A edição Escape, da TribalTech, deixou saudades para os amantes da música eletrônica não só pelo line-up, mas também pela inovação do espaço e da proposta. Por conta disso, no próximo dia 9 de junho, às 23 horas, a Usina 5 receberá a primeira edição da Timetech – uma festa cujo conceito será o de apresentar sonoridades eletrônicas conceituais pelas mãos de artistas que pouco passaram pelo nosso país, sejam renomados ou revelações.
Na sua estreia na TribalTech 2017 foram vários os destaques, como o peso da ucraniana Nastia, a versatilidade da polonesa Margaret Dygas, a experiência do americano Daniel Bell e a surpresa do alemão XDB. Mais do que a apresentação individual de cada artista, se destacou também a forma como o stage se desenvolveu ao longo do festival, permeando várias atmosferas sem se prender a apenas uma ou outra vertente. Para a primeira Timetech independente, que acontecerá das 23h de sábado até a manhã do dia seguinte, foi escalado um time com 4 artistas internacionais inéditos em Curitiba: Monoloc, Vril, Tijana T, integrantes do respeitado selo alemão Dystopian, e a DJ russa Julia Govor, que se juntam a RHR, uma das principais revelações da nossa música eletrônica dos últimos anos.
O local da Timetech 2018 será o mesmo utilizado na TribalTech 2017, com o objetivo de relembrar a última edição do festival. “Nós percebemos que aquele espaço conquistou o público que ficou no Timetech Stage ao longo da última TT. Nesta edição vamos trabalhar com um novo projeto de cenografia e iluminação, ainda mais ousado, pra deixar a experiência do público realmente imersiva”, conta Carlos Civitate, o Jeje, idealizador da TribalTech.
Lançamento da TribalTech e apresentação em primeira mão o line-up e conceito do festival em 2018
A Timetech já seria motivo suficiente para ir à Usina 5 no próximo dia 9, mas para deixar a noite ainda mais completa a T2 Eventos anunciou que fará o lançamento oficial da TribalTech 2018 dentro da festa. Em um ambiente inédito do complexo será preparado o Lounge da TT, onde às 21h, antes da chegada do público, será realizada a cerimônia de lançamento da próxima edição do festival. Nela os organizadores apresentarão em primeira mão o line-up do festival, que ocorre no dia 22 de setembro. Também serão apresentados o novo conceito, os palcos, as novas ideias de utilização do espaço da Usina 5, e algumas surpresas que farão parte da TribalTech neste ano. “O público ainda não conhece todo o potencial da Usina 5. Desta vez o festival ocupará 100% do complexo, com alguns palcos mudando de lugar e diversas novidades que tornarão o festival ainda mais interessante e culturalmente diversificado”, completa Jeje. A cerimônia contará com a intervenção artística de Beatriz Braun, Leonardo Valentim e Renam Canzi, integrantes da Redoma, agência de artistas que teve presença marcante na última edição da TribalTech. Durante a Timetech 2018 o espaço será aberto ao público.
Neste sábado quem esteve presente no Warung Beach Club pôde vivenciar outra grande apresentação que passou por sua tradicionalíssima cabine, uma das mais imprevisíveis que presenciei. Quem acompanha a trajetória de Marcel Dettmann sabe de sua capacidade de pesquisa e o quanto isso enriquece suas apresentações, além de sua excelente técnica, é claro. Também o reconhece por ser um dos grandes expoentes do techno mundial, geralmente o viés escolhido por ele para conduzir suas histórias. Acompanhando-o em suas redes sociais foi possível notar uma maior inclusão de diferentes vertentes nos últimos anos, que antes eram menos exploradas ou usadas apenas em momentos especiais, pois convenhamos: é muito difícil entender como funciona o feeling do artista nos momentos de apresentação, já que isso envolve uma relação individual diante de vários aspectos que vão além da música.
Em sua primeira passagem pelo clube ele mostrou seu cartão de visitas, fazendo uma apresentação recheada com linhas densas e melódicas, carregadas com muito peso, criando-se uma verdadeira hipnose. Naquela ocasião ele foi uma das grandes estrelas do ano, o que fez com que seu retorno fosse aguardado com carinho por grande parte do público. Com o anúncio desta nova data grandes expectativas se criaram, não só pela volta de Marcel, mas pelo fato de que Nina Kraviz também seria headliner no Inside e porque eu estaria presente comemorando 29 primaveras ao som de artistas que tenho grande respeito.
Entrei no clube por volta das 01h e me direcionei ao palco principal, onde o alemão iniciava a sua apresentação e por onde eu estive a noite toda, ao lado de amigos que celebravam comigo esse momento. Suas primeiras faixas me lembraram muito as características da apresentação anterior, mas conforme o set progredia o cenário mudava completamente. É de suma importância salientar que nunca assisti um Dettmann tão leve e feliz, optando por uma postura totalmente carismática, com danças e grande interação com o público do front-stage, contrastando com seu lado sério e frio. Isso refletiu em sua apresentação, que embora tivesse seus momentos densos, era dominada pelos sons dançantes.
Além desta predominância, foi emocionante ver um Dettmann extremamente eclético, apresentando um set em que inicialmente parecia não ter sentido lógico algum, mas que fez sentido e encantou, fazendo a pista vibrar a cada virada. Ele optou por uma apresentação extremamente arriscada, que embora tivesse sua identidade bem definida não seguia algum rótulo específico, dava pra sentir que de certa forma as faixas selecionadas vinham de um túnel do tempo da sua experiência com o meio. Marcel estava tocando música, antigas e novas, misturando house, techno, trance, disco, electro, synthpop, breakbeat. E mais incrível foi ver as pessoas entregues, dispostas a consumir o que ele apresentava.
Dentre os vários clássicos apresentados acredito que Enjoy the Silence, do Depeche Mode, tenha chamado mais a atenção do público presente, que cantou junto em um dos seus momentos old school. Ele conseguiu encaixar a música original de forma brilhante em um edit, remix ou até mesmo mash up feito na hora, deixando-a mais ritmada. Todo o sentimento nostálgico causado pelas pessoas em minha volta estarem cantando junto deixou o momento ainda mais especial!
