Categoria: Cena

  • A fábula de Tale Of Us no templo

    Com a chegada do inverno, a expectativa para noites intimistas no Warung é inevitável. A primeira delas podemos dizer que foi a do dia 30 de maio, quando o duo Tale Of Us comandou o main room por 4 horas seguidas. Foi um final-de-semana deveras especial: boa parte do detroitbr estava em outro nível de diversão, curtindo o Time Warp Buenos Aires (que terá review por aqui logo mais), enquanto eu estava no templo, recebendo fortes cargas emocionais causadas pela interação do set do Tale com a minha realidade. Por conta disso, neste relato contei com a ajuda do grande amigo Bernardo Ziembik, que nos brinda com a sua visão, mais sóbria.

    Não entramos juntos, mas nossa noite dentro do clube começou pontualmente às 23h50. Enquanto a dupla Aninha e Antonela se apresentava no main room sob a alias SIDE A, optamos por conferir o set do amigo Danee. O soundsystem e o groove já batiam forte, o bpm era baixo e o warm up foi propício ao clima. O set foi gravado e está na internet – ouvindo só consigo tirar uma conclusão: que pena não ter conseguido conferir na íntegra lá no Garden! Logo após ele, o alemão Gorge, dono do consolidado selo 8bit, trouxe a sua pitada deep house – set bem elaborado, contextualizado com o que viria em seguida (Phonique), mas um pouco desconexo da sonzeira que o brasileiro havia mandado anteriormente. Apesar disso ele se mostrou um artista muito completo, e que já deveria ter se apresentado muito antes no clube.

    Já eram quase 3:00 da manhã, hora de ir para o main room conseguir um lugar decente para assistir as estrelas da noite. No entanto, uma grande surpresa: não havia espaço algum nas “primeiras fileiras”! Nos contentando com o que foi possível, começamos a assistir Tale of Us do meio da pista. Os misteriosos Matteo e Karm já haviam se apresentado no templo no ano passado, porém, não com a agressividade que trouxeram nesta noite.  O set começou como muitos disseram ser um costume deles: “matando” toda a vibe anterior da pista, para que uma nova atmosfera fosse construída do zero – alguns apressados até começaram a mostrar sinais de desânimo, mas aos poucos a história começou a ser contada, e tudo passou a fazer mais sentido.

    É difícil explicar porque foi genial. O repertório era rico, mas não impressionante. A técnica era boa, mas longe de ser um KiNK da vida. Mas as 4 horas foram de pura hipnose! No meu Facebook eu disse que o Tale “deu uma aula de como contar uma história com o set” – talvez seja a descrição mais próxima do sentimento que me fez creditar a estes dois o título de melhor apresentação do ano no templo (um ano que já teve Ben Klock, Nina Kraviz, Stimming e muitos outros). Nas duas últimas horas de set a sensação era a de que tudo convergia na criação de uma grande expectativa para o final, e os fãs já estavam assumindo que seria com o mais recente hit deles, o remix para Primative People, de Mano Le Tough. Ledo engano! O Sol já tinha nascido, a pista já estava confortável e eu já estava abraçado ao acrílico quando veio a hora do encerramento surpreendente: primeiro Bad Kingdom, música do Moderat em versão remixada pelo DJ Koze, que diz exatamente “this is not what you wanted, not what you had in mind”, e depois o bis, com Turn Around, música de Sailor & I que ainda não foi lançada, em versão remixada por Âme.

    Nessas horas que vemos a beleza de uma arte abstrata: não haviam personagens, cenários ou detalhes do enredo bem estabelecidos. Cada pessoa na pista inseriu sua própria realidade nessa “espinha dorsal” simples, que tratava apenas de uma grande expectativa, primeiro frustrada e depois compensada de uma forma diferente da esperada. Um set ouvido com os olhos fechados, a maior parte do tempo! Voltando ao Garden e à realidade, um dos queridinhos e mais conhecidos DJs a se apresentarem no Warung estava de volta. Phonique seguiu a atmosfera proposta por Gorge e finalizou a festa com um b2b ao lado de Diogo Accioly.

