Autor: Mohamad Hajar

  • Tribaltech: mais de dez anos de evolução

    Em outubro Curitiba receberá nova edição do seu mais tradicional festival de música eletrônica: a Tribaltech. A temática da festa deste ano gira em torno do conceito de Evolução, o segundo capítulo da trilogia que teve o Renascimento ano passado e terá a Fuga (ou seria Libertação?) no ano que vem, no entanto, a história do núcleo mostra que evolução é uma constante em suas edições. Como frequentador assíduo que não perdeu uma sequer desde a minha primeira em 2007, decidi remontar os momentos deste festival que tanto contribuiu para a música em nosso país.

    2004 a 2008 – Uma infância no trance

    No começo da década passada Curitiba recebia suas primeiras open airs, como Big Fish, Union e XXXperience, rave paulista que era realizada localmente por dois grandes entusiastas da cena que estava nascendo: Jeje e Dudu Marcondes. Foi há 11 anos, em agosto de 2004, que eles deram vida à sua própria festa, intitulada Tribaltech, com a primeira edição realizada no Haras Bom Pastor, em São José dos Pinhais.

    Nesta época o line-up era quase todo composto por artistas de psytrance e vertentes, como Bizarre Contact, Sub6 e Eskimo, mas a veia “tech” já existia e não era apenas no título: os italianos do Presslaboys se apresentaram no primeiro aniversário, em 2005, e Trentemoller era uma surpreendente atração de 2006, fato que infelizmente não se concretizou, pois o artista cancelou sua turnê brasileira na ocasião. Nestes primeiros anos também aconteceram edições em Londrina, Toledo e Florianópolis, o que com certeza contribuiu para que a marca se tornasse conhecida fora da grande Curitiba.

    Foi a partir de 2007 que a TT começou a tomar ares de festival. Ao contrário dos primeiros anos, agora a festa era realizada exclusivamente em Curitiba, apenas uma vez por ano, o que possibilitou um crescimento considerável, tanto em público como em estrutura. Uma das principais novidades era o surgimento do palco alternativo, concebido para ampliar os horizontes artísticos e abrigar artistas de techno e house. O parque de diversões, que já havia se tornado uma das marcas registradas da festa, estava ainda maior. O sucesso foi tão grande que em 2008 a fórmula foi repetida, com a adição de um terceiro palco, separando o techno do house. Neste ano a Tribaltech recebeu uma de suas apresentações mais marcantes, que mudou a vida e os conceitos de muitos que estavam ali assistindo: o live 100% analógico de 300kg de Anthony Rother. Pela primeira vez aquele público tinha contato com a criação pura e grosseira, em tempo real, um verdadeiro live sem Ableton pré-montado.

     

    2009 a 2010 – Uma adolescência multicult

    Diante de todo o sucesso recente não só da TT, mas da cena eletrônica como um todo, em 2009 a T2 Eventos resolveu pular de bungie jump pra fora da zona de conforto e fazer uma aposta que mudaria completamente a cara do festival, além de ter sido a semente que garantiu a força do conceito que ela tem hoje. Com a adição de um quarto palco, 100% voltado para sonoridades orgânicas, e a expansão dos outros dois palcos alternativos, a Tribaltech se tornou um verdadeiro festival multicultural, abraçando diversas tribos e se destacando em meio a tantas raves iguais entre si. Nessa vibe multicultural que surgiram as intervenções durante a festa, os paineis de arte plástica e o Cinetech, ambiente no qual foi realizado uma mostra de cinema independente. Neste ano a cenografia também ganhou um upgrade, ao apresentar o Laser Beam Factory pela primeira vez no Brasil, espetáculo visual que viria a se tornar praxe na maioria das festas do gênero em seguida. O line-up também passou a ter mais peso, contando com apresentações memoráveis de Maetrik (atualmente Maceo Plex), Thomas SchumacherMarc Romboy, Gui Boratto, Tigerskin e diversos outros.

    Com mais um sucesso na conta, em 2010 foi dado mais um passo ousado: o trance, que até então habitava o main stage, agora teria seu próprio stage alternativo, enquanto o principal passou a ser ocupado por artistas de techno e tech house. Na época a organização fora apedrejada pela decisão, no entanto, a mesma foi copiada por todas as raves de origem semelhante Brasil afora, e hoje não há um fã de psytrance que abra mão do seu espaço próprio devidamente contextualizado. Além disso, esta festa também fora castigada pelo tempo frio e cheio de serração, o que acabou por inviabilizar o videomapping do palco principal, a grande novidade visual que seria apresentada. Somando isso a um line-up que em geral não agradou (à exceção de Green Velvet, Sascha Funke e boa parte do psytrance), a Tribaltech enfrentou sua primeira grande baixa.

