Autor: Mohamad Hajar

  • Review – Detroit Movement 2014

    Mais uma vez, a coluna detroitbr abre o espaço para a colaboração da galera – desta vez o texto é de Lucas Graczyki, grande amigo que mora nos EUA há alguns anos e foi ao seu segundo Movement alguns dias atrás. Mais um festival para a lista de desejos de consumo, ainda mais depois de ler um relato desses! Com a palavra, Mr. Gratyk:

    É com muita satisfação que faço minha primeira postagem aqui na coluna detroitbr, falando sobre um festival que aconteceu em Detroit mesmo, USA, no feriado do Memorial Day, que homenageia os soldados que morreram em combate. O festival é chamado Movement e acontece por 3 dias, do meio-dia a meia-noite, com uma vasta lista de after parties. É festa o tempo todo.

    Detroit é considerada a “Meca” do techno e do house, é o berço de vários artistas consagrados como Kevin Saunderson, Carl Craig, Richie Hawtin (que cresceu em Windsor, do outro lado do rio Detroit), entre outros. Ao mesmo tempo, a cidade passa por uma crise financeira enorme, chegou a ir a falência recentemente. Porém, o techno e house continua mais forte que nunca, é uma cidade extremamente artística e maconha medicinal já é liberada por lá.

    História à parte, o final do semana do Movement é o mais esperado do ano para mim. O melhor line-up de festival que um amante do techno pode ter por aqui. A organização é feita pelo grupo Paxahau, e você já sente o profissionalismo antes de entrar no festival. Eles deixaram um app disponível para Android e iOS com o line-up customizável, lista de alguns after-parties, mapa e localizador, que funciona 100%. Dentro da festa, apresentou uma infraestrutura ótima para comida, bebidas e lojas para todos os gostos com preços justos.

    O festival é realizado no centro da cidade, no parque Hart Plaza, fronteira com o Canadá. Haviam 6 palcos: Silent Disco, Made in Detroit, Red Bull, Moog, Beatport, e Underground. Em geral, todos tinha um sistema de som de primeira, não deixaram a desejar em nenhum momento. Outro ponto positivo foi a área VIP, que ficava atrás do palco com uma estrutura melhor, “meet and greet”, com alguns drinks na faixa. Não atrapalhava a festa de ninguém e dava mais conforto para quem quisesse. O festival também contou com uma sala tecnológica com marcas apresentando seus produtos voltados a DJs e produtores, e mostras de artes de artistas locais espalhado por todos os lados.

    Falando de música agora, vamos começar pelo Silent Disco: sinceramente, eu passei quinze minutos lá dentro só para não dizer que não fui. Seria como o chill out da festa e usava-se fone de ouvido patrocinado pela Sennheiser para escutar o dj tocar. Também ao lado havia uma cadeira com um encosto removível que vibrava conforme a música que você estivesse ouvindo.

    Quanto ao resto, para poder explicar melhor vou falar por dia, pois a cada dia nós ficávamos mais em um stage do que nos outros. Vamos aos destaques! No sábado, comecei na pista Beatport, vendo o final do Deadbeat tocando um dub de warm-up, e já na sequência eu fui conferir Asher Perkins na Made in Detroit. Asher foi um dos escolhidos para começar a festa, mas tinha capacidade para representar bem em horário nobre, pois tocou um minimal techno de primeira. Indo para a pista Underground, vimos Monoloc tocar um set sinistro, mas “groovado” ao mesmo tempo. A pista Underground é em um salão literalmente abaixo da terra, que te remete aos clubs nas warehouse. Outros dois nomes que me chamaram bastante atenção nesse dia foram Simian Mobile Disco, que apresentou um techno mais hipnótico, e DBX live, com uma apresentação ao vivo de minimal techno totalmente analógica. Para fechar a noite vimos um set de drum n’ bass do Ed Rush and Optical na tenda Moog, onde prevaleceu um som mais alternativo, variando entre alguns estilos de break-beat e até mesmo electro.

    No domingo, segundo dia de festa, começamos com Max Cooper no Beatport Stage. Instrospectivo e melódico, fez muito bem seu papel de warm up. O Beatport Stage é o palco mais afastado, com vista para o rio Detroit e para o Canadá. Após isso nos situamos no maior palco, Red Bull, para conferir talvez o que foi a melhor sequencia ininterrupta do festival: Seth Troxler, Marco Carola, John Digweed e Richie Hawtin. Seth Troxler tocou pesado, diferente de seu estilo de club, separando o melhor do techno para Detroit. Marco Carola seguiu a linha, e tocou como nos velhos tempos. John Digweed teve uma levada mais psicodélica, com suas melodias. Por último, Hawtin chegou a assustar a multidão quando soltou o primeiro bassline. Seis horas e meia do velho Richie em ação, apresenção memorável! O palco da RedBull é tem uma vista privilegiada da arquibancada para o stage.

    Na segunda, último dia de festival, o pano de fundo do Made in Detroit Stage apresentava uma nova arte referente ao projeto Origins de Kevin Saunderson, e foi por lá onde ficamos o dia todo. Destaque para a apresentação do Detroit Techno Militia com DJ Seoul & T. Linder fazendo um b2b 2X4 no vinil, dando uma aula de detroit techno a 135bpms, energético e dançante do começo ao fim. Mais tarde Saunderson veio ao palco trazendo Origins, apresentando músicas do detroit techno dos criadores do estilo e dos seus influenciados, que ao longo dos 27 anos de estrada se tornaram criadores e influências a outros também. Prova disso foi o b2b de Saunderson com Seth Troxler durante os últimos 45 minutos da apresentação, que foi como uma viagem no tempo. Saunderson tem uma maestria no palco ímpar, e suas músicas ainda carregam traços dos anos 90. Para fechar a noite, Jeff Mills dominou o underground tocando seu som mais técnico em 4 decks de vinil. Terminamos o festival assistindo J Phlip, substituindo Boyznoise que não compareceu por motivos de saúde. Uma surpresa muito boa de encerramento.

