Advertência inicial, mesmo que óbvia, mas para evitar equívocos de interpretação: as críticas do texto se referem a comportamentos que o autor considera da maioria das pessoas envolvidas na cena eletrônica, não da totalidade. Sendo também esse o motivo do título do texto ser “a música eletrônica como produto e não como arte” e não o inverso.
Pois bem. A música é uma forma de manifestação artística e, como tal, não se forma como um produto de consumo (como aqueles normalmente produzidos pela industria que visam satisfazer nossas necessidades e que podem ser negociados no mercado por um valor de troca – momento então que se convertem em mercadorias).
Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, é algo que o artista precisa exteriorizar como necessidade de representação dos seus sentimentos, emoções, ideias, experiências, tendo como objetivo também estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, cada obra de arte possuindo um significado único e diferente.
A música, como arte, deve ser uma representação dos sentimentos, emoções, pensamentos e experiências, manifestada de forma espontânea e livre de paradigmas, para expressar uma visão ou abordagem sensível do mundo, seja este real ou fruto da imaginação, com isso ela se torna atemporal, assim como as demais manifestações artísticas (artes plásticas, literatura, dança, teatro, cinema, escultura, arquitetura, fotografia e etc.). Portanto, criar uma música deve ser o resultado de acreditar que se tem algo a exteriorizar através dela, agregando ao repertório do universo musical já existente. Por isso, a música é um fim em si mesmo e não um meio para outros objetivos materiais. O objetivo de se criar uma música deve ser o prazer, a satisfação nela mesma e não com interesses estranhos a isso, como por exemplo, retribuições financeiras. O fato é que a música deve proporcionar satisfação por si só e não pelo que ela pode gerar.
A música eletrônica não foge a esse conceito e se fugir, por consequência, não será música. Ela será simplesmente uma sequência de sons produzidos de forma aleatória ou padronizados, mas sem nada a dizer. Será algo desprovido de conteúdo artístico, isto é, não é a exteriorização de nada (de uma emoção, de um sentimento, de uma experiência, de uma história, de uma percepção de mundo), não possuindo significado, será apenas resultado de um processo mecânico de selecionar elementos-padrão dentro de um software com objetivo vazio de criar uma “track”.
Serão produzidas como qualquer produto de consumo, possuindo as mesmas características, sendo as principais: produção em larga escala, forma e conteúdo padronizados, para atender objetivos temporários e sazonais. Criadas dessa forma se sujeitam ao mesmo tratamento que qualquer produto: algo descartável e substituível, com objetivo de uso temporário, em que se prioriza e valoriza a quantidade e não a qualidade. Inevitável que, possuindo essas características, receba esse mesmo tratamento do público, fazendo jus ao estereótipo de que “música eletrônica são apenas barulhos sintéticos, sem conteúdo, sazonais, com o objetivo exclusivo de embalar diversões de pessoas jovens”.
Educadas sobre essa ideia deturpada da música eletrônica como produto, as pessoas acreditam que as músicas devem sempre ser novas e atualizadas, produzidas em novas remessas a cada período de tempo (alguns meses), assim como qualquer produto de consumo. Ou seja, a música eletrônica é um produto descartável e com prazo de validade. Mas não é só o público que vê a música eletrônica dessa forma. Essa é uma concepção que os próprios djs e produtores têm – mesmo que de forma inconsciente – sobre a música eletrônica. Assim, se estabelece um ciclo vicioso de comportamentos que se retroalimentam, em que o público e “artistas” se influenciam mutuamente: o artista/dj toca porque o público quer; o público quer porque o artista/dj toca.
A mesma regra para o artista ou produtor: ele produz porque o público quer; o público quer porque existem artistas produzindo tal forma de música. E com isso acabam reproduzindo e perpetuando essa visão distorcida e equivocada sobre a música eletrônica (produto e não arte).
Mas essa mentalidade/comportamento é também influenciada, estimulada pela indústria da música eletrônica, que, apoiada na concepção da música eletrônica como produto descartável, lança músicas novas todos os dias. Aqui também acontece o ciclo vicioso por comportamentos que mutuamente se influenciam. As gravadoras se comportam assim porque acreditam que o mercado (público/djs) vê a música eletrônica como produto com prazo de validade, em que os estoques precisam ser repostos periodicamente com mais produtos novos. O público, djs e artistas por sua vez, consomem esse produto porque a indústria/gravadora passa essa ideia, produzindo música em larga escala, com lançamentos diários.
