O crescimento da cauda longa na cena nacional

O sucesso de pequenos núcleos e selos parece novidade para alguns no mundo da música eletrônica, mas o conceito que garante esta prosperidade é conhecido há mais de uma década. Estamos falando da Cauda Longa, termo utilizado em estatística para identificar distribuições de dados que sigam uma lei de potência, classificados de forma descendente. Se você já estudou sobre o funcionamento do mercado em Administração, com certeza já ouviu falar do Princípio de Pareto, que afirma que 80% das consequências advêm de 20% das causas. Graficamente falando, se colocarmos os produtos em ordem de popularidade — do maior para o menor — no eixo y e o volume de vendas no eixo x, vamos ter uma curva com convexidade decrescente, conforme ilustrado abaixo:

O termo foi cunhado pela primeira vez em 2004, quando Chris Anderson escreveu um artigo para a revista Wired demonstrando que a internet estava mudando a realidade dos mercados que nela ingressavam, já que produtos de baixa demanda estariam coletivamente conseguindo alcançar fatias de vendas que rivalizavam ou excediam os poucos comercializados. Os primeiros segmentos a sentirem esse efeito foram exatamente os do entretenimento: se em outras épocas havia uma dominância das opções selecionadas e divulgadas pelas grandes gravadores e estúdios, atualmente a facilidade de catalogamento em sites como iTunes Store e Netflix tornou músicos e produtores alternativos mais acessíveis. Some a isso o fato de que redes como MySpace, Facebook, YouTube democratizaram a promoção destes artistas, e obtenha como resultado diversas opções independentes obtendo alcance estrondoso, como Arctic Monkeys e Atividade Paranormal.

É importante ressaltar que tal teoria não representa a “vitória do underground sobre o mainstream”. Jornalistas empolgados e sensacionalistas utilizam este jargão para atrair leitores curiosos, mas a verdade é que este novo comportamento trouxe equilíbrio e sustentabilidade entre os dois tipos de produto. Se antes a maioria esmagadora do público só tinha acesso aos “big five major labels“, agora ele pode facilmente consumir o trabalho de novos talentos, aumentando a amplitude de conhecimento e fortalecendo a relação mantida com este tipo de arte. Com a crescente diversidade oferecida, as pessoas passaram a se especializar em estilos e vertentes específicas, criando assim diversos micro-nichos ávidos por conteúdo a ser consumido.

Traduzindo isso para o ambiente da cena eletrônica nacional, temos grandes agências e superclubs agindo como trend setters, atendendo à grande demanda dos 20% iniciais do gráfico; enquanto que menores clubs e selos levam conteúdo para a outra parte, com cada um atendendo uma pequena parcela do total de adoradores dos 80% menos famosos. Note como eles podem coexistir: são produtos distintos para pessoas diferentes. Ao mesmo tempo em que os players da Cauda Longa “roubam” consumidores dos agentes principais, estes líderes trazem novos consumidores para o mercado global, tornando o processo um ciclo sustentável.

A situação se torna ainda mais interessante se observarmos que pouquíssimas pessoas se deram conta do potencial que isto representa pro nosso país. Segundo Anderson a tendência é que a soma dos pequenos nichos atinja valores maiores do que o total das grandes empresas. Como isso está longe de ser realidade por aqui, subentende-se que existam ainda muitos nichos de consumidores desatendidos, aguardando o surgimento de núcleos que gerem conteúdo profissional e organizado para suprirem as necessidades destes segmentos em plena expansão.

Publicado originalmente na 41ª edição da House Mag