Categoria: Cena

  • Pete Tong retorna ao Warung e relembra a escola inglesa dos anos 90

    É fato, quando estamos diante de um remanescente da escola inglesa de DJing, as chances de receber uma aula de como se deve tratar com música são altas. Não só neste país, mas em todo Reino Unido, existe um desvio cultural para tudo que envolve melodias, profundidade e progressão. Nem preciso aqui citar as bandas até por que faltaria espaço, no entanto, de uma forma ou de outra tudo sempre acaba se afunilando em Londres, a capital onde todos criaram suas bases. Desde o final dos anos 80, vários Djs advindos deste pedaço de mapa milenar tem ditado o ritmo do que se toca no resto do mundo e um deles, que sem pensar seria colocado em um Top 10 de todos os tempos, é Pete Tong.  Um radialista que virou Dj ou um Dj que virou radialista? Difícil dizer, a história é paralela e ele criou marcas únicas dos dois lados. Ser o mentor do Essential Mix como o maior programa de música eletrônica de todos os tempos ou ser referência de uma linha – o house progressivo – que dominou os clubes do mundo todo por pelo menos 15 anos? O que é maior? Novamente, estamos em paralelo.

    Depois de bater na trave em 2015 o seu retorno finalmente teve confirmação, então não pensei em deixar a chance passar. Era sabido porém, que o artista esteve caminhando nos últimos anos em ondas rasas, principalmente depois de assumir também o comando do Evolution Show, programa norte-americano de rádio devidamente focado no mundo EDM. Ainda assim, fui de peito aberto com a ideia de que era um nome que precisava riscar da lista e se ele ainda tivesse personalidade, sentia que ia ser bom. 

    Com um público aquém do que se espera de um feriadão no litoral catarinense, presenciei no Garden o Curitibano Gui Tomé.  Em um primeiro momento ele me parecia um pouco descontrolado na aceleração do BPM, porém, com devida cautela ele conquistou o ritmo ideal para o difícil horário que se estenderia até a 1h. Técnica e escolha de músicas admiráveis, Gui mostrou o que sempre se deve esperar dos Djs de sua cidade. Continuando, logo em seguida pude conferir uma ótima surpresa no excelente set de Diogo Accioly. Não sentindo-se intimidado pelo importante horário lhe conferido, conduziu a pista com enorme personalidade em um ritmo por vezes viajante de house e outrora dançante de techno, intercalando essas duas referências em um set consistente e tendo seu ponto máximo o remix de Guy Gerber para “Walls” de Monkei Safari. 

    Após dar um tempo na sacada do Inside, finalmente pude ver pelas telas da pista que Pete Tong estava se aprontando. Juntamente de novos amigos que fiz alguns momentos antes no garden, me dirigi ao centro da pista para já se impressionar com as primeiras músicas do ícone. As linhas de baixo longas e introspectivas deram as caras e pude refletir que sim, hoje iria ver um daqueles Djs de uma seleta lista de mestres e influenciadores de toda uma geração. Como necessário, ele logo começou a introduzir ritmo e balanço com viradas daquele jeito que só esse estilo proporciona, penso que quem esteve lá e conhece essa linha, saberá do que eu estou falando, a pista simplesmente não cai da sua mão. Atentei-me a performance e assisti Pete frequentemente cortando uma linha horizontal de um CDJ a outro, andando e voltando na escolha das músicas como um tique. Todo artista carrega certas singularidades, gestos e posturas corporais que repetidas em determinadas situações denunciam o que o público ira levar para casa como lembrança além da música, e esse era o dele. 

    Com a pista em mãos, arrancou aplausos e gritos eufóricos de seu groove com pontas melódicas, linhas tribais e vocais com sentimento. Certa vez um Argentino me ensinou que:

    “O set deve ser coerente, assim como o seu estilo, sua carreira e você mesmo. Se pensarmos nos grandes DJs, todos eles têm seu estilo característico; eles podem mudar o tipo de música que tocam, mas o estilo? Nunca. É legal, por que mesmo que demore anos para que você o assista tocando de novo, sabe o que esperar do seu set.” – Hernan Cattaneo

     

    Foi desse ensinamento que lembrei quando os momentos finais do set de Pete Tong foram se aproximando, no momento certo ele coloca ‘’No Distance’’ de Dixon & GG, sendo a música perfeita para aquele momento em que a pista ainda está escura, porém, você já observa que ao final do triângulo o mundo já está claro. Com a atmosfera simbiótica que os raios de sol carregam para dentro da pista, lentamente é preciso acordar e “Acamar” de Frankey & Sandrino cai com perfeição. Essa é o tipo de música que literalmente puxa a pista novamente pro jogo e se possível, a levará ainda por um bom tempo. Mesmo demorando 10 anos pra voltar, foi interessante ver como Pete escolheu algo semelhante a sua estreia no templo para os momentos finais, ”What’s A Girl To Do” de Fatima Yamaha no re-edit de Capulet foi marcante tanto quanto “It’s Too Late” de Dirty South & Evermore, ambas são clássicos de seus respectivos anos.

    Saí dessa experiência realizado por ter assistido um DJ alinhado com o que acredito ser a sonoridade total e principalmente, uma figura-chave no crescimento da música eletrônica como um todo. 

    Fotos: Gustavo Remor

  • Noite que encerrou a temporada no Warung sai como uma das festas mais elogiadas do verão

    Depois de uma ótima programação de verão com uma grande diversidade de artistas – algumas importantes estreias e outros já bem conhecidos pelo público local – o Warung veio para sua última noite de verão com um line-up bastante interessante que trouxe como atrações principais da noite Mind Against e Nicole Moudaber.

    A dupla de italianos do Mind Against arrancou elogios já na sua primeira passagem pelo clube e dessa vez a expectativa pela apresentação deles era visivelmente maior. O projeto que nasceu em 2011 tem ganhado espaço rapidamente e lançado faixas de sucesso por importantes selos como Cocoon, Kompakt e Life & Death.

    Com a missão de fechar o Inside, Nicole veio como a grande novidade da noite. Nascida na Nigéria, teve o seu primeiro contato com a música já na cultura local, conhecida pelos ritmos tribais hipnóticos. Sua carreira na música eletrônica iniciou de forma mais contundente após se mudar para Londes, onde trabalhou como promoter. Após lançar sua festa chamada “Soundworx”, seu interesse em sair dos bastidores e fazer parte das pick-ups foi aumentando. Através de sua dedicação, suas habilidades e o seu conhecimento musical foram se expandindo, mas foi com a ajuda de seu amigo Carl Cox que seu nome ganhou notoriedade. Nicole carrega consigo uma grande experiência, já fez apresentações em festivais como Time Warp, Awakenings e ADE. Como fundadora da gravadora Mood, ainda promove eventos ao redor do mundo, como por exemplo, a In the Mood que já aterrissou em festivais como o BPM Festival.