    Atraindo em torno de 100.000 pessoas a Detroit, o Movement Festival continua com um line up puro, garantido qualidade em todas as apresentações. O público é bem diferenciado, não pela variedade de estilos e idades entre ele, mas pela educação em relação a música eletrônica que ele apresenta. Todas as pessoas que vem de fora estão lá com o propósito de apreciar seus djs/produtores favoritos, e o pessoal da cidade tem a música eletrônica como algo cultural, eles demonstram o maior orgulho em relação a riqueza musical que há na cidade. Um festival para apreciadores de techno/house e afins para todas as idades. Essa foi minha segunda vez no festival, e irei a todos enquanto puder pelo resto da minha vida. Sobram apenas as memórias do melhor festival da minha vida com a gratidão por ele existir e me dar mais certeza de nunca desistir do techno!

    Confira abaixo um video que editei com minhas próprias captações, de alguns momentos altos do festival.

  • Buenos Aires vira a meca do techno durante festival Time Warp

    Senhoras e senhores, com muito orgulho que apresento a vocês o primeiro review internacional da coluna detroitbr! Enquanto eu e uma parte do time estávamos no Brasil curtindo o Tale of Us (e o after, claro), o Eduardo Roslindo foi com o resto da galera pra Buenos Aires, vivenciando a histórica edição latina do Time Warp, um dos principais festivais de techno do mundo.

    O relato abaixo é dele, eu apenas revisei e publiquei. Sendo assim, hora de apertar os cintos e apagar os cigarros, pois nossa aeronave já vai decolar 😉

    A semana toda foi de bastante agonia. Só de curtir um festival fora do país já dá uma ansiedade enorme, sendo um festival do meu estilo favorito, e com tantos nomes de peso, tudo o que eu queria é que o tempo passasse mais rápido. No entanto, o dia da viagem guardava ainda mais emoções – isso porque o trânsito intenso na ponte que liga o continente à ilha de Florianópolis fez com que eu perdesse o voo, e me garantisse mais 6 longas horas de espera no saguão do aeroporto. O sofrimento era grande: alguns membros do grupo já estavam em Buenos Aires, por terem ido de carro ou pegado voo em Curitiba, e nós estavamos ali, com a cabeça que era só chegar em terras hermanas.

    Passando por todo esse perrengue com os vôos (importante notar que foi minha primeira viagem aérea), a preocupação agora era outra: poder retirar os ingressos no tempo certo, pois a informação que tínhamos era que só seria permitido retira-los até certo horário, que já teria passado quando chegássemos lá pelo novo voo. No meio de toda essa aventura, fomos salvos pelos detroiters que foram de carro que, além de terem agilizado o transfer de Ezeiza até o hotel, nos deram a notícia de que seria permitida a retirada dos ingressos na bilheteria do evento. Ainda assim, só sossegamos de vez quando fizemos check-in no hotel, retiramos os ingressos e pisamos no solo que, pelos próximos dois dias, seria sagrado para o techno.

    O primeiro dia de Time Warp foi o melhor: com um bom publico, sem aperto e um line-up de chorar. Para todos os lados que você andava era música boa, tendo Chris Liebing como grande nome da noite. O cara é um gênio, a construção de set dele é impressionante, você sentia que tudo aquilo estava sendo feito de verdade, não era mais um fanfarrão com a mãozinha pro alto. Um set absurdamente pesado, que certamente no Brasil seria tachado de ruim pelos amantes de ~future techno~, porém na Argentina a cultura é outra: para se ter uma ideia, o taxista que nos levou ao festival no dia seguinte conhecia todos os artistas que tocaram, perguntou como havia sido e ainda colocou numa rádio que estava rolando techno. Assim como ele, todo o público presente mostrou entender bem do que estava acontecendo, e Liebing foi mais do que ovacionado!

    O segundo nome da noite estava tocando em casa: o argentino Barem, que destruiu o gigante Club Stage. Variando entre techno e tech house, o hermano levou a galera a loucura, seguido por Loco Dice que também foi muito elogiado pelos argentinos com quem conversamos (e nós concordamos com ele, naturalmente). Paco Osuna fez uma bela apresentação, mas tinha uma missão árdua: preparou a pista para Liebing. O “warm up” foi digno, e se encerrou com o a música Bad Kingdom – a mesma que Tale Of Us fechou no Warung no mesmo dia, porém com um remix diferente (o de Marcel Dettmann). Luciano, o último que assistimos, fez bom set, mais acabou apagado no meio de tantos bons nomes.

    Se os DJs deram um show, a organização pecou em alguns aspectos – um deles foi o bar. Um combo de vodka com energético estava barato: 50 pesos (aprox. 12 reais), porém impossível de ser tomado de tão ruim. Na outra ponta vinha a cerveja: gostosa, mas custando os mesmos 12 reais! E a gente achando que ela era cara nas raves brasileiras…. A água também não aliviou no bolso: 30 pesos, equivalente a 7 reais. E… só! A pouca variedade de opções também foi negativa no bar. Outro ponto negativo foi a falha do sound system do Club Stage, que por horas ficou sem grave em um dos lados.