É nessas horas que reflito o quanto artistas como Marcel Dettmann nos ajudam a mudar a nossa forma de pensar e evoluir. No Brasil é muito comum as pessoas ficarem presas a nichos específicos, deixando de vivenciar a grande gama de experiências que poderiam ser absorvidas e apreciadas caso ampliassem seus leques de possibilidades. Confesso que já pratiquei muito disso no passado e não falo isso somente na música, mas de maneira geral: é como se vivêssemos em um condicionamento social que nos guia a isso e desvincular-se é algo muito difícil. É legal você olhar pra frente e ter a sensação de ser surpreendido por algo que muitas vezes foge da sua compreensão – de olhar pro seu amigo ao lado e falar “cara, o que ele está fazendo?“. A música, assim como as mais diversas formas de arte, nos permite esse sentimento e é com ele que eu admirava cada faixa apresentada.
Já próximo do final de sua apresentação Nina nos brindou com um b2b inesperado com o alemão, pois confesso que não esperava vê-los tocando juntos. Nesse momento a experiência se tornou ainda mais rica, foi muito legal ver a russa cedendo parte de sua apresentação para que seu amigo continuasse, afinal ele merecia – e muito! Penso que em terras tupiniquins Nina tem uma popularidade maior do que Dettmann e esse tipo de espaço ajuda artistas como ele a terem uma melhor entrega e maior adesão. Afinal, com mais de 3 horas de apresentação você já tem uma noção do que seria um long set, assim como já assisti Kraviz fazer coisas magníficas em momentos nos quais se apresentou com o tempo prolongado. E o mais importante: era nítida a felicidade deles de estarem juntos no palco. Já próximo às 5h a russa então assumiu de forma individual e seguiu com um bom ritmo, dando sequência ao que foi impresso anteriormente por eles, fechando com chave-de-ouro uma das noites que levo com maior carinho nessa década como frequentador do Warung.
O Brasil é conhecido no mundo por ser o país do futebol, da caipirinha e, claro, do famoso carnaval. Os primeiros indícios das festas remontam do século XVII com a introdução do entrudo português, que é como eram chamado os grandes bonecos que faziam desfiles nas ruas. Com o passar dos anos os desfiles passaram a ser proibidos pela polícia, devido à violência de rua gerada. Na virada do século XX os entrudos foram substituídos por corsos, onde grupos de elite das cidades se fantasiavam e decoravam os seus carros de acordo, fazendo assim os primeiros desfiles de carros alegóricos de escola de samba.
Foto: Reprodução.
Aqui no sul do país a cultura tradicional do carnaval não é tão celebrada quanto em outras partes do território nacional, por isso muitos aproveitam o período para festejar de acordo com a programação de casas noturnas da região ou optam por viajar para longe do agito diurno e/ou noturno. Na Praia Brava, mais precisamente no Warung Beach Club, a programação estava repleta de nomes conhecidos, artistas nacionais e internacionais que coroaram as três noites de folia eletrônica.
Logo na primeira noite o selo espanhol Rumors criado por Guy Gerber em 2014, enalteceu o Garden trazendo as estreias de Acid Mondays e Bill Patrick. Minha ansiedade maior era por Bill, que em outubro de 2015 cancelou a sua vinda. Entrei tarde no club porém felizmente consegui ver a parte final do seu set. Transitando por uma linha mais voltada para o tech house com leves pitadas de progressive, soube levar e entregar muito bem o Garden para as mãos do anfitrião daquela noite.
Foto: Ebraim Martini
Por saber como seria a proposta de Guy Gerber, optei por ir ao Inside acompanhar o set de Renato Ratier, nome por trás do D-Edge, lendário club que fomenta a cena eletrônica de São Paulo. Assim que comecei a subir as escadas, me familiarizei com o som de Johannes Heil – B2. Adotando uma postura 100% voltada para o techno, Renato introduziu diversas faixas do gênero criado em Detroit, deixando assim todos muito bem preparados para o que viria a seguir.
Foto: Ebraim Martini
Nicole Moudaber é natural da Nigéria, trabalhou por vários anos promovendo festas em Beirute, capital do Líbano. Após um longo período de aprendizagem foi apadrinhada por ninguém menos que Carl Cox, que como seu mentor a ajudou a encontrar o seu estilo musical. Figurou como anfitriã de vários afters parties até assumir a linha de frente de festas de clubs famosos da Espanha como Space e DC-10, não demorando muito para seu nome chegar ao line-up dos grandes festivais. No Inside ela estava muito à vontade, dona de um carisma único sua presença pode ser notada de longe, seja pelo seu estilo de discotecagem, seja por seus cabelos cacheados, sempre armados e acompanhados do seus óculos escuro.
Não demorou muito para uma chuva de músicas estarrecedoras e assombrosas começar a ecoar por dentro do Inside, indo contra o período carnavalesco que sugere mais alegria, Nicole não poupou os ouvidos do público e optou por seguir uma linha de techno mais industrial. O trabalho de um DJ consiste basicamente em entreter o público que sai de casa para se divertir, dentro deste contexto se introduz uma história e através disso toda uma atmosfera se cria e se renova música após música. No set dela não foi diferente: na primeira noite de carnaval músicas de artistas consagrados como Len Faki e Ben Klock e até algumas de autoria própria soaram de forma esplêndida dentro do pistão. Dos inúmeros trunfos que ela tinha na manga, o que mais me chamou a atenção foi Scuba – Family Entertainment (Øphase Remix), tocada na transição da noite para a dia.
O meu desejo neste instante era de permanecer ali e acompanhar até o fim a sua performance, mas sabia que era hora de descer as escadas para ser surpreendido por Guy Gerber. O Garden é um palco mais aberto, onde o público fica mais à vontade, o que se intensifica quando a Rumors assina e muda toda a decoração. Se durante a noite a experiência visual já estava bonita, durante o dia se tornou melhor ainda, era possível ver com detalhes todos os arranjos postos, flores e toda a arte feita para receber este selo. Gerber possui produções únicas que destacam muito a sua capacidade de prender o ouvinte, logo que me estabeleci fui bombardeado com Secret Encounters, track de autoria própria dele lançada em 2016 pelo seu selo.
Alguns minutos passados, não bastando toda a euforia de ver a festa se encaminhando para o seu desfecho, às 8hrs da manhã eis que surge Here Comes The Rain – Deniz Kurtel, me fez voltar 4 anos no tempo e relembrar aquela apresentação dele de final de ano. No mundo dos DJs acontece muito de uma música ser tocada várias e várias vezes sem ser lançada, esta por incrível que pareça foi lançada apenas no passado. E foi assim, com esse sentimento de nostalgia que o Garden deu as boas-vindas ao carnaval.