    2011 a 2012 – Tempo de se reinventar

    Após o balde de água fria, ficou claro que deveria ser feita uma reavaliação dos últimos anos, para selecionar os pontos de sucesso e montar um formato sustentável. Isso era tão claro que em 2011 a temática multicult deu lugar ao Reuse, Repense, Reaja, mostrando outra grande característica do núcleo organizador: a transparência com o público. Apesar do formato enxuto, mais uma vez o tempo não permitiu que o sucesso acontecesse: uma chuva constante fez com que o Organic Beat e até mesmo o main stage (que havia voltado para o formato misto de psytrance e techno/house) ficassem “vazios” por diversos momentos. Nesta festa deu sorte quem ficou com a cobertura: o Black Tarj, que recuperaria o espaço principal no ano seguinte, e o Funk You, que conquistou bastante gente que estava tendo o seu primeiro contato com aquele tipo de sonoridades.

    Foi em 2012, ano do fim do mundo, que a Tribaltech encarou o que iria ser sua última edição. Depois de muitos altos e alguns baixos, decidiu-se fazer a “melhor de todas as edições”, para sair de cena com a imagem que sempre se quis ter para o festival. O palco principal agora era definitivamente techno, com artistas que encabeçam festivais como Time Warp e Awakenings, o trance voltou a ter seu próprio palco, desta vez, com cenografia e decoração impressionantes, e o house passou a ser assinado pelo Club Vibe, que havia sido incorporado ao ecossistema T2 após reforma realizada alguns anos antes. Como as pessoas só dão valor ao que tem quando perdem, o The End se tornou a maior e mais elogiada Tribaltech da história.

    Nesta festa tudo funcionou: o line-up equilibrado e a inspiração de Dubfire e Magda recriaram pela primeira vez o clima de um verdadeiro festival de techno; o pavilhão da Vibe conseguiu transpor o clima intimista do clubinho para as proporções de superclub; a cenografia, localização e contextualização do psytrance fez com que até os mais xiitas se sentissem à vontade no “mini-festival” ali montado; e o tempo ajudou de verdade, com um dia ensolarado e bonito.

    2014 – Let’s Reborn

    O sucesso do formato e a recepção do público foi tanta que o inevitável aconteceu: dois anos depois o festival estaria renascendo, com mais força do que nunca! A edição de 2014, intitulada Tribaltech Reborn, trouxe o melhor do festival de volta à vida, abrindo espaço para inúmeros novas tribos em nada menos do que 12 palcos, que iriam dos tradicionais techno, house e psytrance, até novidades como bass music e breaks. A ambientação atingiu níveis nunca antes alcançado por um festival brasileiro: a cidade temporária tinha diversos ambientes e detalhes a serem explorados, proporcionando uma verdadeira imersão para o reborner.

    2015 – It’s Time For Evolution

    O segundo capítulo da trilogia, a ser realizado neste ano, é mais um salto evolutivo no conceito, como foi em 2009 e 2014. A começar pela duração de dois dias, velho sonho da organização que finalmente está se concretizando. Para tanto, será fundada a Evolution Town, cidade temporária com camping, estrutura de primeira e festa exclusiva para moradores, projetada para receber pessoas dispostas a dar um passo adiante na imersão. Fora desta cidade a quantidade de palcos encolheu, no entanto, o line-up escalado é um dos melhores da América do Sul no ano, em termos de techno e house.

    A grande aposta é naquele que garantiu uma manhã inesquecível em 2012: Dubfire, que desta vez, vem com seu live Hybrid, inédito no Brasil. No setor da aula de história, alguns mestres: o representante do house de Chicago, Derrick Carter; o chefão da Dirtybirdz, Claude Von Stroke; e a lenda do techno de Detroit, Carl Craig, que já realizou duas obras-primas no Terraza no começo deste ano e deve ser um dos destaques do festival. A ala europeia também está muito bem representada: a experiência de Roman Flugel; o set mais dinâmico que muito live do frontman da CLR, Chris Liebing; o ascendente e inédito Rødhåd; a aposta em Traumer; a volta de Ellen Allien, um dos cancelamentos de 2014 (ainda acreditamos em um Rother triunfal em 2016 🙂 ).

    Quem procura lives mais complexos e bem trabalhados também terá um prato cheio: um dos grandes nomes de 2014, Mathew Jonson, retorna para duas apreentações: a sua individual e da banda Cobblestone Jazz, que apresenta uma mistura de jazz com techno utilizando diversos instrumentos analógicos e uma expressão ao vivo impressionante. Não tão analógico mas de grande valor também é o live de Stimming, que já garantiu grandes noites no Warung e não deve fazer diverente na Tribaltech. Na ala mais freak agitada dos lives teremos o dOP, que já é um clássico da TT e também tem um cancelamento em a ver com o público.

    Com essa verdadeira seleção mundial escalada, o Brasil não poderia ficar mal representado. Por isso, foram escalados bravos guerreiros que lutam para manter acesa a chama da arte num país tomado pela repetição. Stekke, Renato Cohen, Aninha, Boghosian, Eli Iwasa, Gromma, Renato Ratier, Albuquerque são apenas alguns dos representantes do time verde-e-amarelo, que contará tambem com o residente do detroitbr Kultra. As raízes psicodélicas também foram respeitadas: confesso que atualmente pouco conheço deste universo, mas sei que Merkaba, Shadow FX & Tetrameth, Loud, Avalon e Tristán são artistas de muito respeito, sem contar os grandes realizadores da cena nacional, como The First Stone, Circuit Breakers, Fábio Leal Element, que além de ótimo DJ é o responsável pela curadoria do Vuuv Stage.