    Depois dessa grande e surpreendente festa, a próxima parada agora é um um capítulo chave da nossa história. Dia 20 de junho Seth Troxler e Mano Le Tough iniciam os trabalhos que culminarão no detroibr #003. Já estamos contando os dias ansiosamente 😀

  • Warung reúne 9 mil pessoas em seu festival na Pedreira Paulo Leminski

    No último sábado muitos curitibanos puderam realizar um sonho: curtir uma rave – ou um festival de música eletrônica, como alguns preferem chamar – na Pedreira Paulo Leminski, tradicional centro de eventos que já recebeu artistas de diversos estilos e do mundo todo, e que faz parte da história de qualquer um que viveu na capital paranaense nas últimas décadas. O responsável por isso? O Warung Beach Club, que realizou seu primeiro grande festival lá.

    O anúncio da festa gerou uma grande expectativa no público: mesmo com a reabertura da Pedreira, ninguém esperava algo assim. Desde 2004, quando o Creamfields realizou uma edição lá (com direito a Paul Oakenfold e Groove Armada), não acontecia algo parecido, e boa parte das pessoas que hoje vivem esta cena ainda estavam na fase rock n’ roll dez anos atrás (eu incluso). Pois bem, ao chegar no local, primeira felicidade: a estrutura, que estava ótima. No local aonde normalmente fica a pista dos shows, o main stage: uma grande tenda retangular com um palco grande e muito bem decorado. De um lado, uma grande praça de alimentação e um bar servindo chopp Heineken, do outro lado, os camarotes. Atrás deste stage estava o Pedreira Stage, que abrigou outra pista de dança e possibilitou que muitos subissem pela primeira vez no palco que já recebeu bandas como AC/DC, Iron Maiden e Paul McCartney. Para finalizar, havia ainda um terceiro stage, o Warung Garden, menor e intimista, na beira do lago.

    Depois de “reconhecer o terreno”, começamos a prestar atenção em outros detalhes e detectamos o que talvez tenha sido o único ponto negativo do festival: o sound system, que estava perfeito no Warung Garden e no Pedreira Stage, deixou a desejar no palco principal. Deixou a desejar, mas não comprometeu. O primeiro artista que pudemos assistir com a devida atenção foi Hot Since 82, que cumpriu bem o papel de preparar a pista para a noite.

    Em seguida Paul Ritch começou o “massacre”, com um techno pesado e dançante, abrindo espaço para uma das surpresas da noite: Renato Ratier, que mandou um set mais conceitual do que comumente se vê ele tocar em suas noites no templo. Fechando a noite com chave de ouro, tivemos o privilégio de presenciar Ali Dubfire em uma noite inspirada – coisa que pra mim não acontecia há umas 3 apresentações dele que assisti. O set de 2:30 foi linear e introspectivo, e reflete exatamente o que ele disse em uma entrevista em 2008, antes de tocar no Skol Beats: que gosta de “quebrar” a pista nos primeiros minutos, para reconstruí-la do zero em seguida. O set foi estranho no começo, e se encontrou de uma forma surpreendente no seu decorrer – grande Ali 😉

    Enquanto tudo isso rolava, o Pedreira Stage estava incendeado, devido à apresentação de Amine Edge & DANCE – o gangsta house estava claramente fora de contexto no evento, mas o povo gosta, não é mesmo? A pista não parou um minuto sequer! Outro destaque neste palco foi o live de Ten Walls que, apesar de ter durado apenas 45 minutos, esbanjou qualidade e melodia. No encerramento, Rolldabeetz mandou bem também, sendo uma ótima alternativa ao Dubfire.

    No fim, mais um grande evento para o currículo. Para nós, que já vivemos épocas de 5/6 raves por ano e hoje temos que nos contentar com 2, uma grande esperança. A organização afirma que 9 mil pessoas passaram pela festa, e já confirmou a realização de uma nova edição em 2015. Ao que tudo indica, o Warung Day Festival agora faz parte do calendário permanente de Curitiba, com um conceito diferente de festa, com muitas características importadas de festivais europeus de techno e house. Nós só temos a agradecer!

