Categoria: Cena

  • Vem aí a mais imperdível das edições do Warung Day Festival

    No dia 8 de Abril de 2017 todos os caminhos levam… à Curitiba! Pelo quarto ano seguido a cidade mais criativa do Brasil irá sediar o Warung Day Festival e a expectativa de quem já foi ou irá pela primeira vez só aumenta, afinal são 12 horas de música com mais de 20 artistas que prometem fazer a Pedreira Paulo Leminski ficar pequena.

    Um festival premiado

     

    Um dos grandes feitos da marca Warung está justamente em disseminar a cultura da música eletrônica vanguardista, portanto, não é de se espantar que o clube tenha vencido repetidas vezes o Prêmio RMC na categoria “Melhor Superclub”. Aí quando um festival recém-nascido vence como “O Melhor Festival de Música Eletrônica do Brasil”, é sinal de que você precisa fazer parte dessa história. O Warung Day Festival está apenas na sua 4ª edição, mas já é um dos festivais mais aguardados do Brasil.

    Um lugar mágico

    Com um cenário natural exuberante, a Pedreira Paulo Leminski se tornou a casa oficial do Warung Beach Club na capital paranaense. Afinal, somente o maior palco ao ar livre da América Latina seria capaz de unir perfeitamente os três elementos indispensáveis para a cultura do Templo: natureza, boa música e um público em total sintonia.

    Será uma mega-estrutura, dividindo o público em 3 palcos: Warung Stage, o principal, montado no chão aonde o público fica em dia de show; Pedreira Stage, montado em cima do palco aonde as bandas se apresentam; e o Garden Stage, próximo ao lago e proporcionando maior contato com a natureza. Além dos stages, ainda haverão áreas de interação entre os espaços, para descanso, trânsito de pessoas, alimentação, além dos tradicionais bares e banheiros em pontos estratégicos. Veja o que espera por você nesse vídeo publicado pelo evento: 

    E se no Warung Beach Club o nascer do sol é um momento transformador aguardado por todos que lá frequentam, imagine um pôr do sol cercado pela natureza e ao som hipnótico de alguns dos melhores DJs nacionais e internacionais?

    Uma orquestra impressionante

    Sempre fiel ao estilo que propõe, o line-up de cada festa é escolhido a dedo, e no Warung Day Festival não poderia ser diferente. Serão 21 artistas, tocando ao longo de 12 horas, em 3 palcos diferentes. 

    Dentre todas as atrações, podemos destacar algumas para você anotar na lista de imperdíveis:

    Hernán Cattáneo

    Um dos primeiros confirmados no evento e aclamado pelos amantes do Templo, é um dos DJs favoritos de quem vai no festival, e também o motivo da ida de muitos. Hernán é conhecido por inesquecíveis apresentações, e promete deixar o dia 8 de Abril de 2017 na história.

    ANNA

    O Brasil ficou pequeno para Anna, primeira mulher a ser premiada como “Melhor DJ Underground” na Rio Music Conference, e hoje ela esbanja seu talento na noite de Barcelona. Sorte de quem vai para o festival e terá a chance de dançar sem parar ao som dessa DJ consagrada na cena eletrônica mundial.

    Chris Liebing

    lenda do techno mundial, Chris é famoso como DJ, produtor e apresentador – um verdadeiro artista completo.

    Outros destaques ficam com Stephan Bodzin, um alemão autêntico e experimental e Roman Flügel, um artista camaleão que flui entre estilos há 20 anos. Confira o line completo:

     

    Um final de semana inesquecível

    Depois de um sábado que ficará pra sempre na memória, aproveite o domingo com seus velhos ou novos amigos para explorar Curitiba e relembrarem os momentos da noite passada. É diversão garantida!

     

    Não perca mais tempo, acesse já o site oficial e garanta o seu ingresso. Nos vemos dia 8! 

    Fotos por Gustavo Remor, Ebraim Martini e Lucas Aob

     

  • Guy J e um carnaval imersivo no Garden do templo

     

    É inegável: o carnaval do Warung Beach Club tem uma atmosféra própria e reconhecível. Algumas das noites mais marcantes da história do clube ocorreram durante as tradicionais três noites, com as portas da Praia Brava se abrindo para reunir a diversidade cultural de pessoas advindas dos mais variados lados desse país continental. 

    Com o objetivo de agradar o maior número de pessoas possível, a formação do clássico sábado (25) de carnaval trazia uma mescla interessante de artistas, desde nomes que estão buscando seu espaço, como Hito, até outros que já foram sinônimo de casa lotada com apenas o peso do seu nome, a exemplo do lendário parte duo do projeto Deep Dish, Sharam. 

    A parte principal dessa noite de abertura foi composta por dois destaques que vivem seus auges na carreira e tinham a missão de fazer a noite de todos compensar, ainda que em níveis diferentes. Me refiro ao francês Agoria, que teve o privilégio de encerrar o Inside, e do israelense Guy J, que é a figura central deste review por ser um artista que vem construindo uma carreira sólida e de personalidade musical extremamente alinhada com o que acredito ser o que meus ouvidos mais apreciam, além de estar no seu momento mais estelar. A cada lugar que passa deixa mais e mais novos admiradores. Jogar no carnaval brasileiro era uma grande oportunidade para ele desprender novas mentes, quanto à isso, adianto que não há dúvidas. 

    Após algumas alterações de horários atendendo o pedido de muitas pessoas, Guy J foi realocado para o meio da noite, não teria a atmosfera do amanhecer, mas ganhou quatro horas e meia de set. Alguns artistas precisam de tempo para mostrar seu trabalho, esse estilo é conhecido por noites longas e instrospectivas e Guy J é um deles. Para o warm-up foi escalado a sempre interessante dupla da casa, Conti & Mandi. Ao adentrar o club e me digirir a pista, pude notar que a música estava fechada e carregada de elementos, é importante quando os DJs tem a missão de receber o público fazem uma pesquisa musical focada para melhor se conectar com o artista principal, deixando todos no clima ideal. Com mixagens tranquilas e bom andamento, o set deles foi exemplar, quando o israelense chegou para montar suas coisas, todos estavam ansiosos.

    Pontualmente à 00:30 Guy J começou seu set chamando todas as atenções para si, foram três minutos de toques de piano e leads viajantes, com um loop de hi-hat de fundo colocando todos em sintonia à esperar com ambição as primeiras batidas. Em seguida, puxando a memória dos mais atentos de suas produções, entra em ação Story of Us, sob seu alter ego Cornucópia o recado estava dado, ele não entraria em muitas delongas. Pode-se dizer hoje que Guy J é o produtor líder da retomada mundial das sonoridades com profundidade e melodia, muito por conseguir personificar de forma unica uma textura macia e intensa, extremamente concentrada em sua própria personalidade. 

    O preço de se ter um estilo tão bem definido é o de ter que ser mais direto, perdendo um pouco da construção do set, já que seu som não é tão amplo. Ao mesmo tempo e em compensação, sua música exibe excelência e um dinamismo pouco comparável no cenário comteporâneo, como mencionei no review de sua vinda em 2016, é house progressivo da mais pura classe, ainda que a elaboração durante o tempo não incorpore o mesmo tradicionalismo. Apesar de acreditar que ele não toque em blocos, igual artistas como Dixon e Mano Le Tough fazem, ele assim como os dois nomes citados pensa a pista de dança dentro de uma visão de produtor musical. Não existe demasiada preocupação em construir um set de baixo para cima, e isso não é uma crítica, longe, conseguir fazer todos se manterem conectados subindo até o limite do seu estilo e descendo a intensidade sem deixar de ser dançante é algo admirável. Acredito ser uma maneira mais sofisticada de trabalhar, como se estivesse em um arranjo levemente tribal pelo meio, com variações entre melodias e timbres sombrios por cima, acelerando e cadenciando as linhas de baixo. Guy J exibe isso de uma forma tão natural que não imaginava ser possível dentro deste estilo de som, porém, vale reforçar, sua música sempre tem balanço, groove e movimento que faz todos respirarem conforme sua vontade, e é ai que está o segredo. Suas ondas pelo Garden eram profundas e suas quebradas à beira da praia eram avassaladoras, éramos capazes de nos distanciarmos e logo em seguida estarmos com os pés na areia. 

     

    Antes das 02:00 ele já tinha subido o ritmo ao extremo, mixando com sua controladora quatro canais em sequência com enorme destreza e sacando aplausos ainda nas viradas, algo que os fãs de Hernan Cattaneo estão bem acostumados, e assim como o maestro argentino, não temia expor sua transição, ao contrário, fez dela uma de suas maiores virtudes ao deixar que o expectador aguardasse cada momento com entusiasmo. Outra novidade em relação à sua evolução comparando com 2016 é a aceleração do bpm. É fato que uma pista aberta, mesmo não sendo grande, exige maior fluidez, mas seu aumento de velocidade se daria de qualquer forma, se trata de ganho de experiência.