Foto: Gustavo Remor
Para a segunda noite as energias já estavam um pouco esgotadas e era necessário se resguardar, pois na noite seguinte haveria mais uma festa, por isso encontrei rapidamente um bom local no Inside e por ali me estabeleci. Acompanhei o live inteiro de Recondite e realmente, é uma pena ser apenas 1 hora. Um setlist repleto de músicas produzidas por ele mesmo, acompanhado de uma categoria e uma maneira absoluta de gerenciar todos os seus recursos, digno de uma noite Spectrum.
Foto: Gustavo Remor
Logo nos minutos iniciais a exuberante Warg mudava o clima da noite, subitamente nos vimos entrando em uma imersão que se aprofundou ainda mais com Wist 365. Neste momento eu sabia que deveria permanecer ali contemplando toda a obra sendo construída, o “tijolo” final para santificar toda a sua construção foi Phalanx.
Sempre que vejo o retorno de um grande nome me pergunto: Vai ser bom? Será ruim? Talvez aceitável? Na dúvida deixo a expectativa de lado e tento me surpreender, quando se trata de um artista como Joris Voorn nenhuma das alternativas se aplica, pois ele é uma mescla de vários estilos. Diferente da proposta introspectiva adotada por Recondite, Joris optou por jogar em vários campos da música eletrônica, como por exemplo a clássica e insuperável releitura de Tiesto para Adagio for Strings. Poucos sabem, mas a música que o inspirou vem da obra de Samuel Barber e foi orquestrada em 1936, Tiesto a adptou e a transformou em um dos clássicos supremos do euro trance.
Depois de uma rápida passagem pelo bar, fiz um bate e volta no Garden e pude conferir um pouco da proposta de Black Coffee, que teria sido mais agradável não fosse a chuva que assolava a noite. Presenciei muitos rostos sorridentes e contentes com toda a sonoridade que o africano estava apresentando, explorando vocais com tribal ao fundo começou a escrever um livro com o público do Warung, que certamente ainda tem mais páginas para serem escritas. Fui presenteado com Keinemusik (Rampa, Adam Port, &ME) – Muyè.
Foto: Gustavo Remor
O Inside sempre traz grandes surpresas, se em um momento você está no euro trance, em outro você pode se deparar com um dos maiores hinos da música: Depeche Mode – Enjoy The Silence. É espantoso e ao mesmo tempo espetacular o efeito que a voz de Dave Gahan tem sobre as pessoas que amam música eletrônica. Logo em seguida mais um clássico, só que dessa vez da house music lá do final dos anos 90: Stardust – Music Sounds Better With You. Seria Joris o camaleão do carnaval? Vestindo a fantasia de inúmeros estilos musicais e acertando muito bem em cada escolha? Talvez, mas o encerramento do seu set ainda reservava mais uma surpresa: Ringo, tida até hoje como um dos seus maiores clássicos.
Foto: Gustavo Remor
Economizar energias de domingo para segunda valeu a pena, poucas vezes se vê um nível tão alto de profissionalismo e comprometimento quanto o apresentado no terceiro dia. Infelizmente devido ao atraso no voo e a impossibilidade de conexão, Tânia Vulcano que era a artista que eu mais queria ver, não pode vir. Rapidamente o time do templo se pronunciou nas redes sociais e remanejou os horários de Seth Troxler e The Martinez Brothers, fazendo com que a brincadeira começasse às 23h e seguisse com os três até o fim. Não é de hoje que eles se juntam para proporcionar noites recheadas de clássicos, em 2016 no aniversário de 14 anos do Warung eles se reuniram no Garden e caíram nas graças dos que estavam presentes.
Enquanto isso, no Garden estava rolando a estreia de Alex Niggemann, que até então era desconhecido para mim. Mais uma vez deixei o destino encarregado de agradar os meus ouvidos, que já estavam bem calibrados após duas noites. O retorno foi super-positivo, sem dúvidas o melhor nome que o carnaval me trouxe, irei me aprofundar mais em suas produções. O warm up foi feito por Gromma, seguido de Flow & Zeo, mas quem realmente tratou deixar a pista pronta para Nastia foi o alemão Alex. Se no piso superior o house e o tech house iriam imperar, a pista inferior era do techno, daqueles muito bem trabalhados que te deixam hipnotizado e sem palavras. Sem ser muito agressivo ele tratou de deixar todos em ponto de ebulição para que a DJ ucraniana afirmasse mais uma vez seu nome.
Foto: Gustavo Remor
Não é de hoje que as mulheres vem cada vez mais ganhando espaço dentro do entretenimento musical eletrônico, quando se pensa nisso inúmeros nomes são enfatizados como sinônimo de qualidade e acima de tudo respeito. Nastia já acumula um bom currículo, pode se dizer que sua conexão começou a ficar próxima com o Brasil após a sua apresentação na TribalTech de 2014.
O que se nota atualmente é a postura de uma profissional pós-graduada no que faz, que seduz e conduz a pista sem muitas delongas e que sabe manter a elegância em cada mixagem. É extremamente difícil e ao mesmo tempo gratificante não encontrar palavras para definir como foi a apresentação dela: Histórico? Único? inesquecível? São palavras que talvez possam se aplicar muito bem.
Durante as minhas idas e vindas entre o Inside e Garden em uma tentativa de tentar me dividir em dois para extrair o melhor dos dois palcos, eis que me deparo com uma homenagem ao povo brasileiro. Sim, a polêmica Rap da Felicidade de Cidinho e Doca. Antes da criação deste texto analisei a música várias e várias vezes, criada em 1995, explodiu trazendo uma mensagem politizada que mensurava a realidade das comunidades do Rio de Janeiro, onde moradores eram frequentemente desrespeitados pela sua condição financeira. Se aplicada aos dias atuais, nota-se um subliminar pedido de socorro. O funk é algo intrínseco da cultura brasileira e sempre esteve presente, mas nem sempre agradou gregos e troianos, assim como vários outros estilos musicais. Dentro do Warung a recepção por muitos foi negativa: “Como pode um DJ tocar isso? ” Outros falaram: “Isso que é homenagem! ”. Dentro do turbilhão de opiniões geradas, devemos ser gratos pelo trabalho que o DJ tem de chegar aqui, procurar algo que seja nosso e consegui encaixar perfeitamente dentro da sua história apresentada na noite.