Exemplo dessa mentalidade ou um sintoma dela, são djs fazendo downloads de músicas novas em larga escala toda semana, quando não todo dia, sem ao menos ouvir cada uma delas, para seus sets terem sempre músicas novas, mas músicas que eles nunca ouviram antes e só vão ouvir naquele set “único”, músicas sem qualidade ou conteúdo, mas que apenas estão dentro do conceito de produto. Se orgulhando de ter “X” gigabytes ou terabytes de arquivos de músicas.
A música eletrônica é um dos estilos mais democráticos que existe. Porém, isso tem um feito negativo: a falta de critérios. Qualquer um se autointitula produtor ou dj. Não há critérios ou qualidades mínimas pelo qual a pessoa precisa demonstrar.
Isso gera mais um outro ciclo vicioso: o mercado/público estimulam o processo, pedindo que a indústria da música produza o máximo possível de novos produtos (músicas) para eles usarem. A indústria então precisa do máximo de material humano para atender essa demanda. Para um mercado sem critérios, que só quer o máximo de produtos novos, se estimula/contrata o máximo de pessoas (produtores/mão-de-obra) possível, sem nenhum critério de qualidade.. Ou seja, só existe uma infinidade de autointitulados produtores ou artistas porque a indústria pede, e ela só pede porque alguém consome, e alguém só consome porque é produzido. Um setor mutuamente influencia a perpetuação do outro, numa simbiose.
No caso, cada setor se baseia no comportamento do outro setor, mas todos compartilhando a mesma ideia que a música eletrônica é um produto. Mais um ciclo vicioso. Um comportamento que retroalimenta o outro: o público vê a música como produto porque ele é produzida como tal, mas ela é produzida como produto porque o público a vê como um produto. Ou seja, não se tem como definir qual comportamento vem antes do outro.
É a valorização da quantidade ou invés da qualidade, típico de uma sociedade de consumo. E aí questiona-se: em qual estilo musical se produz tanta música nova todos os dias? Melhor dizendo: qual tipo de arte produz tanto material diariamente? Nenhum. Arte não se submete ao modelo de produção de produtos de consumo. Assim, como todo produto produzido em escala industrial, é óbvio que 98% são músicas sem qualidade e conteúdo algum. Meros produtos perecíveis/descartáveis.
Mas o problema não para por aí. Desse tratamento dado a música eletrônica surgem outros problemas: os eventos e o público que os frequenta. Se a música eletrônica não é valorizada como música, mas como produto, um evento que pretende expô-la não será um evento artístico, mas evento comercial, que não visa a arte, mas o lucro. O público não irá com o objetivo de ver um artista se apresentar (até porque o evento não proporcionará isso), mas com objetivos fúteis: sexo, status, ostentação, abuso de drogas lícitas e ilícitas e etc. A música, nesses ambientes, é só um plano de fundo em um lugar em que as pessoas estão procurando qualquer um dos objetivos já citados na frase anterior. Esses são os objetivos primários, a música vem em segundo, terceiro ou quarto plano, conforme os interesses de cada pessoa.
No caso, o uso de drogas lícitas e/ou ilícitas vira um fim em si mesmo e não um meio de se chegar a um estado mental para melhor absorver a música. E conhecer pessoas ao invés de ser algo ocasional e espontâneo, vira um objetivo obsessivo. Ou seja, como consequência de a música eletrônica ser tratada como produto é existência de eventos que visam fins comerciais e não artísticos, oferecendo produto e não arte, para um público que quer estar num ambiente apenas para satisfazer objetivos vazios.
É a música como arte sendo deturpada pela sociedade de consumo, que não sabe lidar com alguma coisa se não for da mesma forma que um produto. Em analogia ao termo cunhado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é uma relação “líquida” com a música: frágil, tênue, descartável e temporária.
É claro que a forma como a música eletrônica é tratada no Brasil é um sintoma de uma causa mais profunda, que é a falta de educação e valorização musical no geral, como acontece nos países europeus. Mas, de qualquer forma, para reverter ou minimizar esse cenário, é necessário um constrangimento musical exercido pelo público em relação aos artistas e produtores de eventos e vice-versa, isto é, o dj/produtor deve saber que seu público é crítico e seletivo, da mesma forma o público deve saber que o evento/artistas têm conceito, são seletivos e críticos.
Todas as pessoas envolvidas na cena eletrônica brasileira, seja como for (público, artistas, indústria, organizadores de eventos), que possuem consciência crítica não podem ser omissos e coniventes com esse cenário deturpador da música eletrônica, devem sempre se manifestar e buscar a propagação da ideia de arte e não de produto. A soma de todos os comportamentos e pensamentos individuais gera um modo de operação coletivo. E se a mentalidade coletiva for majoritariamente (não digo totalmente – seria algo incansável e desnecessário) a favor da música eletrônica como arte e não como produto, já teremos alcançado nosso ideal.