Afinal, é rave ou festival?

Pouca gente sabe, mas o termo rave é mais antigo que a própria música eletrônica que conhecemos. Seu primeiro uso foi nos anos 50 em Londres, por parte dos “beatniks”, ou “Beat Generation” – uma tribo que pregava o anti-conformismo e a diversão desenfreada. O movimento nasceu nos EUA pós-guerra dos anos 40, mas o braço londrino que se concentrou em Soho que criou a gíria, que servia para descrever qualquer “festa boêmia selvagem“. 

Em seguida, o rock psicodélico e as bandas de garagem se apropriaram do termo para descrever suas festas – sem contar na variação “rave-up”, que era a denominação de um momento específico da música no qual ela era tocada com maior velocidade, intensidade e peso. Foi só em 1967 que a “rave” encontrou a música eletrônica, ainda que por intermédio do rock: Paul McCartney organizou um evento no Roundhouse Theatre, de Londres, para exibir Carnival Light, um trabalho experimental dos Beatles que até hoje nunca foi lançado – esta inclusive foi sua única exibição pública. O line-up da noite foi totalmente complementado com música eletrônica, com a participação de alguns de seus pioneiros, como Delia Derbyshire e Brian Hodgson. O nome da brincadeira? “The Million Volt Light and Sound Rave” – podemos dizer que foi a primeira rave de música eletrônica da história.

Depois do fim da cultura psicodélica dos anos 60, o termo caiu em desuso, até ser revivido nos anos 80, com a explosão do acid na Inglaterra. As festas clandestinas, geralmente realizadas em fábricas abandonadas, recebiam o nome de squat parties, mas o contexto geral ficou conhecido como rave scene. Deste ponto em diante a gente conhece bem a história: muita gente bebeu da água do acid, entre eles o goa trance. No final dos anos 90 esta cena chegou ao Brasil, e começou a realizar seus eventos por aqui – as tais “raves”.

Adentrando os anos 2000, surgiu uma nova vertente originada do goa: o famigerado psytrance. Com uma palatabilidade maior que o goa, o psy ganhou as massas, e em 2006 as raves batiam a casa das 30 mil pessoas – número digno de Skol Beats, maior evento de EDM da época. E finalmente chegamos ao ponto: três parágrafos para mostrar que rave não é sinônimo de psytrance, e a razão pela qual o brasileiro tem esta idéia equívocada, o que causou bastante confusão nos anos que se seguiram.

Após esse auge em 2006, o psytrance entrou na fase que todo produto, artístico ou não, entra um dia: o declínio. Para manter as festas cheias, foi necessário apostar em outros estilos, e em 2007 começaram a surgir os palcos alternativos com vertentes derivadas do techno e do house (não que o psytrance não seja indiretamente derivado deles, mas aqui estamos falando de coisas como minimal tech, electro house e tech house). E aí que as raves brasileiras tomaram uma decisão estratégica que mudaria pra sempre a cena eletrônica do nosso país: deixaram a alcunha “rave” de lado, e passaram a se intitular “festivais“.

A decisão foi fortemente rejeitada pelo público, que tendo aquela idéia deturpada de que só psytrance faz rave, se sentiu “traído” pelas festas que tanto amavam. Porém, do ponto de vista estratégico foi um grande acerto, por duas razões:

1. Como “rave” sempre foi sinônimo de “festa de psytrance”, mesmo com grandes nomes de techno e house no line-up, este público relutava a ir a esses eventos.

2. Graças à falta de informação ao sensacionalismo da mídia de massa brasileira, o termo rave também foi muito associado ao uso desenfreado de drogas, o que dificultava muito a aceitação destes eventos por parte da sociedade.

Após tornarem-se festivais, as antigas raves conseguiram sucesso na pluralização de seus line-ups e, consequentemente, seu público. Com o argumento de que “não é rave, é festival”, tornou-se muito mais fácil obter alvarás e patrocínios, engrandecendo ainda mais os eventos. Três anos depois pode-se ver a consolidação da nova estratégia na festa de 14 anos da XXXperience: um palco principal totalmente homogêneo, que ia de Sasha a Paul van Dyk, passando por Calvin Harris, Dubfire e até mesmo Crew; um palco exclusivo da Minus, o respeitadíssimo selo de Richie Hawtin; um palco exclusivo para house music, assinado pela House Mag; e, como não podia faltar, um palco exclusivo para o psytrance, a semente desta história toda.

Esta mudança estratégica favoreceu a cena toda, até mesmo os clubs. Com os festivais diversificados, os artistas agora possuem mais opções de gigs, o que acaba viabilizando tours brasileiras de nomes que antigamente eram impensáveis. O próprio público, que antes se dividia entre “ravers” e “clubbers”, hoje é um só, e acaba alternando entre os eventos abertos e fechados.

A atenção de mídia que estes eventos atraem agora é positiva, geralmente ressaltando o tamanho, o público, a estrutura ou a relevância internacional da festa. Raramente vemos matérias abordando assuntos datados e infundados, como falta de segurança, de estrutura ou de qualificação musical. Nem mesmo os excessos de alguns frequentadores é pauta na imprensa – a não ser quando trata-se de veículos tradicionalmente conservadores e sensacionalistas.

Se hoje gozamos de um grande otimismo com relação ao presente e ao futuro da música eletrônica no país, muito se deve ao “fim da rave”. No fundo, nós sabemos que ela nunca acabou e nunca vai acabar: seja qual for a denominação do evento ou a vertente que toque, a boemia selvagem, a contracultura, o experimentalismo, a psicodelia sempre vão existir. E se a sociedade é hipócrita a ponto de tolerar ou não uma festa por causa de um simples nome, vamos nos adequar e concentrar as energias no que realmente importa: a essência. Vida longa aos “festivais” e ao espírito raver!