Foto: Gustavo Remor
Para o final do set, outra homenagem, de um cantor que possivelmente foi uma das melhores vozes da MPB, Tim Maia. Não é a primeira vez que Acenda o Farol ecoa pelas estruturas do templo, mas sempre que surge, todos cantam e seguem o dia com a certeza de que mais uma noite foi curtida com sucesso.
O carnaval é sempre um período marcado por muitas histórias e experiências que na sua grande maioria sempre deixam saudades, em 2018 a sensação não poderia ser outra. Nossas atenções agora se voltam para a segunda edição do festival holandês Dekmantel que acontece 3 e 4 de março em São Paulo, simultaneamente ao retorno de Marcel Dettmann e Nina Kraviz ao templo da Praia Brava.
Foram 7 anos de jejum desde sua última vinda para o Warung, que foi em janeiro de 2011, na época com o projeto híbrido de live + dj set chamado LBS. Desta vez tive a oportunidade de vê-lo duas vezes: primeiro em SP, na Tantsa, e na sequência aqui em Santa Catarina no Warung Beach Club, onde todo o ambiente e o clima proporcionaram uma entrega bem mais fiel ao que ele se propõe a fazer.
Laurent é o cara que conhece mais a música popular e GENUÍNA brasileira do que eu e muito tupiniquim. É isso que dá a ele gabarito para de manhã poder tocar uma faixa de samba original, que no contexto se fez parecer tão coerente e ao mesmo tempo não apelativa. Méritos também da pista que possibilitou isso naquele momento. É clássico dele propor esse tipo de mistura, que não se faz apenas querendo, tem que PODER fazer. Pra isso ele é um exímio entendedor de tudo que se possa imaginar. Entusiasta do “bass culture”, sempre tocou faixas de dubstep e drum and bass no meio dos sets, por exemplo. Universos totalmente distintos e até desconhecidos pra muita gente se fazem juntos nas mãos dele.
Salsa e Jazz também entram no bolo, muita gente ainda deve estar se perguntando que versão foi aquela de The Man With The Red Face que ele tocou no final. Como eu acompanhei bem de perto o projeto LBS (Live Booth Session e também as iniciais de Laurent, Benjamin e Scan X) que durou aproximadamente de 2009 a 2012, eu imagino que essa versão tenha sido um take tirado de alguma sessão e fatalmente “unreleased”. Quem teve a oportunidade de presenciar as apresentações do extinto projeto sabe o quão sério era, especialmente quando uma linha muito fina impede uma ideia interessante sobre unir jazz com techno de se tornar brega e forçada.
Como se não bastasse, ele ainda é, como o próprio diz, um “Detroit Guy”, que tem o real respeito de todos os caras de lá. Há muitos idos atrás ele já fazia turnê com o Jeff Mills numa proposta de só tocar funk, jazz, hip hop e porquê não uma faixa ou outra de techno no meio. Isso por si só diz muito a respeito de toda a ligação, respeito e atenção dele com a diversidade dos gêneros, coisa que em breve talvez seja extinta da essência dos DJs. Nós precisamos reconhecer que estamos numa era onde acompanhamos muitos produtores de estúdio se apresentando em clubs e festivais fazendo DJ sets, e bem menos DJs com essência de DJ. Isso acabou sendo uma tendência natural do mercado, mas é importante sabermos que são duas expressões com sensibilidades bem diferentes. Quem teve a oportunidade de ver a apresentação do Laurent no Warung pode talvez constatar como uma linguagem de expressão tão básica e clássica ainda funciona e convence.
De fato existe um valor subjetivo e intangível sobre o que você pode por de valor em cima de uma música que você toca, ou na forma como você compila um set. Afinal, se isso não existisse seria muito fácil qualquer um aproveitar e viver apenas da benção dessa era de charts, Shazam e tracklists abertos. Há muito mais para ser interpretado, muito além de apenas conseguir tocar por horas sem provocação nenhuma de nuances. Da mesma forma quando falamos sobre hit, há uma série de fatores que mudam a percepção sobre ser um apelo ou ser algo com propriedade.
Ver Garnier nessa última apresentação foi assistir alguém colocar muita personalidade e acreditar muito no que está fazendo, algo que ele faz muito bem. Pra quem está acostumado a fazer all night longs há mais de duas décadas (como por exemplo no extinto The End Club em Londres), 5h de set pode ser considerado viagem curta. A sua marca registrada de mesclar o melhor dos mundos independente de rótulos e de pregação de regra foi apenas confirmada no Warung. Gerações atrás isso era mais comum, na cultura do que era ser um DJ, a segregação e o fanatismo foram surgindo com o tempo. Caras como ele, Hernan Cattaneo e mais uma meia dúzia podem ser considerados atemporais e fora de discussão sobre o que pode ser ultrapassado.
Enfim, essa noite no Warung foi o dia pra misturar os clubbers velhos com a nova geração, regados a um gostinho de velhos tempos. Afinal, a cozinha francesa é base de tudo, independente do quão inovadora a culinária seja 😉
Depois de uma onda de festivais comerciais internacionais aportando no Brasil em meados desta década, no ano passado o selo holandês Dekmantel veio para ser um dos primeiros a apresentar uma curadoria conceitual e inovadora. Desde o Sónar SP 2012 que não se via um festival apresentando nomes como Nicolas Jaar, Jeff Mills e Moodymann, só pra citar alguns. A estreia foi um sucesso e criou um grande desafio para 2018: como manter o nível e a linha evolutiva da proposta apresentada pela curadoria anterior?
A primeira novidade está na mudança de locais: a edição de estreia no Jockey Club de São Paulo foi ótimo “cartão de visitas”, mas um lugar inóspito e místico como as ruínas do antigo PlayCenter irão dar uma atmosfera mais underground ao evento, efeito percebido recentemente em eventos como DGTL e TribalTech, que ocuparam espaços semelhantes em suas edições de 2017. Enquanto isso as festas noturnas, que ano passado foram realizadas na Fabriketa, agora respiram ares opostos no Anhembi, complexo de espaços para eventos localizado na zona norte paulistana.