    Bem, passando para o segundo dia, posso começar com o nome da noite que também foi o nome do festival todo: o italiano Joseph Capriati. Com um techno quadrado e ao mesmo tempo dançante, ele efervesceu a pista e levando todos ao delírio. O repertório variava entre Adam Beyer, Maetrik e até mesmo Radiohead (remixado, claro), obtendo uma sinergia plena com a pista. Um dos motivos que fez com que sua apresentação fosse agradável é o fato de a lenda canadense Richie Hawtin ter se apresentado no mesmo horário, levando grande parte do publico para o palco principal. Digo isso pois nesse dia a organização do evento acabou vendendo mais ingressos do que deveria, causando uma superlotação e um grande transtorno para os presentes.

    A segunda melhor atração dessa noite foi Matador, aliás, percebe-se que ele é um grande ídolo dos argentinos, que o ovacionavam com muita energia. Chegou um ponto em que era impossível ficar na pista sem sofrer com tantas pessoas se apertando, até que nosso grupo resolveu assistir Tale Of Us no outro stage. Um bom set, mas longe de ser o que Liebing e Capriati apresentaram. A terceira melhor apresentação foi do Valentino Kanzyani, que ao contrário do que foi visto no Brasil em uma Tribaltech passada, apresentou um set bem animado.

    Nos intervalos entre um dia e outro e no dia livre, procuramos fazer turismo e conhecer lugares e pessoas. O centro da cidade em si (onde nós ficamos) éra uma área bem antiga e linda pra se passear. Em vários lugares que fomos encontrávamos pessoas de todas as idades que gostavam de música eletrônica. Percebe-se que lá ela faz parte da cultura geral do país, assim como é o sertanejo por aqui.

    E ah, uma dica para quem deseja se aventurar por lá no próximo TW, no Creamfields ou até mesmo em uma viagem de turismo: não cair na ilusão que tudo é barato, os preços lá são bem próximos da nossa realidade aqui. Algumas coisas até são mais baratas mais no geral as coisas se equivalem.

    Bem, resumindo a ópera toda, foi uma viagem inesquecível. Conhecer uma nova cultura, uma nova dinâmica de festa, novas pessoas e, de quebra, assistir ao vivo diversos ídolos do techno, não tem preço. Se querem saber se vale a pena cair pra lá no ano que vem de novo? Eu não pensaria duas vezes!

    Para mais videos, acesse o canal de Eduardo no YouTube!

  • A fábula de Tale Of Us no templo

    Com a chegada do inverno, a expectativa para noites intimistas no Warung é inevitável. A primeira delas podemos dizer que foi a do dia 30 de maio, quando o duo Tale Of Us comandou o main room por 4 horas seguidas. Foi um final-de-semana deveras especial: boa parte do detroitbr estava em outro nível de diversão, curtindo o Time Warp Buenos Aires (que terá review por aqui logo mais), enquanto eu estava no templo, recebendo fortes cargas emocionais causadas pela interação do set do Tale com a minha realidade. Por conta disso, neste relato contei com a ajuda do grande amigo Bernardo Ziembik, que nos brinda com a sua visão, mais sóbria.

    Não entramos juntos, mas nossa noite dentro do clube começou pontualmente às 23h50. Enquanto a dupla Aninha e Antonela se apresentava no main room sob a alias SIDE A, optamos por conferir o set do amigo Danee. O soundsystem e o groove já batiam forte, o bpm era baixo e o warm up foi propício ao clima. O set foi gravado e está na internet – ouvindo só consigo tirar uma conclusão: que pena não ter conseguido conferir na íntegra lá no Garden! Logo após ele, o alemão Gorge, dono do consolidado selo 8bit, trouxe a sua pitada deep house – set bem elaborado, contextualizado com o que viria em seguida (Phonique), mas um pouco desconexo da sonzeira que o brasileiro havia mandado anteriormente. Apesar disso ele se mostrou um artista muito completo, e que já deveria ter se apresentado muito antes no clube.

    Já eram quase 3:00 da manhã, hora de ir para o main room conseguir um lugar decente para assistir as estrelas da noite. No entanto, uma grande surpresa: não havia espaço algum nas “primeiras fileiras”! Nos contentando com o que foi possível, começamos a assistir Tale of Us do meio da pista. Os misteriosos Matteo e Karm já haviam se apresentado no templo no ano passado, porém, não com a agressividade que trouxeram nesta noite.  O set começou como muitos disseram ser um costume deles: “matando” toda a vibe anterior da pista, para que uma nova atmosfera fosse construída do zero – alguns apressados até começaram a mostrar sinais de desânimo, mas aos poucos a história começou a ser contada, e tudo passou a fazer mais sentido.

    É difícil explicar porque foi genial. O repertório era rico, mas não impressionante. A técnica era boa, mas longe de ser um KiNK da vida. Mas as 4 horas foram de pura hipnose! No meu Facebook eu disse que o Tale “deu uma aula de como contar uma história com o set” – talvez seja a descrição mais próxima do sentimento que me fez creditar a estes dois o título de melhor apresentação do ano no templo (um ano que já teve Ben Klock, Nina Kraviz, Stimming e muitos outros). Nas duas últimas horas de set a sensação era a de que tudo convergia na criação de uma grande expectativa para o final, e os fãs já estavam assumindo que seria com o mais recente hit deles, o remix para Primative People, de Mano Le Tough. Ledo engano! O Sol já tinha nascido, a pista já estava confortável e eu já estava abraçado ao acrílico quando veio a hora do encerramento surpreendente: primeiro Bad Kingdom, música do Moderat em versão remixada pelo DJ Koze, que diz exatamente “this is not what you wanted, not what you had in mind”, e depois o bis, com Turn Around, música de Sailor & I que ainda não foi lançada, em versão remixada por Âme.