    Voltando a narrativa para a noite de encerramento da temporada, alguns pequenos contratempos marcaram o início da nossa jornada. Acabamos passamos algum tempo presos no congestionamento na via de acesso ao clube e chegamos próximo a uma hora da madrugada. Esse Warung também foi marcado pelo início da proibição do estacionamento na extensão da rua em frente à casa durante o período das 22h às 6h. A medida culminou na melhora significativa do trânsito e também propiciou a eliminação natural de boa parte das pessoas mal intencionadas que acabavam trazendo transtornos aos frequentadores da casa no trajeto até o templo. Uma mudança simples, porém, eficiente.

    Já no Inside, Mind Against estava recém iniciando sua apresentação. Nos primeiros minutos a predominância de elementos bastante melódicos, que é uma das características do duo, já surtia efeito na pista. À medida em que o set era construído, o bassline das músicas ficavam mais intensos.

    Suas transições mesclavam entre o house e techno, passando por algumas faixas como “Audion – Mouth to Mouth”, que causou euforia no público naquele momento. O ponto mais alto da apresentação, foi quando tocaram North Star de Tale Of Us, dupla essa, que possui bastante semelhança na forma de expressão musical. Enquanto os minutos finais se aproximavam, Nicole já estava se preparando para assumir os trabalhos. Com uma boa apresentação e bastante aplaudidos, os irmãos entregaram a pista à ela.

    Naquele momento, a ansiedade e expectativa em torno da apresentação dela, para mim, era enorme. Na cabine estava presente um dos nomes de notável destaque na atualidade quando o assunto é Techno, no momento mais alto da sua carreira até então. Vê-la pessoalmente com seu super estilo ajudou a deixar aquele momento mais empolgante.  Eu já havia apreciado em casa algumas apresentações dela em outras festas e sabia que se tratava de uma artista versátil e que podia se adaptar a qualquer festa e ambiente, portanto o que ela tinha reservado para essa noite ainda era uma incógnita.

    Nos primeiros instantes da primeira música, uma nova atmosfera tinha se espalhado pelo Inside e sem muita delonga, já causou a primeira explosão na pista. Nicole foi construindo sua história passando predominantemente por texturas obscuras, com um bassline pesado e batidas marcantes. Conforme suas músicas iam se encaixando, era possível perceber que a sintonia entre ela e a pista ia aumentando enquanto ela ficava cada vez mais à vontade. Durante as duas primeiras horas prevaleceu um techno com uma característica séria e com intensas respostas da pista com gritos. 

    Na sua última hora, trouxe um pouco de traços melódicos para sua construção e quando o sol já estava aparecendo tocou “Recondite – Cleric”. Com um sorriso no rosto e uma expressão de quem estava gostando de estar ali, ela finalizou seu set tocando “Old Soul ‘Young But Not New’” de sua autoria, que por sinal, se encaixou perfeitamente para esse momento. 

    Um fato interessante a respeito da vida dela é que antes de iniciar sua carreira diretamente ligada à música, ela estudou ciências sociais e sempre foi uma militante na luta contra as desigualdades, inclusive, participa ativamente nos dias de hoje de um projeto chamado Lower East Side Girls Club. O projeto tem como objetivo transformar jovens garotas de baixa renda em líderes éticos, empresariais e ambientais. Um dos programas do LESGC é a música, no qual a Nicole é responsável por, utilizando as palavras dela, “Ensinar e inspirar as crianças que querem estar na magia do mundo da música. Sim, apenas na magia…”. Hoje na sua carreira como DJ, ela consegue fazer exatamente o que sempre lutou: promover, nos mais diferentes cantos do mundo, a união entre as pessoas através da música.

    Fotos – Warung 05/03: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung)

  • O lado bom da crise

    Podemos dizer que o Brasil vive hoje uma das suas maiores crises econômicas, sociais e políticas em virtude da má gestão pública que comanda o país. O aumento dos índices de desemprego e do número de crimes são alguns dentre muitos indicadores que podemos levantar. Como em qualquer período conturbado, sempre é possível enxergar um lado positivo, mesmo embora isso esteja oculto por trás de tantos fatos negativos que costumam ofuscar nossa percepção.

    Berlim, por exemplo, passou anos cercada por um muro sob um rigoroso regime totalitário. Bastante tensão foi criada na época sobre a devastada capital alemã, o que fomentou alguns sentimentos que estavam “engasgados”. Muita arte foi criada justamente nesse período, permanecendo em anonimato até a queda do muro, quando a cidade pode renascer com uma expressão artística extremamente forte. Talvez nós brasileiros possamos aprender com a história de países como Alemanha e tantos outros com uma biografia similar. Podemos fazer desse momento um grande salto qualitativo em nossa cultura, que propicie um novo momento, um renascimento da música eletrônica. 

     

    Você deve estar se perguntando como isso pode refletir em nosso cenário cultural, e mais especificamente, na música eletrônica no Brasil. O raciocínio é simples. Ao atravessar uma crise, a primeira coisa que nos vem à cabeça são os cortes: as pessoas tendem a evitar gastos menos essenciais. Em outras palavras, o lazer é um dos primeiros setores a serem prejudicados pela austeridade forçada. Com a “bolha” prestes a estourar, teremos aqueles que se previnem preocupados com a instabilidade e outros que buscarão novos mercados, imaginando formas diferentes de se relacionar com o setor. 
Em um mercado em baixa, os clubs “Big Room”, sentem-se prejudicados neste momento ao verem suas pistas com baixo número de clientes, faturamento cada vez menor. Como estratégia, investem nas atrações já consolidadas, buscando vender o máximo de ingressos possíveis, evitando assim, correrem grandes riscos. Eles não estão errados e sim defendendo seus negócios, no entanto o público fica sujeito aos mesmos artistas de sempre. Já os artistas com menor popularidade acabam sendo menos demandados para “gigs” em geral. É um efeito cascata.

    Em contrapartida a toda essa movimentação, os eventos menores têm aberto o mercado e inovado. Trazem atrações nacionais e internacionais muitas vezes inéditas, com custos mais baixos. Em consequência disso, o ticket médio mais em conta, tornando assim a operação financeiramente mais atraente. E o maior beneficiário disso tudo é o público, que passa a ser exposto a um prisma de artistas cada vez mais rico, com uma musicalidade mais atual.

     

    É nesse ambiente que núcleos pequenos vêm crescendo e conquistando espaço. A cena eletrônica ressurge com frequentadores fiéis, sedentos pelo novo e sempre com mente aberta a novas experiências. Pode-se dizer que é na crise que se aprende a sobreviver, que buscamos novas alternativas para o lazer e que reaprendemos a criar novos meios para suprir nossa paixão pela arte. E é na terapia da arte que encontramos nosso momento de relaxar e de proporcionar a nós mesmos a vivência de belas experiências. É a linguagem da música falando por si só.

  • Showcase da Rumors encanta o Garden e The Martinez Brothers marca o fim do carnaval no Templo

    A terceira noite de carnaval no Warung sempre marca o fim de um ciclo de ótimas apresentações. Este ano, mesmo com o dólar em alta, diversos nomes importantes foram convocados. O clima era de folia e a esperança era um só: presenciar mais uma noite histórica liderada por ícones da música eletrônica mundial. Infelizmente por problemas pessoais uma das estrelas da noite cancelou sua apresentação, Seth Troxler que há alguns meses atrás revelaria ao Garden uma case recheada de ótimos vinis, dessa vez não pode comparecer para nos agraciar com sua típica personalidade. Uma pena, pois a possibilidade de um b2b lendário com os irmãos Martinez era alta e claramente seria um dos ápices do período carnavalesco.

