Na noite do dia 15 de Abril de 2016, sexta-feira, aconteceria um dos eventos mais esperado do ano até então para nós, e muitos outros techneiros apaixonados, Sven Vath, o “Papa” do Techno viria para o Brasil para uma apresentação única e exclusiva, e nos presentearia com um long set. Inclusive, semana cheia de eventos bons espalhados pelo Brasil, na quinta, teria Rodhad na ODD, sábado Detroit Swindle e domingo Raww Room com diversos artistas, todos em São Paulo, e também o Warung Day Festival na capital paranaense, porém, optamos por ir em uma única festa e aproveitá-la ao máximo: a volta do Papa. Malas prontas, saímos de Santa Catarina por volta das 10h00, rumo ao Bairro da Mooca, em São Paulo. Viagem tranquila e ansiedade a mil.
Já em São Paulo, tirando as quase duas horas para percorrer 15 km por causa do trânsito caótico somadas as mais de oito horas de viagem, tudo foi muito fácil. Estávamos hospedados uma rua ao lado de onde aconteceria festa, então não precisamos utilizar nenhum tipo de transporte para chegar ao local. Durante a semana havíamos entrado em contato com a Entourage através da Fan Page no Facebook perguntando sobre o estacionamento e a indicação deles foi que utilizássemos Metrô ou Taxi, pois a festa não teria estacionamento próprio. Por algumas informações que obtivemos havia um estacionamento privado funcionando próximo ao local, provavelmente em parceria com a produtora do evento.
O local: Nossa entrada aconteceu com facilidade e sem filas ou tumulto. A festa havia começado as 22h00, e nós chegamos por volta da meia-noite. “Nos Trilhos” é um espaço encantador de São Paulo. Em meio a vagões de trens centenários desativados, ao lado de uma ferrovia ainda em funcionamento e em baixo de um viaduto, o local não poderia ser outro para que esse evento acontecesse. Tudo isso, somado a decoração fez com que nossa experiência fosse ainda mais marcante. O lugar que inspira cultura e história, fez com que nos sentíssemos realmente envolvidos com a noite que viria pela frente. Depois da volta de reconhecimento, era hora de comprar as fichas do bar, e achar um local para começar a curtir a festa e aguardar o início da apresentação da estrela da noite. O acesso as fichas era muito fácil, havia vários ambulantes pela festa, uniformizados e com placas de indicação para fazer a venda das fichas, o que tornava o atendimento mais rápido, sem muitas filas ou tumulto para fazer a compra.
O palco era localizado na parte mais fechada, o que fez com que a pista ficasse muito quente. Bombas de CO² existentes em cada pilar espalhavam de tempo em tempo uma fumaça geladinha que tinha a intenção de ajudar temporariamente a galera que optou por ficar no meio da pista. O bar não ficava longe da pista, mas ficava em uma área mais fresca, assim, cada vez que saíamos para ir ao bar / banheiros aproveitávamos para aliviar um pouco o calor. O preço das bebidas também não estava fora da realidade das festas que frequentamos. Cerveja long neck (355ml) a R$ 10,00, água também R$ 10,00 e pra quem preferia comprar doses, elas eram bem caprichadas. Havia alguns carrinhos de Food Truck na festa também, na parte do fundo da pista, próximo aos vagões desativados. Isso possibilitava a quem quisesse fazer aquele pit stop para se alimentar, não perdesse nenhum minuto da festa para isso.
A música: Davis Genuino foi o escolhido para preparar a pista para o Papa. Tivemos oportunidade de ouvir o seu set que pensamos estar no final, já que Sven Vath deveria ter começado a tocar à 1h00, como dizia o post fixado no evento oficial. Davis já era conhecido pelos integrantes da nossa trip, já havíamos visto apresentações dele no Warung. O que ouvimos não fugiu do que esperávamos, ele é eclético e fez um set com bastante variedade, tracks que hora agradavam a alguns, hora a outros. Ou seja, ele colocava a pista pra cima em alguns momentos, e em outros fazia o papel de Warm Up tranquilo, com alguns vocais e batidas animadas. Quando o relógio marcou 1h, a agonia de esperar a aparição da figura inconfundível do DJ Alemão começou a tomar conta de nós. Davis continuou tocando, e o Papa não tinha nem aparecido no palco ainda. Não sabemos o motivo do atraso, mas Davis levou a pista até depois de 2:30h, quando todos os equipamentos necessários para a apresentação de Sven Vath já estavam a postos. Toca discos prontos, era hora daquela noite finalmente acontecer. Confesso que já havia uma certa irritação no ar com o atraso, afinal, o prometido eram no mínimo 7 horas de set, e ali já tínhamos perdido mais de uma hora e meia, e não sabíamos ainda se a festa acabaria pontualmente as 8h, ou não.