    E com tantas novidades, fica a pergunta: e aquele pessoal que sempre pede mais do mesmo? São volumosos e importantes para fechar o equilíbrio da festa, portanto, foram atendidos. Boris Brejcha, Alok, Kanio, Vintage Culture, Volkoder são alguns dos nomes de destaque que deverão atrair multidões para a festa – nada que uma boa curadoria de horários não resolva. Eu provavelmente fui injusto e deixei de destacar outros nomes merecedores, mas daqui pra frente deixo a lista completa livre para o julgamento de cada um:

    Como pudemos ver, a Tribaltech é mais do que um simples festival arriscando um line-up ousado. A Tribaltech é o mais vistoso fruto do crescimento orgânico da árvore da cena eletrônica do sul do país. Ela, assim como nós, passou por erros, acertos, metamorfoses e revelações no longo trajeto trilhado até aqui, e sabe que este ainda não é o topo da linha evolutiva. Dizer que “é hora da evolução” parece redundante após conhecer toda essa história, mas é um grito necessário para que compreendamos a importância do momento vivido e depositemos nossa confiança do fundo da alma, com a certeza de que os dias 10 e 11 de outubro de 2015 serão dias para guardar na memória como marcos em nossas vidas. Eu farei parte dessa história, e vocês?

  • Baikal se destaca em showcase da maeve no Warung

    No dia 19 de julho o Warung Beach Club abrigou dois showcases: o do selo europeu maeve, no Inside, e o da agência brasileira 24bit Management. Nossa maior expectativa era pelo primeiro, não por uma questão de qualidade, mas pela questão de buscar novidades. Somado ao fato de que o Garden estava super-lotado a noite toda, acabamos ficando 95% do tempo no antigo Main Room, ambiente no qual este review será focado. Para nós a noite tinha mais um grande atrativo, já que o nosso residente Danee seria o responsável por iniciar os trabalhos por ali, porém, mais uma vez, a burocracia e a falta de gente pra resolver problemas pontuais fez com que a noite começasse mais tarde pra nós.

    Tudo começou com a fila de carros, que mesmo às 22h já era grande, graças também ao club vizinho Galera’s, que funcionava naquela noite. Após cerca de 40 minutos, conseguimos estacionar e corremos, na expectativa de pegar a segunda metade da apresentação de Danee. Esta ilusão se desfez assim que nos posicionamos na fila da lista, local no qual ficamos aguardando por uma hora. Quando nossa vez chegou, faltando 15 minutos para Daniel encerrar seu set, o golpe final: o nome de uma amiga (que havia sido confirmado) não estava na lista, o que nos fez aguardar mais 40 minutos até que alguém com autonomia aparecesse pra resolver o problema e permitir a entrada. 

    Enfim dentro, demos um giro não tão rápido por banheiro, caixa e bar, até finalmente subimos para a pista, a tempo de ver a última meia hora de The Drifter. É difícil emitir uma opinião honesta sobre um artista cujo qual você viu apenas 25% da apresentação, ainda mais depois de todo o transtorno passado. Neste curto período pudemos ver que o irlandês envolvia os presentes com uma linha de grave muito característica, apesar de abusar das melodias, bonitas porém emocionais demais para o momento. No entanto, prefiro acreditar que apenas não nos ambientamos por ter perdido o começo do set e o warm up da noite.

    Logo em seguida foi a vez de Baikal, a estreia da noite mais aguardada pela nossa equipe, que fez jus à confiança depositada. O que mais chamou a atenção em seu set foi a construção, com ousados altos e baixos repentinos, que em sua maioria foram muito bem encaixados. A base da história era um tech house dançante, com os frequentes picos de emoção para ambos os lados, da introspectiva Northern Light, de Cobblestone Jazz, ao pesado remix de Adam Port para Ritual of Life, de Sven Vath. Seu set foi o melhor momento da festa, pois foi quando a maior parte do público estava se apertando para conseguir um lugar no Garden para ver Dashdot.

    Uma pena que no final da noite, quando o headliner Mano Le Tough assumiu o controle da pista, toda essa galera tenha resolvido subir para o Inside. Em questão de minutos o ambiente estava no nível de super-lotação que já acabou com diversas noites no passado e tanto criticamos aqui. Por sorte havia um camarote no qual pudemos nos refugiar, de onde vimos boa parte da apresentação de Mano, que foi boa, porém, sem surpresas. O headliner navegou pela zona de conforto da sua atmosfera dançante, salpicando os clássicos momentos de melodias melancólicas e emocionantes, mas sem a ousadia que Baikal teve. Era passado das 6:00 quando optamos por deixar o club, por esta soma de falta de conforto e atrativo musical no artista do momento, com uma sensação de que havia sido bom, mas poderia ter sido melhor. As expectativas agora se voltam para o D-Edge Showcase, que deve ser a melhor festa do club nos próximos 2 meses, com Gaiser, Amirali e um ótimo time de DJs nacionais, como Stekke, Renato Ratier, Gromma e Doriva Rozek.