    Nessas horas que vemos a beleza de uma arte abstrata: não haviam personagens, cenários ou detalhes do enredo bem estabelecidos. Cada pessoa na pista inseriu sua própria realidade nessa “espinha dorsal” simples, que tratava apenas de uma grande expectativa, primeiro frustrada e depois compensada de uma forma diferente da esperada. Um set ouvido com os olhos fechados, a maior parte do tempo! Voltando ao Garden e à realidade, um dos queridinhos e mais conhecidos DJs a se apresentarem no Warung estava de volta. Phonique seguiu a atmosfera proposta por Gorge e finalizou a festa com um b2b ao lado de Diogo Accioly.

    Depois dessa grande e surpreendente festa, a próxima parada agora é um um capítulo chave da nossa história. Dia 20 de junho Seth Troxler e Mano Le Tough iniciam os trabalhos que culminarão no detroibr #003. Já estamos contando os dias ansiosamente 😀

  • Warung reúne 9 mil pessoas em seu festival na Pedreira Paulo Leminski

    No último sábado muitos curitibanos puderam realizar um sonho: curtir uma rave – ou um festival de música eletrônica, como alguns preferem chamar – na Pedreira Paulo Leminski, tradicional centro de eventos que já recebeu artistas de diversos estilos e do mundo todo, e que faz parte da história de qualquer um que viveu na capital paranaense nas últimas décadas. O responsável por isso? O Warung Beach Club, que realizou seu primeiro grande festival lá.

    O anúncio da festa gerou uma grande expectativa no público: mesmo com a reabertura da Pedreira, ninguém esperava algo assim. Desde 2004, quando o Creamfields realizou uma edição lá (com direito a Paul Oakenfold e Groove Armada), não acontecia algo parecido, e boa parte das pessoas que hoje vivem esta cena ainda estavam na fase rock n’ roll dez anos atrás (eu incluso). Pois bem, ao chegar no local, primeira felicidade: a estrutura, que estava ótima. No local aonde normalmente fica a pista dos shows, o main stage: uma grande tenda retangular com um palco grande e muito bem decorado. De um lado, uma grande praça de alimentação e um bar servindo chopp Heineken, do outro lado, os camarotes. Atrás deste stage estava o Pedreira Stage, que abrigou outra pista de dança e possibilitou que muitos subissem pela primeira vez no palco que já recebeu bandas como AC/DC, Iron Maiden e Paul McCartney. Para finalizar, havia ainda um terceiro stage, o Warung Garden, menor e intimista, na beira do lago.

    Depois de “reconhecer o terreno”, começamos a prestar atenção em outros detalhes e detectamos o que talvez tenha sido o único ponto negativo do festival: o sound system, que estava perfeito no Warung Garden e no Pedreira Stage, deixou a desejar no palco principal. Deixou a desejar, mas não comprometeu. O primeiro artista que pudemos assistir com a devida atenção foi Hot Since 82, que cumpriu bem o papel de preparar a pista para a noite.

    Em seguida Paul Ritch começou o “massacre”, com um techno pesado e dançante, abrindo espaço para uma das surpresas da noite: Renato Ratier, que mandou um set mais conceitual do que comumente se vê ele tocar em suas noites no templo. Fechando a noite com chave de ouro, tivemos o privilégio de presenciar Ali Dubfire em uma noite inspirada – coisa que pra mim não acontecia há umas 3 apresentações dele que assisti. O set de 2:30 foi linear e introspectivo, e reflete exatamente o que ele disse em uma entrevista em 2008, antes de tocar no Skol Beats: que gosta de “quebrar” a pista nos primeiros minutos, para reconstruí-la do zero em seguida. O set foi estranho no começo, e se encontrou de uma forma surpreendente no seu decorrer – grande Ali 😉

    Enquanto tudo isso rolava, o Pedreira Stage estava incendeado, devido à apresentação de Amine Edge & DANCE – o gangsta house estava claramente fora de contexto no evento, mas o povo gosta, não é mesmo? A pista não parou um minuto sequer! Outro destaque neste palco foi o live de Ten Walls que, apesar de ter durado apenas 45 minutos, esbanjou qualidade e melodia. No encerramento, Rolldabeetz mandou bem também, sendo uma ótima alternativa ao Dubfire.

    No fim, mais um grande evento para o currículo. Para nós, que já vivemos épocas de 5/6 raves por ano e hoje temos que nos contentar com 2, uma grande esperança. A organização afirma que 9 mil pessoas passaram pela festa, e já confirmou a realização de uma nova edição em 2015. Ao que tudo indica, o Warung Day Festival agora faz parte do calendário permanente de Curitiba, com um conceito diferente de festa, com muitas características importadas de festivais europeus de techno e house. Nós só temos a agradecer!

    PS: se tinha gente fantasiada, era RAVE sim! 😉

    * Informação importante: este review está publicado em uma coluna, o que significa que ele reflete exclusivamente a opinião do seu autor, não coincidindo com a opinião do Psicodelia.org e muito menos com algum tipo de verdade absoluta.

    Créditos: Fotos 1, 4, 5 e 6 por Thiago Nakaguishi. Foto 2 por Divulgação Oficial. Foto 3 por Moha.