    Às 03:00 um de seus últimos lançamentos ganha destaque, “MDQ” era um aviso do que estava por vir. Um dos maiores benefícios de se tocar com o software Traktor é a possibilidade de usar loops, seja com presets ou entre as músicas, abrindo assim um leque de oportunidades quando se tem uma mente criativa, foi assim que magistralmente Guy J conseguiu colocar no auge da noite a música que além de ser uma das minhas favoritas dele, era algo que ainda sonhava poder ouvir novamente no Warung. “Lost & Found” às 03:30 sem perder o ritmo foi subliminar, aí em diante era só seguir, a pista estava vencida. 

    Abrindo a última hora ele começou a apresentar músicas mais sentimentais, baixos com notas longas e a incômoda sensação de que logo precisaria parar. Seu lado emotivo, que tanto lhe fez seguidores no início da carreira, estava ali, exposto em pleno carnaval, abrangendo novas mentes que talvez só o tinham ouvido de nome. Para celebrar tudo isso, reviveu um daqueles seus lançamentos que não são tão conhecidos, mas você sempre reconhece que é de sua autoria, “Pathos”, lançada pela sudbeat em 2012, colocando todos em imersão. Neste ritmo de despedida, mesmo com a energia recíproca para mais horas de música, ele gentilmente cede passagem. 

    Por mais que o tempo passe e as coisas mudem, alguns nomes sempre terão uma vaga no Warung, fizeram coisas demais para a nossa cena e devem ser lembrados, e o iraniano Sharam é um dos poucos que tem esse poder. Inicia sua volta ao templo de forma bem consistente, era evidente que ele iria flertar com o techno, porém, mesmo podendo ser interessante, parecia que todos já estavam sentindo falta do balanço encaixado que Guy J tinha imposto nas últimas horas, então era hora de mudar. A curiosidade em ver Agoria era boa o suficiente para me dirigir à parte da frente do inside. Observando ao redor, notei que todos estavam contagiados com sua música. Mais uma vez, o choque de conceitos musicais falou mais alto, já eram quase seis horas quando comecei a conseguir entrar no ritmo do francês. Ao ver o início do amanhecer, outra oportunidade surgiu. 

    Em todos esses anos frequentando o clube nunca consegui abandonar as primeiras fileiras da pista, sempre senti a necessidade de ter aos meus olhos distância suficiente para observar os movimentos do artista, e naquela hora me dirigi a um dos pontos mais emblemáticos do templo, a sacada foi a melhor escolha possível. Receber o surgimento do sol acompanhado de pessoas que estavam ali pelos mesmos motivos que eu, ouvindo Agoria jogar um de seus hinos, “Scala”, chegou até nós contrastando com um ensaio fotográfico no horizonte repleto de cores e formas. Mesmo sabendo que a música iria se estender até as oito horas, decidimos tomar o caminho de volta com o pensamento repleto de satisfação, mas desejando o retorno do pequeno gênio no lado de cima. 

    Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana
    Videos por: Fernando Hauenstein

  • John Digweed explora as relações humanas em retorno ao Warung

    A primeira semana de fevereiro de 2017, apenas outra data entre várias do calendário de verão no Warung Beach Club, carregava consigo a marca do retorno de um de seus maiores expoentes, parte de um seleto grupo de DJs com mais de 10 anos de casa e uma espera angustiante de quatro anos por seus admiradores: “Ele voltaria como o mesmo de outros tempos?” John Digweed teria que agradar não um, mas dois pontos de vista dominados por incertezas, pois também era uma figura a ser redescoberta pelo atual público do clube:  “vamos ver quem é esse cara”, missão difícil…. Infelizmente, ser um dos maiores nomes da história da dance music não é o bastante em um país onde poucos pesquisam sobre de onde veio tudo, porém, bastou sua entrada misteriosa e as primeiras batidas, para algumas dúvidas serem quebradas. 

    Antes que você se pergunte se cheguei ao templo apenas na entrada do headliner da noite, devo merecidamente destacar os dois artistas que consegui assistir antes. Gaby Endo, um nome até então desconhecido para mim, jogou no Garden perfeitamente alinhada com a sonoridade All Day I Dream, tão aguardada pela figura de Lee Burridge. À uma hora subi para conhecer outro artista, o argentino Herr fora escalado por saber muito bem quem viria por seguinte, seu set carregado de baixos submersos e largos esteve como um contraponto ideal para o warm-up. A noite ainda trazia outras constantes que faziam todos se sentirem à vontade, público na medida, calor moderado, sound system beirando a perfeição e pessoas certas ao lado. 

    Sempre tive John Digweed entre meus artistas favoritos por admirar sua forma universal de lidar com a música, ideias e conceitos muito peculiares que deixam transparecer um cuidado – carreira, lançamentos e gravadora – de alguém que está em constante busca da perfeição, e nesse review além de relembrarmos suas cinco horas de set, que de certa forma retratam tudo isso, vamos também procurar entender o que é um artista em sua totalidade. 

    Embora cada pessoa seja uma em sua individualidade, algo irrepetível e, até certo ponto, insondável, ela precisa se relacionar com outras para se desenvolver como “ser humano”. Para compreendermos como John alcançou sua totalidade, devemos primeiro entender como ele se relaciona com as pessoas que se dispõem a ouvi-lo. A pista de dança não é uma mera justaposição de corpos com uma entidade acima das pessoas, ela é formada por um todo na medida em que se inter-relacionam, formando uma teia de laços interiores, dinamizando-se mutuamente e respeitando cada individualidade. Digweed entende como poucos esse contexto, absorve sutilmente a todos e devolve construção musical da mais pura classe. Após o reconhecimento do público em sua aparição, ele começa seu set ao ritmo do artista anterior, e aos poucos vai desconstruído tudo na primeira meia hora até um ritmo um tanto fragmentado, onde a ideia era estabilizar a pista, deixar quem realmente estava ali para isso, e assim, começar a alvejar intensidade até as bordas do infinito. 

     Você já deve ter percebido, observando a si próprio e aos outros com que convive, que somos seres complexos, multidimensionais e porque não, multifacetados, como um diamante. Para entender melhor este “diamante”, é preciso compreender que cada uma destas facetas produz ações e assim tornam-se objeto de estudo do expectador, que busca saber dele o quanto está determinado a agir. Quando se trata de John, observando sua personalidade mais insondável do que o comum, uma mistura de serenidade e frieza, fica difícil saber em que nível está sua determinação em agir. Tentei entrar em sua mente de diversas maneiras, mas ele se mantinha inacessível, estrutural e metódico, como um verdadeiro diamante que brilha por todos os lados sem nenhum esforço. As quatro horas minha consciência estava de acordo que era um dos sets mais bem elaborados que já pude ouvir, conduzido através de movimentos tão precisos que acabavam derrubando qualquer tentativa de acompanhamento, mixagens milimétricamente pensadas deixavam suas transições escondidas. 

    Acredito que um dos seus segredos está justamente nisso, sua fortaleza acima da cabine era uma forma de colocar a todos em uma única posição, a de apreciar e sentir música a todo momento, e o que ele devolvia em troca? Algo totalmente o oposto de si, os poucos breaks eram carregados de tensão, sem respiro, ritmo frenético e infernal que fazia-nos correr sem sair lugar. Essa forma de se relacionar, que deixa sua figura em segundo plano e concentra todas as atenções na música é uma de suas maiores características, e o mais interessante é que por ser inacessível aos olhos da pista, sempre cabisbaixo e concentrado na manipulação sonora, ele não te faz querer buscá-lo na cabine, porém você a todo momento sabe quem é que está no comando. 

    As cinco horas a música continuava aquecida, cheia de elementos progressivos e delirantes, ainda assim, nota-se a diferença dos grandes DJs para os demais quando eles podem surpreender dentro daquilo que supõe-se beirar a perfeição. Isso é algo que o artista precisa sentir, por meio de um exame das consequências práticas a que cada aspecto da sua música pode levar, e assim descobrir o ponto de convergência da noite em seu sentido mais amplo. John segurou os elementos carregados até o limite, e antecipando a vontade de inovação que todos iriam precisar após tantas horas, começa a soltar sua linha mais agressiva e que tanto é comentada mundo afora. Seu techno fica mais limpo, linear e mixado rapidamente, fazendo todos se olharem deslumbrados, o ritmo ainda poderia ser jogado a mais um degrau? Sim! A essa altura já se passavam das seis da manhã, e todos tinham a mesma energia do começo da noite. 

    Nessa pulsação ele poderia levar a pista por mais quantas horas quisesse, era dançante, com poucos cortes e rápido, muito rápido, quando essa difícil mistura entra em ação, onde a energia das pessoas está no seu máximo, fica fácil de criar momentos de euforia, sem precisar recorrer aos efeitos ou breaks longos, a alta energia concentrada faz todo o trabalho, é só preciso mantê-la. Obviamente, essa é uma tarefa e um estado de domínio das relações humanas que só um verdadeiro mestre da arte consegue alcançar, um ser dotado de aspectos e capacidades quer sejam naturais ou adquiridas, que podem ser desenvolvidas ao longo da noite, aumentando suas potencialidades e por fim, um todo. 