    Consegui adentrar ao templo e já se passava da 1h00 da manhã, nesse momento, o Inside estava sob o controle de Renato. Sempre aclamado pelo público, tratou de aquecer o pistão com sonoridades explosivas e arrojadas, deixando todos efervescidos para The Martinez Brothers. Por volta das 2h30 me dirigi ao Garden onde fiquei fascinado por toda a decoração voltada para o Showcase Rumors. Luminárias amarelas, girassóis, gérberas rosas e vermelhas haviam sido utilizadas para caracterização do palco, que diga-se de passagem, abrilhantou ainda mais as apresentações.

    Lauren tinha a missão de mostrar toda sua personalidade em 2 horas de apresentação e ao mesmo tempo, preparar a pista para o seu headliner. Presenciei 30 minutos de seu set e pude notar que ela estava extremamente à vontade, criando assim um clima aconchegante, similar ao que acontece em Ibiza em noites de Rumors. Pontualmente às 3 da madrugada, Guy Gerber assumiu o domínio do Garden. Seu histórico de ótimas apresentações fala por si só. Buscando sempre alimentar o público com ótimas performances, o israelense abusou dos sintetizadores, proporcionando momentos ímpares que resultaram no surgimento de ótimas tracks como Freund – Berlin, em seu mix original.

     

    Em seguida, quem mais uma vez faria várias pessoas retrocederem no tempo seria “Timing”. É incrível o quão nostálgica e fascinante essa música é. Lançada em janeiro de 2009 pelo selo Cocoon do Papa Sven, a música transparece toda a genialidade de Gerber, que enobreceu ainda mais a noite. Decidi então que era hora de ver o que acontecia na pista de cima, afinal, não é todo o dia que se tem a presença de Chris e Steve. Os irmãos possuem uma ótima sintonia e ambos estavam vislumbrados com a arquitetura do templo e a energia do público. Esbanjando sorrisos e felicidade, a seleção de tracks foi feita com sutileza e sensatez, com destaque para o remix de Radio Slave para Michel Cleis & Klement Bonelli – “Marvinello”, música que caiu como uma luva para os irmãos. Como de costume, o Inside encerrou suas atividades às 7h00 da manhã, deixando um gostinho de quero mais para os Martinez.

    Ainda dava tempo para ver um pouco do que foi apresentado no Garden, uma das últimas tracks escolhidas por Guy para encerrar o carnaval foi “Mandy vs. Booka Shade – Oh Superman”, que por si só anestesiou os “foliões” que ali estavam.

     

    E assim se encerrou-se o período a tríplice sequência de carnaval do Warung. Vale ressaltar que diante do cenário econômico que vivemos é difícil trazer nomes deste calibre para cá. A presença dos ótimos brasileiros figurando as pick-ups foi mais que essencial para que o carnaval se desenvolvesse de maneira formidável e graciosa. 

    Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)

  • Depois de 6 anos Luciano retorna ao carnaval do Warung Beach Club

    Em janeiro de 2007 o Warung desembarcou pela segunda vez na praia brava umas das marcas mais conceituais e originais de Ibiza, a “Circo Loco Party“, comandada pela lenda uruguaia Tânia Vulcano, que por sua vez trouxe junto outro Sul-Americano que estava dando o que falar na tradicional festa do DC10. Luciano fez sua estreia no templo e ajudou a marcar uma nova fase do club educando uma geração de frequentadores que estava muito bem-acostumada a progressão e melodias dominantes da época, porém eram novos tempos, a casa sempre buscou apresentar novidades e provou estar certa visto a ascensão que Luciano e outro seu conterrâneo, Ricardo Villalobos, apresentaram nos anos seguintes. Ambos tornaram-se aclamados na Europa e criaram impérios com suas concorridas festas e labels. É evidente que a residência na festa Circo Loco formou as bases do que Luciano mais tarde criaria como seu maior projeto de vida, a marca “Vagabundos Cadenza”, lançando vários artistas de extrema qualidade como Dani Casarano, Felipe Valenzuela e Mendo. Eles se consagraram na Space Ibiza e encantaram plateias de todo mundo trajados como artistas de uma companhia circense do século XVIII.

    Já no carnaval de 2010, Luciano volta ao templo como headliner máximo e faz um dos longsets mais marcantes daquele ano. Consolidado, ele tinha tudo para se tornar um artista anual do club. Sua conexão com a pista e o clima sul-americano reavivado em sua personalidade o encantaram, fazendo rasgar elogios ao templo mundo afora. Nos dois anos seguintes a história mudou seu curso e ele desembarcou com sua trupe em frente da “lagoa” e não do “mar”, possivelmente um dos motivos de não ser mais uma prioridade do club e assim, os anos se passaram.

    Não consegui visitar a casa naquele memorável carnaval de 2010, mas sempre ouvi boas histórias sobre aquela noite. Já tinha perdido as esperanças de vê-lo novamente na brava, mas o que seria da vida sem as surpresas? Foi essa minha reação ao ver o nome do chileno na programação e ainda melhor, no mesmo carnaval que ele deixou há 6 anos. Mesmo tendo meu gosto pessoal muito mais centrado na segunda-feira com Guy Gerber ou até mesmo no sábado com Dixon, não pensei duas vezes que a noite escolhida seria com Luciano.

    Como do costume me aprontei mais cedo e acessei a casa com enorme tranquilidade,  fiz o roteiro habitual de banheiro, bar e Garden, onde pude ver o set do Fran Bortolossi, o artista hoje referencia do renascimento da cena Gaúcha. Tocando adequadamente ao horário ele mostrou uma linha de house e deephouse séria na primeira hora e observando o crescimento da pista, trouxe levadas bem dançantes em um segundo momento. Sem dúvidas o ponto mais marcante em seu ótimo set foi o edit de Redondo para um artista que admiro muito, Fatima Yamaha na já clássica “What’s A Girl To Do”. A pista inevitavelmente transbordou.

     

    Muito curioso, subi ao Inside para conhecer aqueles que para mim eram até então desconhecidos, falo dos londrinos Koko Bayern e Daylomar. Ambos se apresentavam sob a proposta do showcase de lançamento da label Unleash, que passara pela D-edge um dia antes. Bayern já havia se apresentando e quem estava virando os discos era Daylomar. Eu poderia ter pesquisado sobre seus trabalhos dias antes, mas dessa vez pensei em fazer diferente, fui sem expectativa nenhuma e de peito aberto para descobrir quem eles eram. Em 10 minutos de música já estava totalmente tomado pela linear sutileza em que Daylomar  construira seu set. Entre vinil e CDJ, ele jogava com uma pegada de house e tech house de muita classe, tentando buscar referências sobre o que tocava, me veio a mente o estilo de Audiofly, se é que podem me servir de exemplo.