Para dar vida a ambos espaços, mais uma vez a curadoria buscou apresentar uma grande cota de novidades e artistas visionários, temperada com certeiras opções entre os nomes que ganharam relevância em nosso país. Um dos retornos mais aguardados é o do Modeselektor, que passou os últimos anos em hiato por seus integrantes estarem dedicados ao Moderat. A dupla virá para apresentação em DJ set, em uma viagem experimental que deverá ter o mesmo toque agressivo do que lançam em seu selo Monkeytown. Antes dele se apresenta Mano Le Tough, head do selo maeve e figurinha carimbada nas pistas brasileiras. E falando nelas, o encerramento do 2º dia ficará por conta de Nina Kraviz, que deverá apresentar algo mais surpreendente e intenso que na última edição, quando tocou antes da lenda Jeff Mills. Antes dela toca Marcel Dettmann, residente do Berghain e um dos principais expoentes do techno berlinês na última década. Mais cedo ainda será possível acompanhar ótimas apresentações de outras linhas musicais, como Four Tet, Peggy Gou e Midland.
Nos outros palcos, inúmeras boas opções das quais algumas sequer ouvimos falar antes, mostrando que a proposta de trazer inovação está sendo cumprida. Além do Selectors e do UFO, a Gop Tun, crew brasileira que co-produz o festival com os holandeses, estará presente novamente com seu stage. Confira a programação completa e monte seu cronograma:
Já sobre as festas noturnas, ainda não temos a confirmação da quantidade de palcos e nem da realização segunda delas, embora ela deva ser anunciada com menos antecedência e sem artistas divulgados anteriormente, a exemplo do que aconteceu em 2017. Confira quem toca na noite de sábado no Anhembi:
Serviço
Data: 3 e 4 de março de 2018 Locais: Rua Inhaúma, 263 (Antigo PlayCenter) e Av. Olavo Fontoura, 1209 (Sambódromo do Anhembi), ambos em São Paulo (SP) Ingressos:Eventbrite Links: site oficial / evento no facebook
Um dos períodos mais festivos do ano está para começar e o ciclo carnavalesco do Warung será contemplado por três grandes showcases: Rumors, Spectrum e Circoloco. Todos trazem consigo uma temática específica, contextualizada com os DJs que apresentam.
Rumors surgiu em 2014 como uma festa gratuita nas praias de Ibiza. Idealizada por Guy Gerber, desembarca pela segunda vez no Brasil. Sua primeira aparição por aqui foi no carnaval de 2016, quando trouxe Lauren Lane. A principal característica é a decoração do palco, várias luminárias amarelas, gérberas vermelhas e brancas e até alguns girassóis deixam a experiência visual mais impactante. Gerber já é íntimo do público do Warung, estreou por aqui na páscoa de 2011 com um memorável set de 6 horas, criando assim uma conexão com o templo que se fortaleceu com novas passagens nos anos seguintes. No dia 10 de fevereiro ele vem acompanhado de Bill Patrick e Acid Mondays, no comando do Garden.
Spectrum é um programa de rádio desenvolvido pessoalmente por Joris Voorn, que pode ser ouvido/baixado em diversas plataformas. Com quase um ano de existência, nele Joris aproveita para compartilhar todo o seu extenso gosto musical, transitando entre os mais variados estilos como techno, tech house, house, deep house e até progressive house. Atualmente está no episódio 041 e pode ser conferido diretamente através do site http://jorisvoornspectrum.libsyn.com/. O Spectrum vem para coroar a segunda noite de folia no Inside, além de Joris Voorn traz Yotto e o aguardado retorno do live de Recondite.
Circoloco, assim como a Rumors, surgiu em Ibiza. No entanto sua história começa há muito mais tempo, lá no final da década de 90, quando a ilha começava a dar indícios de que seria referência mundial em festas de música eletrônica, um Club chamado DC-10 iniciava uma ousada proposta. Todas as segundas durante o verão a festa Circoloco aconteceria, não demorou muito para se popularizar e se tornar o destino de vários turistas que a ilha recebe durante a alta temporada. Loco Dice, Luciano e Tania Vulcano são apenas alguns dos nomes que firmaram suas carreiras junto ao Crazy Clown, o emblemático símbolo do Palhaço Maluco é considerado por muitos a referência máxima ao estilo de vida festivo espanhol. Esta é a terceira vez que o núcleo realiza uma festa por aqui, as outras edições foram e 2007 e em 2013. The Martinez Brothers, Seth Troxler, Tania Vulcano e o savageAlbuquerque estarão encarregados de transportar para a Praia Brava todo o clima das festas da ilha europeia.
A programação que o Warung oferece é uma excelente alternativa para aqueles que preferem música eletrônica aos passinhos e hits carnavalescos. Além dos artistas já citados, outros grandes nomes que se apresentarão virão para proporcionar uma experiência sonora ímpar a quem frequentar o templo durante o feriado.
Serviço
Local: Warung Beach Club – Av. José Medeiros Vieira, 350, Itajaí (SC) Ingressos: site oficial
Há cerca de um mês a T2 Eventos pegou todo mundo de surpresa com o anuncio da TribalTech Escape, edição de conclusão da trilogia iniciada em 2014 e inicialmente marcada para encerrar em 2016. Depois de renascer em um dia de muito sol e alegria, no qual diversas tribos se uniram para erguer 12 palcos na TribalTech Reborn, os tempos ficaram obscuros e vieram as lições do capítulo seguinte: desde a instabilidade econômica enfrentada pelo país até a chuva sem precedentes que castigou a Fazenda Heimari, tudo contribuiu para que a TribalTech Evolution ficasse marcada na vida de cada pessoa que passou por ela.
Depois disso tudo, o terceiro capítulo tinha que ser especial. Talvez não tão grandioso quanto os anteriores, mas igualmente marcante. Por isso fomos até a organização do evento para absorver um pouco mais do clima dos bastidores, saber quais são os objetivos da TT tanto para agora, como para os anos seguintes:
1:10 O que aconteceu no período em que a festa foi adiada?
2:25 Cadê o line-up completo?
3:40 Quantas pistas teremos?
5:05 E o local?
6:00 A história termina aqui?