    Perto das sete horas o ritmo desacelera e se cadencia, era hora de mais uma mostra de como deixar todos se entregar. Quando um arranjo de piano entra em cena, a primeira música emotiva de toda a noite, percebi que era algo especial, logo depois uma voz familiar começa a cantar com autoridade sob um leve delay: “Say hello to the greater men.
Tell them your secrets they’re like the grave. Oh what you have done, oh what you have done.
Love is lost, lost is love….”

    Simplesmente David Bowie em um dos seus últimos sucessos ecoando pela pista abraçada por um dos mais lindos amanheceres dos últimos anos. Mais tarde descobri que o edit de “Love is Lost” era de Chris Fortier.

    Nessa levada descontraída onde “Diggers” não conseguia segurar o sorriso, mantém-se por mais alguns minutos até começar a deixar todo aquele turbilhão sonoro desvanecer-se, ao mesmo tempo que se abaixa atrás da mesa, e quando tudo para, apenas o sopro de um splash bate por alguns segundos criando a última expectativa do seu set, ao aparecer novamente e ser reverenciado por todos, solta os acordes inconfundíveis de “Strings Of life” em um edit ainda desconhecido, ditando a mensagem final! 

    Era isso mesmo, estava ouvindo um dos maiores clássicos da música eletrônica, composta pela genialidade do cara de Detroit, Derrick May, através das mãos de uma das mentes mais inquietas e inovadoras que a cena já produziu, uma soma que me trouxe entendimento necessário antes de deixar aquele lugar. Algumas pessoas você consegue ver, sentir e até compreender sua totalidade, mas jamais terá as chaves que abrem as portas até ela. 

    Crédito Fotos: Gustavo Remor

    Crédito Videos: Michelle Schneider Luchtemberg e Fernando Hauenstein

     

  • Dekmantel Festival e uma das mais legítimas manifestações culturais do nosso tempo

    Lá nos idos de 2010 em uma conversa de bar profetizei algo que, na época, fora refutado por quase todos que estavam na mesa: em um momento de empolgação disse que a década de 10 seria o momento no qual a música eletrônica seria reconhecida como uma forma de expressão artística legítima desta geração. A primeira metade seria o momento da massificação, com a tomada do mainstream musical por DJs com foco comercial, enquanto a segunda seria o momento da qualificação, quando o underground emergeria à superfície e, aos poucos, mostraria o verdadeiro potencial artístico da música feita por máquinas. Pois bem, já estamos no sétimo ano da década e o Dekmantel Festival, realizado nos dias 4 e 5 de fevereiro em São Paulo, é a materialização mais clara de que minha aposta foi certeira!

    Digo isso não só pela curadoria apresentada, algo que não era visto no Brasil desde o saudoso Sónar SP 2012, mas pelo contexto todo que foi vivenciado no último final de semana. Desde que comecei a escrever no Psicodelia.org, há sete anos, uma das bandeiras que levanto é a de que a cultura eletrônica pode sim ser o grande ponto de ruptura de nossa geração com o sistema imposto, se espelhando nos movimentos de décadas passadas e compreendendo as particularidades da atual, mantendo viva a esperança de que a arte possa ser o ponto de partida para que uma nova sociedade seja construída.

    Utopias à parte, podemos não ser os revolucionários da vez, mas temos que concordar que somos uma tribo muito mais elevada intelectualmente do que a Rede Jovem Pan FM tentou sugerir em uma matéria sensacionalista publicada às vésperas do festival, insinuando que ele seria uma rave frenética, com pessoas fazendo sexo nas ruas e sem as devidas autorizações legais para acontecer. Sobre a deturpação do termo rave já falei há alguns anos em outro texto, mas toda a imagem pintada serve de contra-ponto para que eu comece a descrever a minha experiência neste evento, que passei a chamar de ritual, dividido em três atos.

    1º ATO: UMA CONVERSA COM O DEUS DO TECHNO

    A beleza de um festival de música reside em sua pluralidade. É geralmente nele que encontramos pessoas de diferentes tribos, crenças, classes e com diferentes objetivos convivendo em plena harmonia. Ir a um bom festival é como fazer uma visita ao paraíso, àquele lugarzinho perfeito que nós idealizamos internamente e temos dificuldade em encontrar no “mundo real”. Por isso cada vez que vou a um que sei que irá atender às minhas expectativas me preparo para sentir emoções intensas, vivenciar momentos de epifania e me tornar uma pessoa diferente e melhor após seu término.

    No Dekmantel essa sensação começou já na entrada: apesar da chuva, os seguranças mantiveram o sorriso, recepcionando as pessoas com saudações e capas gratuitas. Depois de passar pela revista e validação do ingresso, um rápido giro por todas as pistas foi suficiente para surpreender-se tanto com a forma inteligente que a estrutura do Jockey Club foi aproveitada, criando uma ótima ambientação sem precisar de muita cenografia específica, bem como com o perfil do público presente. É difícil de descrever sem cair na armadilha de estereotipar, dava pra reconhecer diversas tribos com suas particularidades e talvez um único fator em comum: a relação com a música. O radicalismo na curadoria pode ter espantado a grande massa, mas serviu para atrair ao festival pessoas que o enxergam como mais do que uma simples festa, mas sim um ambiente de diversão, libertação e evolução pessoal. O line-up se dividiu em cinco pistas e obrigou o público a fazer escolhas, já que não eram raros os momentos em que duas ou mais atrações de interesse se apresentavam simultaneamente. Por conta disso este review irá falar mais sobre os artistas que vi e que construíram a experiência pessoal que vivi lá.

    Minha primeira parada foi na pista UFO, um “inferninho” montado entre duas construções com aspecto de deterioração visível, num visual que facilmente remetia ao termo underground. O artista se apresentando era Anthony Parasole, como não o conhecia fiquei muito satisfeito em começar por algo novo e agradável aos meus ouvidos. Com seu som dançante e pesado imergi na atmosfera do festival, de cuja qual só sairia dois dias mais tarde. De lá segui para o palco principal, onde finalmente veria Nina Kraviz do começo ao fim neste ano. O começo da apresentação foi conturbado, o volume do sound system estava baixo e o público estava visivelmente incomodado (e incomodando) com isso. Após quase meia hora finalmente a falha foi corrigida e nós pudemos, em paz, apreciar o que ela tinha a apresentar. O set que ela tocou foi menos experimental e ousado do que os tocados anteriormente na tour brasileira, imagino que pelo fato de que nesta data ela não fosse a maior headliner. O que passou na cabeça da artista jamais saberemos, o importante é que foi uma ótima seleção e mixagem de preparação para o que viria a seguir.

    Até este ponto eu estava satisfeito, mas ainda sem aquele sentimento superlativo em relação ao festival – algo que seria rapidamente mudado por Jeff Mills. Apesar dele ser um dos precursores do movimento de Detroit e de eu apreciar muito seu trabalho como produtor, confesso que pouco pesquisei sobre seu live em si. Como um cara que odeia spoilers faço isso propositalmente e com frequência, guardando o máximo de surpresas para o momento de ver pessoalmente. Talvez por isso eu tenha sido tão impactado pelos minutos vividos diante do mago dos sinos!

    Sua capacidade de se comunicar utilizando a TR-909 como linguagem é incrível, imediatamente me colocando sob hipnose. Enquanto dançava em seu ritmo acelerado, mergulhei no transe e consegui encontrar respostas para diversas questões e reflexões que residiam em minha cabeça. Como disse anteriormente, cada um extrai uma experiência do festival, não julgo quem teve formação diferente da minha e estava em outra pista, no entanto eu, alguém que tem Detroit, techno e música clássica como referência para deixar uma marca no mundo, não poderia estar em outro lugar.

    O que vivi ali foi tão abstrato quanto a música de Mills, por isso resumo metaforicamente a minha impressão após ser ejetado de volta ao mundo: o deus do techno nos enviou o seu messias para dizer, em pleno bairro nobre de São Paulo, que a cultura eletrônica veio pra ficar! Como eu estava virado desde o dia anterior, quando havia prestigiado a festa do Club Vibe com Nina Kraviz em Curitiba, optei por não ir à Fabriketa neste dia. Fiquei sabendo que Ben Klock operou um massacre do qual gostaria de ter participado, mas macaco velho não entra em roubada: ainda havia um dia inteiro de novidades me aguardando.

    2º ATO: A FUSÃO ENTRE MÚSICA E ELETRÔNICA

    No domingo acordei com uma sensação maravilhosa de otimismo. Não sei se foi a “ressaca” do dia anterior, se foram os diversos comentários positivos pulando no meu Facebook ou se era o tempo lindo que fazia, com o Sol reinando imponente no céu de São Paulo. Sei que me apressei para almoçar e chegar cedo no Jockey Club, já que meu segundo dia começaria com uma das atrações para que mais criei expectativas nos últimos meses: Hermeto Pascoal.

    Isso aconteceu porque em 2015 tive a oportunidade de vê-lo no Festival Choro Jazz, no Piauí. O que eu estava fazendo em Barra Grande no exato fim de semana que a cidade recebia um festival de jazz com esta lenda é o tipo de acaso difícil de explicar, pois viajei apenas para aproveitar as passagens previamente compradas para um casamento que fora adiado. E apesar de já tê-lo visto lá, sabia que a experiência no Dekmantel seria nova, já que o público e a proposta do evento era outra.