     

    Jackmaster era outro artista que seria quase totalmente novidade para meus ouvidos, embora tenha acompanhado de longe seu sucesso e sabendo que ele tem despontado entre grandes djs na Europa, eu nunca tinha sequer ouvido alguma de suas produções ou sets. Suas primeiras músicas foram bem quebradas e intensas, me deixando em um primeiro momento confuso sobre a qualidade de Jack, porém, conforme ele foi construindo seu som, pude perceber que a ideia inicial de desconstruir todo o ritmo criado antes por Daylomar era para poder fazer a pista entender melhor sua segunda hora de música. É preciso coragem para isso e sua ótima técnica aliada a rápidas viradas fizeram-me apreciar com interesse seu trabalho. Não é todo dia que se ouve um estilo de música como esse.

    Depois de uma pequena demora na montagem dos equipamentos por seu manager, Luciano inicia seu set sendo muito aplaudido, porém, já nos primeiros minutos notei que o sound system estava bem abaixo da sua normalidade e até mesmo mais do que quando Jack estava tocando. Seus equipamentos foram montados em cima de outro mixer e a pista não estava recebendo o ideal. Essa é a situação em que o público não se dá conta, o pessoal da casa menos ainda e no final ficaria a impressão que o set não foi tão legal. Assisti à mesma situação no carnaval de 2013, quando Matador fez seu live e em seguida Richie Hawtin entrou com o som bem abaixo e tudo acabou ficando por isso.

    Mesmo sendo um grande set, ninguém acaba se recordando da apresentação ou até mesmo chegam ao ponto de criticar o DJ por algo que estava além da sua percepção, uma vez que o artista na cabine recebe os retornos sempre iguais. Incomodado lembrando de tudo isso, não me contive e escrevi no celular a mensagem ”the sound sytem need’s a gain”, simples e direto, me dirigi até o manager e mostrei a mensagem, ele por sua vez me fez um sinal de positivo, voltou-se para o mixer e deu um ganho no master. Lamentavelmente o problema não era ali, mas para minha felicidade, uma segunda pessoa no palco olhava intrigada para as caixas na pista. Depois de alguns minutos, o sujeito foi atrás na mesa de som e alertou os desatentos técnicos da casa, que trataram logo de somar cerca de 30 a 40% de volume. Dali em diante foi outra festa. A virada da música seguinte já fez a pista explodir com as mãos para cima, com sorriso no rosto e tradicionais palmas virado de lado, Luciano mostrou a que veio.

    Ele é um artista que respira energia e isso contagia qualquer pista, seu set sempre é carregado com muitas referencias sul-americanas e no Warung não foi diferente: vocais latinos, linhas de baixo dançantes com breaks longos e percussivos que não deixavam a pista parar por um minuto. A noite perfeita para um carnaval quente brasileiro estava construída, mas acima de tudo, o que faz dele um dos Djs mais respeitados dos últimos 10 anos é sua qualidade técnica, sua mixagem muito bem trabalhada com a soma de seus mashup ao vivo. Trabalhando quase sempre com dois canais ou mais, ele abusa de seu extremo bom gosto.

    As rápidas 3 horas e meia se traduziram em consistência na primeira parte e pegadas mais explosivas na segunda. Por volta das 6 da manhã, o momento da noite chega com o inconfundível vocal de “Enfants” de Ricardo Villalobos, jogado junto em outra música mais limpa com extrema maestria. Próximo das 7 horas, o escuro triangulo no final da pista deu lugar a uma página amarela mesmo sem o sol aparecer. Já com saudades desta vista, pude observar no mesmo momento Luciano extremamente realizado curvando-se diante do público em agradecimento e talvez sabendo que agora ele poderá ser frequente na casa. Quem agradecerá desse vez será o público.

    Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)

  • Primeira noite de carnaval no Warung tem novamente grande destaque de artistas nacionais

    A primeira das três noites de carnaval no Warung trouxe um line-up composto praticamente por brasileiros. Gromma, L_cio, Junior C, Elekfantz, Shadow Movement e Gui Boratto vestindo a camisa verde e amarela, enquanto o alemão Dixon completava o line-up da festa do lado estrangeiro, em um verdadeiro 7×1 invertido. Já completavam-se seis meses desde a minha última visita ao Club e eu, na companhia da minha namorada e um amigo, não poderia estar mais ansioso para esse início de carnaval no templo. 

    Chegamos lá por volta das 23h00, depois de um caminho tranquilo e sem filas. Como de costume, nossa primeira parada foi no bar e em seguida nos banheiros. Logo notamos a primeira mudança relevante no clube: aumentaram a estrutura dos banheiros principais e melhoraram a acessibilidade para os deficientes.

    Bola em jogo – Foi dado o apito inicial da festa para nós. Adentramos ao antigo Main Room já sapateando ao som de nosso amigo Gromma. Meu gosto musical é bem similar ao dele, o que me torna suspeito pra avaliar seu set. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a melhoria significativa em sua técnica e pesquisa após sua tour pela Europa, no último ano. Em fase esplêndida o curitibano já começava a desenhar o clima da noite, mantendo linhas paralelas de minimal e microhouse – vertentes ricas e muito apropriadas à ocasião. O fato de ser um set no vinil elevou ainda mais o encanto do warm up. Com meia hora para o fim do set Gromma aumentou o ritmo, mesclando tracks de dubtechno e tech house, por mais uma vez o papel de acender a fogueira da noite foi muito bem executado. Ainda no final do set, o soundsystem apresentou falhas de equalização, fazendo com que os graves abafassem os sons mais agudos, trazendo um pouco de desconforto e uma leve dor no ouvido. 

    Gromma Warung

    L_cio já estava no palco acompanhando a preparação da pista há bastante tempo, causando uma grande ansiedade no público, já que muitas pessoas de outras regiões e estados se deslocaram até o clube especialmente para conferir sua apresentação.  Antes mesmo de Gromma passar a bola já haviam fãs formando corações com os dedos e um leve coro na pista passava a ser entoado. Recentemente contratado pela consagrada gravadora alemã Kompakt Records, o paulistano é o segundo brasileiro a fazer parte do time, depois de Gui Boratto, tornando-se um dos os artistas brasileiros com maior ascensão internacional no momento. Dono de uma técnica admirável e um repertório de muita qualidade, se apresenta apenas em formatos live, seja solo, seja com os projetos paralelos Gaturamo, Lacozta e Teto Preto.

    Próximo da meia-noite o play foi acionado. Kicks bem marcados com harmonias e melodias bem características de suas obras, o produtor revelação do ano explodiu a pista já na primeira track. Não era por menos, L_cio é um artista muito sólido e inovador, um live set acompanhado por uma flauta que encantou aos desavisados e hipnotizou aos fãs. Tínhamos um dos melhores sets que eu já ouvi sendo executado diante de nós e logo quando pude perceber a pista já começava a encher.  