    Fotos: Gustavo Remor e Juliano Viana / IMAGECARE.

  • Tribaltech confirma os primeiros artistas de 2015 e se prepara para realizar o seu maior festival

    O mistério finalmente acabou: hoje a Tribaltech divulgou mais de quatro dezenas de artistas confirmados na edição de 2015, com muitas novidades e artistas de peso. A forma de divulgação também chamou a atenção: o lado storyteller da marca está cada vez mais forte nas campanhas, pois os artistas foram divididos em 3 pequenos contos narrados por um personagem fictício, que simboliza cada um dos frequentadores do festival – ou moradores da Evolution Town.

    Confira abaixo todos os artistas já confirmados:

    O evento rola em dois dias, 10 (sábado) e 11 (domingo) de outubro, lembrando que dia 12 é feriado nacional. Para ler os contos, assistir os videos e obter mais informações, confira a fanpage oficial. Os ingressos estão à venda pelo Alô Ingressos.

  • Projeto de lei pretende multar em R$ 500 quem portar drogas em Curitiba

    No imaginário popular Curitiba existe como uma das capitais mais “evoluídas” do país, o que já lhe rendeu alguns apelidos talvez exagerados, como “cidade-modelo” e “Europa brasileira”. Alguns aspectos da cidade podem até fazer jus a tais títulos, no entanto, qualquer morador sincero vai saber apontar vários outros que desmentem os superlativos. Um deles é o projeto de lei do vereador Tico Kuzma (PROS), que coloca a cidade no topo da intolerância contra usuários de drogas. A proposta prevê multa de R$ 500,00 (além da obrigação de comparecer a pelo menos 5 reuniões de grupos de ajuda) para quem for pego portando qualquer tipo e quantidade de substância ilícita nas ruas da cidade.

    O texto já foi aprovado pelas comissões legislativas e deve ir pra votação em Plenário a qualquer momento. A proposta destoa do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, regulamentada pela lei 11.343/2006, que defende uma postura educativa não-punitiva para quem for pego portando quantidades para consumo próprio, e também da evolução cultural pela qual o mundo passa. O autor do projeto, que se diz bastante religioso e defensor da família, já tentou participar do BBB e teve um mandato cassado por infidelidade partidária, e foca o seu discurso em defesa da proposta na preservação da tranquilidade de logradouros públicos, como se os usuários de crack fossem ter como pagar tal multa ou as pessoas que fumam maconha na pracinha representassem algum perigo para o resto da sociedade.

    No âmbito nacional as coisas caminham – mesmo que a lentos passos – no sentido contrário. No ano passado o deputado Jean Wyllys (PSOL) apresentou projeto de lei para descriminalizar e regulamentar o consumo da cannabis sativa no país, o qual foi apensado ao projeto semelhante do deputado Eurico Junior (PV), que aguarda formação de comissão especial para analisar o assunto antes de ir a votação em Plenário. Já existem diversos países do mundo e estados americanos que descriminalizaram o consumo da maconha e/ou outras drogas, mas a quantidade ainda é pequena diante do que deverá ser num curto período de tempo. Confira abaixo um giro pelas notícias mais recentes sobre o assunto em alguns países.

    CHILE

    A Câmara dos Deputados do Chile aprovou ontem proposta que pretende legalizar o cultivo particular de maconha, bem como seu consumo medicinal e recreativo, na tentativa de descriminalizar o uso e conter o tráfico no país. Segundo o projeto, que deve passar pelo Senado antes de vigorar, qualquer indivíduo maior de 18 anos poderá portar até 10 gramas consigo e 500 gramas em casa, ficando proibido ainda o consumo em público. O uso medicinal está permitido para qualquer idade, contanto que com receita médica. O país pode se tornar o segundo da América do Sul a dar esse importante passo rumo ao fim da guerra contra as drogas, já que o Uruguai legalizou a erva em 2013.

    CANADÁ

    A província de Nova Escotia, que recebe o Evolve Festival há anos, comemora um fato inédito no local: a organização irá oferecer aos frequentadores análise gratuita de todas as unidades de MDMA, LSD e speed. A prática se chama “redução de danos” e já é conhecida pelos brasileiros que frequentaram o Universo Paralello recentemente, pois em algumas edições o teste era oferecido no festival. O objetivo não é incentivar o uso, mas sim evitar que substâncias desconhecidas e tóxicas sejam consumidas, acarretando em problemas de saúde e possivelmente morte do usuário.

    INGLATERRA

    Cientistas escreveram uma carta aberta a Theresa May, Secretária de Estado para Assuntos Internos, solicitando revisão de um projeto de lei que pretende limitar a pesquisa e comercialização de substâncias psicoativas. O texto diz que “muitos tipos diferentes de pesquisa podem ser afetadas pela nova legislação, particularmente no campo da neurociência, no qual as propriedades das substâncias psicoativas são ferramentas importantes para ajudar cientistas a entenderem a variedade de fenômenos ligados à consciência, memória, vícios e doenças mentais”.

