Segunda noite do Terraza BC remete às origens da música eletrônica brasileira

Depois de um começo fervoroso, o Terraza realizou seu segundo evento na filial de Balneário Camboriú, onde pude acompanhar de perto duas lendas da música eletrônica Brasileira: Mau Mau e Cohen. A ansiedade por vê-los mais uma vez aumentava a cada dia. Primeiro por se tratar de dois artistas que agregam muito à cena eletrônica; segundo por ter visto que em sua ultima apresentação pelo sul a dupla apresentou uma mescla interessante, variando do old-school ao contemporâneo, do house ao techno.

Ao chegar ao evento, por volta das 23:30, assisti ao começo do set da Antonela Giampietro, enquanto aguardava a chegada das estrelas da noite, com quem eu faria uma entrevista. A argentina-brasileira vem nos surpreendendo a cada dia com seu talento, no entanto esta não foi uma noite feliz para ela. Seu repertório foi composto por boas músicas, organizadas em uma estrutura interessante conforme a execução, porém pareceu impróprio para o momento, que pedia um warm up mais apropriado para a noite.

Depois de algum tempo, finalmente Renato e Mau Mau chegaram ao club, e bateram um breve papo comigo.

1 – Fale um pouco sobre a carreira de vocês.

Mau Mau: Eu comecei minha carreira em 1986, quando eu comecei a frequentar o Madame Satã, vendo DJs como Marquinhos MS tocando. Comecei me apaixonar pela profissão, algo inusitado para época, mas foi em 1991 que tive minha primeira oportunidade para mostrar o que eu realmente queria, quando consegui desenvolver meu estilo próprio de pesquisa. Foi aí que eu percebi o que eu queria fazer da vida, que era seguir com essa profissão, na época eu ainda estudava publicidade, seguei a trabalhar com escritório e já se passaram 27 anos desde que isso aconteceu e me aprofundei na produção musical, fazendo algumas parceria no longo desse trajeto com vários selos e resumindo estou aqui, fazendo o que eu mais gosto que é tocar música.

Cohen: Eu comecei ao contrário do Mau Mau, comecei produzindo música, e depois que veio a carreira de DJ. Eu era músico e tinha banda, produzia música com equipamentos, pelo processo eletrônico, mas a primeira vez que eu escutei uma música eletrônica que eu realmente gostei foi quando eu fui no Hells e vi o Mau Mau tocar. Então eu comecei ali, foi a primeira vez que eu ouvi alguma coisa que me motivasse. A partir dali eu comecei a ouvir techno e percebi que aquilo era a minha música, com o tempo eu comecei a discoteca e aí foi. Em 2001 em tive uma música que estourou no mundo inteiro (Pontapé) e isso impulsionou minha carreira.

2 – Como que funciona vocês tocando juntos? Vocês treinam juntos?
Mau Mau: A gente nunca programou, acho que funciona porque eu gosto do som do renato e acredito que ele gosta do meu, não existe nada programado, a gente sabe o que cada um gosta e procuramos nos divertir.
Cohen: É como o Mau Mau falou, acredito que funciona porque nos divertimos e gostamos do som um do outro e pra nós é legal porque somos amigos de anos.

3 – Sobre os produtores atuais: O que vocês acham dos anos atuais comparado a essa época dos anos 90 que vocês viveram? E os Brasileiros?
Mau Mau: Eu nunca fiquei muito preso em algum estilo, gosto de acrescentar novidades, minha grande motivação é acrescentar, descobrir coisas novas a minha bagagem. Na questão da produção existem coisas boas como coisas ruim, em qualquer época, acho que o tipo de trabalho que eu faço foi sempre fugir do convencional, então tá bacana porque eu to sempre to descobrindo coisas que eu gosto e coisas que se encaixam no meu set.
Cohen: Antigamente, principalmente aqui no Brasil, tinha uma dificuldade de fazer música, esse tipo de música acho que agora é uma coisa mais acessível, tem muito mais gente fazendo e por isso o nível acaba subindo, mais é preciso saber filtrar as coisas boas. Nos dias atuais é legal porque todos tem oportunidade de mostrar seu trabalho.
Mau Mau: Acho importante todos terem oportunidade pra lançar, muito diferente de antigamente, onde pra você conseguir lançar um disco ou uma música era bem difícil, como também pra produzir os equipamentos eram caros.
Cohen: Hoje em dia quem manda nisso tudo é o mercado europeu, mas agora o brasil consegue se impor e isso é importante pra nós produtores. O Brasil com todo esse potencial gigante, todo mundo vem tocar aqui e de qualquer forma eles tem que engolir a gente.

4 – Pode citar alguns produtores?
Cohen: Pô tem tanta gente!
Mau Mau: Normalmente eu vou mais pela música e não pelo artista, tem muitas que eu acho boas e outras não.

5 – Encerando a entrevista, vocês podem mandar uma mensagem para os nosso seguidores apaixonados por techno aqui do sul do país?
Mau Mau: Eu sou apaixonado por música, assim como o estado de vocês. Que todos vocês continuem se divertindo em qualquer lugar que seja, dançando e sendo feliz.
Cohen: A cena aqui está cada vez mais legal, existe sempre uma energia legal e que todos continuem assim.

Após a entrevista era hora do show: por volta das 02:00 eles subiram ao palco. Diferente do que aconteceu na Tribaltech, desta vez Mau Mau foi o encarregado de iniciar os trabalhos sozinho, com predominância da house music com uma pegada mais retrô, como manda o figurino, apesar dele ter soltado boas pérolas dos dias atuais. Subseqüente a isso Cohen se inseriu com uma perspectiva mais voltada para o tech-house e techno. Mesmo com repertórios bem diversos, a sintonia entre eles era animadora, dava pra sentir o quanto eles conheciam um ao outro. Perto do término o tão esperando b2b saiu do papel, para alegria dos fãs que ali estavam. O duelo entre eles seguiu as características dos sets individuais, com ambos DJs esbanjando técnica. Em alguns momentos transitei pela festa e uma das coisas que me chamou atenção foi a apresentação do residente Guilherme Konnin, que tocava na pista alternativa do Terraza. Para mim era algo novo, o conhecia apenas por nome mas nunca havia o visto tocar, mas posso dizer que entre os residentes que se apresentaram na noite, ele foi o melhor, com um set envolvente e uma atmosfera incrível!

E falando em residente, após o termino da apresentação de Mau Mau e Cohen, voltamos ao palco principal e assistimos Antonela pela segunda vez na noite. O set foi parecido com o anterior, mas desta vez o horário a favorecia, e o resultado foi completamente diferente de outrora. Assim se encerrou o segundo evento do Terraza BC, que já tem data mercada para o próximo: amanhã, 20 de dezembro, com o alemão Daniel Stefanik, representando o consagrado selo Cocoon. O line-up também conta com um integrante do detroitbr: Bernardo Ziembik, que também é residente do clube.