Sven Vath superou toda e qualquer expectativa. Sua musicalidade, carisma, amor pelo que faz e carinho com o público fazem parte desse personagem mítico que ele é. Tínhamos ouvido alguns sets recentes dele durante o mês que antecedeu a festa, e durante a viagem também. E o início do seu set lembrou muito sua apresentação na Time Warp da Alemanha, que aconteceu no dia 03/04/2016.
Tracks marcantes como “I Know Change” de Jaap Ligthart Feat Alice Rose (Show B remix), e “Accident Paradise” de 1994, remixada por Kink com lançamento acontecendo exatamente neste dia 15, sendo tocadas logo no início, nos deram motivação para enfrentar o grande público e permanecer na frente do palco para conseguir assistir de perto a história que seria contada por ele.
O sistema de som Pure Groove usado para a ocasião, fez o set ficar ainda mais lindo, em qualquer lugar da pista ouvia-se com excelência cada detalhe das tracks, cada detalhe contado por ele em cada vinil que ele trocava. Sem distorções ou qualquer falha, o som podia ser ouvido em qualquer canto da festa exatamente da mesma maneira que se ouvia na frente: Limpo. O palco era baixo, por isso, enquanto estávamos na frente tínhamos contato visual direto com ele, que interagia com o publico enquanto cantava as músicas e brincava com seus discos, um verdadeiro “showman”, completo.
Infelizmente, contratempos aconteceram. Pudemos notar que parte do público da festa “não estava muito aí” para a apresentação do DJ em si. Houve comentários de alguns roubos de celular, e haviam muitas garrafas espalhadas pelo chão. Nós vimos alguns lixeiros na festa, mas nem todos colaboram com a limpeza. Aqui no Brasil (e acredito que fora também) sempre vai haver o tipo de público que vai “para a festa” e o tipo de público que vai “para a música”. Algumas pessoas batiam e esbarravam na mesa e nos fios, isso afetava os toca discos, fazendo com que os vinis “pulassem” ou que o som tivesse algumas falhas em alguns momentos. Outras insistiam em bater fotos e gravar vídeos com o flash atrapalhando o DJ. Em em outras ocasiões que eu não poderia dizer o porque tecnicamente, se foi por conta alguma poeira no disco ou a trepidação do grave na mesa, que fez com que o vinil desse alguns pequenos deslizes. Mas Vath, com seus mais de 30 anos de experiência em discotecagem se saia muito bem e com classe de todos os embaraços. Os seguranças foram instruídos a formar um “cordão de isolamento” na frente do palco, impedindo que as pessoas continuassem atrapalhando o show. Um laser verde apontava para os inconvenientes, e o segurança fazia sua parte pedindo que as pessoas se afastassem do palco ou colocando a mão na frente do flash, para que nada mais incomodasse.
Seguindo o baile, uma apresentação dançante, muito techno, mixagens incríveis. Ali pudemos ter a certeza do motivo de Sven Vath ser conhecido como “Papa” ou então como “Godfather of Techno”. Amanheceu, muitas pessoas passavam pelo viaduto, indo e vindo de seus afazeres, a maioria delas parava pra dar uma olhada na festa que rolava lá em baixo. Foi uma sensação estranha e engraçada, um choque de realidades. Algumas pessoas haviam dito que a festa acabaria as 7h00, então permanecemos na pista para aproveitar o máximo que podíamos. Sven tocou pontualmente até 8h00, e com um incrível sol na cidade (quase) sempre cinza de São Paulo, um vocal que dizia: “No one gets left behind, not this summer time…” ecoou sobre aquele lugar criando uma atmosfera absurda. Era o final do set, e com certeza, nós saímos dali com gostinho de quero mais. Tínhamos a esperança que a festa fosse até mais tarde, afinal o prometido seriam no mínimo 7 horas de set. Ele tocou apenas 5 horas e alguns minutos. Felizmente essas 5 horas de muita música boa fizeram valer cada esforço para estar naquele lugar. A com a música do DJ Yellow, Flowers And Sea Creatures – No One Gets Left Behind (Konstantin Sibold Remix) foi sua penúltima musica.
Depois da última música, o corpo estava cansado, porém a alma estava lavada e os ouvidos limpos. Era hora de voltar pra casa, a missão havia sido cumprida.