  • Carl Craig levará Detroit Love a Ibiza neste ano

     

    A temporada 2015 da meca das baladas já começou! De agora até meados de setembro a ilha de Ibiza “não dorme“, com eventos de diversas vertentes de música eletrônica quase todos os dias. O techno está presente em diversas noites, mas este ano um detroitiano de peso dará as caras em território espanhol com festas que devem complementar a alegria dos fãs do estilo: Carl Craig.

     

    Desde o ano passado ele está viajando com a proposta de levar ao mundo um pouco do amor que sente pela sua terra natal, com a tour do label Detroit Love, que até passou pelo Brasil durante o carnaval, com apresentações históricas nas duas sedes do Terraza Music Park. Em Ibiza Craig apresenta dois formatos: o primeiro acontecerá no main stage da Space Ibiza em quatro domingos, um por mês. Derrick May, Moodyman, Robert Hood e Octave One são alguns dos nomes confirmados. O segundo se chama Detroit Love Affair, trata-se de seis eventos gratuitos na beira da praia, em terças-feiras de julho e agosto. Apenas o line-up de amanhã foi divulgado, que tem nada menos do que um back-to-back entre C2 e Dubfire. Além destas dez festas, Carl também está escalado para tocar na Cocoon, Carl Cox e ENTER., em data ainda a serem divulgadas.

  • Nicolas Jaar e a cor das romãs

    Nicolas Jaar é jovem artista, de apenas 25 anos, mas que possui um currículo de dar inveja em qualquer um que respire música. Nasceu nos Estados Unidos e cresceu no Chile, terra de seus pais, antes de retornar a New York. Sua origem faz com que frequentemente seja comparado a Ricardo Villalobos, o que em sua opinião não faz o menor sentido. “Não estou nem perto de atingir seu nível de técnica”, afirmou ao Pitchfork em uma entrevista. “Quando eu era jovem e pegava o metrô para o colégio, gostava de ouvir Thé Au Harem D’Árchimède, de Ricardo, e The Last Resort, de Trentemoller. Com o primeiro eu estava sempre pensando ‘Aonde você quer chegar com isto?’, enquanto que o segundo era fácil de ouvir, como doce. Eu sempre quis fazer um Trentemoller mais experimental e um Ricardo mais melódico” completou.

     

    Seu primeiro contato com a dance music, no entanto, foi com DJ Kicks, de Tiga, em 2004. “Quando ouvi eu pensei ‘Que porra é essa? É incrível!’, acabei obcecado por aquelas tracks” confessou. Poucos anos mais tarde já estava esbanjando talento em seu live act, como podemos perceber nesta gravação de 2008, que é muito mais dancefloor friendly do que seu som atual, apesar de já possuir os elementos melódicos e o experimentalismo que posteriormente tornaram-se sua característica.

    E foi no ano de 2011 que finalmente veio a consagração, com o lançamento de seu primeiro álbum, Space Is Only Noise If You Can See. A obra é dividida em 14 faixas, mas pode-se dizer que é apenas uma de 46 minutos, já que ela foi criada para ser apreciada como um todo. O disco conquistou elogios e reviews positivos de dentro e fora do mundo da dance music, muito graças ao fato de que a maioria das tracks fugia do padrão de 120 a 130 bpm do techno e do house. Foi neste ano em que tornou-se líder do ranking de live acts do Resident Advisor, posição que seria mantida pelos dois anos seguintes, com ajuda do seu projeto paralelo Darkside, alias sob a qual Nico passou 2012 e 2013 se apresentando, ao lado do guitarrista Dave Harrington. Junto a ele encabeçou a lista de headliners de diversos festivais conceituados, como Sónar e Pitchfork, mas sobrando um tempinho para fazer o que foi considerado o melhor Essential Mix de 2012, na BBC Radio One.

    Em 2014 surpreendeu a todos anunciando que o Darkside entraria em um hiato por tempo indefinido, quase ao mesmo tempo em que iniciava os trabalhos no seu novo label, Other People. “Clown & Sunset tinha essa vibe de ser muito conectado a mim. Eu não gostava disso, acabou se tornando uma ‘afiliação’ ao meu som da época do primeiro álbum, cujo qual eu mesmo nem estou mais tão conectado”, conta Nicolas, que completa: “Eu nao estou interessado em ter Other People representando ‘meu som’ dessa maneira”. De lá pra cá rolaram 2 bons EPs, Nymphs II e Nymphs III, mas o que mais chamou a atenção foi Pomegranates, álbum que liberou para download na semana passada. O primeiro contato do público com essas músicas foi no começo do ano, quando ele as usou para criar uma trilha sonora para o filme soviético The Color of The Pomegranates, de 1969. Apesar de Nico nunca ter declarado, vários jornalistas enxergam referências a Angelo Badalamenti em seu gosto por ambiências e trilhas. Alguns reviews de Space Is Only Noise If You Can See apontaram a semelhança, enquanto ele próprio homenageou o ídolo usando um diálogo de Twin Peaks no seu Boiler Room e o nome de uma personagem no título de uma track. 