    PS: se tinha gente fantasiada, era RAVE sim! 😉

    * Informação importante: este review está publicado em uma coluna, o que significa que ele reflete exclusivamente a opinião do seu autor, não coincidindo com a opinião do Psicodelia.org e muito menos com algum tipo de verdade absoluta.

    Créditos: Fotos 1, 4, 5 e 6 por Thiago Nakaguishi. Foto 2 por Divulgação Oficial. Foto 3 por Moha.

  • Marc Houle faz tour pelo Brasil e se reafirma como um dos ídolos do techno

    Abril foi um mês e tanto. Foram três semanas de muita loucura e, é claro, muita música de primeira. A aventura foi iniciada na XXXperience de Curitiba, que teve apresentações memoráveis de Stimming e Visionquest, seguiu para o segundo carnaval de 2014, com o feriadão de cinco dias coroado pelo talento de Hernán Cattaneo, H.O.S.H e Stimming novamente, e finalmente concluiu sua maratona no último final de semana, com as apresentações de Marc Houle no The Garden e no El Fortin, ambos em Santa Catarina.

     

    A terceira parte da trip começou na sexta-feira à noite. Apesar de termos saído de Curitiba com tempo de sobra, um acidente nos manteve 4 horas parados na BR-376. Perrengue superado, chegamos a tempo de comprar umas fichas, ir ao banheiro e se posicionar diante do palco, pois Marc Houle começaria a tocar em 10 minutos. O live apresentado lá foi bem competente. Um belo equilíbrio entre hits e lados b e com bastante exploração de recursos ao vivo, como os vocais. Foi a terceira vez que vi o alemão insano tocar, tendo sido a primeira na XXXperience 2010 (no lendário Minus Stage) e a segunda no Danghai Club, quando inclusive fizemos o warm-up para ele – diria que este live do The Garden foi mais parecido com a primeira, mas com menos agressividade. Importante notar que o sound system da casa estava aquém do esperado de uma festa deste porte, talvez isso tenha “diminuído” o brilho do artista principal – fica a dica para a organização do evento 😉

    Na pista, vimos um público misto entre frequentadores assíduos da cena e alguns paraquedistas, que com certeza nunca tinham presenciado nada parecido em termos de música eletrônica. Nota-se que é uma cena em formação, e trazer Houle foi uma grande tacada rumo à criação de um público com gostos mais diversificados, além do óbvio que bate ponto em clubs do país todo. Com certeza voltaremos ao local daqui alguns meses e encontraremos uma pista ainda melhor!

    A dura missão de fechar a noite ficou com a DJ Anna que, apesar do seu talento, não conseguiu segurar a pista. Seu set tinha bons momentos, mas parecia não ter unidade, e isso foi esvaziando o club aos poucos.

    No dia seguinte, avançamos mais 120 km no estado vizinho e chegamos a Porto Belo, cidade que abriga o El Fortin Club, um dos maiores do estado. Ao chegar lá já deu pra perceber que a noite ia bombar: cambistas vendendo ingressos em toda parte, e uma fila enorme para entrar. Infelizmente perdemos o warm up da noite, que foi feito por Davi Cecato, mas pudemos apreciar o trecho do seu set na internet:

    Uma vez lá dentro, Kanio já estava se apresentando – e surpreendendo. O britânico percebeu que sua função seria preparar a pista para o artista principal e fugiu um pouco da sua costumeira linha, tocando um techno mais introspectivo e com cara de warm up. Apenas nos minutos finais ele soltou a mão e tocou os hits de minimal que seus fãs estavam aguardando.

    Chegada a vez de Marc Houle, mais surpresas. Se o live de Joinville foi semelhante ao da XXX, este de Porto Belo sem dúvidas foi uma “versão pocket” do que ele tocou no Danghai Club. A atmosfera era ainda mais sombria (contextualizando com o apelido da casa, “trevas”), e ele apostou em mais músicas antigas, da época de Sixty Four, aproveitando-se do público que, em sua maioria, sabia o que os aguardava. O live pareceu mais consistente e o sound system ajudou – algumas pessoas da pista diziam que ele estava “encapetado”!