  • Drauf & Dran fala sobre sua primeira tour no Brasil

    Hoje a coluna detroitbr estreia mais um formato de conteúdo, que será frequente por aqui (assim como os reviews de festas): relato de bate-papo com pessoas diversas da cena. Pra começar vamos falar sobre o alemão Drauf & Dran, que chegou ao país na quinta-feira (08), para uma tour de 10 dias. Estive com ele (que atende pelo apelido de Fips), Rogério Animal e Di Assunção na Yellow DJ Academy pela noite, e pude trocar uma ideia com o DJ.

    A primeira dúvida que surgiu foi quanto à formação do projeto: o nome sugere que é uma dupla, mas no material de divulgação (e diante de mim) havia apenas uma pessoa. Mas Fips explica por que está sozinho: “O projeto é uma dupla sim, mas temos funções diferentes. Eu sou DJ, toco mundo afora e também gerencio a carreira. Há dois anos meu parceiro é apenas produtor, e tem participação única e exclusiva na produção de tracks próprias”.

    O trabalho é grande, mas compensado: Drauf & Dran marcou presença em diversos países no último ano, como Portugal, Itália, Israel, além do país natal Alemanha e outros da Europa. “Tocar em Tel Aviv foi uma das melhores experiências que tive. Lá as pessoas possuem uma energia única, estão sempre sorrindo e divertindo-se à beça.” lembra Fips. “Pena não poder dizer o mesmo de Jerusalém, a cidade aonde você tem que mostrar seu passaporte aos militares umas 100 vezes por dia”, completou. No Brasil é a primeira vez dele, e como de costume, ansiedade está grande. “Ouvi falar que as pistas brasileiras são bem empolgadas, o que é ótimo, já que o meu set tem bastante groove”, exaltou.

    E as origens? “Venho do hip hop, em 2007 lancei neste estilo, mas não obtive sucesso.”, confessa Fips, que tem um passado em comum com a maioria de nós. “Já em 2008 estava tendo contato com a música eletrônica, por intermédio do goa trance”. Drauf & Dran está no Brasil para lançar seu album Colors, e tocará nas datas e cidades listadas abaixo.

    Agenda

    09.05 – Danghai Club (Curitiba/PR)
    10.05 – Move (Francisco Beltrao/PR)
    15.05 – Workshop @ Yellow DJ School w/ Drauf And Dran (Curitiba/PR)
    16.05 – Groover House @ Deck Club (Ponta Grossa/PR)
    17.05 – Nutt Club (Medianeira/PR)

  • Marc Houle faz tour pelo Brasil e se reafirma como um dos ídolos do techno

    Abril foi um mês e tanto. Foram três semanas de muita loucura e, é claro, muita música de primeira. A aventura foi iniciada na XXXperience de Curitiba, que teve apresentações memoráveis de Stimming e Visionquest, seguiu para o segundo carnaval de 2014, com o feriadão de cinco dias coroado pelo talento de Hernán Cattaneo, H.O.S.H e Stimming novamente, e finalmente concluiu sua maratona no último final de semana, com as apresentações de Marc Houle no The Garden e no El Fortin, ambos em Santa Catarina.

     

    A terceira parte da trip começou na sexta-feira à noite. Apesar de termos saído de Curitiba com tempo de sobra, um acidente nos manteve 4 horas parados na BR-376. Perrengue superado, chegamos a tempo de comprar umas fichas, ir ao banheiro e se posicionar diante do palco, pois Marc Houle começaria a tocar em 10 minutos. O live apresentado lá foi bem competente. Um belo equilíbrio entre hits e lados b e com bastante exploração de recursos ao vivo, como os vocais. Foi a terceira vez que vi o alemão insano tocar, tendo sido a primeira na XXXperience 2010 (no lendário Minus Stage) e a segunda no Danghai Club, quando inclusive fizemos o warm-up para ele – diria que este live do The Garden foi mais parecido com a primeira, mas com menos agressividade. Importante notar que o sound system da casa estava aquém do esperado de uma festa deste porte, talvez isso tenha “diminuído” o brilho do artista principal – fica a dica para a organização do evento 😉

    Na pista, vimos um público misto entre frequentadores assíduos da cena e alguns paraquedistas, que com certeza nunca tinham presenciado nada parecido em termos de música eletrônica. Nota-se que é uma cena em formação, e trazer Houle foi uma grande tacada rumo à criação de um público com gostos mais diversificados, além do óbvio que bate ponto em clubs do país todo. Com certeza voltaremos ao local daqui alguns meses e encontraremos uma pista ainda melhor!

    A dura missão de fechar a noite ficou com a DJ Anna que, apesar do seu talento, não conseguiu segurar a pista. Seu set tinha bons momentos, mas parecia não ter unidade, e isso foi esvaziando o club aos poucos.

    No dia seguinte, avançamos mais 120 km no estado vizinho e chegamos a Porto Belo, cidade que abriga o El Fortin Club, um dos maiores do estado. Ao chegar lá já deu pra perceber que a noite ia bombar: cambistas vendendo ingressos em toda parte, e uma fila enorme para entrar. Infelizmente perdemos o warm up da noite, que foi feito por Davi Cecato, mas pudemos apreciar o trecho do seu set na internet:

    Uma vez lá dentro, Kanio já estava se apresentando – e surpreendendo. O britânico percebeu que sua função seria preparar a pista para o artista principal e fugiu um pouco da sua costumeira linha, tocando um techno mais introspectivo e com cara de warm up. Apenas nos minutos finais ele soltou a mão e tocou os hits de minimal que seus fãs estavam aguardando.