Como podem ver, uma das apostas da organização é em um novo local, que está sendo guardado a sete chaves para o lançamento que Jeje fala na entrevista. O que já se sabe pelas fotos que foram divulgadas em redes não oficiais é que é um complexo industrial abandonado, com diferentes ambientes prontos para serem transformados numa verdadeira ilha de cultura eletrônica, com a criatividade que a equipe de cenografia da festa já demonstrou ter em outros anos.
Assim como quase metade das pessoas que moram em Curitiba hoje, não nasci aqui. Apesar disso, os mais de dez anos que passei na capital paranaense foram suficientes para que eu a abraçasse como lar. Uma das razões que me levam a ter esse sentimento pela cidade é a forma como ela sempre recebeu a música eletrônica de braços abertos, evoluindo com ela a tal ponto que hoje um festival como a TribalTech possa acontecer em plena área urbana, convivendo com outros estilos e culturas sem que seja amplamente negativado pela sociedade local.
Que venha a conclusão da trilogia, pois mais uma vez, o fim será apenas um grande recomeço. Até onde irá esta jornada?
O primeiro semestre de 2017 vem sendo marcado pela retomada do reconhecimento musical no estilo que possivelmente melhor representa a identidade do Templo. Artistas como John Digweed, Guy J, Hernan Cattaneo (Warung Day Festival) e Guy Gerber se destacam nesses primeiros meses do ano com respaldo total do público, que por sua vez, tem sido solícito em relação a nomes com capacidade de retratar sonoridades com maior profundidade, emoção e sinergia na praia Brava. No último dia 21 foi a vez de Guy Mantzur fazer sua aguardada estreia. Ele era um dos djs que mais obteve pedidos nos rankings de comunidades em rede sociais independentes que circundam a marca Warung. Sua notoriedade pela América do Sul ganhou expressão ao nível de colocá-lo como headliner em longsets nos melhores clubes argentinos, como The Bow. Aproveitando mais uma tour do produtor, o templo tratou de finalmente apresentá-lo no pistão.
Mantzur faz parte de uma maravilhosa geração de produtores israelenses - principalmente advindos de Tel Aviv – que foram alavancados por expoentes como Hernan Cattaneo e Nick Warren no primeiro momento e depois atráves da gravadora Lost&Found, sendo hoje talvez a label que detém o maior domínio e representatividade sob o que é chamado de ‘’novo house progresssivo’’. Aproveitando outra tour importante por nosso continente, o club renovou laços com o consagrado DJ Nic Fanciulli, outro nome que conseguiu se reinventar nos últimos anos, voltando a frente da cena global. Seus back to backs com Carl Cox e Joris Voorn, além de seu próprio festival – The Social – tem chamado muita atenção, principalmente por aqui. Após oito anos o inglês estava de volta, e por uma lógica hierárquica, recebeu a honra de fechar o Inside.
A pista do Garden estava recebendo ainda outro DJ de referência. O nova-iorquino Dennis Ferrer era um dos poucos lendários que ainda faltava debutar no clube, por isso merecidamente lhe foi concedido o enceramento. Mantzur recebeu iniciais duas horas e meia de set no inside e mesmo sob manisfetações de insatisfação por boa parte dos seus fãs, a curadoria permaneceu fiel aos princípios de respeito à história de cada um dos seus convidados. Minha visão e entendimento de como funciona a escolha de onde cada artista deve se apresentar é alinhada com a ideia de respeitar o tamanho de cada artista, porém, como no caso de Guy J no carnaval, que mesmo tocando antes de Sharam, recebeu quatro horas e meia de set, entendia-se que Mantzur merecia um pouco mais de tempo para exibir sua música, mesmo em uma estreia. Entendimentos ou não a parte, não hesitei em ir conferir dois artistas que estavam há bastante tempo em minha lista de interesses musicais.
Perto da meia noite eu já estava conferindo o set de Edu Schwartz no Garden. O catarinense tem um bom e refinado gosto, entende bem o que é preciso para fazer uma pista ganhar tamanho. Sua linha de house mostrava por que ele tem sido uma constante nos line-ups do clube, ele é capaz de moldar-se a diferentes estilos que podem vir a seguir. Curtimos seu set até o limite do horário onde Guy Mantzur começaria. A 1h00 quando chegamos no inside, ele estava quase assumindo o comando. Minha primeira observação era sobre qual setup usaria e logo percebi o laptop sendo aberto. Assim como Guy J, Mantzur prefere abrir mão do CDJ para explorar as possibilidades do software Tracktor em quatro canais. Sua entrada foi carregada de efeitos, e as primeiras músicas proporcionaram aquela sensação de que finalmente estávamos ouvindo algo com conteúdo elevado.
Desde os primeiros minutos Guy não escondia sua emoção de estar finalmente comandando o famoso Inside do Templo. O clube não estava lotado, em ambas as pistas era possível aproveitar sem muitas preocupações. Após a primeira meia hora, Mantzur eleva o ritmo e começa a mostrar qual seria sua proposta para a noite, a vontade de tocar músicas que sempre imaginou ali era tamanha, que ele corajosamente largou a construção do set e começou a jogar diversas faixas muito conhecidas do público que acompanha esse estilo.
O final da primeira hora foi marcado por “Children With No Name”, em parceia com Khen, e o remix de “Push Too Hard”. Em seguida as sempre intrigantes “Skywalker” e “Drops Classic” de Guy J. Um verdadeiro show de clássicos do estilo mixados de maneira inteligente e sem perder conexão com todos.
Próximo das 3h00, na metade do set, surpreendentemente entra em cena uma das minhas músicas favoritas nos últimos anos, uma obra sem precedentes que é capaz de emocionar a qualquer momento: “Trigonometry” de Sasha foi a escolhida para ser a quebra regras da noite. Logo depois uma de suas produções de maior sucesso – “Systematika” – faixa que todos já ouviram diversas vezes, mas que sempre tem um gosto diferente pelas mãos do criador.
Eu nunca fui admirador de djs que não se preocupam com a sequência linear do set, porém, devo destacar que Mantzur conseguiu fazer isso sem deixar ficar chato e cansativo, mesclou faixas super populares com outras instrospectivas. Correndo para hora final, ele apresentou alguns sons que mostraram até aonde abrange sua ideia musical, a exemplo da sempre impactante “Interestelar” de Victor Ruiz, minha produção favorita do brasileiro.
