Mais uma vez, a coluna detroitbr abre o espaço para a colaboração da galera – desta vez o texto é de Lucas Graczyki, grande amigo que mora nos EUA há alguns anos e foi ao seu segundo Movement alguns dias atrás. Mais um festival para a lista de desejos de consumo, ainda mais depois de ler um relato desses! Com a palavra, Mr. Gratyk:
É com muita satisfação que faço minha primeira postagem aqui na coluna detroitbr, falando sobre um festival que aconteceu em Detroit mesmo, USA, no feriado do Memorial Day, que homenageia os soldados que morreram em combate. O festival é chamado Movement e acontece por 3 dias, do meio-dia a meia-noite, com uma vasta lista de after parties. É festa o tempo todo.
Detroit é considerada a “Meca” do techno e do house, é o berço de vários artistas consagrados como Kevin Saunderson, Carl Craig, Richie Hawtin (que cresceu em Windsor, do outro lado do rio Detroit), entre outros. Ao mesmo tempo, a cidade passa por uma crise financeira enorme, chegou a ir a falência recentemente. Porém, o techno e house continua mais forte que nunca, é uma cidade extremamente artística e maconha medicinal já é liberada por lá.
História à parte, o final do semana do Movement é o mais esperado do ano para mim. O melhor line-up de festival que um amante do techno pode ter por aqui. A organização é feita pelo grupo Paxahau, e você já sente o profissionalismo antes de entrar no festival. Eles deixaram um app disponível para Android e iOS com o line-up customizável, lista de alguns after-parties, mapa e localizador, que funciona 100%. Dentro da festa, apresentou uma infraestrutura ótima para comida, bebidas e lojas para todos os gostos com preços justos.
O festival é realizado no centro da cidade, no parque Hart Plaza, fronteira com o Canadá. Haviam 6 palcos: Silent Disco, Made in Detroit, Red Bull, Moog, Beatport, e Underground. Em geral, todos tinha um sistema de som de primeira, não deixaram a desejar em nenhum momento. Outro ponto positivo foi a área VIP, que ficava atrás do palco com uma estrutura melhor, “meet and greet”, com alguns drinks na faixa. Não atrapalhava a festa de ninguém e dava mais conforto para quem quisesse. O festival também contou com uma sala tecnológica com marcas apresentando seus produtos voltados a DJs e produtores, e mostras de artes de artistas locais espalhado por todos os lados.
Falando de música agora, vamos começar pelo Silent Disco: sinceramente, eu passei quinze minutos lá dentro só para não dizer que não fui. Seria como o chill out da festa e usava-se fone de ouvido patrocinado pela Sennheiser para escutar o dj tocar. Também ao lado havia uma cadeira com um encosto removível que vibrava conforme a música que você estivesse ouvindo.
Quanto ao resto, para poder explicar melhor vou falar por dia, pois a cada dia nós ficávamos mais em um stage do que nos outros. Vamos aos destaques! No sábado, comecei na pista Beatport, vendo o final do Deadbeat tocando um dub de warm-up, e já na sequência eu fui conferir Asher Perkins na Made in Detroit. Asher foi um dos escolhidos para começar a festa, mas tinha capacidade para representar bem em horário nobre, pois tocou um minimal techno de primeira. Indo para a pista Underground, vimos Monoloc tocar um set sinistro, mas “groovado” ao mesmo tempo. A pista Underground é em um salão literalmente abaixo da terra, que te remete aos clubs nas warehouse. Outros dois nomes que me chamaram bastante atenção nesse dia foram Simian Mobile Disco, que apresentou um techno mais hipnótico, e DBX live, com uma apresentação ao vivo de minimal techno totalmente analógica. Para fechar a noite vimos um set de drum n’ bass do Ed Rush and Optical na tenda Moog, onde prevaleceu um som mais alternativo, variando entre alguns estilos de break-beat e até mesmo electro.
No domingo, segundo dia de festa, começamos com Max Cooper no Beatport Stage. Instrospectivo e melódico, fez muito bem seu papel de warm up. O Beatport Stage é o palco mais afastado, com vista para o rio Detroit e para o Canadá. Após isso nos situamos no maior palco, Red Bull, para conferir talvez o que foi a melhor sequencia ininterrupta do festival: Seth Troxler, Marco Carola, John Digweed e Richie Hawtin. Seth Troxler tocou pesado, diferente de seu estilo de club, separando o melhor do techno para Detroit. Marco Carola seguiu a linha, e tocou como nos velhos tempos. John Digweed teve uma levada mais psicodélica, com suas melodias. Por último, Hawtin chegou a assustar a multidão quando soltou o primeiro bassline. Seis horas e meia do velho Richie em ação, apresenção memorável! O palco da RedBull é tem uma vista privilegiada da arquibancada para o stage.
Na segunda, último dia de festival, o pano de fundo do Made in Detroit Stage apresentava uma nova arte referente ao projeto Origins de Kevin Saunderson, e foi por lá onde ficamos o dia todo. Destaque para a apresentação do Detroit Techno Militia com DJ Seoul & T. Linder fazendo um b2b 2X4 no vinil, dando uma aula de detroit techno a 135bpms, energético e dançante do começo ao fim. Mais tarde Saunderson veio ao palco trazendo Origins, apresentando músicas do detroit techno dos criadores do estilo e dos seus influenciados, que ao longo dos 27 anos de estrada se tornaram criadores e influências a outros também. Prova disso foi o b2b de Saunderson com Seth Troxler durante os últimos 45 minutos da apresentação, que foi como uma viagem no tempo. Saunderson tem uma maestria no palco ímpar, e suas músicas ainda carregam traços dos anos 90. Para fechar a noite, Jeff Mills dominou o underground tocando seu som mais técnico em 4 decks de vinil. Terminamos o festival assistindo J Phlip, substituindo Boyznoise que não compareceu por motivos de saúde. Uma surpresa muito boa de encerramento.
Atraindo em torno de 100.000 pessoas a Detroit, o Movement Festival continua com um line up puro, garantido qualidade em todas as apresentações. O público é bem diferenciado, não pela variedade de estilos e idades entre ele, mas pela educação em relação a música eletrônica que ele apresenta. Todas as pessoas que vem de fora estão lá com o propósito de apreciar seus djs/produtores favoritos, e o pessoal da cidade tem a música eletrônica como algo cultural, eles demonstram o maior orgulho em relação a riqueza musical que há na cidade. Um festival para apreciadores de techno/house e afins para todas as idades. Essa foi minha segunda vez no festival, e irei a todos enquanto puder pelo resto da minha vida. Sobram apenas as memórias do melhor festival da minha vida com a gratidão por ele existir e me dar mais certeza de nunca desistir do techno!
Confira abaixo um video que editei com minhas próprias captações, de alguns momentos altos do festival.