    Dito e feito, pontualmente às 15:30 eu estava lá nas escadarias do fundo da pista Gop Tun / Boiler Room, resistindo a um calor escaldante muito graças ao protetor solar, oferecido gratuitamente por uma equipe espalhada pelo local. Poucos conhecidos na pista, certamente apreciar esse show não seria só chegar lá aleatoriamente, eu mesmo tive que fazer uma preparação meditativa para conseguir acompanhar sem perder o fio da meada. Nos primeiros minutos o que se viu foi um jazz extremamente intenso, improvisos que beiravam a confusão, mas que sempre encontravam um caminho para seguir e concluir suas tensas frases.

    A maratona mental foi quebrada pela primeira vez quando nosso Dumbledore brasileiro pegou o microfone e começou a dialogar conosco, seu público. As palavras exatas eu jamais lembrarei, mas a mensagem era simples: ele estava muito feliz por estar ali e havia vindo pelo mesmo motivo que nós, para sentir! E com um simples convite para solfejar junto ele desconsertava a todos, que não esperavam algo assim em uma rav… digo, festival de música eletrônica. Mesmo eu, que cantei sem receios no Piauí, não consegui entoar as notas com toda a força do pulmão. Porque será que não gostamos de abrir a boca em nossas festas?

    Alguns la-la-lê-lê depois voltamos ao caos com um insano solo de bateria e percussão, não sem antes ouvir do próprio mestre que já que eles tinham só uma hora, nessa hora eles tocariam mais do que em muitas horas! E a beleza daquele momento encantava, a mensagem que os holandeses queriam nos passar era clara: se queremos evoluir a música eletrônica nacional, temos que olhar para nossas raízes. Cada instrumentista fez seu solo, até que chegou o momento em que Hermeto concluiu sua obra, apresentando cada integrante do grupo enquanto eu sentia um orgulho gigantesco, por ter acompanhado uma hora do trabalho de pessoas tão geniais e por elas serem brasileiras.

    De lá segui direto para o palco principal, onde Moodymann já se apresentava há alguns minutos. Meu estado de choque era tão grande que mal conseguia ficar em pé, precisei sentar na arquibancada para processar todas as informações. O som de Kenny Dixon Jr caiu como uma luva para o estado em que me encontrava, agradeci a cada groove macio e melodia bela que fora tocada. Mais uma vez diversos nós se desfaziam em minha mente enquanto o DJ controlava as emoções, até que quando Do It Again (Steely) fora tocada tive que enxugar lágrimas que, literalmente, escorriam por meus olhos. 

    3º ATO: A CONSTRUÇÃO DO FUTURO QUE QUEREMOS

    A noite começava a cair quando me reposicionei diante da caixa esquerda pra acompanhar a última parte da jornada, que iniciava com John Talabot. Só depois dele começar o set que me dei conta de um fato curioso: apesar de praticamente todo o line-up poder ser considerado influência para mim, o resultado final que apresento com meu irmão à frente do Kultra é mais próximo das duas últimas atrações do palco principal, justamente as que estava prestes a ver.

     

    Mais alguns minutos e pude me identificar ainda mais com Talabot, já que sua característica mais marcante é a criação de uma atmosfera densa, algo que eu também busco desenvolver ao máximo em minhas apresentações. Conforme adentrávamos o período noturno o headmaster da Hivern Disc correspondia intensificando sutilmente a pressão com que as melodias nos abraçavam. Como alguém que já ouviu bastante set gravado seu (olha aí o mal do spoiler) fiquei com a impressão de que ele poderia ter ousado mais, mas ver a hora de Nicolas Jaar se aproximar criava ansiedade suficiente para desejar que o conforto fosse mantido até então.

    Quando John acabou que fui perceber que Nico seria o único a tocar em um patamar diferente do palco: no mesmo nível da mesa do DJ só que ao fundo fora montado o cockpit dele, cercado por sintetizadores e luzes, que acendiam-se em movimentos claramente sincronizados com a atmosfera proposta pelas músicas sendo tocadas. Sua introdução, um experimentalismo que misturava Garden Of Eden, Killing Time e mais alguns elementos que não deviam pertencer a trabalho algum de estúdio, demonstrava nitidamente que ele não estava pra brincadeira. Infelizmente os primeiros minutos de sua apresentação fora o momento no qual mais me incomodei com o “público vizinho”, diversas pessoas que estavam ali se importando mais em contar para os amigos o quanto eles eram superiores por estarem vendo Nicolas Jaar e menos em de fato sentir e apreciar o que torna o chileno um artista tão diferenciado.

     

    Alguns passos pra trás e finalmente pude mergulhar no mundo do jovem prodígio, que mostrou que mais uma vez o álbum é uma obra à parte do que ele faz ao vivo, apresentando um repertório muito equilibrado entre músicas conhecidas e músicas totalmente inéditas pra mim, aquelas que provavelmente jamais verão a luz do dia sem ser em um live do seu criador. Depois de ser deliciosamente torturado por uma hora de melodias e ambientações melancólicas encaixadas com maestria em grooves intensos, finalmente fui trazido à superfície pelos hits que sabemos cantar junto, todos em versões totalmente repensadas para o ambiente ao vivo. Quando o vocalista proferiu a frase “Space Is Only Noise If You Can See” vi que tínhamos apenas 10 minutos. Foi quando olhei para o céu, admirei o skyline paulistano servindo de cenário, cantei junto e encaixei as últimas peças que faltavam no meu quebra-cabeça, agradecendo muito a cada efeito borboleta que havia contribuído para a construção daquele momento.

    Ainda houve tempo para curtir um mash up de El Bandido com Mi Mujer, antes que Jaar tivesse que cortar abruptamente o som, obedecendo à determinação de que o som deveria acabar pontualmente às 22:30. Como havia me poupado no dia anterior, não hesitei em ir à Fabriketa para o after oficial, onde pude acompanhar um back-to-back entre John Talabot e Kornél Kovács muito bem entrosado, com uma sonoridade mais próxima do que eu esperava do espanhol. Um belo prêmio para alguém que sobreviveu a tantas emoções propostas nos últimos dias!

    PRÓLOGO: O LEGADO

    Como puderam perceber sou um cara romântico, que ainda acredita na humanidade e espera obter sempre a melhor experiência possível de cada situação. Para alguém com esses valores e uma base musical como a minha, o Dekmantel Festival parecia algo feito sob medida, com o propósito de abastecer as esperanças e mostrar que há um caminho que pode ser seguido. Fico ainda mais feliz em perceber que ele teve 5 pistas e dezenas de artistas que eu sequer sei o nome, mas que tenho certeza que tocaram outras pessoas da mesma maneira que meus selecionados fizeram comigo.

    Não acho que todo mundo deveria gostar de Nicolas Jaar, Hermeto Pascoal ou Jeff Mills como eu gosto, cada um tem sua história e seus anseios. No entanto, se todos encarassem a música e a vida com amor e sinceridade, quem sabe seja possível transformar nossa sociedade, para que nossas gerações futuras encarem um evento desses não como água no deserto, mas sim como parte da sua criação de base. A chave para isso está em nossas mãos! Qual será a próxima jornada?

  • Petre Inspirescu retorna ao Warung após hiato de 10 anos

    De modo geral, é comum o redator ter seus momentos de baixa criatividade em que o texto não flui, são inúmeros os fatores que rodeiam e primam o cérebro até que você encontre o seu ponto de partida. Redigir um texto sobre um dos nomes que mais efervesce a cena eletrônica romena é de longe um dos meus maiores desafios, desde que comecei a me aventurar por esse vasto mundo. Durante a semana que sucedeu o evento aquele típico frio de noite histórica ecoava sobre mim, as lembranças da última passagem de Petre Inspirescu por terras tupiniquins ainda me assombravam e a certeza que essas memórias seriam excluídas estava prestes a se confirmar.

    Quando se fala em Romênia automaticamente associasse o nome Sunwaves, festival que acontece na praia Bulevardul Mamaia Nord na cidade de Constanta. Por lá, acontecimentos emblemáticos costumam ocorrer com certa facilidade, como o set de 31 horas feito por tINI e Bill Patrick durante o ano passado. No Line-Up, a presença de nomes expressivos como Ricardo Villalobos, SIT, Priku, Premiesku e Herodot fomentam ainda mais que a sutileza do Minimal, em conjunto com Techno e Tech-House formam a proposta do festival em si.

    Um dos momentos mais aguardados durante o evento é a presença do trio por trás da sigla [a.rpia.r], Petre Inspirescu, Rhadoo e Raresh partilham momentos inigualáveis de amor à arte, seja com sua música atemporal que foge dos moldes tradicionais, ou apenas pela presença de palco e sinergia que os rodeia. Receber um desses nomes aqui na cidade de Itajaí no Club de maior referência para o estado e até para o Brasil é sem dúvidas uma das melhores maneiras de se começar um ano.

