Lá nos idos de 2010 em uma conversa de bar profetizei algo que, na época, fora refutado por quase todos que estavam na mesa: em um momento de empolgação disse que a década de 10 seria o momento no qual a música eletrônica seria reconhecida como uma forma de expressão artística legítima desta geração. A primeira metade seria o momento da massificação, com a tomada do mainstream musical por DJs com foco comercial, enquanto a segunda seria o momento da qualificação, quando o underground emergeria à superfície e, aos poucos, mostraria o verdadeiro potencial artístico da música feita por máquinas. Pois bem, já estamos no sétimo ano da década e o Dekmantel Festival, realizado nos dias 4 e 5 de fevereiro em São Paulo, é a materialização mais clara de que minha aposta foi certeira!
Digo isso não só pela curadoria apresentada, algo que não era visto no Brasil desde o saudoso Sónar SP 2012, mas pelo contexto todo que foi vivenciado no último final de semana. Desde que comecei a escrever no Psicodelia.org, há sete anos, uma das bandeiras que levanto é a de que a cultura eletrônica pode sim ser o grande ponto de ruptura de nossa geração com o sistema imposto, se espelhando nos movimentos de décadas passadas e compreendendo as particularidades da atual, mantendo viva a esperança de que a arte possa ser o ponto de partida para que uma nova sociedade seja construída.
Utopias à parte, podemos não ser os revolucionários da vez, mas temos que concordar que somos uma tribo muito mais elevada intelectualmente do que a Rede Jovem Pan FM tentou sugerir em uma matéria sensacionalista publicada às vésperas do festival, insinuando que ele seria uma rave frenética, com pessoas fazendo sexo nas ruas e sem as devidas autorizações legais para acontecer. Sobre a deturpação do termo rave já falei há alguns anos em outro texto, mas toda a imagem pintada serve de contra-ponto para que eu comece a descrever a minha experiência neste evento, que passei a chamar de ritual, dividido em três atos.
1º ATO: UMA CONVERSA COM O DEUS DO TECHNO
A beleza de um festival de música reside em sua pluralidade. É geralmente nele que encontramos pessoas de diferentes tribos, crenças, classes e com diferentes objetivos convivendo em plena harmonia. Ir a um bom festival é como fazer uma visita ao paraíso, àquele lugarzinho perfeito que nós idealizamos internamente e temos dificuldade em encontrar no “mundo real”. Por isso cada vez que vou a um que sei que irá atender às minhas expectativas me preparo para sentir emoções intensas, vivenciar momentos de epifania e me tornar uma pessoa diferente e melhor após seu término.
No Dekmantel essa sensação começou já na entrada: apesar da chuva, os seguranças mantiveram o sorriso, recepcionando as pessoas com saudações e capas gratuitas. Depois de passar pela revista e validação do ingresso, um rápido giro por todas as pistas foi suficiente para surpreender-se tanto com a forma inteligente que a estrutura do Jockey Club foi aproveitada, criando uma ótima ambientação sem precisar de muita cenografia específica, bem como com o perfil do público presente. É difícil de descrever sem cair na armadilha de estereotipar, dava pra reconhecer diversas tribos com suas particularidades e talvez um único fator em comum: a relação com a música. O radicalismo na curadoria pode ter espantado a grande massa, mas serviu para atrair ao festival pessoas que o enxergam como mais do que uma simples festa, mas sim um ambiente de diversão, libertação e evolução pessoal. O line-up se dividiu em cinco pistas e obrigou o público a fazer escolhas, já que não eram raros os momentos em que duas ou mais atrações de interesse se apresentavam simultaneamente. Por conta disso este review irá falar mais sobre os artistas que vi e que construíram a experiência pessoal que vivi lá.
Minha primeira parada foi na pista UFO, um “inferninho” montado entre duas construções com aspecto de deterioração visível, num visual que facilmente remetia ao termo underground. O artista se apresentando era Anthony Parasole, como não o conhecia fiquei muito satisfeito em começar por algo novo e agradável aos meus ouvidos. Com seu som dançante e pesado imergi na atmosfera do festival, de cuja qual só sairia dois dias mais tarde. De lá segui para o palco principal, onde finalmente veria Nina Kraviz do começo ao fim neste ano. O começo da apresentação foi conturbado, o volume do sound system estava baixo e o público estava visivelmente incomodado (e incomodando) com isso. Após quase meia hora finalmente a falha foi corrigida e nós pudemos, em paz, apreciar o que ela tinha a apresentar. O set que ela tocou foi menos experimental e ousado do que os tocados anteriormente na tour brasileira, imagino que pelo fato de que nesta data ela não fosse a maior headliner. O que passou na cabeça da artista jamais saberemos, o importante é que foi uma ótima seleção e mixagem de preparação para o que viria a seguir.