    Na sequência, a tortura: Groove Delight. De fato tentamos dar uma chance a ela, mas a construção sem começo, meio e fim, sem alma, não foi capaz de nos manter na pista por mais do que 15 minutos. Rapidamente estavamos na outra pista, ouvindo um DJ local cujo nome não sei até agora mandar melhor que ela. A festa se encerrou com Chemical Surf, que até teve um começo empolgante, mas logo já estava em clima de “fim-de-festa”.

    No fim das contas, um fim-de-semana muito proveitoso. Não é sempre que você pode ver duas boas apresentações de Marc Houle, ainda mais passando pela experiência de vê-las em lugares bem diferentes, com público e características bem distintas. O feedback após os eventos está sendo muito bom – pelo jeito, o alemão está cada vez mais no gosto do brasileiro!

  • Warung relembra os velhos tempos com sua programação de Páscoa

    Quem me conhece sabe: nos últimos anos tive uma relação de “amor e ódio” com o templo da música eletrônica. Em 2011 cheguei a colocar uma tip na sua página no Foursquare, dizendo que ele é o melhor club do país – tip esta que fiquei tentado a apagar nos anos seguintes, quando os line-ups e a super-lotação constante me fizeram mudar de opinião. No entanto, preferi manter; eu sabia que cedo ou tarde eu poderia mudar mais uma vez meu pensamento. E este dia chegou.

     

    A programação era bacana, mas longe de ser divisora de águas. Hernán Cattaneo, quase residente, era a estrela da primeira noite, enquanto a segunda noite hospedaria um Diynamic Festival completo. Mesmo assim, depois da festa incrível de encerramento de carnaval (com Innervisions, Ben Klock e Nina Kraviz), resolvi dar meu voto de confiança e tentar novamente, com mente e coração abertos.

    Trupe Detroit BR reunida, hora da verdade. O primeiro dia foi dentro do esperado: um Hernán progressivo como sempre, hipnotizando todo o Main Room com seu long set de 6 horas de duração. Todos os fãs do argentino que encontrei na festa tinham a mesma opinião: ótima apresentação, mas longe de ser a melhor dele. Como eu nunca tinha visto um long set seu, fiquei satisfeito com o resultado – especialmente com a hora final. Quando os raios de Sol invadiram a pista pela sacada a inspiração veio de vez para ele, e os sons melódicos deixaram todos em estado de êxtase.

    Além dele, pudemos conferir o live de Genius of Time. Neste caso, talvez a grande expectativa (e a competição com outro live visto recentemente) tenha estragado um pouco o momento: de fato, uma apresentação muito criativa, porém, curta (menos de 50min) e sem “corpo” – não havia começo, meio e fim, não havia história sendo contada. Bem aquém ao que tocaram no Boiler Room, por exemplo.

    Saindo do Warung, a festa ainda estava longe de acabar: o after Detroit BR rendeu mais de 10 horas de puro techno de primeira, com Danee, Cheap Konduktor, Kultra, Alex KameL, Petrius D e André Anttony. A energia do público presente mostrou que realmente este é o próximo “estilo da onda”, e que quanto mais o Warung (e todas as outras casas da região) investir nele, mais retorno terá.

    Depois de uma longa noite de descanso, era a vez do gran finale: Diynamic Festival. Neste caso, a sensação era oposta do primeiro dia, afinal, como ferrenho crítico da linha de deep house apresentada pela maioria deles, não coloquei expectativa nenhuma na noite. Quase nenhuma: na XXXperience o alemão Stimming havia feito um dos melhores lives que vi na vida, e a esperança era de que ele, no mínimo, salvasse a noite. E o que aconteceu é talvez o que mais me empolga nesse mundo da música eletrônica: fomos todos surpreendidos novamente!

     

    Nesta festa chegamos tarde – a noite mais pop tinha uma fila de carros de mais de uma hora. Após entrar, rumamos ao Garden, para tentar ver um pouco de David August, mas foi impossível. A pista estava tão cheia, que ela terminava já no tablado que dá acesso ao banheiro. A locomoção era impossível, e o conforto era sonho. Depois de alguns minutos desistimos da ideia e resolvemos angariar um lugar decente no Main Room, para acompanhar Stimming com tranquilidade.