    O mais interessante em Pomegranates é a história recheada de sincronicidade por trás de sua concepção, que foi contada em detalhes pelo próprio em um arquivo pdf que vem junto com as músicas, cujo qual traduzi e transcrevi abaixo:

    Olá, 

    Eu comecei a produzir a maioria das músicas encontradas em Pomegranates antes de ter visto o filme e até mesmo de saber de sua existência. A primeira música, por exemplo, foi feita no começo do outono de 2014. Eu tinha voltado de uma tour de um ano com o Darkside e estava realmente feliz por estar em casa. Eu estava fazendo música na minha sala quando uma barata começou a dançar sobre alguns dos cabos que estavam no chão. Em vez de matá-la, decidi fazer uma música pra ela. Eu a nomeei Garden of Eden porque eu lentamente comecei a ver a pequena criatura como minha amiga e ajudante, e meu estúdio como um jardim (com todos os cabos!).

    A música seguinte foi feita originalmente para um programa de TV. Quando percebi que ele não era exatamente o que haviam me prometido quando assinei o contrato decidi pular fora, o que me deixou com horas de trilha sonora pronta. Eu usei apenas uma dúzia de minutos disso em Pomegranates, ainda não sei o que fazer com o resto! Survival foi originalmente feita para ser a track de fundo para Guetto, uma música que produzi para o DJ Slugo, na qual ele fala sobre crescer em Chicago. Shame é uma batida que eu fiz para um rapper, que foi recusada. No fim de 2014 eu morei com meus pais por seis meses, num período de troca de residências. Eu não tinha estúdio, apenas um piano, alguns microfones e headphones. Foi neste período que escrevi Muse. Volver é a versão em coro de Revolver, uma track que fiz em 2011 e espero que seja lançada neste ano. Enfim, poderia ir adiante contando a história de cada uma delas.

    No começo de 2015 meu amigo Milo ouviu algumas destas músicas e me falou sobre o filme. Eu assisti e fiquei estupefato. Eu senti que a estética fez completo sentido com os temas estranhos que eu fiquei obcecado nos últimos anos… Eu estava curioso pra saber como as músicas soariam quando sincronizadas com as imagens, o que se tornou em um trabalho de dois dias no qual eu coloquei trilha no filme todo, criando uma estranha colagem com a ambient music que eu fiz nos últimos 2 anos.

    O filme me deu estrutura para seguir e temas para cumprir. Ele deu clareza para estas músicas, que em sua maioria foram produzidas através do caos. Ele me deu também a coragem para publicar… Eu queria fazer algumas exibições, mas o cara que possui os direitos do filme não queria nenhuma versão que não fosse a original por aí. Não posso culpá-lo, tenho certeza que Paradjanov não gostaria de ver uma criança de NY mijando sobre toda a sua obra-prima e chamando aquilo de trilha sonora! Eu a ouvi algumas vezes sem assistir ao filme e acredito que ela consegue viver de forma independente. Pelo menos eu espero que sim! 

    Eu ainda estava na casa dos meus pais quando terminei Pomegranates. No dia 1º de março eu cheguei na minha casa nova e ela estava completamente vazia, exceto por uma pequena árvore. O dono estava lá pra me cumprimentar e me perguntou se eu gostaria de mantê-la, pois ele não tinha mais aonde colocá-la e nem alguém a quem dá-la. Eu concordei em ficar e cuidar dela.

    Antes que ele saísse, perguntei que tipo de árvore era. Era um pé de romãs [pomegranates]. E ele não tinha a vaga ideia do trabalho que eu estava executando!

    Então, aqui está, é sua agora! 

    Nico

    PS: confira a foto da pequena árvore!

     

  • Amine Edge e Alok trocam farpas pela internet

    E a semana parece ser de polêmicas no mundo da música. Depois de Zeca Camargo causar no país todo falando sobre a morte de Cristiano Araújo, agora é a vez de Alok e Amine Edge protagonizarem um pequeno barraco virtual, que deve ficar restrito apenas à cena eletrônica, mas não deixa de ser interessante. Tudo começou com este tweet carinhoso do DJ francês:

    Sem papas na língua, ele afirma que odeia com todo seu coração o remix de Alok (desconsiderando o Gabe na história) para sua track Lost, que é barato, amador e comparável ao cocozinho simpático do Whatsapp. Não estamos aqui para dizer se ele tem ou não razão no que fala, mas certamente foi uma atitude hipócrita e deselegante, já que várias de suas músicas poderiam receber os mesmos adjetivos sem que a oração se torne inverdadeira. Sabendo disso, o filho do Universo Paralello resolveu fazer um video-resposta, no qual lembra que a música em questão é na verdade de Frank Ocean e demonstra como fazer uma versão semelhante à do Amine Edge & DANCE em apenas 5 minutos:


    Clique na imagem pra assistir

    Enquanto isso, a grande massa brasileira continua adorando a dupla de pseudo-rappers, que já tem até escova de dentes no banheiro de alguns clubs do país, de tanto que tocam. Será que não está na hora da nação g-houser trocar de heróis?

