É fato, quando estamos diante de um remanescente da escola inglesa de DJing, as chances de receber uma aula de como se deve tratar com música são altas. Não só neste país, mas em todo Reino Unido, existe um desvio cultural para tudo que envolve melodias, profundidade e progressão. Nem preciso aqui citar as bandas até por que faltaria espaço, no entanto, de uma forma ou de outra tudo sempre acaba se afunilando em Londres, a capital onde todos criaram suas bases. Desde o final dos anos 80, vários Djs advindos deste pedaço de mapa milenar tem ditado o ritmo do que se toca no resto do mundo e um deles, que sem pensar seria colocado em um Top 10 de todos os tempos, é Pete Tong. Um radialista que virou Dj ou um Dj que virou radialista? Difícil dizer, a história é paralela e ele criou marcas únicas dos dois lados. Ser o mentor do Essential Mix como o maior programa de música eletrônica de todos os tempos ou ser referência de uma linha – o house progressivo – que dominou os clubes do mundo todo por pelo menos 15 anos? O que é maior? Novamente, estamos em paralelo.
Depois de bater na trave em 2015 o seu retorno finalmente teve confirmação, então não pensei em deixar a chance passar. Era sabido porém, que o artista esteve caminhando nos últimos anos em ondas rasas, principalmente depois de assumir também o comando do Evolution Show, programa norte-americano de rádio devidamente focado no mundo EDM. Ainda assim, fui de peito aberto com a ideia de que era um nome que precisava riscar da lista e se ele ainda tivesse personalidade, sentia que ia ser bom.
Com um público aquém do que se espera de um feriadão no litoral catarinense, presenciei no Garden o Curitibano Gui Tomé. Em um primeiro momento ele me parecia um pouco descontrolado na aceleração do BPM, porém, com devida cautela ele conquistou o ritmo ideal para o difícil horário que se estenderia até a 1h. Técnica e escolha de músicas admiráveis, Gui mostrou o que sempre se deve esperar dos Djs de sua cidade. Continuando, logo em seguida pude conferir uma ótima surpresa no excelente set de Diogo Accioly. Não sentindo-se intimidado pelo importante horário lhe conferido, conduziu a pista com enorme personalidade em um ritmo por vezes viajante de house e outrora dançante de techno, intercalando essas duas referências em um set consistente e tendo seu ponto máximo o remix de Guy Gerber para “Walls” de Monkei Safari.
Após dar um tempo na sacada do Inside, finalmente pude ver pelas telas da pista que Pete Tong estava se aprontando. Juntamente de novos amigos que fiz alguns momentos antes no garden, me dirigi ao centro da pista para já se impressionar com as primeiras músicas do ícone. As linhas de baixo longas e introspectivas deram as caras e pude refletir que sim, hoje iria ver um daqueles Djs de uma seleta lista de mestres e influenciadores de toda uma geração. Como necessário, ele logo começou a introduzir ritmo e balanço com viradas daquele jeito que só esse estilo proporciona, penso que quem esteve lá e conhece essa linha, saberá do que eu estou falando, a pista simplesmente não cai da sua mão. Atentei-me a performance e assisti Pete frequentemente cortando uma linha horizontal de um CDJ a outro, andando e voltando na escolha das músicas como um tique. Todo artista carrega certas singularidades, gestos e posturas corporais que repetidas em determinadas situações denunciam o que o público ira levar para casa como lembrança além da música, e esse era o dele.
Com a pista em mãos, arrancou aplausos e gritos eufóricos de seu groove com pontas melódicas, linhas tribais e vocais com sentimento. Certa vez um Argentino me ensinou que:
“O set deve ser coerente, assim como o seu estilo, sua carreira e você mesmo. Se pensarmos nos grandes DJs, todos eles têm seu estilo característico; eles podem mudar o tipo de música que tocam, mas o estilo? Nunca. É legal, por que mesmo que demore anos para que você o assista tocando de novo, sabe o que esperar do seu set.” – Hernan Cattaneo
Foi desse ensinamento que lembrei quando os momentos finais do set de Pete Tong foram se aproximando, no momento certo ele coloca ‘’No Distance’’ de Dixon & GG, sendo a música perfeita para aquele momento em que a pista ainda está escura, porém, você já observa que ao final do triângulo o mundo já está claro. Com a atmosfera simbiótica que os raios de sol carregam para dentro da pista, lentamente é preciso acordar e “Acamar” de Frankey & Sandrino cai com perfeição. Essa é o tipo de música que literalmente puxa a pista novamente pro jogo e se possível, a levará ainda por um bom tempo. Mesmo demorando 10 anos pra voltar, foi interessante ver como Pete escolheu algo semelhante a sua estreia no templo para os momentos finais, ”What’s A Girl To Do” de Fatima Yamaha no re-edit de Capulet foi marcante tanto quanto “It’s Too Late” de Dirty South & Evermore, ambas são clássicos de seus respectivos anos.
Saí dessa experiência realizado por ter assistido um DJ alinhado com o que acredito ser a sonoridade total e principalmente, uma figura-chave no crescimento da música eletrônica como um todo.
Fotos: Gustavo Remor