Às 3h30, nem sinal de Nic, o israelense então começa a desacelerar bem lentamente até buscar sua mensagem final na magia de “Epika”, música em parceria com seu conterrâneo Roy Rosenfeld. Mesmo ganhando mais meia hora de música, o sentimento era de que ele ainda teria mais a mostrar. A boa notícia é de que já houve promessa por parte de diretoria do clube que na próxima será proporcionado mais tempo a ele.
Nic Fanciulli tinha à sua frente uma pista pronta, quente e sedenta por mais. Durante a semana da festa, comentei com amigos que minha expectativa por seu set seria a de ver ele jogando músicas em um mesmo sentido de quando fez b2b com Sasha, uma sonoridade limpa, porém com elementos capazes de manter a pista conectada.
Nic iniciou com muita personalidade, sua maneira de tocar e mixar são admiráveis, porém acredito que ele perdeu uma grande oportunidade em não ao menos tentar procurar músicas que tivessem um pouco mais de elementos, podendo buscar referências em produções de caras como Nick Curly e Gorge, que estão dentro de seu estilo, podendo assim reconquistar um público que deixou para trás há mais de oito anos. Sua linha de techouse com momentos disfarçados de techno tinha ritmo, era rápida, dançante, mas era perceptível a carência de mais conteúdo que o público sentia, ainda eufóricos pela apresentação anterior. Com mais espaços para curtir, tentei esquecer um pouco o lado analítico e me despreocupar com as questões do que o artista pode ou não apresentar.
Assim, em alguns momentos tivemos boas experiências em seu set, destaco a incrível faixa “Uncompromising” de Adana Twins, uma das mais tocadas no mundo hoje, e que proporcionou o poder esperado na pista do Warung, meu desejo na hora era de que ele pudesse manter o mesmo estilo. Depois das 6h00, poderia destacar “Domino” de Oxia, com recente reinterpretação de Frankey e Sandrino, mesmo sendo um clichê, aquela altura, ouvir algo atmoférico e conectivo, foi um alívio, de fato caiu bem.
O amanhecer foi cinzento, saímos debaixo de chuva, um daqueles Warungs fora de temporada que você vai recordar ocasionalmente e se dar conta no mesmo instante o quanto gosta de determinado estilo de música, seja ele da primeira ou segunda parte, aos presentes: façam sua escolha.
O dia 8 de abril marcou a quarta edição do Warung Day Festival e acredito não falar besteira quando digo que marcou também muitos corações. Já na entrada era possível perceber nos rostos uma expectativa otimista, que as filas rápidas para entrar não transformaram na comum frustração. Longe disso. Adentrar a Pedreira era se ver maravilhado por uma estrutura fantástica, que conseguiu retransmitir a atmosfera do club na Praia Brava ao mesmo tempo em que carregava um quê singular.
Com a benção do dragão, até o clima de Curitiba cooperou. A possibilidade de chuva foi substituída por uma temperatura agradável, céu azul e um sol que esquentava ainda mais o caloroso festival. Quando escureceu, pôde-se ver melhor as luzes e projeções que estavam coisa de outro mundo, transportando os presentes para outra dimensão. Não bastasse tudo isso, havia a lua; um luar de tirar o fôlego! E haja fôlego para doze horas de música de uma curadoria capaz de agradar a gregos e troianos, comChris Liebing, Hernan Cattaneo, Nicole Moudaber, Roman Flügel e Stephan Bodzin, entre outros artistas de destaque ou em ascensão na cena, cada qual cumprindo seu papel em tornar esse WDF completamente inesquecível.
Agora se o tempo e a decoração tinham um toque de mágico, a organização, embora boa, poderia ter usado alguns de seus truques. No início da festa parece ter havido uma instabilidade no sistema e o resultado disso foram grandes filas para comprar as fichas de bebida. Só que ninguém quer perder uma ou duas horas para ficar na fila do caixa e ainda ter que pagar 10 reais por uma água ou 15 por uma cerveja… Eis que, diferente dos preços, do meio da festa em diante as filas ficaram razoáveis e, apesar desse começo conturbado, os semblantes sorridentes estavam por todo lado.
Antes de falar dos palcos e das principais apresentações vale comentar rapidamente sobre a estrutura de suporte, que contou com lounges de convivência, para dar aquela merecida descansada às pernas, e uma avenida de food trucks, afinal, ninguém é de ferro. Também havia vários banheiros, que, apesar de algumas críticas, a meu ver foram mantidos limpos à medida do possível.
Tirando o teto do Pedreira Stage que balançou um bocado, a acústica em si dos palcos estava boa, de modo que dentro de cada um não se podia ouvir o som dos demais. Os artistas foram divididos entre Warung Stage, Pedreira Stage e Garden Stage, mas foquei apenas nos dois primeiros, o que já foi tarefa difícil quando se tem Stephan Bodzin tocando ao mesmo tempo que Nicole Moudaber, e Hernan Cattaneo começando apenas meia hora antes de Chris Liebing.
Dos destaques do dia, ouvi diversos elogios direcionados à DJ brasileira ANNA no Pedreira Stage, contudo, não poderia deixar de conferir a apresentação de Roman Flügel, que acontecia ao mesmo tempo no Warung Stage. Ainda em plena luz do dia, o alemão foi construindo seu set meticulosamente. Conforme elevava a energia, demonstrava toda sua técnica e experiência, hipnotizando o público. Uma aula de originalidade e um “aquecimento” para se levar na memória.
Ainda no WS, o tão esperado live de Stephan Bodzin não decepcionou. Como diz o ditado: quem sabe faz ao vivo. Só que quem faz ao vivo não é imune a falhas e seu set travou duas vezes. Mesmo assim, Stephan não pecou em qualidade e conseguiu escrever uma das grandes histórias do WDF, visivelmente se entregando e transmitindo uma energia incrível a um imenso e cativado público.
Confesso, porém, que testemunhei menos do que gostaria do genial Bodzin, visto que no Pedreira Stage Renato Ratier aquecia os ânimos para a entrada de Nicole Moudaber, que entrou fervendo, com seu estilo único, de som intenso e vocais bem colocados. Penso que a maioria já esperava dela uma apresentação memorável, mas a DJ conseguiu superar as expectativas. Ainda assim, me peguei refletindo que 2h de apresentação foram pouco e um long set conseguiria melhor explorar todas as suas nuances. Acabei não ficando para ver sua finalização, pois no Warung Stage tinha encontro marcado com um maestro.