  • Zeca Camargo não detonou o sertanejo, ele detonou a música ruim

    Na semana passada a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo tomou conta da mídia tradicional brasileira. Em uma cobertura digna de Ayrton Senna, todos os veículos de comunicação das Organizações Globo (e todo o resto da imprensa, de carona no hype) inundaram a vida dos brasileiros com informações dos procedimentos post mortem, deixando as pessoas que vivem fora da esfera do sertanejo universitário sem entender nada. Ao longo da semana foi possível ver no Facebook inúmeras declarações mal colocadas, como a do Deejay Freedom II, que num ato digno de Ten Walls comemorou a morte do cara só porque ele cantava sertanejo. Passada a shitstorm e o período de luto eis que surge a primeira crítica consistente, para nossa surpresa, no Globo News, apresentada por Zeca Camargo no formato de crônica.

    Não posso dizer que concordo com tudo o que ele fala, ou com as referências que apresenta. Mamonas Assassinas me comoveu, mas quando criança. Analisando friamente hoje é fácil concluir que do ponto de vista musical eles não tiveram muita relevância para justificar o endeusamento, no entanto, isso foi há 20 anos e não vale a pena exumar o assunto agora, vamos voltar ao cadáver mais recente. Zeca está enfrentando neste momento a ira cega de todos os fãs e fãs-relâmpago de Cristiano, naquele velho costume do brasileiro de não saber ouvir uma crítica negativa e ainda reagir como criança. Porém quem prestou atenção na crônica percebe que ele não ataca o cantor, que implicitamente acaba ainda sendo retratado como vítima parcial, um cara que estava no lugar certo na hora certa e foi escolhido pra cantar as músicas certas e virar o novo Ídolo Hot Pocket do sertanejo universitário.

    Sua crítica é à atual dinâmica da cena musical brasileira, na qual ídolos são fabricados seguindo uma série de parâmetros, que vão da aparência física ao famoso QI (quem indica), mas ficam alheios à aptidão daquele cidadão para a música. O paralelo que ele faz com os livros de colorir é ótimo, pois é inegável que muitas páginas pintadas pelos brasileiros fiquem lindas e dignas de um elogio, mas ela nunca será uma peça de relevância criativa, quem dirá uma obra de arte. O mesmo vale para a música: o pop brasileiro atual não é necessariamente ruim, ou feio, mas ele peca na hora de cumprir um papel fundamental que qualquer tipo de arte tem na sociedade, que é o de levar conteúdo rico pras pessoas. No curto prazo as críticas a essa prática são tachadas de “dor-de-cotovelo”, mas agora que estamos chegando no longo prazo vemos o dano que tantos anos de livros de colorir causaram na sociedade brasileira. O global pode ser visto como hipócrita nesse momento, pois a empresa para quem trabalha é a grande culpada por essa falta de desenvolvimento criativo do brasileiro médio, mas eu diria tratar-se mesmo de um ato de desobediência genial, tanto que ao ser posto para se retratar no Video Show ele manteve o tom sarcástico em alta e parafraseou Fátima Bernardes, chamando o cantor de Cristiano Ronaldo.

    Aí nos perguntamos… Por que ele fez isso? Eu não sou fã dele e pouco sei sobre sua carreira, mas dois fatos podem nos ajudar a entender: primeiro que sua carreira iniciou na MTV, lá na época em que o Kurt Cobain estava vivo e o canal era, de fato, uma referência séria pra juventude ávida por música. Segundo, a belíssima resenha que fez sobre Ricardo Villalobos em janeiro de 2007, mesmo ano em que eu fui à primeira rave pra ouvir Skazi e GMS. No texto ele, que se diz alheio à música eletrônica alternativa característica da loja de discos aonde comprou o Alcachofa, disseca o trabalho do artista de tal maneira que nenhum jornalista especializado da nossa cena atual seria capaz de fazer. Em poucos parágrafos ele pegou um dos mais complexos e incompreendidos produtores e o tornou palatável para a massa brasileira, que sem ler seu texto talvez desistisse da Fizheuer Zieheuer nos primeiros quatro minutos, dizendo que ela dá sono.

    Sendo assim, Zeca fez o que fez porque ele viveu uma época boa, sabe apreciar as mais diferentes ousadas e complexas formas de arte (se não ele jamais compreenderia Ricardo, sendo um cara de fora do eletrônico) e deve estar completamente depressivo assistindo a nossa música indo cada vez mais para o fundo do abismo. Foi um pedido de socorro!

    Tá Moha, mas e você, por que se deu ao trabalho de fazer tal análise aqui no detroitbr?

    Porque enquanto frequentador da cena eletrônica, me identifiquei com seu chamado. Os fatos aconteceram no mundo do sertanejo, mas a crítica vale em paralelo para qualquer cena musical brasileira, inclusive a nossa. 

    Salvo raríssimas exceções (e como é triste ver que o nosso exemplo de exceção é o mesmo desde 2007, Gui Boratto), toda a trupe de DJs que hoje cobra cachês na casa das dezenas de milhar por noite nada mais são do que Cristianos Araújos do eletrônico, produzindo o som enlatado do momento. Hoje vivemos a era do “future techno”, mas quem viveu outras épocas sabe que já houve o grande momento “deep bombombom”, “tech house universitário”, “minimal goteirinha”, cada um com seus Ídolos Hot Pocket que levavam milhares pras festas, geravam fortunas em vendas e… poucos anos depois ou estavam sumidos, ou tiveram agilidade pra migrar pra próxima moda e continuar em voga.