    Chegada a vez de Marc Houle, mais surpresas. Se o live de Joinville foi semelhante ao da XXX, este de Porto Belo sem dúvidas foi uma “versão pocket” do que ele tocou no Danghai Club. A atmosfera era ainda mais sombria (contextualizando com o apelido da casa, “trevas”), e ele apostou em mais músicas antigas, da época de Sixty Four, aproveitando-se do público que, em sua maioria, sabia o que os aguardava. O live pareceu mais consistente e o sound system ajudou – algumas pessoas da pista diziam que ele estava “encapetado”!

    Na sequência, a tortura: Groove Delight. De fato tentamos dar uma chance a ela, mas a construção sem começo, meio e fim, sem alma, não foi capaz de nos manter na pista por mais do que 15 minutos. Rapidamente estavamos na outra pista, ouvindo um DJ local cujo nome não sei até agora mandar melhor que ela. A festa se encerrou com Chemical Surf, que até teve um começo empolgante, mas logo já estava em clima de “fim-de-festa”.

    No fim das contas, um fim-de-semana muito proveitoso. Não é sempre que você pode ver duas boas apresentações de Marc Houle, ainda mais passando pela experiência de vê-las em lugares bem diferentes, com público e características bem distintas. O feedback após os eventos está sendo muito bom – pelo jeito, o alemão está cada vez mais no gosto do brasileiro!

  • Modeselektor lança nova música chamada “I’m not into Twerk, I’m into KrafTwerk”

    Bleep, uma das primeiras e mais tradicionais lojas de música digital do Reino Unido, está comemorando 10 anos com uma compilação e uma série de eventos pelo mundo. O VA intitulado Bleep:10 deverá ser lançado no dia 5 de maio e virá com 14 faixas, com artistas como Nathan FakeMachinedrum e Modeselektor.

    A dupla alemão aproveitou a oportunidade para tirar um sarro com a infame dança/rebolado que é bem popular no meio comercial/mainstream americano, graças à também infame Miley Cyrus: sua participação na coletânea se chama “I’m not into Twerk, I’m into KrafTwerk”, prestando ainda uma homenagem aos pais da música eletrônica. Conforme era de se esperar, a música esbanja no uso de sintetizadores, e mantém o clima hipnótico e sombrio característico de várias tracks do Modeselektor.

    Tracklist – Bleep:10

    • 1) Gas – Die Wand
    • 2) Lone – Lizard King
    • 3) Machinedrum – aeolia
    • 4) Oneohtrix Point Never – Need
    • 5) Modeselektor – I’m not into Twerk, I’m into KrafTwerk
    • 6) Untold – That Horn Track
    • 7) Fuck Buttons – Brainfreeze (Alt mix)
    • 8) Dabrye – Click Clack
    • 9) Autechre – SYptixed
    • 10) Shackleton – Ganda Rising
    • 11) Nosaj Thing – Particles Aligned
    • 12) µ-Ziq – Hedges
    • 13) Byetone – Morning
    • 14) Nathan Fake – Vanish North
  • Warung relembra os velhos tempos com sua programação de Páscoa

    Quem me conhece sabe: nos últimos anos tive uma relação de “amor e ódio” com o templo da música eletrônica. Em 2011 cheguei a colocar uma tip na sua página no Foursquare, dizendo que ele é o melhor club do país – tip esta que fiquei tentado a apagar nos anos seguintes, quando os line-ups e a super-lotação constante me fizeram mudar de opinião. No entanto, preferi manter; eu sabia que cedo ou tarde eu poderia mudar mais uma vez meu pensamento. E este dia chegou.

     

    A programação era bacana, mas longe de ser divisora de águas. Hernán Cattaneo, quase residente, era a estrela da primeira noite, enquanto a segunda noite hospedaria um Diynamic Festival completo. Mesmo assim, depois da festa incrível de encerramento de carnaval (com Innervisions, Ben Klock e Nina Kraviz), resolvi dar meu voto de confiança e tentar novamente, com mente e coração abertos.

    Trupe Detroit BR reunida, hora da verdade. O primeiro dia foi dentro do esperado: um Hernán progressivo como sempre, hipnotizando todo o Main Room com seu long set de 6 horas de duração. Todos os fãs do argentino que encontrei na festa tinham a mesma opinião: ótima apresentação, mas longe de ser a melhor dele. Como eu nunca tinha visto um long set seu, fiquei satisfeito com o resultado – especialmente com a hora final. Quando os raios de Sol invadiram a pista pela sacada a inspiração veio de vez para ele, e os sons melódicos deixaram todos em estado de êxtase.

    Além dele, pudemos conferir o live de Genius of Time. Neste caso, talvez a grande expectativa (e a competição com outro live visto recentemente) tenha estragado um pouco o momento: de fato, uma apresentação muito criativa, porém, curta (menos de 50min) e sem “corpo” – não havia começo, meio e fim, não havia história sendo contada. Bem aquém ao que tocaram no Boiler Room, por exemplo.

    Saindo do Warung, a festa ainda estava longe de acabar: o after Detroit BR rendeu mais de 10 horas de puro techno de primeira, com Danee, Cheap Konduktor, Kultra, Alex KameL, Petrius D e André Anttony. A energia do público presente mostrou que realmente este é o próximo “estilo da onda”, e que quanto mais o Warung (e todas as outras casas da região) investir nele, mais retorno terá.