     

     

    Janeiro é um dos meses mais aguardados aqui no Sul, seja pela noite incandescente repleta de atrações nacionais e internacionais ou pelas praias abarrotadas de turistas de outras cidades do Brasil e do mundo que ajudam a movimentar a economia. A revista britânica de maior prestigio na cena eletrônica mundial Resident Advisor, tomou por assinar quatro noites neste verão. Apollonia, Recondite, Nina Kraviz e Cassy são alguns dos convidados para encabeçar os diversos eventos que estarão acontecendo no Warung Beach Club.

    Sábado, 07 de janeiro de 2017.

    Pelas redes sociais horas antes do evento era possível notar a euforia nas publicações que falavam do retorno de Petre Inspirescu, inúmeros links com vídeos no YouTube, sets no SoundCloud ou apenas o nome Pedro esquentava ainda mais a noite atípica de verão. É comum notar certos erros em algumas noites das quais a curadoria utiliza artistas que não casam tão bem com a atração principal, porém não dessa vez. Gromma e Ale Reis, nomes que não precisam de muitas apresentações, o primeiro sem dúvida alguma um dos DJs curitibanos de maior renome na cena eletrônica brasileira, o segundo por sua vez transborda experiência, conhecimento e respeito.

    A escolha deles para abrir a noite confirma que estamos na direção certa em relação ao conceito de Warm Up. João Paulo Gromma fez nada mais nada menos que 4 horas de set, infelizmente devido à enorme fila que se formava no caminho que liga a praia de Cabeçudas à Praia Brava acabei perdendo a incontestável fábula do “Magrelo”. Ao chegar no Warung outra surpresa não incomum, o convite não estava disponível para a retirada, após horas de ligações, terminei por entrar no Club às 2:20 da manhã, felizmente neste momento acabei me deparando com ninguém menos que o próprio Pedro.

    Usando sandálias havaianas e portando um ar extremamente pacifico transbordou simpatia ao ceder alguns de seus minutos para tirar fotos com quem estava por perto. Aproveitei a chance para lhe abordar e questionar sobre como era retornar ao Warung após 10 anos, modestamente ele me respondeu dizendo que estava contente com o retorno e surpreso com o quão bonito era o público da casa e que muita coisa mudou desde então. O acompanhei até o Garden onde ele observou atentamente a história que Ale Reis contextualizava, o tiozinho como é conhecido faz parte do time de Savages e era dele a honra de entregar a pista pronta para o que estava por vir.

    Pontualmente às 3:30 da madrugada Radu Dumitru Bodiu assumiu o controle da cabine. Subitamente o clima se transformou e a sensação de estar vivenciando algo histórico era nítida. Calmamente ele foi se aconchegando e se adequando a pista e ao local, aos poucos as mixagens começavam a ecoar pelo Garden. É incrível o poder que esse tipo de artista tem, a fascinação que consegue exercer é algo que não se vê todos os dias.

    Muitas das pessoas com as quais falei antes da festa esperavam um tipo de som menos intragável, porém foi exatamente o oposto disso que nos foi apresentado. Pedro se molda de acordo com o lugar, destrói e reconstrói sua história sem muito esforço e não economiza músicas na hora de confundir os ouvintes. Ao mesmo tempo, expõe toda a sua genialidade usufruindo de elementos ritmados e dançantes. Sem muita apelação seu set ia se desenvolvendo de acordo com o tempo que ele tinha, certos momentos de BPM mais baixo já em outros com BPM mais alto, porém sempre mantendo aquele típico som groovado e quebrado, padrão de seu estilo.

    Inúmeras perolas foram decorando a noite, uma das que mais me chamou a atenção foi Clap, produzida por ninguém menos que Ricardo Villalobos. Villa é sem dúvida alguma a maior referência quando se fala em criatividade, infelizmente nesse mês de janeiro completa-se quatro anos desde a sua última vinda para o Brasil.

    Perto das 7 da manhã quando os raios da luz do dia já tomavam conta do Terrace aka Garden, Petre coroa o início da manhã com Dubsons – Faraon, track presente no EP Olecuta lançado no ano passado pela gravadora espanhola NG Trax.

     

    O sucesso no retorno de Petre Inpirescu confirma a existência de um público que anseia por timbres mais refinados, está é a recompensa do trabalho árduo de diversos núcleos em educar e catequizar novos membros com sonoridades aquém das comuns. Nós do detroitbr ficamos felizes em saber que a revolução no modo de viver, pensar e dançar música está cada vez mais presente na vida daqueles que assim como nós amam a música eletrônica.

    Escrito por Thiago Silva

    Fotos por Remor e Juliano

    Vídeos por Bruno Janke

  • Sasha renovado retorna ao Warung em long set

    Uma relação que transcende a própria música. Se me perguntassem como eu encaro ter a chance de ver Sasha no Warung Beach Club, diria essa frase. Muitos artistas marcam as pessoas, educam, inovam, mas pouquíssimos tem o poder de mudar a essência delas, e Sasha é um deles. Seria estranho se em 2016 ele não viesse ao templo, sua última aparição no aniversário do clube em 2014 deixou novos admiradores somente em duas horas de set, e desde janeiro do mesmo ano, ele não mais tinha sido oportunizado a um long set em seu lugar favorito.

    O ano era especial, por completar 10 de sua marcante estreia no carnaval de 2006 e por acontecimentos importantes na continuação e direcionamento de sua carreira. Me refiro ao impressionante álbum em plano de fundo, Scene Delete, onde Alexander deu, digamos, um cartão de visitas para o novo mundo cinematográfico que pretende ingressar  – e sobre isso, encontrei um paralelo que será apresentado adiante –  além do aguardado retorno de back to back com John Digweed após 6 anos de hiato. Para os fãs brasileiros, lhe foi concedido 5 horas de trabalho, os mais calejados da noite sabiam que seria o suficiente para vislumbrar-se, ainda assim, quem acompanhou seus dois últimos anos poderia levantar a seguinte questão: O que ele iria trazer para o Templo? Desde seu anúncio eu comecei a perguntar-me. Sasha mostraria sua fórmula de sucesso emotiva e viajante de tantos anos no clube, ou deslocaria para sua linha reestilizada de techno e tech house progressivo inerentemente estampada pelos artistas de sua gravadora?

    Entrei no clube um pouco mais tarde do que de costume com essa indagação que já se arrastava por semanas. Após rever os amigos no inside rapidamente, me dirigi ao garden onde Edu Schwartz pacientemente começava a deixar os ouvintes afim de jogo. Em seguida, o DJ e produtor inglês Cristoph foi recebido por uma pista sedenta por novidades, e foi isso que ele retratou.

     É sempre ótimo poder ver ao vivo um produtor que acompanha e notar que ele também sabe conduzir uma pista. Timidamente começou levando em variações limpas e levemente viajantes de house e tech house. Com muita segurança soube desviar de alguns momentos de quebra de ritmo, que imediatamente eram supridos por uma nova faixa. Após meia hora, tinha todos na pista envolvidos e os picos de explosão surgiram, quando vimos já passara das 2h00 e infelizmente não pude ver o restante de seu set. Certamente é um nome que espero poder apreciar com um horário mais avançado em breve.

    A sorte foi que Sasha teve um pequeno atraso, e por volta das 2h15 quando adentrei ao febril inside, ele ainda estava em cima da primeira track. Se existe algo que aprendi na música eletrônica é que você não reconhece um artista pelo tipo de som que toca, e sim pelo seu estilo, pois isso, ele nunca mudará. Os inicios de long set de Sasha são sempre arrastados, e dessa vez ele foi além, resetou a pista nos primeiros minutos colocando faixas quase sem ritmo, apenas texturização. Na primeira batida, eu obtive a resposta que tanto buscava, ela era seca! Então é isso, vamos em uma nova experiência.

    Quando você corre por uma estrada sinuosa por algum tempo, seu senso de direção é melhorado, e quando finalmente chega em linha reta, vai apreciar cada instante de consistência. Essas duas horas iniciais de Sasha sempre foram polêmicas, ele precisa de tempo, isso é fato, seu semblante distante faz alguns acreditar que seja uma dificuldade até conseguir ganhar ritmo, já outros – onde me incluo – observam como uma necessidade criada pelo artista em seus expectadores, só para depois entregar-lhes a solução, e ela será abraçada com toda energia, por isso você apenas precisa confia-lo sua mente. Sasha embaralhou as cartas e foi soltando pouco a pouco cada uma delas, ora deixando uma música por 2 minutos, ora mixando no último tempo, era difícil de distinguir onde tudo estava, isso é um break ou uma virada? Meio, fim? Todas essas questões me provocavam, e na faixa ‘’X – Secret Weapons’’ de  Eagles & Butterflies percebi que a conexão havia começado, e não teria mais volta. 