    Alok Lima e você

    Na cena internacional isso também acontece, claro, o Top 100 da DJ Mag está aí pra nos provar isso. No entanto fora do país há também uma valorização relevante de artistas diferenciados, que conseguem fazer seu trabalho, tocar seu público e ser bem remunerado sem precisar se incomodar com o que rola no meio do “EDM” – o line-up de festivais como Sónar e Movement estão aí pra nos provar isso. O que nos falta é espaço para que essa cena paralela (também chamada de alternativa, ou underground) possa se desenvolver em concomitância com a cena comercial já estabelecida.

    Por isso, achei importante pegarmos a crítica que o Zeca fez ao sertanejo e estimular todos a olharmos para nosso próprio nariz: estamos constantemente criticando o sertanejo universitário, mas o que estamos fazendo para que o eletrônico seja o antagonista do bem nessa história? O próximo herói nacional que o Zeca tanto clama pode não ser apenas um, mas vários, oriundos do techno, do house, do trance… Basta que se construa uma cena artística consistente e com visão de longo prazo, que valorize a criatividade, a capacidade de ousar e surpreender, o incomum.

  • Ellen Allien protagoniza mais uma das belas noites frias do templo

    No dia 5 de junho visitamos o Warung Beach Club para mais uma daquelas noites divertidas e aconchegantes de baixa-temporada, que possuem line-ups menos comerciais e não atingem os níveis desconfortáveis de lotação comuns no verão. Nessa data em específico optamos por chegar bem cedo, afinal, era Stekke quem iria iniciar os trabalhos no Inside.

    Chegamos na casa pouco antes das 23:00 e tivemos o prazer de descobrir que a festa ainda não tinha começado. A noite marcava a estreia do live de Ale Reis e Renee, que estavam terminando de montar o setup e logo deram início à noite, mas ainda no modo dj set, fazendo warm up para si mesmos. Este posso dizer que foi um momento único para mim como frequentador do club: por uma hora ouvi ali tracks que jamais imaginei ouvir no Main Room do templo. Certamente não era o que a maioria das pessoas estava esperando encontrar ao chegar na balada, tanto que nesse momento o Garden era o destino preferencial das pessoas, com Adnan Sharif nos decks. No entanto as coisas mudariam com a entrada da madrugada: era exatamente meia-noite quando a sensação causada pelo primeiro timbre analógico no sound system do Inside deixava claro o início do live act da dupla.

    Nos 90 minutos que se seguiram o que vimos foi uma construção de pista sem igual. A quantidade de hardware levado ao palco possibilitava uma infinidade de sons diferentes, mas poucos elementos eram usados simultaneamente, tornando a construção minimalista e nem um pouco repetitiva. A energia foi crescente, tanto da música como da pista, e nos minutos finais já era possível ver o público desconcertado com alguns bons momentos criados. Foi uma satisfação ver um projeto brasileiro em tal nível técnico, é o tipo de situação que renova a nossa esperança na cena nacional.

    Já era passado de 1:30 da manhã quando a pista foi entregue de bandeja para Renato Ratier, residente e proprietário do club. O savage demonstrou estar em sintonia com a proposta da noite, apresentando uma boa seleção musical, com picos de energia bem dosados, em acordo com o horário e satisfazendo o público, ansioso para assistir o Rei Raww tocar. Quando os relógios marcavam 2:30 decidimos visitar o Garden, para ver o que Pillowtalk estava fazendo, e rapidamente nos arrependemos. Tecnicamente é um live muito bom, tenho profundo respeito por pessoas que tem cara e coragem de se apresentar como banda no mundo da música eletrônica, mas a sonoridade em si é algo que não passa pelo meu filtro do gosto pessoal. Apesar do excesso de vocais e da levada mega-feliz estarem tentando nos expulsar de lá, acabamos ficando um tempo lá conversando com alguns amigos. Tempo suficiente para o live acabar e a história mudar da água para o vinho com o início do dj set deles: com uma seleção de músicas mais condizentes com a pista e uma técnica muito boa, mantiveram-me preso ao jardim até o fim da apresentação, às 4:30.

    O próximo ali era Leozinho, mas corri para o Inside, e me deparei com uma Ellen Allien atropelando a pista! Eu já havia visto ela tocar no Some Festival de 2012 e tinha uma boa expectativa, mas ali no Warung ela realmente se sentiu em casa. A sonoridade do seu set era pesada e envolvente, muitos não absorveram e deixaram a pista, mas os que ficaram pareciam estar em transe. Apenas quando o dia amanheceu que a tensão foi aliviada: na última hora de festa a alemã fez um b2b com Ratier, no qual apresentaram uma linha mais dançante e menos sinistra.

    Ao término da festa, perto das 7:30, a sensação era de missão cumprida. Uma noite com vários momentos musicais diferentes e com a atmosfera que consagrou o club como templo. Que venha o inverno 🙂