantes de equipamentos e exposição. (10) A organização do evento. Eu concordo com todos os motivos e digo para conferir os vídeos e fotos no link acima. E adicionaria algumas coisas: A emoção de ser uma entre as mais de 100 mil pessoas que passam pelo evento; ser no Memorial Day e representar mais que um festival, uma celebração do amor pela música e orgulho da cena Techno; ser um festival que vem crescendo a cada ano desde sua primeira edição há 15 anos atrás; o Techno está mais vivo do que nunca e muito bem, obrigado.
O beatport anunciou as 10 faixas mais clássicas que tocaram no Movement, seleção feita também pela Mixmag. Destaco algumas: Audion – Mouth to Mouth, foi de chorar quando dubfire tocou; o clássico Knights of the Jaguar do DJ Rolando, dançante para mostrar o projeto de Carl Graig e Mike Banks; Model 500 com Night Drive e Future, na verdade ouvir Juan Atkins live matou um pouco minha vontade de ouvir Kraftwerk; e ainda tocada pelo Model 500 teve Cybotron – Clear, como o próprio Atkins falou enquanto cantava: “Esse é o Techno verdadeiro. Não subestime. O negócio de verdade, direto de Detroit”. Art Department superou as expectativas antes de se separarem, sim Kenny Glasgow e Jonny White vão seguir carreiras solo, ao tocarem Reese & Santonio – Structure de 1988. Josh Wink com Moodymann – Dem Young Sconies e um bootleg de Prodigy fez o main stage vibrar. Não pude ouvi Claude VonStroke tocando, mas imagino o efeito da faixa Sacha Robotti & Kevin Knapp – Thump Bumper na pista. Lil Louis – French Kiss (Joris Voorn edit) nem precisa dizer nada! E foi isso, minha grande aventura no Movement Eletronic Music Festival em Detroit.
No dia 5 de junho visitamos o Warung Beach Club para mais uma daquelas noites divertidas e aconchegantes de baixa-temporada, que possuem line-ups menos comerciais e não atingem os níveis desconfortáveis de lotação comuns no verão. Nessa data em específico optamos por chegar bem cedo, afinal, era Stekke quem iria iniciar os trabalhos no Inside.
Chegamos na casa pouco antes das 23:00 e tivemos o prazer de descobrir que a festa ainda não tinha começado. A noite marcava a estreia do live de Ale Reis e Renee, que estavam terminando de montar o setup e logo deram início à noite, mas ainda no modo dj set, fazendo warm up para si mesmos. Este posso dizer que foi um momento único para mim como frequentador do club: por uma hora ouvi ali tracks que jamais imaginei ouvir no Main Room do templo. Certamente não era o que a maioria das pessoas estava esperando encontrar ao chegar na balada, tanto que nesse momento o Garden era o destino preferencial das pessoas, com Adnan Sharif nos decks. No entanto as coisas mudariam com a entrada da madrugada: era exatamente meia-noite quando a sensação causada pelo primeiro timbre analógico no sound system do Inside deixava claro o início do live act da dupla.
Nos 90 minutos que se seguiram o que vimos foi uma construção de pista sem igual. A quantidade de hardware levado ao palco possibilitava uma infinidade de sons diferentes, mas poucos elementos eram usados simultaneamente, tornando a construção minimalista e nem um pouco repetitiva. A energia foi crescente, tanto da música como da pista, e nos minutos finais já era possível ver o público desconcertado com alguns bons momentos criados. Foi uma satisfação ver um projeto brasileiro em tal nível técnico, é o tipo de situação que renova a nossa esperança na cena nacional.
Já era passado de 1:30 da manhã quando a pista foi entregue de bandeja para Renato Ratier, residente e proprietário do club. O savage demonstrou estar em sintonia com a proposta da noite, apresentando uma boa seleção musical, com picos de energia bem dosados, em acordo com o horário e satisfazendo o público, ansioso para assistir o Rei Raww tocar. Quando os relógios marcavam 2:30 decidimos visitar o Garden, para ver o que Pillowtalk estava fazendo, e rapidamente nos arrependemos. Tecnicamente é um live muito bom, tenho profundo respeito por pessoas que tem cara e coragem de se apresentar como banda no mundo da música eletrônica, mas a sonoridade em si é algo que não passa pelo meu filtro do gosto pessoal. Apesar do excesso de vocais e da levada mega-feliz estarem tentando nos expulsar de lá, acabamos ficando um tempo lá conversando com alguns amigos. Tempo suficiente para o live acabar e a história mudar da água para o vinho com o início do dj set deles: com uma seleção de músicas mais condizentes com a pista e uma técnica muito boa, mantiveram-me preso ao jardim até o fim da apresentação, às 4:30.
O próximo ali era Leozinho, mas corri para o Inside, e me deparei com uma Ellen Allien atropelando a pista! Eu já havia visto ela tocar no Some Festival de 2012 e tinha uma boa expectativa, mas ali no Warung ela realmente se sentiu em casa. A sonoridade do seu set era pesada e envolvente, muitos não absorveram e deixaram a pista, mas os que ficaram pareciam estar em transe. Apenas quando o dia amanheceu que a tensão foi aliviada: na última hora de festa a alemã fez um b2b com Ratier, no qual apresentaram uma linha mais dançante e menos sinistra.
Ao término da festa, perto das 7:30, a sensação era de missão cumprida. Uma noite com vários momentos musicais diferentes e com a atmosfera que consagrou o club como templo. Que venha o inverno 🙂