    Imprimindo pulsação e viradas sorrateiras, as 4h00 Coe estava finalmente em linha reta, e como esperado, começou a abrir seus famosos processadores de efeito, nesse quesito, ele os usa como ninguém. Todos sabem com qual finalidade um artista implementa efeitos durante o set, mas Sasha consegue ir além, suas camadas foram se conectando até formarem um novo elemento na pista de dança. Gosto de comparar os clássicos processadores de efeito de Sasha com as cenas de quebra da quarta parede no cinema ou tv, exemplos recentes de sucesso em séries como House of Cards com Kevin Spacey, ou Mr. Robot, com Rami Malek podem servir de paralelo. Nos momentos que se dirigem à câmera e interagem com o expectador, dão um novo sentido a cena e era isso que sentia quando os efeitos surgiam desde o breakdown e ganhavam expressão tomando conta do restante da música e assim, sucessivamente, ele mudou o cenário dos que estavam presentes. O resultado? Não poderia ser outro: delírio coletivo!

    Quanto mais próximo da manhã chegava, melhor o set ia ficando e isso me dava medo, pois sabia que iria faltar tempo.  As 6h00 Sasha começou a colocar mais profundidade em sua música para um lado misterioso e até sombrio, foi uma dose de house progressivo que tantos esperavam. Quem assistiu a transmissão ao vivo que aconteceu em sua fanpag as 6:30 hrs certamente imaginou que ele tinha passado a noite em um groove imersivo, a faixa ‘’Carthage’’ de Fairmont representa perfeitamente, e é a minha favorita na noite.

     Eu já comentei sobre isso outras vezes, mas vale destacar novamente. Esse horário de transição para o dia tem um dos climas mais comoventes que se pode ter ali dentro, o contraste da pista ainda escura com o painel branco do lado de fora é como se a realidade estivesse nos chamando, mas ainda podemos ficar. Passando das 7 horas finalmente algo totalmente emotivo, uma entrega final perfeita, ‘’Trigonometry’’ fez todos suspirarem em sua obra mais aguardada. Ouvir uma música com uma identidade tão singular como essa, naquele momento, nada mais serviu para que ele nos colocasse em uma encruzilhada. No que Sasha foi ou é mais genial, tocando ou produzindo?

    No encerramento, algo bem parecido com 2011, Sasha fecha os médios no final da música em um loop por alguns segundos, um chamado de olhares para si, era isso que buscava, e então o vocal de ‘’track 10’’ entra para colocar todos em êxtase e reverência de seu nome, ele poderia tocar um DJ set inteiro só com seus remixes de bandas em que se pode cantar junto, porém, deixou esta como unanimidade para todos lembrarem. É por momentos assim que continua a deixar uma legião de seguidores por onde passa.

    Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana

    Videos por: Thais Olluk e Marlon Mendes

  • Dekmantel Festival confirma atrações e reafirma proposta renovadora

    Houve um dia de 2016 em que o coração dos brasileiros amantes da música, dos que se alimentam de novidades e experiências inovadoras, bateu mais rápido: falo de quando foi anunciada a realização do Dekmantel Festival em São Paulo no início do próximo ano. Só o fato de termos aqui mais um grande festival global já seria motivo para comemoração, sendo ele um dos poucos sem foco na musicalidade mais comercial a vir pra cá, as razões se multiplicam.

    Podemos dizer que desde a histórica edição do Sónar SP 2012 não tínhamos a oportunidade de ver tantos grandes artistas de uma só vez em território nacional. Os tempos de crise espantaram os grandes investidores internacionais por um tempo, mas graças aos grandes eventos nacionais a peteca não caiu: Tribaltech, Warung e Dream Valley são alguns dos que proporcionaram encontros inesquecíveis com grandes ídolos ao longo desses quatro anos.

    No entanto, os tempos de escassez parecem ter passado: além dos brasileiros estarem vindo com força total para 2017, o cartão de boas-vindas desse tão aguardado ano vem das mãos do label holandês nos dias 4 e 5 de fevereiro, quando o Jockey Club de São Paulo e a Fabriketa abrigarão dezenas de produtores e DJs de grande talento e relevância para a cena musical.

    A lista é tão ampla que fica difícil escolher por onde começar a listar: seria pelas lendas de Detroit Jeff Mills e Moodyman? Ou talvez pelo desejadíssimo live de Nicolas Jaar? Para alguns o ponto alto será a intensidade e sedução de Nina Kraviz, mas não podemos esquecer que até mesmo o octagenário compositor e multi-instrumentista Hermeto Pascoal foi escalado, destoando deliciosamente do predomínio eletrônico do plantel!

    Poderia continuar falando de cada atração por mais algumas linhas, mas esse é o ponto que esquecemos o álbum de figurinhas e lembramos que o festival oferece uma experiência que vai além das apresentações artísticas. Nesse primeiro fim de semana de fevereiro teremos a oportunidade de vivenciar um contexto que idealizamos há um bom tempo e que ainda é utópico em nosso país, muitas pessoas terão contato com ele pela primeira vez e o momento pode representar mais um passo rumo à cena que objetivamos.

    Por isso vale o lembrete: confira mais uma vez o line-up, prepare sua viagem e não perca esta oportunidade ímpar que caiu em nosso colo 😉

    Line-up completo

    4/fev (sábado)

    Jockey Club (dia):

    Jeff Mills / Nina Kraviz / Bixiga 70 / Azymuth / Hunee / Tom Trago / Makam / Juju & Jordash (live) / Young Marco / Anthony Parasole / Awesome Tapes From Africa / Dekmantel Soundsystem / DJ Nobu / Kornél Kovács / Solar / Aurora Halal (live) / Sassy J / Renato Cohen / Davis / Marcio Vermelho / Valesuchi / Ney Faustini / Gop Tun DJs / 40% Foda/Maneiríssimo (live) 

    Fabriketa (noite):

    Ben Klock / DVS1 / Mike Servito / Vakula / Veronica Vasicka / Orpheu The Wizard / L_cio (live) / Tessuto / Luisa Puterman (live) / Cashu / EXZ (live)

    5/fev (domingo)

    Jockey Club (dia):

    Nicolas Jaar (live) / Moodymann / John Talabot / Hermeto Pascoal / Ben UFO / Joy Orbison / Fatima Yamaha (live) / Palms Trax / Helena Hauff / Dasha Rush / San Proper / Call Super / Lena Willikens / Joey Anderson / Huerco S. / Shanti Celeste / Selvagem / Carrot Green / Gop Tun DJs / Zopelar (live)

    Ingressos

    Pacote 4/fev (dia) + 5/fev (dia), 3º lote: R$ 400,00 (meia c/ doação de livro)

    Apenas um dia (4 ou 5/fev), 2º lote: R$ 225,00 (meia c/ doação de livro)

    4/fev (noite), lote único: R$ 99,00
    Compre: https://www.eventbrite.com.br/e/dekmantel-festival-sao-paulo-2017-tickets-27916916248 

  • A relatividade explica 8 horas de set do Hernan Cattaneo no Warung

    O ano de 2016 tem sido especial para os frequentadores do Warung Beach Club, a possível alta do dólar tem feito a casa voltar as origens estabelecendo line-ups mais enxutos no qual os artistas tem a oportunidade de mostrar melhor suas potencialidades. A ordem da vez é o ‘‘longset”, onde headliners assumem por 4 ou 5 horas em média. Claro, se compararmos com a primeira década de vida do Club – onde a vontade do DJ é quem determinava a hora de terminar – torna-se um paralelo injusto, porém, é o que a lei nos permite hoje. 

    Ainda assim, existem duas noites no ano que tem resistido ao longo do tempo com o DJ se apresentando por mais tempo que a média e fazendo nos lembrar cada vez qual é a verdadeira essência do Templo. Assistir ao clássico extended set de Hernan Cattaneo no Warung se tornou uma obrigação para qualquer apreciador de música eletrônica conceitual. É um consenso até entre os que não aderem a sonoridades mais introspectivas de que todos devem ter essa experiência ao menos uma vez na vida. Assim como em 2015, a semana da pátria foi o período escolhido para esse encontro, onde brasileiros e argentinos se somam para dividir sentimentos no pistão do Club. Se todos os anos temos esse show ”all night” de Hernan, por que o de 2016 se tornou especial? Bem, na semana da festa foi atendido a um velho pedido dos que acompanham a mais tempo a carreira do argentino. ”From Midnight untill the end”, foi com esse anuncio que o Club já prevendo algo histórico deu a notícia ao público. Histórico antes de acontecer porque jamais um artista principal – pelo menos não que eu lembre – deu start nesse horário e tocou até o fim, e mais, se tratando do símbolo cultural que HC se tornou para o Club, não seria prepotência declarar que guardaríamos para sempre na memória. 

    Se sete horas de set já seriam de lavar a alma, imaginem oito!! Como Hernan conseguiu mais uma hora, a forma que comandou a noite e como ela tem sido apontada como a data do ano, é o que vou tentar contar neste review, 10 de setembro de 2016.