    L_cio Warung

    Como prometido, às 01h10 o remix de Construção – clássica música da MPB – produção original de Chico Buarque, em uma releitura perfeita e bem complementada pelas baterias e a flauta de L_cio foi tocada. Neste momento, percebermos nitidamente o médio abafado interferindo no vocal, mas apesar disso, os fãs soltaram a voz tornando o momento um dos melhores da festa. O relógio já marcava 01h30 quando o alemão Dixon deu as caras. O público demonstrou bastante carinho e expectativa pelo headliner. L_cio finalizou com maestria seus trabalhos e saiu ovacionado do palco nos dando uma aula sobre a construção de um set. São artistas como L_cio que nos motivam a levantar a bandeira raver. São esses os verdadeiros artistas que colocam a música como foco da apresentação. Sem firulas ou confetes, seu trabalho em Construção é um exemplo de que sim, é possível mixar músicas nacionais de qualidade com finalidade musical e não de marketing. 

    Dixon assume a pista principal pouco depois das 01h40 e até dado momento, eu ainda não havia passado uma vez se quer pelo Garden. Como esperado, a introdução do set do alemão foi bem trabalhada com teclados e longas notas de grave, criando uma tensão harmoniosa e bem agradável. As três primeiras tracks do set, foram bem explosivas e animaram bastante o público, porém, antes de completar quinze minutos de set, o alemão começou a mostrar a sua cara: melodias romantizadas e defendendo bastante a proposta da sua label Innervisions. A festa o presenteou com a oportunidade de um long set e como já era de se esperar, o headliner da noite elaborou algo envolvente, explorando as suas sonoridades características para uma boa evolução do set estendido. 

    Com 30 minutos de apresentação, o soundsystem apresentou mais um problema: o grave morreu completamente – coisa que nunca vi acontecer antes no Club.  A pista que antes estava apresentando sinais de lotação começara a esvaziar. Como sabia que Elekfants comandava a pista Garden, decidi manter o foco no inside e ver o que aconteceria. O set continuou sendo bem trabalhado, porém, com uma resposta quase nula da pista. Passaram-se 35 minutos até que o grave voltasse e no exato momento do retorno, a explosão foi geral. Para compensar a falha técnica e recuperar a pista, a apresentação ficou mais pesada e as tracks traziam características de techno, mas sem perder a cara da Innervisions. Pouco tempo depois, a linha mais hipnotizante foi retomada e a exibição do alemão voltava a ter a identidade da sua tradicional proposta. Resolvi então dar uma volta no club.

    Dixon Warung

     Ao encontrarmos alguns amigos, resolvemos ficar pelo Garden – que recebia o showcase da D.O.C Records. O duo Shadow Movement se apresentava no momento e fiquei contente em ter pesquisado bastante sobre a dupla antes da festa. Confesso que me animei pelo que eu poderia ver na exibição deles. A dupla brasileira atingiu bastante destaque internacional por conta de seus bons releases e receberam a difícil tarefa de preparar a pista para um dos nomes de mais peso da cena nacional, Gui Boratto. A carga de responsabilidade era ainda maior, analisando que a apresentação da dupla que antecedia seu set, a brasileira Elekfantz, se apresentam com uma proposta bem diferente. Eles sabiam que teriam de levar a sério a preparação de pista. Teriam que iniciar do zero e mudar da água para o vinho a cara de um garden romântico.

    Ao iniciarem, logo notei que o bpm foi pra baixo e o set iniciou bem quebrado, com bastante dubtechno. O que me impressionou é que já passavam das 3h00 e eles estavam recriando toda a atmosfera da pista para seu sucessor. O Garden mudou sua cara completamente, depois de muita alegria, as características sombrias da dupla ganharam a plateia. O ritmo da pista era outro, tracks mais quadradas e breaks cada vez menores fizeram os presentes adentrar a fundo no clima que estava por vir. Posso dizer que Shadow Movement ganhou mais um fã nessa noite e  por mais que não tocaram como headliners, apresentaram um trabalho de leitura de pista incrível. 

    Shadow Movement Warung

    A última vez que vi Gui Boratto foi na TribalTech 2014 e na ocasião, ele apresentou um set razoável comparado ao seu potencial. Eu estava apreensivo para ver em que fase o brasileiro encontrava-se. Não demorou 5 minutos para minhas dúvidas serem sanadas. O set seria bem acima do que tinha visto na última vez, talvez por ser o headliner do palco e por receber a pista devidamente preparada. Techno – com a cara de Gui Boratto – um trabalho maravilho de synths e baterias que deixaram a pista completamente envolvida na apresentação. O paulistano executou Azurra em um mix diferente, muito mais adequada à noite. Acompanhei quase todo o set do Dj que manteve a classe da exibição até o fim. 

    Gui Boratto Warung

    Decidi subir para ver o fim do set no inside e conferir o que o alemão estava aprontando. Dixon havia retomado uma postura mais dancefloor, linhas de grave mais fortes e continuas perduraram até o fim do set embalando todos os entusiastas por mais uma hora de festa. Inevitavelmente e de forma pontual, às 07h00 o som foi desligado e aquela vontade de “quero mais” acendeu na alma de todos que estavam ali.

    De alma lavada.  Foi assim que encerrei a noite. Uma festa confortável e musicalmente falando surpreendente. Meus agradecimentos a todos os artistas que nos presentearam com essa noite incrível e ao Detroitbr pelo convite.

    Fotos: Gustavo Remor e Ebraim Martini (Warung) e Juliano Viana (IMAGECARE)

  • Zip e Soul Capsule protagonizam noite histórica da Perlon no D-Edge

    O ano mal começou e já tivemos uma grande surpresa no Brasil, em termos de música eletrônica. Depois de alguns anos o D-Edge anunciou a volta do Quinto Sol (festival da Perlon que acontece na América Latina), apostando no minimal techno para uma noite histórica em São Paulo. O line-up foi anunciado e para a nossa alegria a escalação da pista 1 tinha o duo brasileiro Stekke, Soul Capsule e o mestre Zip, enquanto a pista 2 receberia Ney Faustini, seguido pelo long set do trio Apollonia e no final, até as 17h do dia seguinte, b2b entre Eli Iwasa e Renato Ratier. A emoção foi grande pois Zip está entre meus artistas favoritos e eu não o via tocar desde sua última vinda ao Brasil, quando a Green Valley recebeu edição do Festival Quinto Sol com ele, Margaret Dygas e Ricardo Villalobos. Alguns não sabem, mas ele que é o dono da Perlon, uma das gravadores mais conceituais de Berlim, que lança exclusivamente em vinil. 

    Como não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo, escolhi a Pista 1 para ficar do começo ao fim, acompanhando esse line-up inédito e absorvendo cada virada como parte de uma história de uma noite surreal. Ao entrar no club, ainda um pouco vazio, mas com uma fila grande lá fora, fui sentindo um clima diferente. Talvez por estar feliz demais por tudo aquilo estar acontecendo, ou talvez porque realmente o público estava diferente naquela noite, só sei que poucas vezes vi uma pista como aquela. Com o set do Stekke já pela metade fui reconhecendo os amigos, de perto e de longe, uns que vejo sempre e outros que não via há um tempo. É incrível ver como a música une as pessoas, noites como essa são sempre muito especiais. Fazendo o warm up do jeito que só eles sabem, o duo virava de uma música para outra com a classe e a técnica apurada que são suas características, tudo com uma alegria estampada em seus olhos, a felicidade de abrir para esses artistas que admiramos tanto. Constante, sem apelos de pista, com uma inteligência e suavidade nas batidas e mixagens. Muito orgulhosa por eles, pude curtir o final desse set, que estava perfeito para o começo dessa noite.