Até este ponto eu estava satisfeito, mas ainda sem aquele sentimento superlativo em relação ao festival – algo que seria rapidamente mudado por Jeff Mills. Apesar dele ser um dos precursores do movimento de Detroit e de eu apreciar muito seu trabalho como produtor, confesso que pouco pesquisei sobre seu live em si. Como um cara que odeia spoilers faço isso propositalmente e com frequência, guardando o máximo de surpresas para o momento de ver pessoalmente. Talvez por isso eu tenha sido tão impactado pelos minutos vividos diante do mago dos sinos!
Sua capacidade de se comunicar utilizando a TR-909 como linguagem é incrível, imediatamente me colocando sob hipnose. Enquanto dançava em seu ritmo acelerado, mergulhei no transe e consegui encontrar respostas para diversas questões e reflexões que residiam em minha cabeça. Como disse anteriormente, cada um extrai uma experiência do festival, não julgo quem teve formação diferente da minha e estava em outra pista, no entanto eu, alguém que tem Detroit, techno e música clássica como referência para deixar uma marca no mundo, não poderia estar em outro lugar.
O que vivi ali foi tão abstrato quanto a música de Mills, por isso resumo metaforicamente a minha impressão após ser ejetado de volta ao mundo: o deus do techno nos enviou o seu messias para dizer, em pleno bairro nobre de São Paulo, que a cultura eletrônica veio pra ficar! Como eu estava virado desde o dia anterior, quando havia prestigiado a festa do Club Vibe com Nina Kraviz em Curitiba, optei por não ir à Fabriketa neste dia. Fiquei sabendo que Ben Klock operou um massacre do qual gostaria de ter participado, mas macaco velho não entra em roubada: ainda havia um dia inteiro de novidades me aguardando.
2º ATO: A FUSÃO ENTRE MÚSICA E ELETRÔNICA
No domingo acordei com uma sensação maravilhosa de otimismo. Não sei se foi a “ressaca” do dia anterior, se foram os diversos comentários positivos pulando no meu Facebook ou se era o tempo lindo que fazia, com o Sol reinando imponente no céu de São Paulo. Sei que me apressei para almoçar e chegar cedo no Jockey Club, já que meu segundo dia começaria com uma das atrações para que mais criei expectativas nos últimos meses: Hermeto Pascoal.
Isso aconteceu porque em 2015 tive a oportunidade de vê-lo no Festival Choro Jazz, no Piauí. O que eu estava fazendo em Barra Grande no exato fim de semana que a cidade recebia um festival de jazz com esta lenda é o tipo de acaso difícil de explicar, pois viajei apenas para aproveitar as passagens previamente compradas para um casamento que fora adiado. E apesar de já tê-lo visto lá, sabia que a experiência no Dekmantel seria nova, já que o público e a proposta do evento era outra.
Dito e feito, pontualmente às 15:30 eu estava lá nas escadarias do fundo da pista Gop Tun / Boiler Room, resistindo a um calor escaldante muito graças ao protetor solar, oferecido gratuitamente por uma equipe espalhada pelo local. Poucos conhecidos na pista, certamente apreciar esse show não seria só chegar lá aleatoriamente, eu mesmo tive que fazer uma preparação meditativa para conseguir acompanhar sem perder o fio da meada. Nos primeiros minutos o que se viu foi um jazz extremamente intenso, improvisos que beiravam a confusão, mas que sempre encontravam um caminho para seguir e concluir suas tensas frases.
A maratona mental foi quebrada pela primeira vez quando nosso Dumbledore brasileiro pegou o microfone e começou a dialogar conosco, seu público. As palavras exatas eu jamais lembrarei, mas a mensagem era simples: ele estava muito feliz por estar ali e havia vindo pelo mesmo motivo que nós, para sentir! E com um simples convite para solfejar junto ele desconsertava a todos, que não esperavam algo assim em uma rav… digo, festival de música eletrônica. Mesmo eu, que cantei sem receios no Piauí, não consegui entoar as notas com toda a força do pulmão. Porque será que não gostamos de abrir a boca em nossas festas?
Alguns la-la-lê-lê depois voltamos ao caos com um insano solo de bateria e percussão, não sem antes ouvir do próprio mestre que já que eles tinham só uma hora, nessa hora eles tocariam mais do que em muitas horas! E a beleza daquele momento encantava, a mensagem que os holandeses queriam nos passar era clara: se queremos evoluir a música eletrônica nacional, temos que olhar para nossas raízes. Cada instrumentista fez seu solo, até que chegou o momento em que Hermeto concluiu sua obra, apresentando cada integrante do grupo enquanto eu sentia um orgulho gigantesco, por ter acompanhado uma hora do trabalho de pessoas tão geniais e por elas serem brasileiras.
De lá segui direto para o palco principal, onde Moodymann já se apresentava há alguns minutos. Meu estado de choque era tão grande que mal conseguia ficar em pé, precisei sentar na arquibancada para processar todas as informações. O som de Kenny Dixon Jr caiu como uma luva para o estado em que me encontrava, agradeci a cada groove macio e melodia bela que fora tocada. Mais uma vez diversos nós se desfaziam em minha mente enquanto o DJ controlava as emoções, até que quando Do It Again (Steely) fora tocada tive que enxugar lágrimas que, literalmente, escorriam por meus olhos.