    Às 22h30 estava no Garden começando a encontrar amigos para quebrar o gelo da expectativa pra noite, aproveitando, matei a curiosidade em ver as jovens apostas da DOC Records.  Liderados por Gui Boratto, o duo Shadow Movement entregava uma sonoridade de muita personalidade, ritmo certo pra hora e sem perder suas características obscuras, é um projeto pra se observar com cuidado. Faltando 30 minutos para meia-noite nos dirigimos ao Inside onde Leozinho jogava um house de primeira linha, o esperado para um DJ do seu nível. A pista estava cheia e a parte da frente tomada de argentinos como todos os anos. O roteiro quase que sagrado do aparecimento de Hernan na cabine até o inicio de seu set eu já mencionei outras vezes em reviews, todos sabem como funciona, antes mesmo do horário o Maestro já estava mixando e a pista pronta para se entregar. Pensei bastante em como descrever a construção de set de Hernan neste ano e cheguei a conclusão que colocar de forma separada em 3 fases seria o ideal para melhor compreendermos, ou ao menos chegar próximo a isso.

    Warm-up para si mesmo. 

    Primeiro, existem DJs e DJs e existe Hernan Cattaneo. Aceitar o desafio de assumir a pista enquanto o som ainda nem está trabalhando no seu melhor é algo que poucos se sujeitariam. Ele adora jogar devagar, encara a possibilidade de preparar a pista como uma grande oportunidade, é como se você se preocupasse tanto com a partida de futebol que viesse cortar e molhar a grama antes de entrar em campo, pra depois poder ganhar de goleada, é claro. Ele manteve suas duas primeiras horas em uma consistência impressionante, quem já se aventurou atrás de um mixer sabe o quanto é difícil se manter em um ritmo, escolhendo músicas com o mínimo de breaks longos possíveis, fez isso de forma brilhante até culminar na música que acredito ter sido o primeiro pico emocional da noite, ‘’Secret Encounters’’ nova obra-prima de Guy Gerber. Ela sinalizava que o ritmo estava subindo. Hernan parte do pressuposto de que se deve segurar a onda o tanto quanto for possível na primeira parte, pois a partir do momento que coloca uma música de maior intensidade, jamais poderá voltar atrás, então ela deve acontecer no momento certo. 

    Buraco negro e riffs de uma só nota

    Até as quatro horas Cattaneo balançou a pista de um lado ao outro alternando entre momentos emotivos pontuais como ‘’The Bar Tender’’ de Seth Schwarz & Be Svendsen (Dark Soul Project Edit), levadas progressivas tribais como ‘’Amazonia’’ Oniris e de baixos sintetizados longos como em ”Dodge’‘ de Monkey Safari, remix do Victor Ruiz que fez todos vibrarem. 

    É intrigante a maneira que ele consegue explorar o sistema de som do Warung, a música parece fluir através de seu corpo como uma extensão de si mesmo. Cada vez mais os graves iam se comprimindo até um momento em que a pista toda se encontrava dentro de um colisor de partículas, os elementos sonoros dançavam entre si somados a feixes luminosos que por momentos te davam a sensação de câmera lenta. ‘’Systematika’’ de Guy Mantzur & Roy Rosenfeld marca um ponto explosivo e um golpe fatal. Em meio a tanta euforia, e como de costume, me via buscando referências para tentar entender o que estava ouvindo e diante das bandeiras da argentina sendo levantadas pelas pessoas em completo estado de plenitude, lembrei de outro gênio, só que das guitarras. Diz a lenda que Jimi Hendrix tecia uniformemente acordes com trechos de uma só nota e usava sequências que não aparecem em nenhum livro de música. Seus riffs eram uma viagem elétrica sem fim até as encruzilhadas, onde ele humilhava a si próprio. No auge, Hernan solta riffs de um grave demolidor e mostra porque é um DJ único, adianta as linhas de onde normalmente as músicas são feitas para mixar tecendo uniformemente viradas de um techno gravitacional obscuro e tão denso que me fez entrar em um colapso estelar. 

    A física moderna de Einstein diz que espaço e tempo não são absolutos e sim relativos entre si, dentro dele estrelas nascem e morrem através de um colapso onde tudo se concentra e acaba em um único ponto, que por sua vez se transforma em buracos negros. Esses, tão densos que engolem tudo ao seu redor e nem mesmo a luz é capaz de escapar. Às 5h senti minhas pernas serem puxadas como se estivessem caindo dentro de um desses buracos, foi como se a força de maré estivesse me carregando e dividindo-me ao meio, eu definitivamente amo essa parte da noite.

    Renascendo no futuro

    Não preciso dizer o quanto especial é o amanhecer na Brava, vencemos o clima soturno da noite para entrar em uma nova fase à espera do sol, ele simboliza a identidade do templo ao mesmo que estampa a bandeira da argentina, essa dualidade quase mitológica estava presente trazendo energia e acredito que não só comigo, mas todos ali também receberam um novo folego para mais algumas horas de música. 

    Essa transição de volta a sonoridades sentimentais acontece no vocal de Moderat em ‘’Running’’ para ‘’Trigonometry’’ de Sasha, uma das músicas mais aguardadas do momento. Olhando para a última hora temos uma sequência que renderia uma compilação, ouvir a voz única de Dave Gahan ecoando pela pista em ‘’Only When I Lose Myself’’ era um momento esperado por muitos a anos. Às 7h horas Hernan não sinaliza querer parar, seu ritmo intenso em cada mixagem e plácido na escolha das músicas é o mesmo desde o primeiro minuto. Olhei ao redor me perguntando, como ele pode se manter por tanto tempo com a mesma dedicação infinita à pista de dança? De pronto alguém me respondeu o que eu já sabia, mas precisava ouvir de outra pessoa: ‘’É apaixonado pelo que faz’’.

    Já passavam de 7h20 quando o toque celestial de ‘‘Forme” começou a surgir, essa música de Gill Norris com remix de Guy J marcou a manhã de 2011, que coincidentemente ou não tinha sido a última vez que o sol tinha subido com força frente a frente com o maestro, essa escolha nostálgica novamente foi ideal para o fechamento do set. Entre aplausos sinceros ”Snooze For Love” entra como a música de despedida, esse lindo retoque de Dixon venceu-me, ainda assim mais dois suspiros entram no jogo, a essa altura ninguém iria mais pedir pra parar, ‘‘Oracle” de Sebastien Leger seguida de uma música que já nasceu clássica, ‘’Nana’’ de Acid Pauli finalmente trouxe o tom dramático do fim. Depois de ‘’Eight hours of magic’’ como sugeriu Hernan em sua página do instagram mais tarde, o sentimento ao sair do templo era de que tinham se passado décadas do lado de fora, como se tivéssemos atravessado o universo até um outro momento no futuro.

    Alguns pensadores como Ray Kurzweil apontam que à nossa próxima revolução tecnológica acontecera na virada do século, onde o conhecimento humano estará tão avançado que homem e máquina literalmente irão se fundir e então poderemos se conectar com tudo a nossa volta, criando assim o que chamam de singularidade. Ao que me parece, tem um argentino que já alcançou.

    Imagens: Gustavo Remor

  • Richie Hawtin retorna ao Templo após longo período de ausência

    A semana da pátria sempre marca o calendário de festas no sul do país, tradicionalmente o templo aproveita esta data para contemplar seus convidados com pratas da casa, geralmente utilizando duas noites para a celebração da independência. Este ano a mente por trás da M_NUS, um dos selos mais icônicos de Berlin foi o escolhido para encabeçar a primeira noite. Conhecido por embalar festas inesquecíveis, Richie Hawtin retorna à casa após um hiato de quase 2 anos. Sua última visita à cabine do Main Room foi durante o aniversário de 12 anos do templo e trouxe Gaiser como principal estreia.

    Era sábado de chuva e a expectativa era de casa cheia, diante de um sold out nem mesmo o mau tempo poderia desencorajar os assíduos frequentadores do Club. O relógio marcava 22h20 e a Av. José Medeiros já apresentava indícios de uma noite atípica, filas dos dois lados, taxistas imprudentes e a insistência por parte de alguns em descumprir a norma de não estacionar na Praia Brava combinaram para que eu perdesse a apresentação do nosso querido tiozinho Ale Reis. 

     Após superar o caos no trânsito outro obstáculo surgiu, o nome não estava presente na lista de convidados. A pouco tempo a política de listas foi reformulada, até então nunca havia enfrentado algum inconveniente quanto a isso e, após uma longa e cansativa espera de quase 2 horas finalmente consegui firmar meus pés dentro do Warung. Nessa hora o desânimo já tomava conta, além de ter perdido o warm up já não tinha condições de enfrentar o empurra-empurra para ver Hito, optei por fazer reconhecimento do terreno, localizar alguns amigos e aguardar o retorno do “mago”.

    Durante uma das idas ao Inside, meus ouvidos foram presenteados com o remix de Dubfire para EXposed, música que abre o álbum EX de Plastikman lançado em 2014 pela gravadora Mute Recordes. Depeche Mode, New Order e Kraftwerk são apenas alguns dos nomes que já lançaram por ela, essa música com toda a certeza fez eu recuperar uma parte do ânimo que havia perdido.