    Assim que Baby Ford e Thomas Melchior entraram na cabine o pessoal aplaudiu, passando a mensagem que estavam felizes e sabiam muito bem o por que estavam ali. Stekke ainda teve tempo de finalizar com uma música absurda, que por sinal é produção deles e será lançada em breve apenas em vinil. Em seguida, Soul Capsule vira a primeira música, dando continuidade a noite. Com um set puxado para o house, com melodias incríveis, clássicos, discos raros, foram construindo uma história marcante para todos que estavam ali dançando. A pista estava cada vez mais feliz, aplausos e gritos estavam se tornando constantes. Cada vez mais à vontade, o duo foi mostrando seu groove com batidas marcantes.

    Nesse momento eu já estava extremamente realizada, sentindo algo naquela pista que nunca havia sentido. Já estive em muitas noites marcantes no D-Edge, mas não peguei o club em uma época que gostaria de ter frequentado também, até o ano de 2009. Me senti vivendo algo novo ali, ouvidos maduros e preparados para aquela sonoridade. Via amigos dançando com sorrisos estampados no rosto, uma energia leve e arrepios constantes. 

    Enfim chegou o momento que foi um dos mais especias que já vivi na pista. Arrepiei até a espinha quando eles colocaram, digo isso pois não foi nem uma mixagem e sim um corte para que ela fosse tocada desde a primeira nota: Lady Science, uma das minhas músicas favoritas, que escolheria até como um tema da vida. Assim que a melodia entrou, gritos e comemorações mostraram que muitos ali sabiam bem o que estava sendo tocado, enquanto uma energia única tomava conta daquela pista. Difícil transmitir em palavras o momento mágico que aconteceu. Já havia ouvido ela ser tocada por outros artistas, até eu mesma já toquei algumas vezes e é sempre uma vibe linda quando é usada na pista e hora certa, mas desta vez, ela sendo tocada pelos próprios produtores, por quem sentiu a inspiração e conseguiu traduzir sentimentos em música, foi muito diferente, foi único. Esse momento foi o ápice do set deles e fico emociada até agora de lembrar disso. Dali para o final da apresentação, continuou sendo só alegria. Comecei a ficar meio inquieta e percebi que era ansiedade para ouvir o nome da noite, Zip

    Às 6 da manhã o mestre virou a primeira música e nela mesma já pude ouvir os barulhos esquisitos muito bem distribuídos que dão característica ao bom minimal e, ali mesmo, já podia sentir que esse seria outro set histórico. Técnica de mixagem perfeita, construção muito bem pensada (ou sentida), case com clássicos, unreleases, atualidades, músicas únicas, de dar inveja a qualquer DJ. Zip realmente se superou e levou a noite. Engraçado que durante o set reconheci várias músicas, algumas que sabia os nomes, outras que reconheci sem saber onde havia ouvido, talvez até do próprio set dele de 3 anos atrás, vai saber… As músicas são muito marcantes, carregam sentimentos especiais e melodias lindas. 

    Durante aproximadamente 5h30 de set, Zip nos presenteou com uma construção que não irei esquecer. Não é a toa que ele é tão respeitado e sempre mostra consistência nas suas apresentações, sabendo muito bem montar uma história, conduzir uma pista e deixar essa experiência marcada nos nossos corações. Foi muito especial reparar como ele tocou um som extremamente avançado, incomum por aqui, e como as pessoas ali reagiram a isso. Vi muitos comentários positivos durante a noite, saudações e aplausos, foi incrível poder viver isso “no quintal de casa”. Mais pro final do set aconteceu um dos ápices da festa, quando ele tocou o clássico Kenny Larkin – Cirque de Sol. Nessa hora ouvi vários gritos reagindo ao bassline e à melodia dessa música. Nunca tinha ouvido ela na pista e foi uma surpresa ouvir naquele momento.

    Fui começando a notar que o club estava esvaziando e que meus pés estavam começando a doer e olhei para o relógio. Quase meio-dia e a Pista 1 ainda aberta, o que me fez lembrar o quanto essa noite havia sido especial. Normalmente ela fecha entre 8h e 9h, deixando apenas a Pista 2 para dar continuidade ao dia, com o Superafter. Zip, cansado mas satisfeito, entregou a pista para o Stekke fechar a festa com um pouco mais de maestria. Levei dessa noite a melhor experiência já vivida naquele club, a sensação de alma lavada, com mais uma aula na memória. Fico muito feliz em ver cada vez mais o D-Edge apostando em DJs e lives underground, em música avançada, fazendo line-ups coerentes e com sets longos. Espero que em 2016 nos reserve mais momentos assim e que a música continue juntando amigos e nos proporcionando noites mágicas, como essa. Fui embora com o coração transbordando alegria, pernas moídas e feliz da vida.

  • Apollonia supera sua estreia com long set memorável no Inside

    Depois de meses sem escrever reviews para o detroitbr, eis que surge um novo desáfio. Ter a honra de relatar o que de melhor aconteceu no Inside no dia 23 de janeiro, quando Dan, Dyed e Shonky retornaram ao club após de uma excelente estreia no aniversário de 12 anos. Em sua primeira passagem por aqui eles já haviam expressado sua arte por cinco horas, transitando entre belas linhas percursivas com bastante groove, aplicadas com sutileza e sincronia. Esses momentos me fazem lembrar o Warung em sua melhor época, quando os longs sets tinham tanta frequência quanto os line-ups compostos por diversos artistas. Quem viveu esse período sabe do que estou falando, e ver apresentações nesse perfil resgata o sentimento do passado.

    Na divulgação dos horários, uma boa surpresa: de que apenas dois nomes foram escalados para o Inside: Alex Justino e Apollonia. Primeiro plus para o público e para eles, que teriam uma hora a mais de apresentação, iniciando a jornada à 01:00, assim como no recente long set de Hernan Cattaneo. Entrei no clube por volta de 00:30 e me desloquei para o meu tradicional tour, reencontrando amigos e batendo um papo com eles enquanto não me fixava frente ao palco. Durante esse momento pude notar uma grande movimentação de estrangeiros, inclusive um gentil grupo de italianos que me parou para que eu registrasse uma foto, pois era sua primeira vez em terras tupiniquins e o clube fazia parte de seus roteiros. Com o Real sob forte desvalorização, aparentemente o Brasil foi o destino de um número maior de turistas em comparações a anos anteriores, o que beneficia empresas como o Warung, que possuem prestigio internacional, possibilitando um novo perfil de noite no verão catarinense.  