    Depois de uma longa noite de descanso, era a vez do gran finale: Diynamic Festival. Neste caso, a sensação era oposta do primeiro dia, afinal, como ferrenho crítico da linha de deep house apresentada pela maioria deles, não coloquei expectativa nenhuma na noite. Quase nenhuma: na XXXperience o alemão Stimming havia feito um dos melhores lives que vi na vida, e a esperança era de que ele, no mínimo, salvasse a noite. E o que aconteceu é talvez o que mais me empolga nesse mundo da música eletrônica: fomos todos surpreendidos novamente!

     

    Nesta festa chegamos tarde – a noite mais pop tinha uma fila de carros de mais de uma hora. Após entrar, rumamos ao Garden, para tentar ver um pouco de David August, mas foi impossível. A pista estava tão cheia, que ela terminava já no tablado que dá acesso ao banheiro. A locomoção era impossível, e o conforto era sonho. Depois de alguns minutos desistimos da ideia e resolvemos angariar um lugar decente no Main Room, para acompanhar Stimming com tranquilidade.

    Enquanto ele não começava, pudemos acompanhar um belo set de Adriatique – pesado e envolvente, bem diferente do que estávamos esperando. Elogiamos o garoto, mas nem sabíamos o que ainda viria pela frente! Chegada a hora do auge, primeira surpresa: um live mais acelerado, “pegado”  que na XXXperience. Compreensível, tendo em vista o ambiente indoor e o momento da festa (3:30 da manhã). Uma ótima apresentação, mas os fãs (como eu) sentiram falta da calmaria hipnótica do bom e velho Stimming.

    Porfim, era a vez de H.O.S.H. Nunca fui grande conhecer do trabalho dele, mas o pouco que tinha ouvido estava longe de me agradar. Optamos por assisti-lo devido à superlotação do Garden (e também ao fato de que ele merece mais créditos que o Solomun), e não havíamos tomado uma decisão tão acertada durante o feriado todo! Como quem não quer nada, ele foi subindo o ritmo e quando nos demos conta, estavamos nos divertindo muito em um set com fortes influências de techno (de verdade), com viradas muito bem executadas e progressão idem.

    Às 7:30 o line-up oficial se encerrou e foi a vez dos DJs se divertirem. Adriatique e Phono subiram ao palco, e juntamente com H.O.S.H., executaram um versus de 2:00 repleto de clássicos (de Daft Punk a Trentemoller), seguindo a mesma linha forte e envolvente que estava sendo tocada há 2 horas! Foi um encerramento surpreendente e digno para um dos poucos feriados prolongados do ano.

    Problemas? Existiram, claro. De primeira podemos citar a falta de educação das pessoas que, não satisfeitas em ficarem circulando pela pista o tempo todo, o fazem como se estivessem em uma sala vazia, esbarrando e pisando em tudo e todos. Outro fato chato vivenciado e já citado é a superlotação: adianta investir em line-up e estrutura, se o público vai ficar apertado e incomodado como em um ônibus às 18:00?

    Mas tudo bem, são problemas atemporais e que talvez nunca sejam resolvidos. O fato é que finalmente, depois de 3 anos, estou voltando pra casa orgulhoso da tip que deixei no foursquare. O templo é, mais uma vez, O TEMPLO. A boa música, os bons DJs, o bom público está de volta. E nós, só temos a agradecer!

    Que venha Tale Of Us e o resto da programação da baixa-temporada 😀

  • Afinal, é rave ou festival?

    Pouca gente sabe, mas o termo rave é mais antigo que a própria música eletrônica que conhecemos. Seu primeiro uso foi nos anos 50 em Londres, por parte dos “beatniks”, ou “Beat Generation” – uma tribo que pregava o anti-conformismo e a diversão desenfreada. O movimento nasceu nos EUA pós-guerra dos anos 40, mas o braço londrino que se concentrou em Soho que criou a gíria, que servia para descrever qualquer “festa boêmia selvagem“. 

    Em seguida, o rock psicodélico e as bandas de garagem se apropriaram do termo para descrever suas festas – sem contar na variação “rave-up”, que era a denominação de um momento específico da música no qual ela era tocada com maior velocidade, intensidade e peso. Foi só em 1967 que a “rave” encontrou a música eletrônica, ainda que por intermédio do rock: Paul McCartney organizou um evento no Roundhouse Theatre, de Londres, para exibir Carnival Light, um trabalho experimental dos Beatles que até hoje nunca foi lançado – esta inclusive foi sua única exibição pública. O line-up da noite foi totalmente complementado com música eletrônica, com a participação de alguns de seus pioneiros, como Delia Derbyshire e Brian Hodgson. O nome da brincadeira? “The Million Volt Light and Sound Rave” – podemos dizer que foi a primeira rave de música eletrônica da história.

    Depois do fim da cultura psicodélica dos anos 60, o termo caiu em desuso, até ser revivido nos anos 80, com a explosão do acid na Inglaterra. As festas clandestinas, geralmente realizadas em fábricas abandonadas, recebiam o nome de squat parties, mas o contexto geral ficou conhecido como rave scene. Deste ponto em diante a gente conhece bem a história: muita gente bebeu da água do acid, entre eles o goa trance. No final dos anos 90 esta cena chegou ao Brasil, e começou a realizar seus eventos por aqui – as tais “raves”.

    Adentrando os anos 2000, surgiu uma nova vertente originada do goa: o famigerado psytrance. Com uma palatabilidade maior que o goa, o psy ganhou as massas, e em 2006 as raves batiam a casa das 30 mil pessoas – número digno de Skol Beats, maior evento de EDM da época. E finalmente chegamos ao ponto: três parágrafos para mostrar que rave não é sinônimo de psytrance, e a razão pela qual o brasileiro tem esta idéia equívocada, o que causou bastante confusão nos anos que se seguiram.