    Enquanto ele não começava, pudemos acompanhar um belo set de Adriatique – pesado e envolvente, bem diferente do que estávamos esperando. Elogiamos o garoto, mas nem sabíamos o que ainda viria pela frente! Chegada a hora do auge, primeira surpresa: um live mais acelerado, “pegado”  que na XXXperience. Compreensível, tendo em vista o ambiente indoor e o momento da festa (3:30 da manhã). Uma ótima apresentação, mas os fãs (como eu) sentiram falta da calmaria hipnótica do bom e velho Stimming.

    Porfim, era a vez de H.O.S.H. Nunca fui grande conhecer do trabalho dele, mas o pouco que tinha ouvido estava longe de me agradar. Optamos por assisti-lo devido à superlotação do Garden (e também ao fato de que ele merece mais créditos que o Solomun), e não havíamos tomado uma decisão tão acertada durante o feriado todo! Como quem não quer nada, ele foi subindo o ritmo e quando nos demos conta, estavamos nos divertindo muito em um set com fortes influências de techno (de verdade), com viradas muito bem executadas e progressão idem.

    Às 7:30 o line-up oficial se encerrou e foi a vez dos DJs se divertirem. Adriatique e Phono subiram ao palco, e juntamente com H.O.S.H., executaram um versus de 2:00 repleto de clássicos (de Daft Punk a Trentemoller), seguindo a mesma linha forte e envolvente que estava sendo tocada há 2 horas! Foi um encerramento surpreendente e digno para um dos poucos feriados prolongados do ano.

    Problemas? Existiram, claro. De primeira podemos citar a falta de educação das pessoas que, não satisfeitas em ficarem circulando pela pista o tempo todo, o fazem como se estivessem em uma sala vazia, esbarrando e pisando em tudo e todos. Outro fato chato vivenciado e já citado é a superlotação: adianta investir em line-up e estrutura, se o público vai ficar apertado e incomodado como em um ônibus às 18:00?

    Mas tudo bem, são problemas atemporais e que talvez nunca sejam resolvidos. O fato é que finalmente, depois de 3 anos, estou voltando pra casa orgulhoso da tip que deixei no foursquare. O templo é, mais uma vez, O TEMPLO. A boa música, os bons DJs, o bom público está de volta. E nós, só temos a agradecer!

    Que venha Tale Of Us e o resto da programação da baixa-temporada 😀

  • Afinal, é rave ou festival?

    Pouca gente sabe, mas o termo rave é mais antigo que a própria música eletrônica que conhecemos. Seu primeiro uso foi nos anos 50 em Londres, por parte dos “beatniks”, ou “Beat Generation” – uma tribo que pregava o anti-conformismo e a diversão desenfreada. O movimento nasceu nos EUA pós-guerra dos anos 40, mas o braço londrino que se concentrou em Soho que criou a gíria, que servia para descrever qualquer “festa boêmia selvagem“. 

    Em seguida, o rock psicodélico e as bandas de garagem se apropriaram do termo para descrever suas festas – sem contar na variação “rave-up”, que era a denominação de um momento específico da música no qual ela era tocada com maior velocidade, intensidade e peso. Foi só em 1967 que a “rave” encontrou a música eletrônica, ainda que por intermédio do rock: Paul McCartney organizou um evento no Roundhouse Theatre, de Londres, para exibir Carnival Light, um trabalho experimental dos Beatles que até hoje nunca foi lançado – esta inclusive foi sua única exibição pública. O line-up da noite foi totalmente complementado com música eletrônica, com a participação de alguns de seus pioneiros, como Delia Derbyshire e Brian Hodgson. O nome da brincadeira? “The Million Volt Light and Sound Rave” – podemos dizer que foi a primeira rave de música eletrônica da história.

    Depois do fim da cultura psicodélica dos anos 60, o termo caiu em desuso, até ser revivido nos anos 80, com a explosão do acid na Inglaterra. As festas clandestinas, geralmente realizadas em fábricas abandonadas, recebiam o nome de squat parties, mas o contexto geral ficou conhecido como rave scene. Deste ponto em diante a gente conhece bem a história: muita gente bebeu da água do acid, entre eles o goa trance. No final dos anos 90 esta cena chegou ao Brasil, e começou a realizar seus eventos por aqui – as tais “raves”.