    Já com a presença de Apollonia no palco, eu e um amigo conversavamos sobre como a vida noturna pode ser prazerosa e ao mesmo tempo solitária. A exemplo, vimos muitas personalidades que diante de sua rotina de trabalho ficam grandes períodos distante de suas famílias e amigos. Esse fato deve acontecer com os franceses, mas por eles estarem grande parte do tempo juntos, faz com que sejam grandes companheiros durante todas essas viagens. Esse companheirismo é tão benéfico que facilmente pode ser notado no palco, diante da leveza que eles transmitem, do jeito que se comunicam, como se conhecem, já tendo em vista a apresentação anterior.

     

    Após um pequeno atraso de 30 minutos eles assumiram a cabine e rapidamente foram ovacionados pelo público que ali esperavam. O primeiro a se posicionar foi Dan Ghenacia, seguido por Shonky e Dyed Soundorom. Um fato interessante notado ainda no começo é que na primeira vez que os vi tocar foi em uma formato pouco convencional de b2b, no qual cada integrante tinha liberdade de criação sem uma limitação de músicas. Dessa vez na maior parte do tempo o headphone era passado diante de cada transição feita.

    Para ganhar a pista, as duas primeiras horas de apresentação foram em um ritmo bem quente, com um som bastante acessível. Enquanto Dan e Dyed ousavam em baterias e fortes grooves, Shonky quebrava o rítmo acrescentando timbragens que enriqueciam a apresentação, os deixando em um patamar acima de muitos artista que vi tocando house/tech house por aqui. Durante toda construção a apresentação dos clássicos no set eram bem planejada, tanto que próximo das 3:30, Fly Life (Extra) cai como uma luva em meio ao euforico público que o assistia.


    Crédito: Pedro Henrique Chaves

    Com a entrada de Bob Moses no Garden, parte do público presente foi mudando de pista, gerando um conforto ainda maior a quem os assistia. Naquele momento você olhava ao redor e reconhecia velhos rostos que já não frequentavam o clube com tanta frequência. Tudo aquilo que estava acontecendo contribuía para essa memorável experiência. Essas noites com longs sets podem ser uma faca com dois gumes: corre-se o risco de o DJ não conectar com a pista e a noite ser ruim, é verdade, mas quando o artista sabe o que ele esta fazendo, a noite se torna extremamente rica em diversidade e ali era possível extrair ao maximo o que eles tinham a oferecer.  

    Após quase duas horas intensas, a apresentação começou a ficar mais cadenciada. Naquele momento a pista já estava sobre hipnose, o que deu oportunidade para explorar melhor as linhas melódicas, com uma leve pitada de techno, em meio ao belo house que ali acontecia. Os clássicos continuavam sendo introduzidos, como DJ Pierre, que diante da atmosfera presente, ecoáva a sua tradicional fala “What’s is house music? A unique form… of music”.

    No decorrer da noite a imprevisibilidade do trio era incrível, me sentia como se estivesse no cinema assistindo um filme com um grande roteiro, esperando ansiosamente para saber o que aconteceria. Durante toda minha vida eu fui grande fã de hip-hop e jamais esperaria escutar uma música na qual fosse sampleado um clássico do genero. Os relógios passavam das 05:30, quando uma versão de Matthias Meyer dava vida a 93 ‘Til Infinity de Souls of Mischief. Naquele momento confesso que fiquei meio que sem entender o que estava acontecendo, e pensava comigo: Será? Sim, era inconfundível. Eu realmente estava escutando. 

    Amanheceu e eu estava frente ao inside em um belo dia de Sol, despedindo-se de uma excelênte noite, com a sensação de dever cumprido perante a entrega realizada. Sua última hora de apresentação foi como um educado “obrigado” declamado em forma música, e naquele momento presenciávamos uma verdadeira aula, que depois de quase seis horas de construção anunciava que chegaria ao fim. Próximo às 07:00, ainda houve tempo para Where Do I Go de Gemini, o que deixou tudo mais especial.  

    A sensação que levo dessa noite, é que o clube vem acertando nesse resgate de longs sets, seja com Apollonia, Hernan Cattaneo ou Dixon, recém divulgado. Que esse perfil de evento faça parte dessa temporada. Nós adoramos isso!

    Créditos: Juliano Viana / IMAGECARE

  • Dubfire fecha o ciclo de festas pré-reveillon do Warung

    Há alguns anos o Warung Beach Club se tornou uma referência de entretenimento para muitos turistas, especialmente nas datas próximas ao fim do ano. Isso fica nítido quando vemos que das três noites do final de 2015, duas foram encabeçadas por argentinos, nacionalidade mais comum no Vale do Itajaí nesta época. Na terceira noite, porém, a intenção de alcance era global: Ali Dubfire, liderava o line-up do Inside, acompanhado por Ricardo Albuquerque e Renato Ratier, enquanto o Garden ficou nas mãos de Lou Lou Players, Tone of Arc e Fran Bortolossi.

    Nesta ocasião o clube teve sua abertura antecipada para as 21h, e como já havia acontecido o sold-out preferimos nos previnir, chegando à festa por volta das 21h30min. Imediatamente nos dirigimos para o Inside, onde Albuquerque se apresentava. O curitibano apresentou um warm up diferente, com BPM mais elevadas e uma seleção musical que variava do tech house ao techno, apresentando boas tracks, porém com uma construção pouco efetiva.

    Com a entrada de Renato Ratier houve uma mudança de humor, pois o clima ficou claramente mais sombrio. Seu set foi consistente e usou de músicas consagradas em alguns momentos, como o hit Woods, de &ME. Gostaria de ter visto o líder dos Savages abusar um pouco mais das novidades, mas como ele preparava a pista para a estrela da noite, compreendo que havia necessidade de misturar seu estilo a características do DJ que viria a seguir.

     

    Finalmente Dubfire iniciou sua apresentação, com uma entrada introspectiva, começando bem minimalista e encorpando conforme a música evoluía. Sua apresentação foi pesada e com bastante groove, porém sem a emoção de tempos passados. As novidades da SCI+TEC eram recorrentes na construção, que usou de menos clássicos que outros sets de Ali no templo. Em uma analise mais ampla, Ali fez todo mundo dançar por horas e proporcionou bastante diversão, conseguindo segurar a pista até o minuto final, sendo aplaudido pelos presentes. Pontualmente a festa teve seu término às 7h, finalizando assim mais uma temporada de grandes eventos do Warung.

    Fotos: Gustavo Remor.

  • Tradição se mantém e Hernan Cattaneo celebra mais um fim de ano no Warung

    O dia 28 de dezembro, uma das datas mais icônicas do ano no Warung Beach Club, por um momento pareceu que ia se perder em 2015, pois a curadoria da casa resolveu, de maneira inédita, trazer Hernan Cattaneo no feriadão de independência. O acerto foi comprovado com noite de ingressos esgotados e uma repercussão incrível, que ajudou a ascender novamente os olhares do jovem novo publico do club para essa linha de som. Se isso foi pensado ou não, não importa, o importante é que funcionou. Visto a proximidade do final de ano, praticamente todos que acompanham mais de perto a carreira do Maestro concluirão que desta vez ele não viria no final de ano, tudo bem, o fantástico set de setembro ainda ecoava na mente de todos e gerava debates nas rede sociais. Até um amigo enviar-me a recém atualizada agenda de Hernan em seu website… estava lá, a tradição falou mais alto e todos correram pra mudar os planos de férias.