3º ATO: A CONSTRUÇÃO DO FUTURO QUE QUEREMOS
A noite começava a cair quando me reposicionei diante da caixa esquerda pra acompanhar a última parte da jornada, que iniciava com John Talabot. Só depois dele começar o set que me dei conta de um fato curioso: apesar de praticamente todo o line-up poder ser considerado influência para mim, o resultado final que apresento com meu irmão à frente do Kultra é mais próximo das duas últimas atrações do palco principal, justamente as que estava prestes a ver.
Mais alguns minutos e pude me identificar ainda mais com Talabot, já que sua característica mais marcante é a criação de uma atmosfera densa, algo que eu também busco desenvolver ao máximo em minhas apresentações. Conforme adentrávamos o período noturno o headmaster da Hivern Disc correspondia intensificando sutilmente a pressão com que as melodias nos abraçavam. Como alguém que já ouviu bastante set gravado seu (olha aí o mal do spoiler) fiquei com a impressão de que ele poderia ter ousado mais, mas ver a hora de Nicolas Jaar se aproximar criava ansiedade suficiente para desejar que o conforto fosse mantido até então.
Quando John acabou que fui perceber que Nico seria o único a tocar em um patamar diferente do palco: no mesmo nível da mesa do DJ só que ao fundo fora montado o cockpit dele, cercado por sintetizadores e luzes, que acendiam-se em movimentos claramente sincronizados com a atmosfera proposta pelas músicas sendo tocadas. Sua introdução, um experimentalismo que misturava Garden Of Eden, Killing Time e mais alguns elementos que não deviam pertencer a trabalho algum de estúdio, demonstrava nitidamente que ele não estava pra brincadeira. Infelizmente os primeiros minutos de sua apresentação fora o momento no qual mais me incomodei com o “público vizinho”, diversas pessoas que estavam ali se importando mais em contar para os amigos o quanto eles eram superiores por estarem vendo Nicolas Jaar e menos em de fato sentir e apreciar o que torna o chileno um artista tão diferenciado.
Alguns passos pra trás e finalmente pude mergulhar no mundo do jovem prodígio, que mostrou que mais uma vez o álbum é uma obra à parte do que ele faz ao vivo, apresentando um repertório muito equilibrado entre músicas conhecidas e músicas totalmente inéditas pra mim, aquelas que provavelmente jamais verão a luz do dia sem ser em um live do seu criador. Depois de ser deliciosamente torturado por uma hora de melodias e ambientações melancólicas encaixadas com maestria em grooves intensos, finalmente fui trazido à superfície pelos hits que sabemos cantar junto, todos em versões totalmente repensadas para o ambiente ao vivo. Quando o vocalista proferiu a frase “Space Is Only Noise If You Can See” vi que tínhamos apenas 10 minutos. Foi quando olhei para o céu, admirei o skyline paulistano servindo de cenário, cantei junto e encaixei as últimas peças que faltavam no meu quebra-cabeça, agradecendo muito a cada efeito borboleta que havia contribuído para a construção daquele momento.
Ainda houve tempo para curtir um mash up de El Bandido com Mi Mujer, antes que Jaar tivesse que cortar abruptamente o som, obedecendo à determinação de que o som deveria acabar pontualmente às 22:30. Como havia me poupado no dia anterior, não hesitei em ir à Fabriketa para o after oficial, onde pude acompanhar um back-to-back entre John Talabot e Kornél Kovács muito bem entrosado, com uma sonoridade mais próxima do que eu esperava do espanhol. Um belo prêmio para alguém que sobreviveu a tantas emoções propostas nos últimos dias!
PRÓLOGO: O LEGADO
Como puderam perceber sou um cara romântico, que ainda acredita na humanidade e espera obter sempre a melhor experiência possível de cada situação. Para alguém com esses valores e uma base musical como a minha, o Dekmantel Festival parecia algo feito sob medida, com o propósito de abastecer as esperanças e mostrar que há um caminho que pode ser seguido. Fico ainda mais feliz em perceber que ele teve 5 pistas e dezenas de artistas que eu sequer sei o nome, mas que tenho certeza que tocaram outras pessoas da mesma maneira que meus selecionados fizeram comigo.
Não acho que todo mundo deveria gostar de Nicolas Jaar, Hermeto Pascoal ou Jeff Mills como eu gosto, cada um tem sua história e seus anseios. No entanto, se todos encarassem a música e a vida com amor e sinceridade, quem sabe seja possível transformar nossa sociedade, para que nossas gerações futuras encarem um evento desses não como água no deserto, mas sim como parte da sua criação de base. A chave para isso está em nossas mãos! Qual será a próxima jornada?