Hernan Cattaneo fez uma entrada triunfal e todos foram arrebatados já nas primeiras notas. Até o momento que consegui acompanhar, sua apresentação estava belíssima como de costume, com elementos melódicos e batidas delirantes. Praticamente um totem do Warung Beach Club, era apropriado que o maestro fechasse o palco principal (e soube que o fez com a envolvente Phases – H O W L I N G), no entanto precisei me ausentar para ver aquele que, para mim, foi o nome da noite.
Chris Liebing é um dos artistas mais respeitados do techno mundial, e não é por menos. Sua apresentação no Pedreira Stage foi surreal, um espetáculo à parte. Uma experiência sensorial através da qual mesmo os corpos mais cansados não conseguiam ficar parados. Depois de um tempo de puro fascínio, vi em mim e a meu redor surgir uma ansiedade: a versatilidade de suas viradas e seus timbres pesados prenunciavam o fim. Mas Liebing não nos deixou baixar um instante sequer, encerrando no auge, com o público extasiado em uma sensação geral de gratidão.
Uma gama de bons artistas, palcos imersivos, gente bonita e (na sua maioria) educada unida por um motivo muito humano: o amor pela música. Na minha opinião isso resume o Warung Day Festival, um evento já consagrado que chega a ser difícil de sintetizar tamanha evolução e importância para a música eletrônica e sua expressão cultural.
Assim, o WDF 2017 já deixou saudades e uma certeza em mente: ano que vem temos um novo encontro marcado em Curitiba. Até 2018!
Nós já lhe demos alguns motivos para não perder o Warung Day Festival, evento que promete juntar fãs da música eletrônica de todo o Brasil na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, e agora reunimos depoimentos de alguns detroiters e parceiros, com suas expectativas e dicas de quais apresentações você não pode perder nesse dia histórico:
Chris Liebingpor Eduardo Roslindo “Chris é referência para muita gente quando se fala em techno, além dele ser incrível dentro e fora dos palcos. Lembro de uma situação na qual rolou um problema com o som enquanto ele tocava e o público rapidamente começou a vaiar o técnico responsável. Momentos depois, Chris percebeu que o causador do problema foi ele e rapidamente admitiu seu erro, chamando o responsável pelo som e pedindo para que todos o aplaudissem. Poucas pessoas nessa situação fariam isso e esse é um dos motivos do porque eu o adoro – além do seu som, é claro. Liebing possui uma variação do techno muito interessante, explorando diferentes tipos de humor e conta um processo criativo que, somado a um setup peculiar, possibilita uma constante criação de novos elementos durante a sua apresentação.”
Hernan Cattaneopor Jonas Fachi “Acredito que Hernan Cattaneo não poderia chegar em momento mais apropriado ao Warung Day Festival que, prestes a completar sua quarta edição, promete definitivamente se consolidar como um festival à altura do seu público. Hernan carrega a essência do clube em seu DNA musical e, por mais improvável que pareça, é curioso olhar para trás e ver que ele encontrou sua casa em uma pequena praia do litoral brasileiro, há mais de 10 anos, e ali criou uma relação simbiótica que se tornou única tanto para a pista triangular como para muitos de seus frequentadores, onde me incluo. Após três décadas ainda apresentando o mesmo nível de consistência e determinação que o levou de Buenos Aires aos quatro cantos do mundo, penso que sua importância para o desenvolvimento do cenário em nosso continente é incalculável. Em Curitiba Hernan será apoiado por uma legião de seguidores em sua missão de tentar transportar um pouco de toda essa história para o encerramento do Warung Stage. Ao meu ver, a fórmula parece infalível.”
Nicole Moudaberpor Danee “Eu amo a Nicole Moudaber e se posso dar uma dica é: não percam o set dela no Warung Day Festival! Já considerada um dos grandes novos nomes no cenário mundial, Nicole é uma figura exótica, uma mulher poderosa e determinada que se colocou num mercado predominantemente masculino com muita personalidade, não só pela sua cabeleira que chama atenção, mas principalmente pela postura como artista e som que representa. É um dos nomes mais celebrados em Ibiza, onde residia as festas de Carl Cox na Space. Seu selo ‘MOOD’ lança muita coisa legal, que casa perfeitamente com meu estilo também. Recentemente passou pelos palcos do Warung e deixou tantas saudades que já está de volta, com mais uma apresentação que irá entrar pra história.”
Roman Flugel por Hencke
“São mais de 25 anos de amor e aprendizado que dispensam comentários sobre os lançamentos e remixes de Roman Flugel para os principais selos de todo o mundo. Roman é, na minha opinião, um dos artistas mais expressivos do mundo e um dos maiores nomes da cena da música eletrônica alemã. Se trata de um artista completo e versátil que é referência para a música e a carreira de diversas gerações de produtores e DJs. Com uma originalidade intensa e marcante, quando menos você perceber o seu baixo de LFO te alucinará, massageando a região do peito e estômago. Os seus sets são profundos e traduzem sentimentos em sua real personalidade, uma história analógica em delírio que formam sopros de melodia, techno, house, italo-disco e obscuridades. Roman é uma figura com um talento único e facilmente reconhecido em suas apresentações ao vivo. Sua música tem o poder de impressionar variados ouvintes, até mesmo os que sempre o acompanham!”
Stephan Bodzin por Mohamad Hajar “Para alguns Stephan Bodzin é uma novidade, já que o alemão conquistou o mundo com seu último álbum, Powers of Ten. Já para aqueles que, como eu, mergulharam no mundo eletrônico pelas raves do final da década passada, ele é quase como um mestre. Digo isso porque apesar de atualmente não estar mais tão envolvido com a linha que Bodzin toca, ele foi um dos grandes responsáveis pela abertura da minha mente para sonoridades diferentes, para o que viria a se tornar a minha própria linguagem de expressão. Os tempos são outros e talvez eu não vá ouvir os mashups de Rekorder, seu projeto com Oliver Huntemann, com faixas do Liebe Ist, seu álbum de estreia, mas tenho certeza de que será memorável, pois se tem uma coisa que esse maluco sabe fazer bem é apresentar-se ao vivo. Vale a nostalgia e a reverência!
Depois de depoimentos tão intensos, fica difícil querer ficar de fora dessa. Ainda dá tempo de garantir seu ingresso em uma das redes credenciadas. Nos vemos na pista!