     Já fazem mais de 5 anos que tenho seguido esse roteiro e o melhor de tudo é entrar na casa e sentir aquele clima diferente, algumas pessoas você só vai ver ali nesta data, frequentadores mais antigos e amigos de outros estados que deixam de serem virtuais e vivem a realidade do único longset que ainda respira na Praia Brava. Como falei no review de setembro, em 2015 Hernan completou dez anos de Warung, e eu, 10 shows que somados geram mais de 60 horas de música! Refletindo, as vezes parece-me que já ouvi bastante, mas logo depois sinto que ainda tenho muito a aprender sobre como funciona a mentalidade desse artista único, que no meu entendimento alcançou um nível que vai muito além do cenário da musica eletrônica.

    Depois de alguns anos, o residente mais antigo da casa e um expoente da nossa cena voltou a ser convocado para o warm-up. Leozinho sempre deixou claro que o argentino é uma das suas principais referências de como se deve conduzir uma pista. Ao adentrar na casa e encontrar os amigos, por volta da meia noite subi para começar a entrar no clima, Leo tocando em sua antiga e melhor versão: house com bastante groove, leves breaks e finas melodias, como é a pedida pro horário. Seguindo o roteiro, perto do horário Hernan aparece no palco e é interessante como tudo é tão tradicional: ainda assim a emoção bate como na primeira vez, sendo ovacionado, ele espeta seus pen-drives e abre seu Technics preto, a camiseta escura também está ali, só faltando mesmo o cabelo comprido sendo levantado pelos dois ventiladores acima da cabine, é compreensível, chegar aos 50 anos de idade fazendo mais de 100 shows por ano ao redor do mundo, deve pedir um pouco mais de conforto.

    À uma da manhã hora em ponto Hernan não precisa parar a música, o bom esquenta já pede a primeira mixagem, como verdadeiro gentleman, chama Leozinho de volta pro centro da cabine e pede os aplausos do publico, ele realmente aprecia e reconhece a importância de se deixar a pista no ponto, de fato isso reflete lá na frente. As 6 horas do seu set são muito especificas, a primeira coisa que ele sempre faz é dizer: ”ok, vamos dançar” as duas primeiras horas de ritmo ainda devagar são para ir colocando todos no mesmo balanço, equalizando a pista com alguns vocais e muita percussão, como na música de Brian Cid – Oasis. Não tinha virado a segunda musica e os hermanos, sem pedir licença, abrem uma bandeira da argentina de mais de 2 metros com a mensagem ‘’No Hay Limite Para Tu Musica’’. Pronto, se alguém tinha duvidas sobre o que aconteceria no restante da noite, acabou por ali. Com certa frequência, Catta virava-se para seus amigos conterrâneos na cabine, e com sorriso no rosto tentava mostrar um pouco do club, realmente ali ele se sente tão em casa quanto em seu próprio país, os hermanos além de reconhecer isso, fazem de tudo para vir aqui poder ver seu famoso extended set. Entre seus convidados, um dos maiores produtores da nova geração argentina, Marcelo Vasami.

     Se pudéssemos transportar a maneira de construir seu set para um exemplo lúdico, poderíamos imaginar uma roda gigante, London Eye se encaixa perfeitamente, pois além do entretenimento, ela serve como ponto de observação. Hernan gira sua roda nas duas primeiras horas para que todos consigam subir, ainda que em movimento, quando se está dentro de algo tão grande é fácil de perder a noção de tempo e velocidade, a roda pode começar a girar mais rápido lentamente e você nem se dar conta, só quer apenas que ela gire sem parar, e é justamente isso que acontece na pista. A sutiliza em que ele vai aumentando o ritmo no decorrer da noite faz com que nossa percepção mude, alguém que entre naquele triângulo de madeira no meio da noite não vai conseguir entender com plenitude o que está acontecendo, é por isso que eu só consigo sair da pista depois que a musica para. Como já esperado, pouquíssimas musicas reconhecíveis e se em setembro o som foi mais frio com pontos emotivos, dessa vez ele tocou muito psicodélico a partir das 3 horas, subindo as batidas por minuto como não se via a anos! Hernan não gosta de jogar muito alto mesmo com sua linha de baixo agressiva, então quando ele resolve acelerar, o rastro de euforia na pista é impressionante, o coro de ole ole, ole ole, HC HC! apareceu mais vezes do que de costume, é aquele momento em que a pista já não sabe mais o que fazer e reverenciar é o que sobra.

    São 4 da manhã, o auge, a sequencia arrebatadora deixa todos estasiados, Hernan flutua sobre a cabine e suas mixagens se encaixam como um quebra-cabeças, não há espaço para respirar, as linhas de baixo em alta frequência se propagam por toda pista e se ligam praticamente formando um outro ritmo, as batidas do que poderia chamar tranquilamente de techno ficam em outro plano, indo e vindo conforme sua vontade, e os contratempos de hats e bateria são uma das suas principais características, isso é algo difícil de explicar, pois não é em qualquer lugar que funciona, até mesmo porque não é qualquer lugar que tem a acústica do Warung, realmente isso sempre foi um dos maiores segredos do sucesso do club. Entre os diversos momentos de maior introspecção, vale destacar ”Delta Corvi”, música do produtor Gaucho Fernando Goraieb, ”Candyland” de Guy J com remix de Luca Bacchetti, Kiasmos – Swept ( Tale Of Us remix) e a indescritível musica de Roman Fluegel – Wilkie com remix do argentino Ditian Lonely. Segue abaixo video do momento:

    Passando das 5 horas é que consegui chegar mais próximo dos amigos e interagir, em uma rápida olhada pelo corredor da saída principal, vejo que a intensa chuva que caia durante boa parte da noite já tinha dado uma segurada. Hernan fez a mesma coisa, é hora de mais melodias, ‘’Crosses and Angels’’ de Lopezhouse cai como uma luva. Por volta das seis o vocal inconfundível de ‘’I Wish You Were Here’’ surge no repaginado remix de Kevin Di Serna, esta musica ele já havia tocado alguns anos atras na versão clássica de Lexicon Avenue, que momento!

    Perto do final outro clássico daqueles, ‘’Right Off’’ de Danny Howells (Precisa voltar) com remix de Faze Action é daquelas que nunca saem da case, tem um poder tribal capaz de renovar as energias para mais algumas horas, infelizmente as manhãs adentro de boa musica do Templo são coisas da memoria, ainda assim já se passava de 7:15 quando Hernan virou a ultima musica com o vocal sereno e romantico de Arnór Dan, produção de ‘’Ólafur Arnolds– So Far ( Guy Mantzur Remix )’’os gritos e aplausos do publico soavam tão alto quanto o volume do sistema de som, e visivelmente emocionado ele agradece a todos da mesma forma. O prazer e a honra de ouvir e tocar são mútuos, e a mensagem mais tarde em sua Fanpag em portugues: ‘‘Nunca deixa de me surpreender’’ fez com um espelho a sua frente, pois o sentimento de todos diz o mesmo.