    Após esse auge em 2006, o psytrance entrou na fase que todo produto, artístico ou não, entra um dia: o declínio. Para manter as festas cheias, foi necessário apostar em outros estilos, e em 2007 começaram a surgir os palcos alternativos com vertentes derivadas do techno e do house (não que o psytrance não seja indiretamente derivado deles, mas aqui estamos falando de coisas como minimal tech, electro house e tech house). E aí que as raves brasileiras tomaram uma decisão estratégica que mudaria pra sempre a cena eletrônica do nosso país: deixaram a alcunha “rave” de lado, e passaram a se intitular “festivais“.

    A decisão foi fortemente rejeitada pelo público, que tendo aquela idéia deturpada de que só psytrance faz rave, se sentiu “traído” pelas festas que tanto amavam. Porém, do ponto de vista estratégico foi um grande acerto, por duas razões:

    1. Como “rave” sempre foi sinônimo de “festa de psytrance”, mesmo com grandes nomes de techno e house no line-up, este público relutava a ir a esses eventos.

    2. Graças à falta de informação ao sensacionalismo da mídia de massa brasileira, o termo rave também foi muito associado ao uso desenfreado de drogas, o que dificultava muito a aceitação destes eventos por parte da sociedade.

    Após tornarem-se festivais, as antigas raves conseguiram sucesso na pluralização de seus line-ups e, consequentemente, seu público. Com o argumento de que “não é rave, é festival”, tornou-se muito mais fácil obter alvarás e patrocínios, engrandecendo ainda mais os eventos. Três anos depois pode-se ver a consolidação da nova estratégia na festa de 14 anos da XXXperience: um palco principal totalmente homogêneo, que ia de Sasha a Paul van Dyk, passando por Calvin Harris, Dubfire e até mesmo Crew; um palco exclusivo da Minus, o respeitadíssimo selo de Richie Hawtin; um palco exclusivo para house music, assinado pela House Mag; e, como não podia faltar, um palco exclusivo para o psytrance, a semente desta história toda.

    Esta mudança estratégica favoreceu a cena toda, até mesmo os clubs. Com os festivais diversificados, os artistas agora possuem mais opções de gigs, o que acaba viabilizando tours brasileiras de nomes que antigamente eram impensáveis. O próprio público, que antes se dividia entre “ravers” e “clubbers”, hoje é um só, e acaba alternando entre os eventos abertos e fechados.

    A atenção de mídia que estes eventos atraem agora é positiva, geralmente ressaltando o tamanho, o público, a estrutura ou a relevância internacional da festa. Raramente vemos matérias abordando assuntos datados e infundados, como falta de segurança, de estrutura ou de qualificação musical. Nem mesmo os excessos de alguns frequentadores é pauta na imprensa – a não ser quando trata-se de veículos tradicionalmente conservadores e sensacionalistas.

    Se hoje gozamos de um grande otimismo com relação ao presente e ao futuro da música eletrônica no país, muito se deve ao “fim da rave”. No fundo, nós sabemos que ela nunca acabou e nunca vai acabar: seja qual for a denominação do evento ou a vertente que toque, a boemia selvagem, a contracultura, o experimentalismo, a psicodelia sempre vão existir. E se a sociedade é hipócrita a ponto de tolerar ou não uma festa por causa de um simples nome, vamos nos adequar e concentrar as energias no que realmente importa: a essência. Vida longa aos “festivais” e ao espírito raver!

  • Richie Hawtin lança versus que gravou com deadmau5 no ano passado

    A ideia desta coluna é antiga, mas demorou a sair do papel. Ao longo do tempo, mudou de formato várias vezes, até chegar neste que considero ideal. A partir de hoje, a pauta principal do site fica voltada para o psytrance e para notícias de interesse geral do mundo da música eletrônica, e aqui no Detroit BR eu irei tratar com mais carinho e menos filtros do estilo pelo qual mais me identifiquei ao longo desta caminhada na música eletrônica: o techno.

    Pra começar, não poderíamos ter qualquer assunto. Por sorte, semana passada Richie Hawtin liberou no SoundCloud o back-to-back que ele realizou com ninguém menos que deadmau5, durante o SXSW de 2013.

    O set é pra techneiro nenhum botar defeito: tem Adam Beyer, Joseph Capriati, Pig & Dan, Plastikman e de tracks de Zimmermann, seja sob alcunha de deadmau5, seja como testpilot, seu novo alter-ego, criado para os lançamentos dessa nova fase. Ao compartilhar este set exclusivo, Hawtin deu boas-vindas para o rato, que agora faz parte da “família Minus” – isso porque sob o nome de testpilot Joel Zimmermann já lançou um EP pelo selo Plus8 – que também é de Hawtin, mas mais conceituado que a Minus. Fundado por Richie e John Acquaviva, teve grande destaque no início dos anos 90 durante a “segunda onda do techno”, tendo em vista que os canadenses precisavam apenas atravessar a ponte para estar em Detroit. Ele foi a casa de hits como Spastik e Sickness & Recovery, e estava sem lançar nada desde 2012. 

    No começo do ano, deadmau5 declarou no Twitter que tinha um album duplo pronto para ser lançado, “algo de que estou orgulhoso”, segundo suas próprias palavras. Será que vem techno por aí? Nesse êxodo generalizado de produtores de “EDM”, fico feliz por ver o melhor deles encontrando uma casa digna pra se abrigar 😉