    Adentrando os anos 2000, surgiu uma nova vertente originada do goa: o famigerado psytrance. Com uma palatabilidade maior que o goa, o psy ganhou as massas, e em 2006 as raves batiam a casa das 30 mil pessoas – número digno de Skol Beats, maior evento de EDM da época. E finalmente chegamos ao ponto: três parágrafos para mostrar que rave não é sinônimo de psytrance, e a razão pela qual o brasileiro tem esta idéia equívocada, o que causou bastante confusão nos anos que se seguiram.

    Após esse auge em 2006, o psytrance entrou na fase que todo produto, artístico ou não, entra um dia: o declínio. Para manter as festas cheias, foi necessário apostar em outros estilos, e em 2007 começaram a surgir os palcos alternativos com vertentes derivadas do techno e do house (não que o psytrance não seja indiretamente derivado deles, mas aqui estamos falando de coisas como minimal tech, electro house e tech house). E aí que as raves brasileiras tomaram uma decisão estratégica que mudaria pra sempre a cena eletrônica do nosso país: deixaram a alcunha “rave” de lado, e passaram a se intitular “festivais“.

    A decisão foi fortemente rejeitada pelo público, que tendo aquela idéia deturpada de que só psytrance faz rave, se sentiu “traído” pelas festas que tanto amavam. Porém, do ponto de vista estratégico foi um grande acerto, por duas razões:

    1. Como “rave” sempre foi sinônimo de “festa de psytrance”, mesmo com grandes nomes de techno e house no line-up, este público relutava a ir a esses eventos.

    2. Graças à falta de informação ao sensacionalismo da mídia de massa brasileira, o termo rave também foi muito associado ao uso desenfreado de drogas, o que dificultava muito a aceitação destes eventos por parte da sociedade.

    Após tornarem-se festivais, as antigas raves conseguiram sucesso na pluralização de seus line-ups e, consequentemente, seu público. Com o argumento de que “não é rave, é festival”, tornou-se muito mais fácil obter alvarás e patrocínios, engrandecendo ainda mais os eventos. Três anos depois pode-se ver a consolidação da nova estratégia na festa de 14 anos da XXXperience: um palco principal totalmente homogêneo, que ia de Sasha a Paul van Dyk, passando por Calvin Harris, Dubfire e até mesmo Crew; um palco exclusivo da Minus, o respeitadíssimo selo de Richie Hawtin; um palco exclusivo para house music, assinado pela House Mag; e, como não podia faltar, um palco exclusivo para o psytrance, a semente desta história toda.

    Esta mudança estratégica favoreceu a cena toda, até mesmo os clubs. Com os festivais diversificados, os artistas agora possuem mais opções de gigs, o que acaba viabilizando tours brasileiras de nomes que antigamente eram impensáveis. O próprio público, que antes se dividia entre “ravers” e “clubbers”, hoje é um só, e acaba alternando entre os eventos abertos e fechados.

    A atenção de mídia que estes eventos atraem agora é positiva, geralmente ressaltando o tamanho, o público, a estrutura ou a relevância internacional da festa. Raramente vemos matérias abordando assuntos datados e infundados, como falta de segurança, de estrutura ou de qualificação musical. Nem mesmo os excessos de alguns frequentadores é pauta na imprensa – a não ser quando trata-se de veículos tradicionalmente conservadores e sensacionalistas.

    Se hoje gozamos de um grande otimismo com relação ao presente e ao futuro da música eletrônica no país, muito se deve ao “fim da rave”. No fundo, nós sabemos que ela nunca acabou e nunca vai acabar: seja qual for a denominação do evento ou a vertente que toque, a boemia selvagem, a contracultura, o experimentalismo, a psicodelia sempre vão existir. E se a sociedade é hipócrita a ponto de tolerar ou não uma festa por causa de um simples nome, vamos nos adequar e concentrar as energias no que realmente importa: a essência. Vida longa aos “festivais” e ao espírito raver!