     Como nunca se deve julgar antes de conhecer, dei uma chance para que Hito mudasse minha opinião sobre ela, já havia ouvido diversos sets dela e em 2014 acompanhei todas as suas apresentações na ENTER, festa que este ano não figurou pelas praias de Ibiza. Com mixagens que as vezes transpareciam um pouco de nervosismo, a japonesa que sempre toca acompanhada de um belo kimono conseguiu manter a pista energizada e em outro momento enfeitiçou a todos com uma das músicas mais famosas de Nina Kraviz, Ghetto Kraviz.

    Após isso me dirigi ao hall de entrada do camarim e acompanhei de perto a chegada do lendário homem de plástico e por felicidade do destino consegui trocar rápidas palavras com o mesmo. Ele estava com o olhar um tanto quanto cansado afinal estava vindo de uma jornada de duas noites intensas no D-Edge, quinta para o Moving em São Paulo e sexta para a abertura do D-Edge RJ com a festa Underconstruction. Pontualmente às 3h da manhã Richie Hawtin começou a construção do seu set acompanhando de seu mixer MODEL 1. Projetado e criado de DJ para DJ, o mixer oferece um leque imenso de opções para mixagens e filtros, abaixo é possível conferir mais detalhes do que o novo aparelho é capaz de fazer. 

    Hawtin é o tipo de pessoa que apenas a sua presença já impacta na atmosfera do local. De origem britânica, criado no Canadá e influenciado pelo pai, engenheiro de robótica, sua vida sempre foi voltada para música, arte e tecnologia. Ao longo de toda a sua carreira sempre foi apontado como líder e pioneiro, seja pelos enigmáticos álbuns pela alcunha de Plastikman ou por todas as diversas contribuições para aproximar a relação das pessoas com a música. Um dos maiores exemplos disso é a plataforma de música on-line Beatport fundada em 2004 junto com Jhon Aquaviva. 

    Para aquela madrugada o set foi alternando entre momentos de euforia e êxtase, em quatro horas de música toda a sua genialidade era notada nos pequenos detalhes, o fato de ele estar ali na cabine que sempre o coroa como “mago” apresentando mais uma de suas criações abrilhantou ainda mais a sua performance. Uma câmera foi alocada em cima do mixer para que todos pudessem ver com mais profundidade o que estava sendo produzido a cada segundo. No decorrer da noite poucas músicas conhecidas, o headliner contou uma história recheada de mistérios, daquelas que você pode e vai ser surpreendido a qualquer momento, a famosa batida 4 por 4 funcionava como fundo para os meticulosos efeitos do abtleton, a cada mudança no aspecto da música um efeito instantâneo era notado na vasta legião de pessoas aglomeradas no pistão.


    Durante alguns instantes era como se um ser de outro planeta estivesse presente, forjado nas entrelinhas minimalistas do lado sombrio de Hawtin, sugando a todos para uma extraordinária dimensão repleta de criatividade e inovação. Inevitavelmente tudo que tem um início tem um fim, e de repente, os primeiros raios de luz começaram a tomar conta, era o primeiro sinal de que a abdução estava chegando ao fim, mas antes disso mais uma pequena amostra de engenhosidade, para os minutos finais a escolhida foi Tale Of Us – Lies,perfeita para finalizar toda a jornada vivida durante aquela noite chuvosa.

  • Timo Maas e o resgate dos símbolos da história do templo

     

    Marcado na memória como o primeiro headliner da inauguração do Warung Beach Club em novembro de 2002, Timo Maas teve seu nome esquecido nos últimos anos pelo club e consequentemente pelo público. Permeando renovações em cada 3 a 4 anos de frequentadores na noite, estar fora do ciclo durante esse pequeno período é suficiente para uma determinada região não saber mais quem é você. Mesmo tendo feito tours pela Argentina, de alguma forma Timo não se apresentava mais desde a celebração de aniversário de 6 anos em 2008. Em parte por sua própria baixa como artista – o que é normal – em parte pela maior abertura de estilos que a casa passou a abordar, seguindo a lógica, foi fatídico que só esteve voltando quem se manteve em um certo nível de consistência, seja com lançamentos ou grandes apresentações em festivais de renome. Outras lendas como Danny Howells, Dave Seaman e Satoshi Tomiie também marcaram época na primeira década de vida do clube da Praia Brava e por intensão própria deixaram de se preocupar em serem totalmente globais, quem já gastou solas na pista de madeira lamenta, porém, esse ano a curadoria tem apostado no resgate de símbolos que ajudaram a construir a identidade única do templo, como com Luciano que não aparecia desde 2010 e Guy J desde 2012. 

    Agora que clareamos o contexto histórico do retorno do Dj Alemão, podemos analisar quais pontos positivos a noite de 6 de agosto agregou para cena, para quem aguardava assim como eu e que não teve oportunidade de ver em 2008 e para quem estava na casa por ter se interessado na promoção do escolhido como “primeiro headliner” do templo.

    Independente das expectativas que cada grupo poderia ter, todos eles receberam uma noite com sonoridades atípicas em três momentos diferentes, e que na minha concepção fizeram valer a presença. Posso começar falando que antes mesmo da uma hora da manhã já tinha ganhado a noite. Como? Bem, após acompanhar um pouco do bom set que o catarinense Edu Schwartz vinha desempenhando no inside, desci para buscar uma bebida no bar e de repente senti minha mente ser invadida por elementos de uma familiaridade de se ver no sofá de casa, olhei para trás buscando quem estava no comando do garden e me dei conta que não poderia ser outra pessoa a não ser Gustavo Conti, será que ninguém mais está ouvindo? O cara está tocando Involver!

    Pra quem é fã do icônico primeiro álbum da trilogia de Sasha, ter a chance de ouvir qualquer uma das faixas na pista é algo surreal. Fui para a frente do som, precisava ouvir com plenitude! O mais legal era ver a pista inteiramente envolvida pelo toque balearic em breakbeats de ‘’Dorset Perception’’, segunda música do disco lançado pela Global Underground em 2004 que brigou no top 100 dos mais vendidos do Reino Unido daquele ano, a frente de muitas bandas de rock famosas inclusive. Não é preciso dizer que me obriguei a acompanhar o restante do set de Conti & Mandi, eles mantiveram a pista balançando em uma sintonia aconchegante, ainda tocaram diversas outras músicas que se percebia serem antigas, podendo ser o warm-up ideal para Timo.

    Ainda assim, minha eterna curiosidade em ver novos artistas me fez subir para acompanhar a última hora do set de Jimmy Edgar. O produtor de Detroit estava jogando intensamente e pegar seu set pela metade me fez ter que esperar uns 20 minutos até começar a entrar no ritmo minimalista e com linhas de baixo agressivas que fazia a pista crescer. Jimmy toca um estilo de música que você não vai ouvir todo dia, é preciso mente aberta pra conseguir aceitar sua proposta e a pista acompanhou muito bem, mixagens rápidas e sem deixar espaços pra baixas ajudaram a prender atenção. Linhas de bateria cortantes e timbres por vezes obscuros são o que me vem a mente para tentar descrever. É o tipo de som pra duas horas de experiência no máximo, e então seu corpo começa a pedir por balanço novamente.

    Foi quando vi surgir a figura de Timo Maas à frente do dragão. Como programado, às 3h30 ele deu início ao set com enorme tranquilidade, começar a pista do zero é algo que um cara com quase 3 décadas de carreira já fez incontáveis vezes, sem problemas. Em 15 minutos já era possível observar a pista em ritmo contínuo, como esperado começou jogando como a escola progressiva sugere: mixagens longas, elementos se encaixando e consistência. Era isso mesmo, estava diante de uma noite old school que começou no garden e agora estava nas mãos de Timo. Desde a primeira música notei que seria um set daqueles que você não vai achar as músicas para comprar, a não ser que vasculhe o que foi lançado há alguns anos atrás e ninguém mais lembra, e isso me deixou animado. Esquecendo do tempo, um clima um pouco surpreendente foi se mostrando, sem ser muito viajante e quase nada melódico, mesmo assim você entendia que era house progressivo. Depois das 5 horas os baixos mais pesados foram dando lugar a um ritmo um pouco mais rápido, estava tudo certo, era só se manter assim até perto do fim que seria uma noite pra pedir bis, porém, Timo resolveu cadenciar novamente e isso me frustrou um pouco. É uma escolha que o DJ faz no momento, ele consegue manter tudo sob controle, mas pode perder um pouco a energia na pista.

    De qualquer forma, estava ali, disposto a se surpreender novamente, e na última hora, ao ouvir o vocal de Paul McCartney ecoando pelo club me despertei novamente. uns dias antes tinha escrito uma matéria para revista Phouse sobre o incrível remix de Kerri Chandler para ‘’Nineteen Hundred and Eighty-Five’’ da banda Wings, mais conhecida como Paul MacCartney & Wings. Mesmo não sendo a última, foi o fechamento ideal para mim, ter sentimentos nostálgicos evocados é sempre algo diferente e especial, pude finalmente riscar da lista um artista que sempre quis ver. Foi ao ar pelo Warung Waves uma grande parte do set de Timo Maas, ouvir certamente sempre será mais compreensível do que ler, por isso deixei pro final.