A Giegling é um dos representantes do futuro da música eletrônica, em um mundo pós-moderno que quebrou as barreiras de uma máxima musical de um tempo tão distante de hoje quanto o fonógrafo é da fita k7. Em uma época na qual um selo precisa estar bem além de produzir apenas músicas, a Giegling agrega o que é necessário para lançar records dentro de uma geração criada na internet. Giegling é um coletivo criativo; uma gravadora; uma equipe de produção de DJs; um club e tudo isso começou com uma festa em Weimar, Alemanha, por volta de 2006. O coletivo encontrou sua casa em um edifício abandonado, que rapidamente adquiriu fama na região, quando “montes de coisas mágicas aconteceram”, de acordo com Konstantin (também conhecido como Herr Koreander) em uma entrevista para a Resident Advisor. Konstantin estabeleceu a Giegling ao lado de Dustin, Dwig, Ateq e Rafael, espíritos com o mesmo ideal de criar algo especial “sobre as coisas que a musica e a comunidade podem fazer com você”, conforme diz Konstantin. Com essa ênfase na comunidade, Giegling veio à existência, e mesmo com a festa original ter durado apenas quatro edições, o que eles criaram nesse tempo pavimentou o futuro do que viria a se tornar o coletivo e a label. “Nós quisemos carregar essa energia, nos propomos a salvar essa vibe”.
Giegling, a gravadora, oferece uma plataforma na qual amigos e artistas, tais como Vril, Prince of Denmark e Traumprinz, viriam a fazer lançamentos, assim como Kettenkarussel, o grupo que Konstantin estabeleceria com Rafael e que veio a publicar o primeiro lançamento da Giegling, “I Believe You And Me Make Love Forever”. Com isso, introduziram ao mundo um som que se origina em tempos mais lentos e toca com uma estética minimalista, obtida de um apanhado de diversas influências, e canaliza isso em algo que parece representar todo o coletivo, uma ligação não dita que amarra os vários artistas e suas músicas juntos. Staub, que se tornou a Forum, rapidamente seguiu como uma sub-label quando o coletivo quis explorar uma estrada menos trafegada, mas mesmo sob esse disfarce, ainda assim havia algo intrinsecamente Giegling sobre isso tudo, algo que parecia ser mais coeso do que uma label tradicional, onde uma ou duas pessoas no núcleo da gravadora ditam tudo. Paralelamente a coletivos similares, a Giegling trouxe algo distintivamente único e concorrente com a era da música eletrônica, e, apesar da embaçante dicotomia entre artista, label, club e DJ, eles estabeleceram-se como um dos verdadeiros inovadores da club music nos dias de hoje.
Nós nos encontramos com Konstantin para ele nos contar mais sobre isso tudo e nos dar uma pequena visão dentro do mundo sedutor do coletivo Giegling.
Você esteve na afortunada posição de conhecer o panorama clubber em uma época prematura na Alemanha. Como você acha que isso afetou sua carreira?
Eu comecei a entrar para a música eletrônica porque eu encontrei esses lugares estranhos cheio de pessoas diferentes das mais diversas idades, dos 16 aos 66. Essas pessoas eram muito cabeça-aberta, dançavam livremente e gostavam da diversidade. E tudo isso era ligado por essa música eletrônica que eu senti na hora, era lindamente aberta e mais influenciada pelo punk. Se eu me sinto perdido no que estou fazendo, tento me lembrar disso e espero ser capaz de abrir um caminho como esse para outros.
E como o coletivo Giegling veio a se estabelecer na cena clubber?
Foi apenas o lugar certo na hora certa. Weimar, no ano de 2006, foi onde tudo começou a tomar forma. Nós fizemos coisas antes disso em Hannover, que já eram legais, mas a multidão em Weimar no momento estava simplesmente tão aberta e feliz sobre as coisas que estávamos explorando. Foi um feedback maravilhoso, o que nos fez acreditar e carregar isso até os dias de hoje.
A Giegling é composta por um eclético conjunto de personalidades e música. Na sua opinião, o que amarra isso tudo junto?
Talvez a mesma coisa que mantém junta uma família? E isso nem sempre é fácil de explicar. Mas, quando estamos longe um do outro, nos sentimos em casa quando nos vemos novamente.
O que começou como uma festa em casa, terminou como uma label. Quais os elementos dessas festas iniciais que fizeram seu caminho para dentro da label?
Eu acho que os primeiros lançamentos realmente capturaram a vibe musical daqueles dias. Mais tarde, Giegling se tornou mais uma documentação de nossa jornada musical. Com isso e todas as sub-labels você pode retraçar como exploramos a música ao longo do tempo.
Vamos nos voltar para sua música. Enquanto você faz música como Herr Koreander e uma metade de Kettenkarussel, você nunca entregou uma faixa com o nome que usa para tocar, Konstantin. Por que isso?
Porque como Konstantin sou um DJ e eu represento toda a música do coletivo, nao apenas a minha e também toda a música pela qual estou interessado no momento. Eu gosto de separar “fazer música” de “tocar música”. Para mim essas são duas coisas totalmente diferentes e eu normalmente ficava meio que decepcionado quando eu via alguém mixando as produções que eu gostava, porque é uma abordagem diferente.
Eu penso que como DJ você se submete a muitos interesses e ideias e idealmente você faz isso pelo amor às pessoas na pista. Como músico é uma coisa mais intimista e eu faço isso mais por mim mesmo, tentando não pensar em nada e nao aplicar muitas regras ou restrições.
E como isso tudo se reflete no seus DJ sets?
Eu comecei basicamente como DJ de festa. Quando a Staub veio à tona, eu era o único que também estava tocando techno no momento, por isso me tornei “o DJ de techno da Giegling”. Representando o som da Staub, que agora é a Forum. Mas eu estou tentando me livrar disso mais e mais para voltar a sets mais abertos e diversos novamente. Se você me viu tocar no último ano você deve ter notado isso.
Em uma entrevista para o Resident Advisor você disse que gosta de tocar de maneira disfuncional. Nesse contexto em particular, você tocou faixas ambient no Berghain, mas você poderia nos dar uma ideia mais generalizada do que isso significa?
Significa apenas que não vou sempre no mais legal e mais fácil de digerir para a pista de dança, mas irei desafiar a situação na pista com música que é mais atmosférica e não tão orientada ao corpo, ou pelo menos mexer com a estrutura usual que as pessoas estão acostumadas em termos de sinal e tempo e tudo o mais.
Traduzido e adaptado de matéria do site norueguês Jaeger Oslo.
Konstantin toca no Club Vibe no dia 04/11 (sexta-feira) em festa que conta também com Virginia (Ostgut Ton), Marvin & Guy (Hivern Discs) e o residente da casa Gromma. Mais informações no evento oficial.